IV.3 Vegetal e Animal — Diferenças e Identidade
IV.3.3 Instinto e Inteligência
Instinto e inteligência, tendo começado por interpenetrar-se, conservam algo de sua origem comum; nem um nem outro se encontram em estado puro. São duas formas de atividade psíquica, dois métodos diferentes de ação sobre a matéria inerte, como o claro e o escuro que decorrem da indecisão de cada um e de seu encaixamento recíproco um no outro. 60
Esses métodos consistem nas diferentes maneiras de a vida valer-se da matéria em seu benefício: ela pode fornecer sua ação imediatamente, criando para si um instrumento natural e organizado com o qual trabalhará. Ou ela pode ter essa atuação através de um organismo, mas de forma mediata; em vez de possuir
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naturalmente o instrumento exigido, ela mesma o fará ao modelar a matéria inorgânica.
A relação instrumental no plano instintivo se dá através de instrumentos que a natureza fixou de forma permanente no próprio organismo animal. Trata-se de uma relação interna com a instrumentalidade. A objetividade no caso é um simples prolongamento da vida natural do organismo, o qual não pode, por isso mesmo, caracterizar-se como subjetividade. Já a inteligência se caracteriza pelo início uma relação externa com a instrumentalidade; aqui começa, pois o distanciamento entre o sujeito e o objeto a ser apreendido, inicialmente no plano utilitário.
Desta forma, o instinto é uma realidade imanente ao movimento vital, infalível, mas limitada. Consiste em uma atividade inconsciente, visto que não há distância perante o objeto, posto que não há ainda representação. Trata-se de uma vivência, algo experimentado, na medida em que os animais sentem outros animais.
A ciência faz do instinto um reflexo composto, ou um hábito adquirido que se tornou automatismo, e reduz o instinto a um empenho inteligente, já a explicação metafísica e concreta deve ser procurada em uma direção inversa, não no sentido da inteligência, mas em uma sorte de simpatia, de comunhão, que uma espécie possui da natureza ou de outra espécie. Nos fenômenos de simpatia ou antipatia irrefletida por uma pessoa experimentamos em nós algo daquilo que deva ocorrer no inseto quando age por instinto; tal simpatia tem sua raiz, mais uma vez, na própria unidade da vida, a qual comunga consigo mesma através dos seres. Inicia-se aqui uma identidade do Espírito consigo mesmo, em sua imediatez. Neste caso as potências imanentes se manifestam em função das necessidades vitais, através de uma forma, ainda primitiva, de conhecimento natural e imediato acerca de determinado objeto.
Dada a sua imediatez, o instinto permanece, pois irremediavelmente primitivo, pois que ele não se sabe como cognoscente, ele ainda capta o mundo natural qual em si mesmo. As espécies manifestam tendências que lhes inspiram ações, mas que viriam à luz somente diante de uma necessidade vital ou premente. Já a inteligência se permite um distanciamento do objeto, há uma duração maior entre o estimulo da natureza e suas reações, abrindo-se assim o campo da indeterminação e assim a possibilidade de certa escolha, como no caso dos animais que já selecionam os alimentos, porém ainda em função das necessidades vitais apenas.
Se no instinto não há nenhuma fissura entre um organismo e o outro, entre a imagem e a ação, nele a essência presente permanece junto a si e em si mesma; já no início da inteligência inicia-se uma distinção do outro de si, e essa separação não só permite mais tempo entre a ação e reação, como a ampliação no espaço do campo possível de ação. Desta forma a diferenciação no tempo se exprime em forma de diferentes graus no espaço. À medida que aumenta a tensão do “fragmento” substancial, maior a extensão do campo de atuação.
Por outro lado, se a atividade instintiva vivencia a natureza material em si, nem por isso pode ser confundido com ela. O instinto não é matéria, mas o início de uma atividade espiritual, embora ainda voltada para a condição natural. O que impede a maioria de nós reconhecermos sua natureza espiritual é o fato de ele ser inconsciente. Geralmente confunde-se psiquismo com consciência. A psicologia moderna afirma que a consciência é apenas uma parte da vida psíquica; e o instinto consiste deste modo em uma forma de vida psíquica, embora uma forma bastante rudimentar.
Instinto e inteligência são ambos movimentos internos do princípio espiritual Constituem tendências, mas não sucessivas; a inteligência não veio após o
aperfeiçoamento do instinto, mas consistem em linhas diferentes, direções qualitativamente diversas, embora historicamente paralelas. Uma vez que a atualização de potências em comum é um diferenciar em função de interesses ou desafios atuais, em determinada linha o Espírito possui um interesse vital, e na outra direção um interesse material, mas ambos visam, inicialmente, a produção de instrumentos em função da vida. Instinto e inteligência representam, pois duas
soluções divergentes, igualmente elegantes, de um único e mesmo problema.61 Com efeito, no percurso evolutivo instinto e inteligência não se negam,
cada termo tem, no outro, o “seu” outro. Mas em si mesmo, o instinto não carece de inteligência: é “para” a inteligência que ele aparece como carência de inteligência. Em si mesmo, cada um dos termos traz em si toda a positividade da vida.62
Assim sendo, é para nós que o instinto não possui inteligência, mas ali está presente a essência virtual, a potencialidade da inteligência, inibida em sua manifestação. Por outro lado, a inteligência também não carece do instinto; e é essa virtualidade instintiva que tornará possível, para o ser inteligente, o nascimento da intuição. Efetivamente, se não existem estado puro, é porque possuem identidade de origem e constituem instrumentos da natureza para atingir os mesmo fins.
Tais linhas de fatos demonstram, partindo da unidade primitiva, não somente uma identidade de origem, mas também identidade nas diferenças, ou seja, identidade de manifestação. Tais descrições comprovam o significado qualitativo da evolução e, mais do que isso, que tudo obedece a uma finalidade interna na natureza; soluções divergentes se criam para um mesmo problema, meios diferentes
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— Ibid., p. 131. 62
visam assim os mesmos fins. Nada se dá, portanto por acaso, mas tudo visa uma harmonia. O mesmo impulso se dá continuidade na diversidade, atualizando-se nas diferenças, desta forma a qualidade espiritual difere em seus caminhos, mas
identifica-se no mesmo, em uma sempre tendência de retorno a si.
Eis assim a integração das diferenças no tempo, consoante método bergsoniano. Esse retorno se dá, portanto pela identificação do Espírito consigo mesmo, através de identidade de estruturas, no plano fenomênico, e agora através do instinto esse reencontro já consiste em um início de simpatia, de ordem espiritual, porém ambos os casos consistem em identidade do ponto de vista natural.