Ao analisar o programa pesquisado propomo-nos a ler os registros visuais presentes, tanto como os ausentes, identificar o explícito e o implícito e perceber suas relações (LOIZOS, 2012). Ainda que a audiência leiga do programa não esteja familiarizada com a leitura dos signos apresentados, eles despertam a atenção e trazem a frente da tela uma representação simbólica do objeto apresentado e, também, do imaginário de quem desenvolveu o objeto, quem o conceituou no programa levado ao ar. Considerando o fato do assujeitamento do emissor, o jogo de imagens construídas estará relacionado às condições de produção do discurso, na medida em que as imagens que o sujeito constrói ao enunciar vão definindo e redimindo o processo discursivo.
A desconstrução do texto mediante a identificação de indicadores nos leva a compreender que o sujeito se apropria da linguagem não apenas para comunicar, mas para construir ações. Ou melhor, que as regras e os procedimentos que o sujeito utiliza para expressar sua voz e construir seu discurso materializam intenções e visam a efeitos sociais que extrapolam o universo estrito da linguagem. (MANHÃES, 2012, p. 311).
Ao extrair e contextualizar os dados, trouxemos imagens estáticas retiradas do programa Nova África, além de disponibilizar os links eletrônicos dos mesmos, isso, com o intuito de apresentarmos as diferentes nuances percebidas ao fazer a observação analítica dos vinte e seis programas da série. Ainda que, estáticas, cremos que a imagem com ou sem acompanhamento do som ou movimento oferece um poderoso registro das ações temporais e acontecimentos concretos, materiais e reais, ainda que restrito.
Essa informação visual coletada proporcionará a observação e diferenciação dos apresentadores em questão e sua dialética visual. “O visual e a mídia desempenham papéis importantes na vida social, política e econômica. Eles se tornaram “fatos sociais”, no sentido de Durkheim. Eles não podem ser ignorados” (MANHÃES, 2012, p. 138). Conscientes da impossibilidade de extrair uma verdade única na observação da série em questão e da complexidade inerente à análise de vídeos foi que buscamos auferir e cruzar dados variados, além de relacioná-los com a possível estrutura imaginária referente ao grupo étnico racial predominante na televisão brasileira, na TV pública em questão e no programa analisado, isso a partir de nosso lugar de fala.
Como propõe Rose (2012), trabalhamos para que cada passo da análise fosse uma translação simplificada de nossa percepção, pois, não existindo uma leitura perfeita do texto apresentado, procuramos explicitar ao máximo os fundamentos teóricos, éticos e práticos da técnica utilizada e proporcionar o resultado do trabalho ao público para que possa ser debatido e julgado. “Como atores sociais, nós estamos continuamente nos orientando pelo contexto interpretativo em que nos encontramos e construímos nosso discurso para nos ajustarmos a esse contexto”. (GILL, 2012, p. 248)
Ao final da pesquisa, a percepção sobre a série em seu todo foi de ter visto, ouvido e se dedicado a algo que não ofereceu o que prometeu. Avaliamos que uma TV que se quer diversa, conforme seu estatuto de formação deveria, ao produzir um programa sobre África, refletir no discurso e imagem o seu compromisso com a diversidade. Tal não ocorreu.
Percebemos o não rompimento pragmático da emissora com o modus de construção dos quadros levados ao ar, reproduzido esteticamente pelas emissoras com fins comerciais. Observamos, que ao não criar diálogo estético com o continente africano contemporâneo, trazendo as informações deste através de dois repórteres brasileiros e brancos, sem vínculos estéticos com a maioria populacional brasileira e também de África, e ancorando esta mediação na presença da repórter guineense, a TV Brasil, responsável final por levar ao ar o programa “Nova África”, reproduz a macrocultura dominante brasileira, que por sua vez, nasce da ideologia construída pela dominação Ocidental dos povos periféricos do globo. Em seu papel de mediador cultural, a TV Brasil não respeitou a pluralidade racial brasileira e, reproduziu um país branco eurocêntrico na constituição do quadro de apresentadores do programa. Ela mantém no programa examinado, a cultura da mídia brasileira e sua violência simbólica responsável pelo que chamamos aqui de “invisibilidade do sujeito”.
A cultura da mídia, assim como os discursos políticos, ajuda a estabelecer a hegemonia de determinados grupos e projetos políticos. Produz representações que tentam induzir anuência a certas posições políticas, levando os membros da sociedade a ver em certas ideologias “o modo como as coisas são”. (KELLNER, 2001, p. 81).
De acordo com Coelho (2012, p. 233), o imaginário está na base de toda política cultural que se pretenda convergente com os desejos e necessidades de grupos localizados, portanto, este imaginário criado pelo programa não coaduna com a realidade brasileira, e propõem a nós, investigadores, outras formas de leituras e compreensão do significante dos dados.
Esta relação surgiu, pois vimos repórteres/apresentadores que desconheciam a história do continente africano, em suas entrevistas foi possível perceber as altas cargas emocionais, quase em tom paternalistas e a série em seu todo apresentou uma África dourada, aquela que luta e tem conseguido se desvencilhar das armadilhas do colonialismo, porém, sem problematizar estas relações.
Fato significante para ilustrar esta constatação é o capítulo que aborda a história recente de Ruanda, país que em 1994 chocou parte do mundo sensível aos problemas africanos com o massacre entre Hutus e Tutsis. No episódio intitulado “Democracia: liberdade política e social na África”, a repórter Aline Maccari nos leva a viajar por uma África que, livre dos grilhões do colonialismo, se desenvolve economicamente e se reorganiza socialmente. A primeira parada é Ruanda, falando a partir da capital Kigali, ela traz a voz das autoridades locais para mostrar como o país tem se desenvolvido economicamente. O representante do governo entrevistado é o Ministro do Comércio, Alex Ruzibukira, que em seu papel desenvolve narrativa para falar sobre a nova Ruanda e de como resolveram os problemas do genocídio dos Tutsis. Secundando o representante do governo local, o texto em off narrado pela repórter, discorre que apesar do episódio recente os cidadãos locais se envergonham do evento e já superaram o acontecido, fazendo de Ruanda um país seguro e próspero para sua juventude e investimentos externos.
Ora, somente para trazer um exemplo, por ocasião dos vinte anos do genocídio local, o jornal Correio Brasiliense trouxe uma série de matérias falando da sociedade ruandense dividida, a luta do Presidente Paul Kagame em fazer a França reconhecer seu papel e responsabilidade no genocídio e a grande possibilidade dele voltar a se repetir, por conta das feridas não cicatrizadas na sociedade local. (CRAVEIRO, 2014; FADUL, 2014)
Este caso nos leva a analisar o objetivo da jornalista e equipe de produção, se de fato ao construir uma matéria com a opinião oficial e de alguns jovens estudantes universitários, ela estaria induzindo a audiência a processar as informações com o erro de análise apresentado, propositadamente, ou se o seu desconhecimento sobre a realidade política do continente levou-a e a sua equipe a julgar o país como exemplo de democracia, convívio social e destino econômico seguro para o volátil capital internacional. Neste caso ficamos com a explicação de Parada (2013), historiador que diz que a ignorância de muitos jornalistas frente a realidade do continente, faz com que vejam os barbarismos como a essência da experiência humana não Ocidental, e uma realidade não violenta representaria um grande avanço para um país africano, ainda que esta violência esteja presente nas entrelinhas e esquinas locais.
Em relação aos conflitos étnicos abordados acima e as dificuldades de consolidação de um Estado nacional, é necessário lembrar o sociólogo português Mario Murteira (1989, p. 119), conforme se segue:
Sabemos que, em África, as fronteiras nacionais e as realidades econômicas e culturais que nelas se contém não exprimem necessariamente tempos históricos presentes e passados relativamente coerentes e homogêneos. Os Estados surgem [...] como nações por fazer assentes sobre culturas e civilizações tradicionais ameaçadas, desfeitas ou agonizantes.
Estas construções sobre África trazidas ao longo do programa, refletem a percepção que os condutores da série tem sobre o continente, sua visão romantizada e idealizada, porém, reproduzindo uma ideologia política arcaica e costumeiramente reproduzida pela mídia brasileira. Está nos meios de comunicação esta responsabilidade quanto a construção simbólica do outro. “Numa cultura da imagem dos meios de comunicação de massa, são as representações que ajudam a constituir uma visão de mundo do indivíduo, o senso de identidade e sexo, consumando estilos e modos de vida, nem como pensamentos e ações sociopolíticas”. (KELLNER, 2001, p. 82)
A forma como foram agrupadas as temáticas conotam uma visão unitária, linear dos países africanos, como se a África fosse um país, como se as realidades não fossem diversas. Por exemplo, a nomenclatura dos episódios é questão a ser abordada: ainda que o edital previsse fazer matérias distintas, abordando a realidade de cada país e mostrando as diferentes Áfricas dentro do continente, os episódios traziam nomes e/ou temas que nos levam a crer serem iguais e universais no continente africano como um todo. É o caso de episódios com nomes como “Como vivem as crianças africanas”. Neste, a equipe traça um perfil da Etiópia, África do Sul e Malaui. No episódio “A literatura africana”, a equipe traça um perfil de Cabo Verde, África do Sul e Moçambique, conforme informações contidas no anexo I.
A África é composta por cinquenta e cinco países independentes, sendo quarenta e nove continentais e seis insulares. Ainda por quatro províncias (territórios nacionais) e mais de dez territórios estrangeiros. A organização e denominação dos episódios não contempla a diversidade do continente negro e isso nos leva a perceber o erro de construção e/ou desconhecimento da história e extensão do território abordado. Porém, alguns autores nos levam ao debate sobre a África inventada pelo Ocidente, África construída no colonialismo e reinventada no pós-colonialismo e suas lutas por independência, uma África imaginária criada pelo Ocidente e reforçada pelos movimentos ocidentais pan-africanistas.
Mudimbe (2013) credita a gênese africana, ao estruturalismo antropológico nascido e estruturado a partir do desenvolvimento imperialista europeu, cuja visão estruturalista foi transferida na análise do “todo” africano. O filósofo afirma que não houve uma ruptura conceitual no desenvolvimento dos conceitos sobre África e suas diversas estruturas ímpares. Por sua vez, Andrade (1989) aponta-nos uma África idealizada pelo Ocidente, constituída de Estados, mas não de nações. Aduz que a manipulação dos espíritos e a ideologização da história, têm impedido o desenvolvimento de signos da cultura democrática que tragam a estabilidade e unidade ao continente.
É esta África eurocentricamente construída que é a África projetada pelo programa Nova África, que neste sentido não rompe com o lugar comum da visão construída extramuros, visão pós-fronteiriça sobre África.
A imagem e texto jornalístico dos apresentadores foi outro dado que saltou aos olhos e sentidos. Primeiramente, é nítida a diferença de produção e/ou popularmente falando, arrumação, entre as duas apresentadoras, a brasileira Aline Maccari e a guineense Dina Adão (ver imagem das apresentadoras). Conforme imagens, para Maccari foi desenvolvido um figurino e postura ocidentalizada, imagem de alguém centrado em seu trabalho, objetivando colher a notícia e imparcial. Esta imparcialidade está denotada em seu modo de vestir, com um mesmo padrão durante toda a série, até a edição de suas imagens, de mulher madura e comportamento profissional ao gosto dos brasileiros médios, aqueles acostumados com o jornalismo da TV aberta, feito para a família. (SODRÉ, 1988)
Já a apresentadora africana Dina Adão é retratada nos diversos episódios da série com uma vestimenta para cada ocasião, quer dizer, em determinada entrevista com grupos étnicos do interior ela estava caracterizada como alguém ligado a este determinado grupo, com símbolos e signos locais. Porém, se a entrevista fosse sobre cultura urbana, hip hop, etc, ela esteva caracterizada como alguém ligada aquele grupo urbano. Em determinado momento ela aparece fazendo uso de cabelos de trancinhas ou estilo black power, quando é sabido que este tipo de cabelo é uma estética adotada no ocidente diaspórico para valorizar as raízes africanas, e não muito utilizado entre os jovens da região subsaariana do continente. (SANSONE, 2007; GUERREIRO, 2010; GILROY, 2012).
A edição do vídeo apresenta a repórter como um alguém descontraído (o que não seria ruim, dado os padrões conservadores da TV brasileira), ora dançando com os grupos do interior da Guiné-Bissau, vestida a caráter, ora sentada no chão de terra e cercada de aldeões, ora conduzindo a câmera na compra de produtos tradicionais em determinada feira. Enfim,
entre seus textos jornalísticos e edição de imagens, não percebemos a orientação e/ou comportamento entendido pelo brasileiro, a quem o seriado se destina, como o comportamento padrão, sério e isento do jornalista profissional. Ainda que, enquanto telespectador, não valorizemos esta sisudez dos jornalistas tupiniquins, compreendemos que este é parte do processo de construção do tecido jornalístico apresentado, e neste sentido, a apresentadora guineense não esteve bem tratada em comparação a sua parceira.
Assim, Dina Adão, a repórter africana, seria mais bem representada, caso tivesse sido enquadrada dentro dos padrões brasileiros de postura jornalística.
Ciente do processo histórico de formação estética da televisão brasileira, exclusão do elemento africano descendente, indígena e oriental, seu modelo eurocêntrico e, comprometimento político externo dos parcos proprietários das concessões de TV nacionais, estes dados auferidos nos vinte e seis capítulos do seriado parecem-me oriundos do imaginário construído no Brasil, cujos produtores televisivos, ainda que orientados a seguirem o “politicamente correto”, normas e diretrizes que regem o estatuto da Empresa Brasil de Comunicação, escorregam em suas posições arquitetadas no cotidiano da grande mídia brasileira, externalizam, através de seus óculos, sua identidade e ideologia. “Os jornalistas têm “óculos” especiais a partir dos quais veem certas coisas e não outras; e veem de certa maneira as coisas que veem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado” (BOURDIEU, 1997,p.25).
Grupos de poder midiáticos sediados principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, estes repartem entre si a comunicação de massas. O Brasil conta com um sem número de meios de comunicação regionais, fragilizados devido a sua extrema dependência para com os centros de poder dos distintos Estados. Seja a imprensa escrita, seja a mídia audiovisual se mantém sob a tutela econômica das instituições ou organismos públicos. Uma dependência/tutela que mina diretamente sua independência e a de seus profissionais, que ao migrarem para o meio público apresentam dificuldades na percepção e assimilação de possíveis novos modos de operar, pois, “cada vez mais o mercado é reconhecido como instancia legitima de legitimação”(IDEM, 1997, p.37).
Este processo socioeconômico contribui na manutenção das ideologias arraigadas nacionalmente, dificultam a reconstrução da nacionalidade brasileira em bases sólidas e democraticamente sustentadas e, ainda, contribuem para a invisibilidade de parcela importante da população , proporcionando o reforço do conceito de sujeito desidentificado, aquele de identidade pasteurizada e de raízes “desconhecidas” pelos meios midiáticos. A
repórter Dina Adão, a partir dos dados trazidos acima e reforçados abaixo, aparece, frente aos seus pares como um sujeito desidentificado, e sujeita a construção de uma dezena de figurinos e estilos diferentes para se vir inserida no contexto de sua reportagem.
Esta constituição da invisibilidade do negro na cultura e sociedade brasileira tem um caráter histórico, como já vimos e que se reflete nos meios de comunicação. É daí que a ideia de sociedade mestiça e de cultura mestiça contribui para a desidentificação do sujeito africano ou africano descendente e pasteurização das relações raciais brasileiras. Esta relação conflituosa de construção da “realidade” agregando elementos reais da vida cotidiana brasileira, também é debatida em relação a publicidade e sua construção do imaginário via campanhas comerciais. Pesquisadores do tema afirmam a dicotomia apresentada entre o negro e o branco e o reforço estigmatizado da imagem do negro. (BATISTA; LEITE, 2011)
Em todos esses casos, encontramos a polissemia, que seria através de uma mesma imagem se fazer diferentes leituras e encontrar ambiguidades. Todas elas acabam por reforçar o status quo do negro dentro da sociedade brasileira, em que ele é colocado muitas vezes como serviçal, dócil ou bandido. É uma visão maniqueísta, construída a partir do discurso racial brasileiro. É como se o poder, manifestado através dos meios de comunicação, não permitisse outra visão do negro. (FERREIRA, 2004, p. 24).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Importante fazer algumas considerações a título de conclusão deste trabalho. Iniciamos a presente dissertação abordando um pouco da trajetória que nos levou a intuir a problemática orientadora da pesquisa. Este processo de percepção do modo de abordagem das culturas negras pela mídia televisiva só foi possível, inicialmente, devido às características étnico-sociais aliadas à vivência do pesquisador.
Todo cidadão negro, em algum momento de sua vida, se crítico, perceberá o seu estado de desidentificação por parte da mídia televisiva e se perguntará onde está situado seu grupo étnico- racial. A partir deste momento que nascerão as hipóteses deste alijamento social. Alguns buscarão respostas e proporão soluções, outros, terão sua autoestima destruída e, sequer, conseguirão se inserir no espaço social excludente a que veio ao mundo. Estes, estarão localizados nos grupos dos excluídos.
No Brasil e nos demais países americanos que construíram sua economia a partir do sistema escravagista e com massiva importação de africanos oriundos de diferentes grupos étnicos, o poder tem estado na mão dos descendentes dos colonizadores, aquele grupo social refratário à divisão do poder e patrocinador da teoria da democracia racial, incentivador da teoria da miscigenação. Porém, está na teoria da miscigenação a origem da invisibilidade do negro na televisão brasileira. Depois de dilatados anos de política do embranquecimento, as elites brasileiras e latino-americanas iniciaram períodos de exaltação a mestiçagem, reconhecendo suas raízes multiculturais e declarando-se singulares devido à extensão da mistura racial de seus cidadãos. Porém, podemos observar que daí nasce ou se fortalece o conceito de cor como classe social, quanto mais clara a pele, mais acesso a serviços e oportunidades, quanto mais escura a pele, mais barreiras e dificuldades de mobilidade social.
Ao secundar que somos todos iguais, fortalecer o imaginário da igualdade, e operar sob estes termos, os diretores televisivos tem a “liberdade” de escolher, entre os iguais, aqueles que mais se encaixariam aos objetivos dos programas levados ao ar. Ao escolher estes “iguais” os diretores tendem a selecionar os seus iguais e, sendo estes diretores, representantes da pequena elite proprietária das empresas televisivas comerciais, eles escolhem profissionais, e fazem uma televisão muito parecida esteticamente com o perfil idealizado pelos patrões. Estes, também, supostamente “iguais” à maioria de seu público consumidor idealizado. Assim se procede a dialética racial na televisão brasileira.
Desde o início do período republicano brasileiro, temos visto a luta dos herdeiros da espoliação colonial pela manutenção do poder político. Em nossa história esta talvez seja a maior área de contradição e competição paradigmática, na medida em que nela se concebem e forjam as coligações capazes de conduzir a transformação social. Por isso, é emergente a luta contra o alijamento identitário e cultural que os grupos dominantes secularmente impõem e pela cobrança do Estado para a promoção da pluralidade, através de seu canal de televisão. O incentivo à permeabilidade identitária na televisão é parte desta luta.
Ao apresentar uma série televisiva que mostra o continente africano como a um espelho reconvexo, onde, dependendo do olhar do apresentador, se homem e branco, mulher e branca ou negra, mulher e africana, teremos um tipo de identificação e percepção estética desencontrada, sem uniformidade no texto produzido por suas imagens, a TV Brasil nos expõem a eficácia da assimilação cultural brasileira onde a herança das culturas africanas e indígenas estão em estado permanente de confrontação com o sistema dominante, concebido precisamente para negar suas fundações e fundamentos, desconstruir ou degradar suas estruturas.
Entendemos que a criação da TV Brasil é um grande avanço no posicionamento do Estado capitalista brasileiro, principalmente da política proposta pelo Governo Federal. Esta criação contribui para a efetivação de um aparelho midiático público de proporção nacional. Em relação às concorrentes comerciais, a criação da TV Brasil nos apresenta uma opção mais balanceada em relação a função de propaganda mercadológica das emissoras não públicas. Porém, ainda que tenha havido uma grande conquista social, como vimos no objeto de nossa