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GEOPOLÍTICA BRASILEIRA: NO CONTINENTE AFRICANO

Simbólica a lembrança do atlantismo brasileiro. Ele voltou forte, depois de uma longa história. Agora é entre Estados e atores múltiplos em paz e cooperação. Muito diferente é esse atlantismo em relação à lógica do Atlântico Norte, da imposição da Otan, do poder nuclear e da militarização dos espíritos. Um é da paz. O outro é o das sanções. (SARAIVA, 2011, p. 21).

Os pesquisadores mais atentos ao cenário político do continente africano e suas relações com o Brasil nos últimos dez anos perceberão novos e alentadores sinais de desenvolvimento, tais como a consolidação da democracia em alguns países, marcante crescimento econômico dos dois lados do Atlântico, crescentes esforços de boa governança, resolução de conflitos e as iniciativas de criação da União Africana (UA) e da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (NEPAD).

Tais progressos atestam que a África trava uma luta na busca de soluções novas e sustentáveis para dificuldades crônicas como pobreza, epidemias, educação e infraestruturas deficitárias, debilidade institucional, conflitos regionais, dívida externa, deterioração dos termos de troca no comércio internacional e baixo índice de investimento externo direto.

O Brasil, por seu turno, desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem adotado uma espécie de política externa independente em suas relações com o continente africano. Iniciada nos anos 1960 nos governos Jânio Quadros e João Goulart, retomada durante curto período do governo Itamar Franco cujo chanceler Celso Amorim foi o mesmo do governo Lula, a Política Externa Independente objetivava um desenvolvimento de política externa independente da bipolaridade soviética-norte-americana da época. Nessa gestão, a política exterior dos dois governos Lula teve como um de seus eixos centrais o adensamento de suas relações com a África, particularmente, seu lado Ocidental, pautada por princípios de solidariedade, não intervenção e incondicionalidades com o objetivo de reduzir desigualdades e apoiar os processos de desenvolvimento africano.

Esse adensamento, por sua vez, consolidou e ampliou parcerias cooperacionais seja na área do comércio seja na área das políticas sociais. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE) (BRASIL, 2010), até 2010 o Brasil possuía aproximadamente 300 projetos de cooperação técnica com 36 países africanos. Nesse período o orçamento da cooperação com a África superava a casa dos US$ 65 milhões de dólares o que correspondia a 55% dos recursos totais da Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

Contudo, mesmo não fazendo exigências na parceria cooperacional, o Brasil colhe frutos econômicos relativos ao aumento de suas doações internacionais, pois, conforme o aumento de seu prestígio junto aos cooperados, torna-se significativa a elevação da exportação e operações de internacionalização das empresas brasileiras. Segundo o MRE (BRASIL, 2010), houve uma expansão no intercâmbio comercial entre o Brasil e a África que quintuplicou em seis anos registrando um crescimento de US$ 5 bilhões em 2002 para quase US$ 26 bilhões em 2008. Contemplada como um todo, a África era em 2010 o quarto maior parceiro comercial do Brasil. Ainda segundo o MRE, empresas brasileiras estão entre as maiores investidoras na África, sendo forte nos setores de mineração, energia e construção civil.

Da mesma forma, segundo dados da ABC (MRE, 2010) e também do Ministério da Fazenda, as exportações brasileiras para a África mais que triplicaram nos anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Segundo o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 2008 o volume bateu recorde e atingiu US$ 307

bilhões, sem contar a Argélia, Líbia, Tunísia, o Egito e Marrocos, que fazem parte do bloco do Oriente Médio. Isto mostra, que mesmo não condicionada oficialmente, como era de se supor, a ligação entre cooperação e negócios é extremamente estreita.

A análise combinada dos dados disponíveis para consulta no portal do MRE (2014), principalmente no Balanço de Política Externa 2003/10 do Itamaraty e, bibliografia especializada disponível, mostra que o setor de infraestrutura africano apresenta enormes potencialidades, pouco exploradas pelos principais atores econômicos globais exceção feita à China. Destaque para tal percepção, o Governo brasileiro identificou no desenvolvimento de infraestrutura na África como o principal eixo de seu relacionamento com o continente, procedendo à execução de obras de apoio em vários países da região.

As obras foram possíveis a partir de dois eixos estruturantes; o primeiro deles passou pela aprovação dos financiamentos necessários e a liberação de crédito oficial para projetos de reconstrução em África a ser realizada pelas empresas brasileiras no continente. O segundo ponto foi o incentivo a participação de empresas brasileiras em países africanos, a partir de subvenção do governo brasileiro. Destaque-se ainda, a atuação brasileira na área de cooperação técnica bilateral, mediante o envio de missões de apoio ao desenvolvimento urbano a países como Moçambique, Namíbia e Guiné-Bissau.

As novas e antigas tecnologias foram incluídas nas atividades brasileiras de cooperação técnica e em infraestrutura. Em São Tomé e Príncipe, o Governo brasileiro auxiliou na informatização dos órgãos públicos e do Governo de São Tomé por meio do projeto Governança Eletrônica e Intranet Governamental. Em Guiné-Bissau, conforme Santos (2013), entre 2007 e 2011 foram assinados 19 atos internacionais de cooperação.

Vale mencionar também os acordos de cooperação técnica cientifica e atrelados a estes, os investimentos em infraestrutura relacionados a área energética, como exemplo os que foram feitos pela Petrobras na costa africana para a exploração petrolífera, Atualmente, a companhia produz 30 mil barris de petróleo diários na Nigéria e em Angola (PETROBRAS, 2013).

Essa relação tem motivado debates nos dois lados do Atlântico, onde a política brasileira para a África tem sido vista como instrumento de soft power para uma maior inserção internacional do Brasil e ampliação de seu mercado externo.

Neste primeiro decênio do século XXI, podemos observar o país caminhando para uma postura internacional globalista. O multilateralismo recíproco e a internacionalização econômica têm sido pontos fortes no globalismo industrialista brasileiro, é o que exemplifica

o presidente Lula em 2003 no Fórum Econômico Mundial de Davos: “Queremos o livre comércio, mas um livre comércio que se caracterize pela reciprocidade”.

Atualmente, o governo brasileiro fornece mais ajuda internacional do que recebe de países e organizações internacionais vinculadas ao sistema ONU. Entre 2005 e 2009, o país recebeu US$ 1,48 bilhão, e no mesmo período, fez doações que totalizaram US$ 1,88 bilhão, um saldo ativo de US$ 400 milhões em relação ao recebido.

Marx (1974) considera que, a crise econômica expressa as contradições do sistema capitalista em sua dinâmica de funcionamento, isto é, no âmbito das formações econômico- sociais e de suas relações mundiais. A mais recente crise capitalista na qual o mundo especulativo está submerso desde 2008, com quebras de grandes conglomerados, incertezas na zona do euro e instabilidade política nos EUA, irradia cismas por todo o globo. Não obstante isso, o Brasil atravessou a crise mantendo o ritmo de crescimento, e gerando emprego.

O mundo vem assistindo uma mudança paradigmática nas relações de poder internacional, onde o equilíbrio de forças nas áreas econômica e financeira passa a pender para o lado de países emergentes como o Brasil, assim como a China e a Índia, para citar mais dois exemplos. Nessa reconfiguração mundial, a África parece ser a última fronteira a ser explorada pelo capitalismo. Conforme Paulo Cavallo (2014, p. 13),

A África tem também um potencial demográfico incrível: 1 bilhão de consumidores hoje e, em 2040, a maior população em idade ativa do mundo. É por isso que temos visto uma média de 6% de crescimento do PIB em toda a África Subsaariana vá ver o PIB crescer 35,7% até 2017, para US$ 1,9 trilhão.

Nesse pano de fundo, o Brasil ora se posiciona como um país não reprodutor de relações verticalizadas e neocolonialistas em suas relações com países do Sul, mas ao mesmo tempo parece despontar como construtor de um novo modelo de imperialismo, menos dilapidante, porém, com seus instrumentos de apoderamento econômico e imposição suave de seus interesses junto às minorias financeiras, esse é um papel interpretado, facilitado, também, pela comunicação brasileira através da Empresa Brasil de Comunicação.

A propaganda internacional implica uma lógica de ação política entre países relativamente próximos. Ela é atualmente inundada por uma forma de competição comercial e de invasão cultural proveniente dos Estados Unidos e dos países ocidentais. Essa é a expressão influente do Soft Power que impulsiona a imitação e a uniformização a partir do modelo das sociedades dominantes. (DEVIN, 2009, p. 117).