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Identidade Natural

No documento UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (páginas 90-95)

IV.3 Vegetal e Animal — Diferenças e Identidade

IV.3.2 Identidade Natural

No entanto, apesar das diferenças, consciência e mobilidade já estão potencialmente presentes na planta; isso significa que as tendências não deixam de ser. A diferença fenomênica não consiste, portanto senão em diferentes níveis de atualização lembranças fundidas na unidade essencial, qual memória indelével. Apesar dos diferentes modos de alimentação, o vegetal e o animal descendem de um passado comum, que reunia, no estado nascente, as tendências ou lembranças de um e de outro.

Se as causas essenciais que operam ao longo desses diversos caminhos forem de natureza psicológica, deverão conservar algo em comum a despeito da divergência de seus efeitos, como os companheiros separados por muito tempo conservam as mesmas recordações da infância59.

A causa essencial passa a assumir uma natureza psicológica, pois o principio já se encontra inserido e voltado para a materialidade. Mas esse algo em comum não só se conserva como se manifesta através de movimentos e estruturas orgânicas em comum ou complementares, dada a unidade e imanência do princípio: é assim que na planta, o que corresponde à vontade que dirige o animal, é a direção para onde ela desvia a energia da radiação solar. Em segundo lugar o que corresponde à sensibilidade animal é a impressionabilidade da clorofila á luz. Se        

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existe ainda no animal um sistema nervoso intermediário entre as sensações e as volições, a planta já possui um mecanismo mediador entre a impressionabilidade da clorofila e a produção de amido. Assim a evolução dá continuidade à impulsão inicial determinando a constituição de centros nervosos ou de sistemas sensório motores, que correspondem a função clorofílica. Através desses instrumentos mediadores a vida se esforça por conseguir conquistar um grau de indeterminação cada vez maior sobre as forças físicas. A diferença nessa mediação está no tempo entre o estímulo e a resposta, o qual varia segundo a complexidade do sistema nervoso.

Vê-se assim que a diferença entre os grupos não é tão truncada como parece, pois não há manifestação que não se encontre latente em outros reinos. Trata-se, pois de uma corrente contínua, um conjunto de manifestações através de linhas divergentes, mas ao mesmo tempo complementares ou convergentes. Diferenças e identidade residem, pois na substância, e não no efeito atual, e não na exterioridade fenomênica — a qual consiste apenas ponto de partida do ponto de vista metodológico para chegar ao ser.

A questão é de saber, qual o significado da análise dessas linhas de fatos? Partindo pois da fonte, consistirá a ordem de surgimento das várias espécies, ou seja, a evolução em uma ordem mecânica ou uma ordem inteligente? Será a corrente da vida, que atravessa os corpos que organizou, análoga a do mecanismo que rege a matéria inorganizada ou haverá uma finalidade que se persegue através das manifestações da vida?

Tanto o mecanicismo quanto o finalismo são pontos de vista exteriores sobre a evolução, duas categorias que concebem o todo dado e que deixam escapar a duração que é essencial aos fenômenos. Ao afirmar que tudo é dado anteriormente,

ou que já existe um plano traçado, desconhecem, a possibilidade do imprevisível e, portanto da própria criação enquanto tal.

Os naturalistas, por sua vez, concebem suas teorias a partir de pontos de vista sobre o estável, tomados de fora, como diria Bergson. Ao considerar apenas os efeitos, ou seja, fragmentos estáveis da realidade fenomênica concebem as idéias de descontinuidade e fixismo, e jamais perceberão a transformação, a passagem de uma espécie ou de um ramo a outro, muito menos a causa espiritual do processo.

O mecanicismo, por ser um sistema rígido, impede se afirmar a espontaneidade da criação. Já o finalismo, cujo princípio é de essência psicológica é mais compreensivo. A tese bergsoniana participa do finalismo até certo ponto, na medida em que admite sim uma finalidade na criação, mas não uma finalidade externa. Uma coisa é reconhecer que as circunstâncias externas são forças, outra coisa é reconhecer que são causa. Existe sim harmonia na criação; há, conforme se acaba de ver, complementaridade entre as formas vivas, há tendências em comum, enfim há certa finalidade no mundo organizado, mas esta se encontra na origem, advém de uma identidade do impulso e não de uma aspiração comum.

Por outro lado, se Bergson admite com os mecanicistas, que a razão do movimento dos fenômenos está em seu passado, a diferença está no fato de, ao invés de tratar-se de um impulso redutor, e que, por conseguinte engendra a repetição, trata-se antes de um impulso criativo e portanto fecundo de imprevisíveis novidades.

Ao evidenciar que a vida fabrica, em linhas divergentes, aparelhos idênticos por meios dessemelhantes, Bergson destrói a tese mecanicista e o finalismo torna-se até certo ponto demonstrável. No célebre exemplo em que descreve a estrutura do olho, o vertebrado e o molusco pertenciam a ramos separados, antes da

formação do olho, no entanto os mesmos órgãos são idênticos seja quanto à estrutura seja quanto à função. Como explicar que haja resultados idênticos através de meios diferentes?

Os darwinistas explicam que por uma série de variações insensíveis e ao acaso, pequenas diferenças acidentais se adicionaram para produzir um efeito útil. Ora, como é possível, questiona Bergson, em mais uma de suas analogias, tomar as letras do alfabeto ao acaso e se compor duas obras idênticas? Como supor que todas as partes de um aparelho visual tão complexo se modificam e ao mesmo tempo permanecem tão bem coordenadas? Como explicar que todas as partes mudem ao mesmo tempo e regulam-se tão maravilhosamente e ainda por cima se aperfeiçoem? Como é possível que linhas diferentes produzam os mesmos fatos na mesma ordem? Não se tratam simplesmente de mudanças solidárias em ambas as linhas, mas transformações que se complementam de maneira a manter e aperfeiçoar o funcionamento do órgão. A própria convergência, decorrente da unidade original, assegura uma continuidade de direção, e não o acaso.

Para Lamarck as variações são devido a causas externas, o olho seria atribuído à atuação da luz sobre a matéria organizada, cuja estrutura ela modifica. Ora, afirma Bergson, a vida se adapta à matéria para poder agir sobre ela, efetivamente o olho não foi feito pela luz, mas para a luz, a fim de dela se utilizar.

Os neolamarckianos, por sua vez, atribuem ao ser vivo a faculdade de se adaptar ao meio por um esforço ativo. Tal explicação faz apelo a um princípio psicológico e admite que um mesmo esforço, para tirar partido das mesmas circunstâncias, chega aos mesmos resultados. Ora, nada prova, afirma Bergson, que a toupeira tenha se tornado cega porque ela habituou-se a viver sob a terra; mas antes pelo fato de seus olhos estarem em vias de se atrofiar que ela se

condenou à vida subterrânea. Não é o órgão que define a função, mas a função é que definirá a forma orgânica.

A razão de tudo não está, pois somente nos obstáculos que a natureza apresenta, mas antes no ato simples e indivisível do princípio espiritual que organizou a função e estrutura dos órgãos para tirar proveito da matéria, a qual lhe serve como meio para atingir seus fins infinitamente criativos. Tudo isso se dá não por um esforço individual, mas pelo dinamismo interno inerente ao impulso universal. A evolução se dá, pois de dentro para fora, da qualidade da substância à sua expressão quantitativa nos corpos. O aperfeiçoamento de certas disposições naturais explica-se, portanto, não pela hereditariedade de hábitos adquiridos, mas pela crescente manifestação de tendências que passam de germe em germe, dada a continuidade do impulso primitivo.

Portanto, a evolução não somente é contínua, mas continuamente criadora, pois o princípio espiritual que a gera consiste em uma realidade virtual, mas infinitamente perfectível, a lei interna que o habita é a do progresso. E pelo fato de o princípio ser imanente, perfectível, a criação ou diferenciação continua sem cessar, e a atualização de sempre novas tendências torna-se forçosa; efetivamente a incessante criação e aperfeiçoamento dos entes explica-se pelo impulso de transcendência, enquanto atributo do Espírito.

Sua imanência, sua contemporaneidade ao existente, explica a identidade de desenvolvimento e convergência de estrutura das espécies, mesmo em linhas divergentes de evolução. O que ocorre é que as diferenças entre os grupos estão na proporção de propriedades comuns da origem, trazidas porém a um grau de atualização que se tornam complementares. É assim que diferenças qualitativas exteriorizam-se em diferenças quantitativas, dando origem a diversidades

especificas; eis porque o grupo difere antes pelas tendências, ou virtualidade substancial, que tende a acentuar do que pelos caracteres agrupados em gêneros,

abstraídos do fenômeno em sua aparência exterior.

Efetivamente a forma mediadora de a vida alcançar seus objetivos se dá através da diferenciação de grupos e oposição de tendências: torpor vegetal e mobilidade animal, instinto e inteligência, as quais na verdade não se negam, não se excluem, posto que não existem em estado puro, mas consistem em direções da substância, que se mantém total nas várias manifestações na natureza. Tal divergência resolve-se na identidade da origem, que se atualiza e se diferencia no mundo fenomênico, e converge também através da identidade natural de estruturas do real. Movimentos contrários oferecem condições para o reencontro do princípio espiritual consigo mesmo, através das estruturas do real.

No documento UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (páginas 90-95)