VI. 2 Processos Racionais
VI.2.1 Análise e Síntese, Divisão e Generalização
Dada a sua objetividade, a inteligência reapresenta os dados da consciência empírica, permitindo distinguir com nitidez as possibilidades de ação que melhor correspondam à integração do indivíduo com o meio natural. Para tanto ela concebe um mundo de coisas distintas, distribuídas no espaço, e ao mesmo tempo relaciona essas coisas, sem que percam a sua identidade. Dado o fato de conceber o real de forma descontínua, pressupõe-se assim, a priori, um procedimento natural de dividir a matéria em partes. Mas ao mesmo tempo surge a necessidade natural de
generalização das propriedades da matéria, assim como se desenvolve uma
homogeneidade de procedimentos diante de semelhantes situações ou desafios da natureza. Disto decorre o fato de a inteligência desenvolver-se como uma faculdade analítica e ao mesmo tempo unificadora. Ela só abrange o geral por distinguir as partes
Tal tendência inicial a estabelecer coisas distintas explica-se pelo fato de a percepção recortar, na continuidade da extensão, corpos tidos como estáveis e de contornos definidos. A percepção em si mesma, a percepção pura, em sua tendência a imobilizar o objeto, permite uma apreensão apenas quantitativa, na medida em que a natureza do objeto é sempre a mesma. Dado o fato de o universo material ser considerado em sua homogeneidade, a consciência reflexa se sente a vontade para dividir no espaço e recompor arbitrariamente as suas partes.
Por espaço Bergson entende um meio homogêneo e vazio, infinito e infinitamente divisível, que se presta indiferentemente, seja de que modo for, à decomposição. Importa considerar, porém que um meio desse gênero jamais é percebido; só pode ser concebido pelo intelecto. O que é percebido de fato é a extensão, porém o mundo sensível é concebido como divisão, de acordo com as linhas, os contornos e desenhos dos corpos reais. Desta forma, afirma ainda Bergson, a inteligência só se representa claramente o descontínuo102, e o espaço
passa a ser o efeito formal da extensão percebida.
Ao conceber a exterioridade recíproca das partes, a inteligência divide, pois, o real, e porque divide é que ela tende necessariamente a generalizar ou unificar. Seu modo de conhecer dá-se a partir de movimentos quantitativos que se opõem, diferenças de grau do real, da relação da multiplicidade para então chegar à generalidade.
Essa tendência à generalização manifesta-se no decorrer da evolução, como característica de todo ser vivo. Mesmo os seres mais primitivos na natureza necessitam extrair as semelhanças na natureza, no caso automaticamente, para poderem sobreviver. Há a necessidade de classificação dos objetos e elementos da natureza a sua volta como forma de atender à exigência natural de conservação, a qual consiste em uma lei interna. Esse reconhecimento das propriedades comuns é deste modo inerente ao processo vital, que faz com que o isolamento de propriedades e posterior generalização tornem possível a preservação das condições vitais. Em um primeiro momento essa extração de qualidades da matéria é vivida, para posteriormente, no caso do ser humano, ser pensada.
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A esse mesmo processo natural acrescenta-se a reflexão, e na medida em que torna possível a generalização das representações, torna possível ainda simbolizar e esquematizar o real.
Ao partir da estrutura dos sentidos passa a se estruturar o pensamento: extraímos as semelhanças naturais, na medida em que cores e os sons, por exemplo, são considerados idênticos em diferentes objetos e essa identidade só se dá porque captamos sempre a mesma freqüência. Percebemos na escala de nossa duração e não na duração das coisas. Das semelhanças do mundo aparente construímos a identidade inteligível. Desta forma, a estrutura da inteligência e a estrutura da percepção cumprem uma função natural. Não há separação entre o vivido e o pensado, entre a esfera pragmática e a teórica. O homem pensa em função das necessidades de agir.
Por conseguinte, a generalização obedece primeiramente a interesses utilitários, para então tornar-se instrumento de conhecimento. A repetição de reações a diferentes estímulos da natureza é a base sobre a qual se construirá o ideal de abstração, de unificação do saber, ou como diz Bergson, a introdução de semelhanças. A idéia é geral então, quando é resultado da abstração; a
generalidade é obra do intelecto, embora a ela corresponda a semelhança das coisas naturais. 103
Muito embora a generalização tenha como gênese a consciência empírica, a experiência sensível, para Bergson, não é o único critério da verdade acessível ao homem, pois o espírito já guarda tendências, virtualidades que se atualizam quando despertadas pela presentação do objeto.
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Através da possibilidade de abstração, as idéias podem representar cada vez mais indivíduos, cada um dos quais estando em conformidade com aquela idéia abstrata. Por não ter necessidade do objeto em sua concretude, só a inteligência é capaz de estender a idéia a outros objetos, de procurar, de perscrutar. Seu caráter puramente formal priva-a do lastro de que ela teria necessidade para situar-se em objetos ponderáveis, o que torna possível maior interesse pela especulação. A sua natureza formal permite que seu domínio se estenda para além daquilo que é
manifesto; sua capacidade de abstração permite um distanciamento do sensível em
direção ao inteligível e, portanto, ao metafísico.
Há coisas que só a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, jamais encontrará. Essas coisas, só o instinto as encontraria; mas ele jamais irá procurá-las104. Se o instinto encontra, sem precisar procurar, isso se deve ao fato de sua apreensão se dar em sua imediatez; ele capta aquilo que o objeto é. A inteligência, por sua vez pode procurar, perscrutar indefinidamente, não importa o que, mesmo sem estar segura de encontrar.
Dado esse seu caráter abstrato e formal, o intelecto possui naturalmente um conhecimento desprovido de conteúdo exterior; mas por isso mesmo tem a vantagem de contribuir com um quadro em que uma infinidade de objetos poderão ampliar indefinidamente à extensão do conhecimento.