VI. 2 Processos Racionais
VI.2.4 O Intelecto: a Distensão do Espírito
Percebe-se assim que a inteligência destacou-se de uma realidade mais vasta, mas que jamais houve uma ruptura com os outros reinos, pois a inteligência consiste em um núcleo sólido, condensação de uma única substância espiritual, a qual se distendeu em uma diversidade de formas biológicas na senda evolutiva, assumindo diferentes níveis e direções e de atualização em seu trajeto.
Porém, o espírito não é apenas um vivente; sua atividade psicológica ultrapassa a vivência empírica em direção ao inteligível, sua verdadeira natureza. Não é apenas em função da necessidade da ação no mundo que o espírito concebe o modo descontínuo, mas concebe-o através inteligência, a qual lhe permite pensar
o real em sua passividade e inércia. Efetivamente, assim como a consciência animal discerne os seres e as qualidades naturais, o espírito humano não apenas delimita corpos em sua descontinuidade através da percepção, mas ainda delimita a realidade em conceitos através da reflexão.
Por outro lado, consciência de todos os seres vivos, na unidade da substância que dura, tende a condensar os movimentos rápidos da natureza de modo a poder perceber o mundo material. Com efeito, percebemos na escala da nossa duração e não na escala das coisas. O mundo material é apreendido segundo a disposição de nossos órgãos, ou seja, só captamos freqüências baixas, a matéria no estado de condensação, e fragmentada em corpos justapostos. Daí o fato de a inteligência pensá-la através de formas estendidas no espaço.
Mas não apenas o objeto é percebido num estado de condensação, como a própria inteligência, segundo Bergson, é um foco de manifestação já mais condensado da substância. Na realidade, se existe uma franja de substância espiritual, o sentimento que temos de nossa evolução e de todos os outros seres está presente nela, qual memória indelével, mas que se indistinta e inconsciente, pode perder-se na noite da imanência, daí a importância do intelecto, de modo a trazer à luz da consciência esse halo espiritual. Para o filósofo essa fonte imanente em sua totalidade deve ter mais importância ainda que o núcleo luminoso da inteligência que a envolve. Já a inteligência inteiramente pura é um encolhimento, em termos bergsonianos, por condensação de uma potência mais vasta. Isso significa que tanto o real objetivo quanto o sujeito manifestam-se em uma gradação qualitativa, quais níveis ontológicos da duração, ou memória da substância original. Cumpre ao sujeito cognoscente estabelecer uma direção: seja rumo à materialidade de modo a ela se adaptar, através da inteligência; seja por uma tensão do espírito
elevar-se em direção à substância, ou ao Espírito. Porém, essa adaptação à natureza material, é uma etapa necessária, tanto à evolução dos seres naturais, quanto á evolução dos seres cognoscentes, de modo a dar continuidade à essência criadora.
Essa adaptação se teria, aliás, efetuado de modo inteiramente natural, porque é a mesma inversão do mesmo movimento que cria ao mesmo tempo a intelectualidade do espírito e a materialidade das coisas. 108 Desta forma, o mesmo movimento que leva a matéria a assumir formas, a fragmentar-se em objetos exteriores uns aos outros, leva o espírito, enquanto individuação substancial, enquanto consciência para a qual o mundo se torna presença, a se determinar como inteligência. Esse movimento consiste em uma interrupção de tensão da substância espiritual, a qual se estende em formas. Do mesmo modo, o intelecto se desenvolve em um movimento do espírito, que se distende em formas, porém abstratas. Por isso que, quanto mais a consciência se intelectualiza, mais a matéria, para ele, se espacializa.
Esse movimento em direção à materialidade, inerente ao grau existencial, consiste em uma distensão do espírito, que através da inteligência, se estende em formas distintas e exteriores umas às outras. A própria distensão dá origem à extensão das formas e da matéria, como cristalizações da substância, mas dá origem também, no caso do sujeito cognoscente, ao esquematismo espacializante.
E, como a matéria se rege pela inteligência, e como existe entre inteligência e matéria um acordo evidente, não se pode engendrar uma sem fazer a gênese da
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outra. 109 Efetivamente, assim como a matéria, segundo a gênese bergsoniana, se
dá por um relaxamento do inextensivo em extensivo, a inteligência se desenvolve em formas e idéias por uma distensão da unidade do espírito.
Bergson busca enfatizar que esse movimento não consiste, como no pensamento de Plotino, em um enfraquecimento ou diminuição de grau da essência espiritual; a filosofia antiga parece confundir assim a duração com a extensão, e a mudança seria apenas uma degradação da imutabilidade, como no caso de Aristóteles, e o sensível como decadência do inteligível, no caso de Platão. Para Bergson essa distensão ou extensão se dá antes por uma inversão de direção do Espírito, ou do espírito, em sua marcha ascendente; trata-se antes de uma diferenciação qualitativa da substância em distintos níveis de atualização.
É assim que, por uma distensão da alma, a consciência reflexa se estende em representações e idéias em sucessão, dando condições ao pensamento mediatizado. Não fora a distensão, não haveria sucessão, não surgiria a consciência; não fora o espaço não haveria como se colocar o objeto de conhecimento; não fora a sucessão de idéias no tempo não haveria consciência reflexa.
No entanto, se a matéria consiste em uma extensão da Consciência, e a inteligência uma distensão ou relaxamento do espírito, o problema em questão está no esquema espacial, responsável pelos procedimentos racionais aplicados à ciência, o que a impede apreender a substância em sua natureza original. O espírito apreende esquematicamente as relações e significados, a partir do modelo abstrato que o intelecto recortou no espaço. A inteligência é assim vítima de sua própria estrutura analítica.
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Efetivamente, cumpre demonstrar que as ciências de um modo geral se dão por uma distensão do espírito, e a consciência reflexa se estende em idéias e conceitos; por outro lado, o mundo fenomênico é uma presença no modo de
extensão da substância, porém determinado pela forma do espaço.
Ao representar recortes nesta extensão material, o intelecto pensa a multiplicidade inserida em um espaço e tempo homogêneo, o que lhe permite pensar a identidade e a repetição, e conseqüentemente quantificar o real. Pelo fato de o intelecto, cumprir com sua estrutura analítica, se representar o descontínuo, e quantificar a partir da identidade, a Matemática surge como o tipo mais perfeito da ciência. As figuras geométricas nada mais são que as infinitas possibilidades de recortar o espaço e estabelecer relações entre elementos distintos. A visão de unidades distintas é devida a essa concepção do princípio matéria não só em seu modo de extensão, mas na configuração espacial. A Física, como as demais ciências, formais ou naturais, toma o real como a extensão, mas a questão é o fato de impelir a matéria no sentido mais inferior da substância, sob forma de recortes cristalizados. Mas para conceber a verdadeira natureza da matéria, afirma Bergson,
se faz necessário se libertar do espaço sem sair da extensão110. Em si mesma a
matéria consiste em uma continuidade melódica movente, toda a consideração de corpos ou corpúsculos é arbitrária, uma matéria segunda, e não o estado natural ou fluídico. Sem dúvida, essa é a nossa concepção de seres-no-mundo, mas que importa transcender, pois tomar o princípio material como corpúsculo é tomar o efeito pela causa. Conforme termos bergsonianos, importa à Física considerar a matéria além de sua materialidade.
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O erro da maior parte dos biólogos, comenta ainda Bergson, é se representar o ser vivo como uma composição de mecanismos físico-químicos distintos. Eles não atingem dessa forma senão o que existe de aparência de vida na matéria e deixam escapar o essencial: o próprio movimento que deu origem aos mecanismos.
Da mesma forma a Psicologia, apenas representa estados no fluxo contínuo da vida do espírito, os quais se diferem pelo fato de serem mais ou menos intensos. Esse congelamento artificial da vida do espírito no espaço induz a pensar a experiência psicológica como uma descontinuidade, estados que se destacam um dos outros, o que nada mais é que o reflexo das coisas que nos rodeiam. Trata-se de uma psicologia materialista, na medida em que o intelecto concebe a alma da mesma forma com que se volta para o mundo dos objetos; jamais se atingirá desse modo a fonte viva e geradora que flui sob essa crosta superficial.
Se o espaço é a demarcação intelectual em meio ao qual o pensamento científico se dá, daí a necessidade de inverter a direção do intelecto em função de uma percepção superior, mais intuitiva do real, em sua multiplicidade qualitativa. De fato, a matéria real é a extensão concreta sim, no entanto é diferente do espaço abstrato, que tanto compromete o projeto metafísico e, portanto a própria ciência que lhe é decorrente. Da mesma forma, a duração é outra coisa que o tempo mensurável pela ciência.
Tudo se explica, portanto, de forma natural, dada a distensão do espírito: a manifestação da vida em consciência se distende em uma sucessão temporal, que dá origem à reflexão, e às formas mediatas de conhecer.
A presença da vida sob forma de consciência e para-a-consciência se dá, pois, em forma de momentos que se distendem em seu vir-a-ser, mas que se aderem em ma totalização contínua. Por ser a vida em seu vir-a-ser, a consciência
se distende na temporalidade e define-se desta forma como um movimento pensante; ao mesmo tempo em que as idéias que se sobrevêm, se enredam na imanência da consciência.
Esse trânsito de imagens, representações e idéias, que surgem linearmente à consciência desenvolve-se na seqüência passado, presente e futuro. A duração em si se distende na temporalidade, o em-si em para-si, a interpenetração como sucessão, a imediatez se distende em mediatez, a unidade se estende em partes exteriores.
A distensão da própria vida da alma, que se estende em passado e futuro, dará origem à consciência reflexa. Ela não consiste na coincidência entre as três modalidades da ação, mas em uma justaposição desse tempo no espaço, uma sucessão representada na consciência. A verdade da distensão estende-se destarte à extensão de momentos e estados, até atingir o ponto limítrofe do sentido de espaço. Desta forma, a consciência pensante define-se como sucessão no tempo, assim como a noção de sucessão no espaço torna possível o surgimento do objeto enquanto tal.
Com efeito, ao progredir através do suceder de suas representações, o espírito se conhece como organização. A organização é a sucessão contida e fixa em seus limites. Assim, o espírito organiza o dado fenomênico ao organizar sua distensão discursiva progressivamente. Se o real não se pusesse como objeto, a inteligência não se desenvolveria como tal.
Assim, como diria Agostinho, a vida para a consciência decorre ex ordine, em ordem, lógica e, portanto cronológica. É assim que a inteligência atesta esta ordem e a admira, dando origem à lógica, como um encadeamento consecutivo de idéias e juízos, em uma concepção quantitativa do mundo fenomênico. O conceito se define
por essa sucessão de representações e idéias, o ser se define pela quantidade maior ou menor de sujeitos a que se estende; e quanto maior essa extensão, maior legitimidade possui a conclusão a que se chega.
A partir dessas relações entre idéias e representações em conexão, surgem também as relações entre símbolos, como derivações dos sólidos homogêneos e exteriores uns aos outros. Ao generalizar as propriedades dos sólidos em sua multiplicidade surge uma lógica empírica que dará origem a lógica científica. Esta se define, pois, como ciência de manipulação dos símbolos e das regras idéias do pensamento, e que acaba por se constituir como ciência formal e metodológica que dará origem aos sistemas.
VI.3 Intelecto e Filosofia da Ciência
VI.3.1 Problemas Mal Colocados
O ato originário da vida não se realiza sem qualquer obstáculo. O movimento da evolução criadora se dá a partir de algo que a ele se opõe, que lhe serve como obstáculo, mas ao mesmo tempo como meio de atingir seus finalidade interna. Da mesma forma a consciência empírica, para superar as resistências exteriores, para superar sua condição, necessita primeiramente apreender recortes na totalidade da matéria sólida e de relacionar-se com objetos no espaço. Conseqüentemente, a inteligência, que segue em direção à matéria, necessita cristalizar o real em fragmentos para poder entendê-lo. É impossível, cronologicamente falando, uma apreensão direta do real sem uma referência à exterioridade.