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Memória de trabalho: Memória de dígitos em ordem directa e inversa – subteste

I. CÓRTEX PRÉ-FRONTAL, FUNÇÕES EXECUTIVAS E COMPORTAMENTO CRIMINAL

1. Introdução aos estudos empíricos: Procedimento geral e técnicas de recolha de dados

1.5. Metodologia de recolha de dados: Avaliação Neuropsicológica das Funções

1.5.1. Memória de trabalho: Memória de dígitos em ordem directa e inversa – subteste

A avaliação dos processos mnésicos a curto prazo que envolvem a manipulação de informação durante um pequeno período de tempo pode ser realizada com base num breve subteste da escala Wechsler de Inteligência (WAIS-III): o subteste de Dígitos. De acordo com Cunha (2000), esta prova permite a avaliação da memória auditiva imediata nas suas componentes de retenção de informação – com a tarefa de memorizar a lista de dígitos apresentada na ordem directa – e manipulação da informação – observada na tarefa de repetição da lista de dígitos mas na ordem inversa da lista apresentada. Também segundo Lezak et al. (2004) as duas partes da prova avaliam dimensões distintas porque a memorização de dígitos e a sua reprodução na ordem directa pode estar mais relacionada com aspectos atencionais, mas o desempenho na inversão da ordem de dígitos já é uma medida que avalia a funcionalidade da memória de trabalho porque implica a memorização e a manipulação de informação. A autora ilustra esta afirmação com um exemplo sobre pacientes com lesão cerebral: num grupo de 52 pacientes com traumatismo crânio- encefálico moderado ou grave, 24 não eram capazes de inverter mais que quatro dígitos, mas 41 conseguiam reproduzir entre seis a nove dígitos em sentido directo, isto é, apresentavam um desempenho dentro, ou acima, da média na prova de Dígitos em sentido directo.

A 3ª edição da Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos, ou WAIS III, foi adaptada e aferida para a população portuguesa e, para este trabalho, serão aplicados os

procedimentos descritos na versão portuguesa do manual (Wechsler, 1997) para cada um dos subtestes escolhidos para integrar a bateria deste estudo. De acordo com a adaptação do instrumento à população portuguesa, verifica-se que esta subprova apresenta coeficientes de fidelidade que se situam acima de .90 nas faixas etárias compreendidas entre os 20 e os 54 anos (e que são os limites etários aproximados da presente investigação).

A Memoria de Dígitos é um subteste composto por duas tarefas: os Dígitos em sentido directo e os Dígitos em sentido inverso. De modo semelhante em ambas as tarefas, o examinador lê em voz alta uma série de números, mas o tipo de resposta do sujeito difere substancialmente porque na prova de Dígitos em sentido directo o sujeito deve repetir os algarismos na mesma ordem que os ouviu, mas na parte dos Dígitos em sentido inverso deve repetir a sequência pela ordem inversa. A administração destas duas tarefas é independente, ou seja, mesmo que o sujeito obtenha 0 pontos nos Dígitos em sentido directo deve-se aplicar os Dígitos em sentido inverso.

Como já foi referido, esta prova é composta por duas tarefas: os Dígitos em sentido directo e os Dígitos em sentido inverso. A tarefa de Dígitos em sentido directo é composta por 8 itens que incluem dois ensaios cada um. Ambos os ensaios devem ser aplicados mesmo que a pessoa tenha tido sucesso no Ensaio I de cada item (o que se reflectirá na pontuação atribuída).

A administração inicia-se com a aplicação do Ensaio 1 do Item 1, e deve interromper- se quando existe insucesso, ou erro, em ambos ensaios de um mesmo item. A instrução dada pelo examinador antes de iniciar a aplicação é “Vou dizer-lhe alguns números. Escute com atenção e quando eu terminar repita-os exactamente como eu os disse.” Ambos os ensaios do Item 1 são compostos por dois algarismos (ensaio 1: 1-7; e ensaio 2: 6-3) e a complexidade de cada item aumenta gradualmente até ao item 8, que é composto por nove algarismos (ensaio 1: 2-7-5-8-6-2-5-8-4; e ensaio 2: 7-1-3-9-4-2-5-6-8).

Os Dígitos em sentido inverso deve ser aplicado a partir do primeiro ensaio do Item 1 e deve ser interrompido, de modo semelhante ao que sucede com os Dígitos em sentido directo, quando o sujeito tem dois insucessos em dois ensaios de um mesmo item. Contudo, a instrução que deve ser dada pelo examinador é ligeiramente diferente da tarefa anterior: “Agora, vou dizer-lhe mais alguns números. Só que desta vez, quando eu parar, quero que diga em sentido inverso. Por exemplo, se eu disser 7-1-9, o que deverá dizer?”. Se a pessoa

responder correctamente 9-1-7 deve-se dizer de volta “Muito bem. É isso mesmo” e iniciar a administração da tarefa a partir do Ensaio 1 do Item 1, mas se o sujeito responder incorrectamente o examinador deve dar a resposta e dizer: “Não. Deveria dizer 9-1-7. Eu disse 7-1-9, como tem de repetir em sentido inverso deverá responder 9-1-7. Vamos tentar de novo mas com outros números. Lembre-se que deverá repeti-los em sentido inverso. Os números são: 3-4-8.” A partir daqui não se dão mais ajudas nem neste exemplo nem nos próximos itens, e deve-se prosseguir com a administração do 1º ensaio do Item I independentemente da resposta do sujeito ter sido correcta ou não.

Tal como sucede na tarefa anterior, os itens aumentam gradualmente de dificuldade, mas nos Dígitos em sentido inverso os dois ensaios do primeiro Item apenas têm dois algarismos e o último item não vai além dos 8 algarismos em ambos ensaios.

Além do critério de interrupção (já explicado), o modo como o examinador lê os números (que devem ser lidos com a cadência de 1 por segundo com uma ligeira inflexão de tom no último algarismo) e a pontuação, são aspectos comuns às duas tarefas. A pontuação faz-se do seguinte modo:

• 0 pontos: se falhar ambos os ensaios de cada item;

• 1 ponto: se repetir correctamente um ensaio (uma das sequências) de um item;

• 2 pontos: se repetir correctamente os dois ensaios de cada item.

A pontuação máxima para os Dígitos em sentido directo são 16 pontos, os Dígitos em sentido inverso são 14 pontos, e a pontuação total para a prova de Memória de Dígitos pode chegar aos 30 pontos. A principal análise comparativa entre os grupos realizou-se com base nos scores brutos. De facto, e de acordo com Lezak (2004), os sistemas de conversão das pontuações das escalas Weschler têm pouca utilidade para propósitos neuropsicológicos e a pontuação bruta obtida nas duas tarefas do sub-teste da Memória de Dígitos (assim como de outros sub-testes) fornece informação significativa que não carece de mais nenhuma elaboração para poder ser interpretada porque as pontuações standart podem resultar de scores brutos díspares com pontuações completamente diferentes. Assim, para não se perder informação importante faz mais sentido analisar as pontuações obtidas como é exemplificado por Lezak (2004): uma pontuação bruta de 11, na maior parte das vezes, pode resultar da combinação de um score de 6 nos dígitos directos e de um score de 5 nos dígitos invertidos, mas a mesma pontuação também pode ser o resultado de

7 pontos nos dígitos directos e 4 na sequência invertida o que significa que existe uma diferença de 3 pontos entre ambas a tarefas e que é uma diferença que surge com maior frequência em grupos de pessoas com lesão cerebral.

1.5.2. Atenção visual sustentada, sequenciação e flexibilidade cognitiva: - Trail Making