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PARTE III PERCURSO METODOLÓGICO

2. Os procedimentos de recolha e tratamento de dados

2.3 Análise de interações

A escolha de realização da análise de interações implicou três requisitos: a escolha do campo de análise e a seleção do modelo e da unidade de análise. Tendo em conta o grande número de grupos existentes na Interactic 2.0, selecionámos o grupo “Web 2.0 – ferramentas educativas” porque além de ser o mais popular e o que possui maior número de membros (186)37, afigurou-se, pela sua temática, como sendo o mais indicado para uma análise que respondesse

aos objetivos anteriormente formulados. A análise de interações centrou-se no fórum de discussão deste grupo em particular desde a sua criação a 3 de Junho de 2008 (Anexo 6).

Afigurando-se como essencial a definição das categorias e dos indicadores a incluir na análise de interações, procedeu-se a uma revisão da literatura que permitisse a seleção do modelo a adotar, considerando os objetivos acima delineados.

De Wever et al. (2006) realizaram um estudo sobre modelos aplicados por vários autores e sintetizaram as suas características na seguinte tabela que faculta uma visão global:

Tabela 6 – Síntese de modelos de análise de conteúdos (De Wever et al., 2006)

Instrument Theoretical background Unit of analysis Inter-rater reliability

Henri (1992) Cognitive and

metacognitive knowledge

Thematic unit Not reported

Newman et al. (1995) Critical thinking Thematic unit Not reported

Zhu (1996) Theories of cognitive and constructive learning – knowledge construction

Message Not reported

Gunawardena et al. (1997)

Social constructivism - knowledge construction

Message Not reported

Bullen (1997) Critical thinking Message(several indicators per message possible)

Percent agreement

Fahy et al. (2000) Social network theory – International Exchange patterns

Sentence Percent agreement

Cohen’s kappa Vermann and Veldhuis-Diermanse (2001) Social constructivism - knowledge construction

Message Percent agreement

Rourke et al. (1999) Community of inquiry – social presence

Thematic unit Holsti’s coefficient

Garison et al. (2001) Community of inquiry – cognitive presence

Message Holsti’s coeficiente

Cohen’s kappa Anderson et al. (2001) Community of inquiry –

teaching presence

Järvelä and Häkkinen (2002) Social constructivism – perspective taking Message – Complete discussion Percent agreement Veldhuis-Diermanse (2002) Social constructivism - knowledge construction

Thematic unit Percent agreement Cohen’s kappa

Lockhorst et al (2003) Social constructivism – learning strategies

Thematic unit Cohen’s kappa

Pena-Shaff and Nicholls (2004) Social constructivism - knowledge construction Sentence (sometimes paragraphs) Code-recode and interrater procedures, but no report coefficients Weinberger and Fischer (2005) Social constructivism – argumentative knowledge construction

The authors apply both units of analysis on micro-level and on macro-level

Percent agreement Cohen’s kappa

Considerámos igualmente a proposta de Salmon (2000), que se centra mais no papel do moderador e de Murphy (2004), cujo enfoque é a medição e identificação da colaboração numa discussão num ambiente assíncrono online. Após análise exaustiva dos vários modelos, e tendo em consideração a base teórica em que se apoiam e os objetivos da nossa investigação, debruçámo-nos mais em particular sobre as propostas de Gunawardena et al. (1997) e a de Murphy (2004). A primeira sugere um modelo que permita analisar a negociação de significados e a co-construção do conhecimento em ambientes colaborativos de aprendizagem online. Segundo Gunawardena et al. (1997), no processo de construção partilhada do conhecimento que ocorre num ambiente construtivista de aprendizagem os indivíduos desencadeiam uma interação essencial à co- criação do novo conhecimento. Dessa forma, foi estruturado um modelo que integra cinco fases: a partilha/comparação de informação; a descoberta e exploração de dissonâncias ou inconsistências entre ideias, conceitos ou afirmações; a negociação de significados ou co-construção de conhecimento; o teste e a modificação das sínteses propostas; demonstrações de acordo e aplicações do conhecimento recém-construído. Para Gunawardena et al. (1997), este modelo começa com o que pode ser descrito com funções mentais inferiores para chegar às funções mentais mais elevadas presentes nas três últimas fases. Por seu lado, as cinco fases subdividem-se em vinte e uma operações que vão

desde a publicação de uma observação ou opinião até à publicação de afirmações metacognitivas que revelam que a transformação do conhecimento função das interações estabelecidas. Segundo os autores (1997), pelas suas características é um modelo a aplicar em contextos de desenvolvimento profissional em que os participantes denotam um nível de conhecimento similar.

O modelo apresentado por Murphy (2004) foi construído para identificar e medir a colaboração num ambiente assíncrono online. A base deste modelo reside no pressuposto que a colaboração acontece numa sucessão de processos desde a presença social até à produção de artefactos. Este modelo assenta no pressuposto que a colaboração se inicia a partir do momento que os indivíduos interagem, isto é, quando revelam consciência de presença de outrem e se relacionam como um grupo. A partir da exploração dos conceitos de interação e de colaboração, Murphy (2004) arquitetou um modelo que engloba seis processos gerais (num total de vinte e um indicadores): presença social, articulação de perspetivas individuais, acomodação ou reflexão das perspetivas do outro, co- construção de perspetivas e significados partilhados, construção de objetivos partilhados e produção de artefactos partilhados.

Um outro ponto que suscitou algumas dúvidas foi a escolha da unidade de análise, uma questão que tem vindo a provocar algum debate entre os investigadores que consideram diferentes opções. Henri (1992) propõe a identificação de uma unidade semântica, isto é, um tema ou uma ideia sólidos, mas também pode ser considerada cada frase (Fahy et al., 2001) ou a mensagem na íntegra (Gunawardena et al., 1997; Rourke et al., 2001; Murphy, 2004). Após esta análise mais detalhada e concordando com o ponto de vista de Stacey e Gebric (2003), que argumentam que a utilização de modelos testados e validados em anteriores estudos implica um ganho de eficiência, selecionámos o modelo de Murphy (2004), que foi já anteriormente adaptado no estudo de Maresta (2009). Assim como Murphy (2004), adotámos como unidade de análise a mensagem, o que implica que cada mensagem possa conter vários indicadores.

Após esta análise mais detalhada, e concordando com o ponto de vista de Stacey e Gebric (2003) que argumentam que a utilização de modelos testados e validados em anteriores estudos implica um ganho de eficiência, selecionámos o modelo de Murphy (2004) que foi já anteriormente adaptado no estudo de Aresta (2009). Assim como Murphy (2004) adotámos como unidade de análise a mensagem o que implica que cada uma possa conter vários indicadores. Após contato via correio eletrónico com Murphy confirmámos o seu desconhecimento da aplicação deste modelo de análise de interações noutros estudos.

Procedemos também a uma análise quantitativa das interações o que nos permitiu registar as frequências das publicações no que diz respeito às datas e ao número de contribuições dos membros do grupo. O registo das datas das publicações numa grelha específica permite verificar a existência de um momento de maior atividade do grupo e, caso exista, a época a que se reporta. O registo do número de contribuições dos membros do grupo permite apurar se predomina a existência de contribuições de vários participantes ou múltiplas contribuições por membro. O objetivo é fazer uma triangulação com os dados recolhidos através do questionário, da entrevista e também da análise qualitativa para verificar se a dinâmica do grupo se concentra apenas em alguns elementos, como os administradores da rede, e apurar o nível de colaboração estabelecido entre os membros do grupo.

Definida esta estratégia de recolha de dados, e tendo em conta o modelo de Murphy (2004), elaborámos uma grelha para proceder à análise qualitativa das interações que inclui as categorias e indicadores e respetivos códigos que foram adaptados a partir dos estabelecidos por Murphy (2004) (Tabela 7):

Tabela 7 – Grelha de categorias, indicadores e códigos (análise de interações)

Categoria Indicador Código

Presença social (P) Partilha de informação pessoal (P) PP

Reconhecimento da presença do grupo (R) PR

Elogiar / expressar apreço pelos outros (E) PE

Expressão de sentimentos e emoções (S) PS

Declaração de objetivos ou propósitos relacionados com a participação (O)

PO

Expressão de motivação sobre um projeto ou participação (M)

PM

Articulação de perspetivas individuais (I)

Declaração de uma opinião pessoal ou crença sem fazer referência a perspetivas de outros (O)

IO

Síntese ou relato de conteúdo sem referência a perspetivas de outros (S)

IS

Acomodação ou reflexão das perspetivas do outro (O)

Discordância direta / desafio a afirmações de outro participante (D)

OD

Discordância indireta / desafio a afirmações de outros participantes (I)

OI

Introdução de novas perspetivas (N) ON

Coordenação de perspetivas (C) OC

Co-construção de perspetivas e significados partilhados (S)

Partilha de informação e de recursos (I) SI

Pedido de esclarecimento / elaboração (E) SE

Colocação de perguntas retóricas (P) SP

Pedido de feedback (F) SF

Resposta a questões (Q) SQ

Partilha de conselhos (C) SC

Construção de objetivos partilhados (C)

Proposta de um objetivo ou propósito partilhado (P)

CP

Trabalho conjunto para um objetivo comum (C) CC

Produção de artefactos partilhados (A)

Documento ou outro artefacto produzido em conjunto pelos membros do grupo (D)

AD

Concluída a definição das categorias, dos indicadores e respetivos códigos passamos à análise propriamente dita através do software Nvivo. Assim, verificámos a frequência de palavras nos textos dos fóruns de discussão e as referências codificadas em cada um dos indicadores e categorias definidos. No capítulo seguinte serão apresentados e analisados primeiramente os dados recolhidos através de cada um dos instrumentos selecionados para esta investigação, para num momento posterior sintetizarmos as principais inferências retiradas através da triangulação dos dados.