I. CÓRTEX PRÉ-FRONTAL, FUNÇÕES EXECUTIVAS E COMPORTAMENTO CRIMINAL
1. Introdução aos estudos empíricos: Procedimento geral e técnicas de recolha de dados
1.4. Amostra, delineamento e condições de controlo
Devido à especificidade das hipóteses levantadas nos estudos empíricos, adiante descritas, e tendo em conta a natureza deste trabalho, foi essencial desenhar um plano de investigação que permitisse avaliar de que modo as funções cognitivas pré-frontais estão implicadas no comportamento criminal, que atendesse às limitações inerentes ao contexto prisional e respectiva população, e que fosse ajustado à ampla variabilidade de factores associados às características do estudo. Assim, a escolha do tipo de abordagem experimental, o método de amostragem, a selecção e controlo de variáveis, o meio de recolha de dados, e os respectivos instrumentos, constituíram processos que seguiram
critérios muito específicos para que se pudesse analisar as hipóteses de investigação do modo mais fidedigno possível.
Como é evidente, as variáveis que serão adiante referidas nas hipóteses instrumentais não são manipuláveis, ou seja, são variáveis que representam características do sujeito que apenas podem ser medidas. Por este motivo não foi possível recorrer ao método experimental porque seria absolutamente inviável manipular o funcionamento pré- frontal para se observar posteriormente que efeitos são produzidos sobre o comportamento como resultado dessa manipulação. Assim, a globalidade da investigação baseou-se numa metodologia de análise de dados ex post facto, isto é, o estudo de variáveis que são o resultado de uma intervenção ou modificação que ocorreu de modo natural na variável independente no passado.
Pela especificidade técnica do tipo de metodologia seleccionado a escolha da amostra teve de obedecer a alguns critérios particulares. Como já foi referido, o estudo da relação entre alteração do funcionamento executivo e o comportamento criminal não pode depender da manipulação directa do funcionamento cerebral e por isso deve partir-se dos casos em que existem manifestações anti-sociais ou criminais para determinar se, efectivamente, nessas situações se encontra presente uma perturbação das capacidades cognitivas que compõem as Funções Executivas. Assim, é necessário constituir dois grupos de sujeitos, o mais equivalentes possível mas que difiram entre si numa condição pré- existente e que, neste caso específico, será a variável que diz respeito ao comportamento criminal. Ou seja, para investigar as hipóteses em estudo devem ser criados dois grupos de sujeitos:
a) Um grupo de sujeitos critério, ou experimental, composto por pessoas que tenham um historial de comportamentos anti-sociais representado por condenações penais; e
b) Um grupo de comparação (ou controlo) composto por sujeitos que nunca tenham sido condenados pela prática de comportamentos criminais.
A impossibilidade de se manipular a variável independente resultou na criação de dois grupos para permitir a comparação entre os casos de prática de comportamentos criminais e os casos em que não há esse tipo de registo comportamental, não tendo sido por isso possível recorrer a uma verdadeira escolha aleatória dos sujeitos porque a selecção teve de ser realizada com base nesta característica específica.
Assim, o grupo critério foi composto por pessoas que tinham pelo menos uma condenação no seu registo criminal e a sua selecção foi realizada em Estabelecimentos Prisionais porque se considerou que o contexto prisional seria onde se concentrariam casos com este tipo de padrão comportamental. Consequentemente, foi criado um grupo de comparação formado com pessoas sem qualquer condenação penal para se comparar o funcionamento executivo entre ambos os grupos e estudar se, de facto, existe uma relação entre a criminalidade e os rendimentos executivos. Assim, esta investigação assentou num delineamento de grupos equivalentes, ou seja, dois grupos que partilham o maior número possível de características, excepto no factor comportamento anti-social, para garantir a validade interna da investigação e assegurar que se estão a excluir outras variáveis que podem contribuir para produção de comportamentos criminais. Neste sentido, empregaram- se todos os esforços para que, dentro de um período de tempo considerado razoável para a recolha de dados estar concluída, se compusessem dois grupos diferenciados a partir da variável “comportamento criminal” e o mais homogéneos possível a partir da aplicação dos seguintes critérios de selecção:
a) Sexo masculino;
b) Faixa etária compreendida preferencialmente entre os 21 e os 50 anos;
O limite mínimo deste intervalo de idade está estabelecido nos 21 anos porque o artigo 9º do Código Penal Português declara que os sujeitos na faixa etária entre os 16 e os 21 anos devem ser submetidos a legislação especial. E determinou-se que o limite máximo seria estabelecido em torno dos 50 anos para que um grande número de sujeitos com idades superiores a este limite pudesse provocar um exagerado efeito do envelhecimento nos rendimentos cognitivos, afectasse os valores médios das provas aplicadas e acabasse por causar interpretações erradas dos resultados. De acordo com Bryan e Luszcz (2000) o Stroop Test é sensível às perturbações do funcionamento executivo provocadas pela idade, assim como Rodríguez-Aranda e Sundet (2006) também identificam o Stroop e as Sequências de Dígitos em Forma Inversa como provas sensíveis aos efeitos da idade. c) Naturalidade portuguesa;
A eliminação de reclusos de nacionalidade estrangeira prendeu-se com o facto do comportamento criminal destes sujeitos poder ser devido tanto a questões relacionadas com a socialização no seu país de origem (possivelmente o desenvolvimento e a inserção
prolongada numa sociedade afectada por guerras ou num país com recursos económicos limitados pode, num caso ou noutro, provocar uma postura mais facilitadora do comportamento criminal), como também poder ser o resultado de uma marginalização originada por uma deficiente integração profissional, social e cultural no país de acolhimento. Além disso, Carstairs, Myors, Shores e Fogarty (2006), num estudo realizado sobre a importância da linguagem materna no desempenho de sujeitos normais em provas cognitivas, verificaram que pessoas com origem em países com uma língua oficial diferente do país onde residiam no momento, apresentam uma desvantagem nas provas com componente verbal devido a falta de competência na língua, mas também se verificou que apresentam desvantagens em alguns testes não verbais, o que remete para a importância de factores sócio-culturais na capacidade para desempenhar tarefas não verbais. De facto, as variáveis relacionadas com a língua de origem ou com os factores sócio-culturais de cada pessoa podem influenciar negativamente o seu desempenho em provas de uso clínico corrente.
d) Raça/etnia caucasiana;
Pretendeu-se eliminar os casos em que o comportamento criminal pudesse ser devido a um desenvolvimento marcado por situações de descriminação sócio-económica relacionada com questões de preconceito étnico ou racial.
e) Habilitações literárias mínimas preferenciais: 9º ano de escolaridade concluído com sucesso;
Esta condição procura evitar casos de debilidade cognitiva que possam ser confundidos com alteração do funcionamento executivo. De facto, a escolaridade pode influenciar o funcionamento neuropsicológico porque tanto pode afectar o desempenho em testes verbais como em provas não verbais, e pessoas com oito anos de escolaridade (ou menos) podem apresentar resultados semelhantes aos produzidos em quadros demenciais (Lezak, 2004). E, no caso específico do TMT, como é referido por Cavaco et al. (2008) e por Maguro, Shimada, Yamaguchi et al. (2001) o desempenho nesta prova pode ser influenciado pelo nível intelectual do sujeito e pela sua escolaridade.
1.5. Metodologia de recolha de dados: Avaliação Neuropsicológica das Funções