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Espírito Subjetivo: O Campo das Virtualidades

No documento UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (páginas 126-131)

Chamamos subjetivo aquilo que parece inteiramente e adequadamente conhecido, e objetivo aquilo que é conhecido de tal maneira que uma multiplicidade sempre crescente de impressões novas poderia ser substituída pela idéia que dela temos atualmente. 82

O objetivo se define pelas partes atuais, partes que não mudam, e a matéria enquanto tal não pode ser outra, mas pode ser mais, pois podemos sofrer uma multiplicidade cada vez maior de impressões vindas do objeto. Já o subjetivo é adequado e inteiramente conhecido, posto que a individualidade seja apreendida imediatamente e em si mesma, como uma unidade múltipla, em contínua mudança. Essa subjetividade define-se assim como essa presença espiritual na totalidade imanente à consciência; mas não uma totalidade dada, e sim uma contínua

totalização em ato, ao passo que a objetividade implica em ausência parcial do

objeto, dada a sua irredutibilidade à própria consciência. Efetivamente, a relação sujeito e mundo objetivo implica necessariamente em uma redução do campo da

aparência, para que a subjetividade espiritual transcenda.

Não se trata de definir a identidade por seu ser imutável em oposição às coisas mutáveis, mas antes por aquilo que se faz continuamente. A subjetividade define-se como existente pelo sentir-se vir-a-ser na rota do tempo; a consciência se constrói por um estado de ser diferente, heterogêneo em relação ao anterior e ao todo, consciência posto que apresente a si um presente renovadamente original. [...]

Para um ser consciente existir consiste em mudar, mudar amadurecendo, amadurecer criando-se infinitamente a si mesmo.83 Existir é muito mais que ver-se pensando, pois a vida interior transborda a inteligência; ao mergulhar no fundo de        

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— E.D.I.C., p.62. 83

nós mesmos percebemo-nos antes como diferentes estados de espírito no fluir da

duração, estados estes que estão na base dos pensamentos.

A única forma do ser que conhecemos é a vida, as outras formas devem ser compreendidas como modificações da forma fundamental, que não possuem sentido senão pela sua relação a esta forma enquanto consciente de si.84 A única

experiência ontológica que temos é a do ser vivo que somos, efetivamente, ser e viver são termos que possuem igual significado. Por subjetivo, entende Bergson, aquilo que é adequadamente, imediatamente conhecido; o pensamento, porém já é uma forma atualizada da substância, uma das formas abstratas de conceber da vida e não a vida em si mesma.

Existir não é somente estar inserido ma materialidade, mas antes perceber-se como essente em direção a um futuro. Ser consciente é sentir diferenciar-se no interior de si mesmo. Existir é trazer à consciência o sentimento da vida em continuidade. Sei que eu vivo. Percebo-me como movimento contínuo do aqui-e-agora em direção a um momento novo, logo existo. E assim o presente vivido torna-se necessariamente uma pretorna-sença para si mesmo.

Um eu que não se transforma, um estado psicológico que permaneça idêntico a si mesmo não tem duração, portanto não se sabe como existente. Portanto, pelo fato de nos reinos naturais os momentos serem sempre idênticos, não há memória, não há como se estabelecer uma alteração interior qualitativa que venha a permitir o novo. Desta forma, embora a espécie humana não seja senão um dos ramos do mundo vivente é ela que continua indefinidamente o movimento vital, posto que a consciência expande-se como inteligência inventiva.

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Ao invés de permanecer presa ao círculo estreito dos interesses da espécie, a vida se libera e se lança em direção a um destino autônomo. Ao invés de permanecer adstrito à realidade superficial, à realidade densa da matéria, ou à uma transformação horizontal, o homem é o único que transcende a sua condição de ser natural, em direção a espiritualidade, sua natureza original.

O homem herda desta forma as experiências em outros estágios da natureza, mas distingue-se, não por constituir outra espécie, mas só constitui outra espécie porque nele a virtualidade, a presença imanente, se realiza plenamente. Se por um lado, o impulso dá continuidade a si mesmo no homem, este supera o determinismo natural, e aqui se inicia o triunfo do espírito sobre a matéria.

Por conseguinte, o próprio movimento da vida dá continuidade à evolução através dos espíritos ou subjetividades, que agora trazem à luz da consciência algo novo em direção ao futuro contingente, totalizando a cada momento a totalidade. A corrente da vida não se transformaria em consciência se esta não durasse, se não existisse já na individualidade.

O âmbito de virtualidades, a esfera do ser metafísico, é o campo transcendental, cuja manifestação consciente eleva as individuações à condição de espírito. O ser virtual é o ser espírito, de modo que agora a Consciência em geral torna possível a presentação não só do mundo objetivo, mas da virtualidade que aparece para-a-consciência.

Se por consciência Bergson entende memória, a memória que a tudo sustenta em seu devir é a memória original, sempre presente, ou seja, a presença em si, que pela sua origem e imanência é a própria espiritualidade; não se trata da memória enquanto constituída, mas infinitamente constituinte e criadora, posto que por espírito, entende ainda Bergson, a única realidade do universo que tira de si o

que não tem. A presença da memória original, a Presença do Espírito, ou da consciência absoluta, coexiste virtualmente nos seres naturais de sorte que sua realização plena, sua enteléquia, consiste na vida, porém agora espiritual.

A própria condição de escolha implica na possibilidade de exclusão ou interdição, evidenciando a passagem do ser natural ao ser moral. Se no homem a espiritualidade do princípio vital se revela pela contingência, pela capacidade de criação, pela liberdade de escolher, é, sobretudo sua tendência a adequar-se a sua natureza original, que faz dele um ser destinado a condição espiritual.

Á medida que essa memória espiritual se manifesta em sua profundeza, ou seja, na medida em que ela traz significado para o momento presente, as lembranças tornam-se cada vez mais subjetivas. Dada a atualização das potências, essas se incorporam à memória do ser psicológico, e o definem como subjetividade espiritual.

O espírito subjetivo é, portanto o campo das reminiscências sempre em vias de atualização, a imanência sempre constituinte. A subjetividade define-se, portanto,

pela virtualidade de suas partes. No caso da duração subjetiva, as partes não se

constituem senão quando da sua atualização; as partes de nossa duração, afirma Bergson, coincidem com os momentos sucessivos do ato que a divide85, são partes

potenciais e qualitativas e, portanto uma unidade metafísica constituinte. No caso do objetivo sensível, as partes são percebidas atualmente e a divisão pode se dar sem uma mudança da sua natureza. No que se refere a subjetividade não se trata de divisão no sentido espacial, mas antes uma diferenciação qualitativa da memória ontológica; o subjetivo é inseparável do movimento de atualização. Ele é subjetivo

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justamente por estar sempre em vias de atualizar-se.86 O espírito subjetivo consiste

em uma multiplicidade qualitativa a presentificar-se na individualidade. A subjetividade explica-se, pois, não como um efeito, como algo atual, como uma certeza sensível, mas antes como sendo causa eficiente no movimento de atualização da virtualidade espiritual, um processo em contínua constituição de si mesmo.

O Eu define-se, pois pelo seu movimento como diferenciação do campo virtual, mas diferenciação autônoma, que se auto determina, daí a sua natureza psicológica. O espírito subjetivo só o é por criar linhas de diferenciação, as quais correspondem a diferenças de nível e de qualidade. O despertar de tendências, agora de uma qualidade superior, e que constituem outro nível ontológico, estabelecem novos caminhos que se abrem indefinidamente; Efetivamente, a possibilidade de evocação de potencialidades de natureza superior definem o sujeito-espírito.

Em seu movimento de atualização o espírito, assim como o Espírito em geral , constrói a si mesmo, evolui como consciência psicológica. A subjetividade, imanente em si mesma, consiste em um mundo onde nada se perde, um mundo infinitamente rico que testemunha silenciosamente a sua origem. A própria natureza da origem distingue o sujeito humano dos demais como ser espiritual, pois que não se limita a conservar o passado, mas é atualização contínua, movimento de presentificação da substancialidade inexaurível.

É esse passado original que torna possível todos os passados; é essa memória do ser que torna possível o existente psicológico, enquanto passagem do virtual ao atual. Desta forma, encarnamos o ser-em-si do passado, e o        

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psicologisamos. É esse passado eternal e de todos os tempos a condição para o existente, para todo presente, passado ou futuro particular.

Devido ao fato de a substância ser a própria duração, a atualização do passado original consiste ao mesmo tempo em uma aderência a si mesma, um

desenrolar e um enrolar, portanto uma unidade em continua totalização. Se a ação

implica a objetivação do outro, o movimento da subjetividade se adere à duração vivida em si mesma, e sua interiorização acrescenta-se ao ser do espírito. Deste modo, o espírito não é apenas o que anima a matéria, mas é movimento interior com direção, é ato de interiorização que se enriquece ao inventar, ao transcender sua qualidade de ser.

A Fenomenologia do Espírito bergsoniana é, portanto a história da

consciência, mas antes história da interiorização do que inicialmente aparece à consciência, de dentro de si mesmo; o espírito subjetivo se define por aquilo que se lhe acrescenta à duração. A totalidade real cresce, ao manifestar-se como saber de si, enquanto outra totalização de si mesmo. A fenomenologia do espírito consiste assim em um processo de sair de si perante o mundo objetivo, mas para então integrar-se a si, um revelar o oculto para totalizar-se. Portanto, torna-se impossível uma fenomenologia do espírito sem levar em consideração o papel do tempo e da memória.

No documento UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (páginas 126-131)