CAPÍTULO I APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO
3. Aprendizagem formal, não formal e informal
É comummente aceite que no contexto socioeconómico atual é imprescindível o desenvolvimento de variadas competências ao longo da vida através de processos formais, não-formais e informais de aprendizagem que ultrapassam os conceitos de formação inicial e contínua (UNESCO, 1996). As dificuldades inerentes a uma sociedade que atravessa sucessivas crises económicas exigem uma contínua renovação dos conhecimentos e competências dos indivíduos para fazer face aos desafios pessoais e profissionais ao longo de toda a sua vida. A importância conferida às aprendizagens realizadas ao longo da vida em contexto extraescolar é cada vez mais relevante para a inclusão social e para a produtividade económica (Malcolm, 2003).
Também as conclusões emanadas do Conselho Europeu de Lisboa, realizado em Março de 2001, evidenciam que “a aprendizagem ao longo da vida deve acompanhar uma transição bem-sucedida para uma economia e uma sociedade assentes no conhecimento. Por conseguinte, os sistemas de educação e formação na Europa estão no cerne das alterações futuras e também eles devem adaptar-se.” A Comissão Europeia e os Estados Membros apresentam a definição de aprendizagem ao longo da vida (ALV) ou Lifelong Learning (LLL) como “all learning activity undertaken throughout life, with the aim of improving knowledge, skills and competences within a personal, civic, social and/or employment-related perspective” (European Commission, 2001). Por conseguinte, a aprendizagem ao longo da vida não engloba apenas as aprendizagens realizadas em contextos formais, mas também todas as que são conseguidas ao longo da vida em contextos não-formais e informais, desde o nascimento até à morte, como afirmou Jan Comenius: “As the whole world is a school for the human race… so every individual's lifetime is a school from the cradle to the grave”12
.
Mas se a expressão “aprendizagem ao longo da vida" evidencia um processo contínuo no tempo, a recém-cunhada expressão "aprendizagem em todos os domínios da vida" (lifewide learning) salienta que a aquisição de conhecimentos decorre em vários domínios da vida: em família, durante os momentos de lazer, na convivência comunitária e na vida profissional. Já em 1996, no relatório “Learning: the treasure within”, Delors salientava que “Education takes place throughout life in many forms, none of which ought to be exclusive. We must start to think about education in a more all-encompassing fashion”13
. Contudo, subsiste um debate em torno das noções de aprendizagem formal, não formal e informal. Neste contexto, são distinguidos da seguinte forma os três conceitos (Comissão das Comunidades Europeias, 2000; Longworth, 2003; Cross, 2006) :
A aprendizagem formal ocorre em instituições de ensino e formação e dá origem a uma certificação ou à atribuição de diplomas;
A aprendizagem não formal decorre de forma paralela à formal, mas não é consubstanciada por uma certificação formalizada, podendo ser fornecida pelas instituições de trabalho ou através de atividades promovidas por organizações ou grupos da sociedade civil;
A aprendizagem informal que não se reveste de um carácter intencional e decorre do acompanhamento que o indivíduo faz do seu quotidiano. Não é necessariamente intencional e, por isso, pode não ser reconhecida, mesmo pelos próprios indivíduos.
Muitas das aprendizagens realizadas ao longo da vida têm lugar em contextos informais e, ainda que não ocorra numa instituição, a aprendizagem informal não é desprovida de estrutura (Downes, 2006; Conner, 2006; Cross, 2006). Na mesma linha de pensamento, Hamadache (1993) reforça a relação entre o aprendente e o ambiente que o rodeia, defendendo que na aprendizagem informal
“le processus d’apprentissage est un processus d’osmose entre l’apprenant et son environnement. C’est un fait que la plus grande partie des connaissances et des savoir-faire qu’acquiert un individu au cours de son existence se fait, dans un environnement non structuré, au moyen de ce mode d’éducation.” (Hamdache, 1993: 10)
Por outro lado, Hamadache (1993) acentua que a aprendizagem não-formal apresenta um caráter intencional, sendo constituída por atividades organizadas e estruturadas, com objetivos dirigidos a um público devidamente identificado e que tem lugar em instituições fora do sistema educativo. Igualmente, Pinto (2005) lembra que a educação não formal é essencialmente um processo de aprendizagem social, voluntária e não-hierárquica, com formatos altamente diferenciados, “centrado no formando/educando, através de atividades que têm lugar fora do sistema de ensino formal e sendo complementar deste” (Pinto, 2005: 4). Já em 2000, a recomendação 1437 sobre Educação Não-Formal adotada pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa incitava “todos aqueles que dão forma às políticas educativas a tomar conhecimento da educação não-formal como parte essencial do processo educativo…” e, em 2003, o Comité de Ministros do Conselho da Europa recomendava aos Estados pertencentes à Convenção Cultural Europeia
“reafirmar que a educação/aprendizagem não-formal constitui hoje em
dia uma dimensão fundamental do processo de aprendizagem ao longo da vida e, por isso, trabalhar para o desenvolvimento de padrões de reconhecimento efetivo da educação/aprendizagem não-formal como parte essencial da educação em geral…”.
Também Conner (2006: 1) distingue a aprendizagem formal como aquela que inclui “the hierarchically structured school system that runs from primary school through the university and organized school-like programs created in business for technical and professional training”, enquanto que a aprendizagem informal se constitui como um processo construído ao longo da vida e durante o qual o indivíduo adquire conhecimentos, competências, aptidões e valores através das
experiências quotidianas. Contudo, considera igualmente a coexistência da aprendizagem não-formal, que esta autora define como “any organized educational activity outside the established formal system whether operating separately or as an important feature of some broader activity intended to serve identifiable learning objectives” (Conner, 2006: 2). Conner propõe a seguinte ilustração que estabelece uma relação entre a formalidade da aprendizagem e o seu carácter de intencionalidade.
Ilustração 4 - Aprendizagem formal e informal (Conner, 2006)14
Numa Sociedade do Conhecimento em que são valorizadas as aprendizagens não-formais e informais, que compõem uma grande parte da aprendizagem ao longo da vida e em todos os domínios da vida, e tendo em conta a perceção de investigadores que reconhecem que o ganho de conhecimento é superior através daquelas aprendizagens (Attwell, 2007; Berg e Chyung, 2008), regista-se uma crescente preocupação com a questão da sua validação. No relatório “Validation
of non-formal and informal learning in Europe – A snapshot 2007”, o European
Centre for the Development of Vocational Training (CEDEFOP) revela a existência de grandes discrepâncias nos países europeus, as quais estão intimamente ligadas a fatores nacionais como os educacionais, económicos, sociais, demográficos, tecnológicos e a crescente consciencialização e aceitação das mais-valias das aprendizagens não-formais e informais. Contudo, em Maio de 2004 o Conselho Europeu formulou uma série de princípios de identificação e
14 In http://marciaconner.com/intros/informal.html,
validação da aprendizagem não-formal e informal (Ilustração 5) que têm vindo a ser adotadas por vários países europeus na construção de métodos e sistemas de validação.
Ilustração 5 – Princípios comuns europeus para a identificação e validação de aprendizagens não- formais e informais
De igual modo, a OCDE (2010) considera a importância do reconhecimento destas aprendizagens para o mercado de trabalho e para a motivação dos indivíduos para a autoaprendizagem ou para um regresso ao sistema educativo formal. Neste processo são identificadas várias fases:
Identificação e documentação dos conhecimentos e competências; Validação da satisfação de determinadas exigências ou padrões; Atribuição de uma certificação ou qualificação reconhecida.
No entanto, ao possibilitar a atribuição de uma certificação, própria da aprendizagem formal, este procedimento parece-nos diluir os limites entre os três tipos de aprendizagem. Ainda que reconheça o esforço de vários países europeus em desenvolver o processo de certificação das aprendizagens informais, Attwell
(2007) põe justamente em causa que, desta forma, elas continuam a poder ser classificadas como informais, além de questionar a vontade da maioria das pessoas procederem a essa certificação.