3. UM RECUO NO TEMPO: MUDANÇA GRADUAL E APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS
3.3 A história de Pasteur
3.3.6 Annales de L’Institut, Pasteur e ‘Pasteur’
A análise do movimento dos higienistas, que se mistura com o dos bacteriologistas e dos cirurgiões foi feita, sobretudo, com base na Revue Scientifique, a revista semanal de divulgação científica. Para seguir o movimento de Pasteur e dos pasteurianos, Latour se baseia nos anais publicados pelo próprio Instituto Pasteur. Por vezes, em seu discurso, Latour diferencia Pasteur de ‘Pasteur’. Sem aspas, seria referência ao cientista. Com aspas, seria referência ao homem a quem se atribuiu tudo. Ao analisar os Annales de L’Institut Pasteur, a intenção de Latour é tratar do homem Pasteur, sem aspas.
Latour acredita, então, que há dois tipos de discursos: um sobre o homem e um sobre um nome que representa uma multidão. Podemos dizer que Latour dá a entender que, ao analisar os anais do Instituto, ele estará falando e tratando de algo mais real, mais do indivíduo ele mesmo, coisa que quem tratava de ‘Pasteur’ não fazia:
‘Pasteur’ ou ‘bacteriologia’ são nomes dados às multidões. Tentar escrever a história dessas fantasmagorias ou tentar fazer um produto do outro seria como escrever a história da França com base na imprensa popular cheia de crime, sexo ou casamentos aristocráticos. [...] Devemos agora tentar entender o que Pasteur, o homem – Pasteur sem aspas – e sua equipe fizeram neste movimento (LATOUR, 1993, p. 60).
Não se pode negar que a pretensão de leitura neutra somada a passagens como estas, que dão a entender o discurso mais direto, em oposição a meras interpretações, reforçam as críticas que Latour viria a receber, as quais o classificavam como realista ingênuo. Bloor estava entre eles. Pode-se pensar que há um certo tom de realismo ingênuo, até mesmo um pouco contraditório, nas afirmações de Latour. Contudo, mesmo querendo tratar mais do homem Pasteur, a análise de Latour se concentra não só no trabalho dele, mas no que ele chama de pasteurianos – ou aqueles que trabalhavam com o cientista ou próximos a ele. Pasteurianos, assim como higienistas, são, para Latour, definidos pelo seu estilo (que, como dissemos, pode nos remeter ao termo estilo de pensamento, de Fleck). Para Latour, os pasteurianos são aqueles que mobilizaram o laboratório para a sociedade e a sociedade para ele.
Apesar de uma revista ser destinada a um público mais amplo e os anais serem destinados a um público mais especialista, Latour faz questão de dizer que ambas fazem parte da atividade científica em ação. A luta de forças está tanto em uma como em outra. Força, que erroneamente se atribui somente aos ambientes políticos, também é encontrada em domínios mais especializados da ciência, afirma ele. As revistas, tais como outras ações dos cientistas, são meios de construir credibilidade e tornar fatos científicos disputáveis ou não.
A análise de Latour credita ao laboratório parte do triunfo dos pasteurianos, incluindo o próprio Pasteur. Assim como ele fez em Vida de laboratório, há uma valorização da atividade que ocorre nele, mesmo que indireta, para o desenvolvimento da ciência. Conforme Latour, os pasteurianos teriam trazido o debate dos demais grupos para a área que dominavam. Esta área era definida pelas pesquisas laboratoriais. Para Latour, contudo, não podemos chamar essa ação dos pasteurianos de uma estratégia. Assim como na análise do autor russo em Guerra e Paz, Latour faz questão de afirmar que, diferente de uma estratégia – que pressupõe um movimento racional e bem ordenado –, o que está em cena, segundo ele, são deslocamentos, sem um plano exatamente definido anteriormente195. Há uma forte oposição de Latour, em todo o livro, à ideia de um caminho pré-definido, que possa conter regras rígidas, como na noção comum de plano estratégico ou de filosofias normativas ou prescritivas.
O deslocamento ao qual Latour se refere é o esforço dos pasteurianos em deslocar os resultados de suas pesquisas laboratoriais para os interesses dos demais grupos da sociedade.
Seus trabalhos mostraram a relações dos microrganismos com as demais doenças, com os contágios, com os miasmas. Latour não ignora a importância do trabalho experimental realizado no laboratório. Foi por meio dele que foi criado, por exemplo, o conceito de ‘doença experimental’. Na tentativa de fazer seus pequenos agentes invisíveis tornarem-se visíveis, desenvolveu-se colônias de microrganismos puras, inocularam-nas em outros organismos, foram criados grupos de controle, colocaram-nos em ambientes propícios para a sua reprodução, as colônias foram fortalecidas, expostas ao oxigênio, foram enfraquecidas, manipuladas, multiplicadas, colocadas em tubos de ensaios, levadas a experimentar situações diversas e em períodos diversos. Latour chega a afirmar que os pasteurianos violentaram seus agentes, em uma infinidade de maneiras, as quais eles, os micróbios, não tinham antes enfrentado. Segundo Latour, os cientistas os alteraram e eles alteraram os cientistas e o mundo.
Ao descrever, de modo geral, os esforços laboratoriais dos cientistas e as situações adversas às quais eles submeterem os microrganismos, Latour parece ter por intuito cumprir um de seus objetivos, que seria tratar do conteúdo do conhecimento científico. A linguagem que ele utiliza para isso, contudo, é bastante diversa da habitual.
195 “Para entender seu trabalho, eu poderia ter usado a palavra ‘estratégia’. Mas [...] é ainda muito racional para explicar as operações em questão. Como Tolstói nos mostrou, os estrategistas não podem ser analisados em termos de estratégia. [...]. É suficiente falar de ‘deslocamento’. Os pasteurianos se colocam em relação às forças de higiene que descrevi, [...]: saem para encontrá-las, seguem na mesma direção, então, fingindo dirigi-las, as desviam muito ligeiramente, acrescentando um elemento que é crucial para eles, ou seja, o laboratório” (LATOUR, 1993, p. 60).
Não foi, contudo, a eficácia do experimento em si que bastou ou seu aspecto revolucionário. Latour diz que aquilo que impressionou os envolvidos foi a justificação que os pasteurianos forneceram aos higienistas, por exemplo. Latour não fala em êxito ou correspondência entre teoria e fatos. Ele fala em tradução. Os interesses de cada agente, incluindo os dos micróbios, teriam sido traduzidos. Para Latour, os agentes fizeram alianças com o objetivo de contemplar os seus interesses. Em cada uma dessas traduções de objetivos ou da relação do ângulo de suas trajetórias perdem-se informações. Latour afirma que o entendimento entre os grupos é sempre parcial. Eles só precisam achar que os interesses são os mesmos. O que os higienistas chamavam de miasma, aquilo que se propagava pelo mal odor dos cadáveres em decomposição, não precisava ser exatamente o que os pasteurianos entendiam ou queriam entender ao tratar de fungos, bastava que eles acreditassem que seus interesses eram os mesmos. Por isso a vaguidade dos interesses, das definições, diferente de uma estratégia rígida, contribuiu também para o deslocamento de forças. A maneira tal como Latour oferece agência aos não-humanos pode soar bastante estranha aos desavisados:
Os agentes humanos ou não-humanos estão interessados em alguma outra aliança somente se eles veem que seus interesses são servidos por ela ou o que eles são levados a acreditar que são seus interesses. [...] Mas isso não significa que os grupos se entendessem bem. A tradução é, por definição, sempre um mal-entendido, uma vez que os interesses comuns são, a longo prazo, necessariamente divergentes (LATOUR, 1993, p. 65).
Ao tratar de Pasteur ‘ele mesmo’, Latour parece quebrar o seu protocolo, mais uma vez, de falar somente das revistas pré-determinadas. Ele conta a história de que Pasteur começou sua carreira como cristalógrafo, ao tratar de cristais. Depois Pasteur passou a trabalhar e pesquisar com processos de fermentação, ao centralizar seus trabalhos em bebidas fermentadas, como cerveja, vinho e vinagre. Depois tratou de doenças relacionadas aos bichos-da-seda. Em cada uma dessas atividades, conforme a análise de Latour, Pasteur se envolveu cada vez mais em trabalhos onde havia mais e mais interesses de outros grupos sociais. Desde fazendeiros até indústrias196. Relaciona também seu trabalho ao levar, como método de trabalho, o desenvolvimento em laboratório. Em seu ambiente de trabalho, os pasteurianos puderam fazer dois movimentos: recrutar aliados (outros agentes) e negociar sua eficiência.
Latour afirma que a compreensão do trabalho de Pasteur pode ser analisada em três etapas:
196 “Sempre que esperamos que ele persiga o desenvolvimento de uma ciência em que ele terá algum sucesso, Pasteur escolhe não prosseguir esta investigação fundamental, mas dar um passo de lado para enfrentar um problema difícil que interessa a mais pessoas do que ele tinha apenas abandonado” (LATOUR, 1993, p. 68).
1. Primeiramente, o laboratório é levado ao lugar onde o fenômeno ocorre.
2. Em segundo lugar, o fenômeno é levado a um lugar seguro, ou seja, o próprio laboratório.
3. Em terceiro lugar, os trabalhos são reaplicados nas condições iniciais. Latour se refere ao esforço dos pasteurianos em irem às fazendas, às cidades, aos hospitais, para mostrar as relações entre aquilo que fizeram na segurança de seus laboratórios e os interesses dos demais grupos.
Conforme Latour, o laboratório era o sustentáculo do trabalho de Pasteur. Latour reafirma a importância dele por várias vezes em sua obra. Mas ele sozinho não bastava. Os pasteurianos eram somente um dos muitos grupos que trabalhavam neles. Latour parece afirmar que a diferença entre eles e os demais cientistas que possuíam seus laboratórios foi ter conseguido mobilizar os novos agentes e traduzi-los aos interesses dos demais. Isso era feito por meio das três etapas. Latour exemplifica a questão ao mostrar o esforço dos pasteurianos ao fazer a tradução dos resultados do laboratório para os fazendeiros, interessados em resolver os problemas trazidos pelo antraz ou carbúnculo, doença comum em animais de pasto. Pasteur teria ido a campo e trabalhado em laboratório para mostrar a relação entre bacilos e a doença de animais. Inoculou microrganismos em fenos. Alimentou os animais. Não foi o suficiente.
Utilizou-se de cardos, plantas com espinhos, que machucam os animais. Adicionou-as às dietas e ao ambiente de experimentação. Por fim, os animais teriam sido infectados.
Sobre a existência dos micróbios, Latour afirma que eles não existiam, ao menos pragmaticamente, antes do trabalho de deslocamento promovido pelos pasteurianos. Deste modo, pragmaticamente, eles não existiam antes. Foi o trabalho em laboratório e suas traduções que os tornaram existentes. Latour, que defende uma simetria generalizada e a ausência de oposições conceituais, parece não ter problemas, em alguns momentos, em dividir o que é teoria e o que é prática:
No laboratório, qualquer objeto novo é inicialmente definido por inscrever no caderno de laboratório uma longa lista do que o agente faz e não faz. Esta definição do agente é aceitável, mas corre o risco de nos trazer um novo problema filosófico. O micróbio existe antes de Pasteur? Do ponto de vista prático – eu digo prático, não teórico – não.
Certamente, Pasteur não inventou o micróbio do nada. Mas ele moldou-o, deslocando as bordas de vários outros agentes anteriores e movendo-os para o laboratório de tal forma que eles se tornaram irreconhecíveis (LATOUR, 1993, p. 80).
Neste momento, Latour parece defender uma posição que poucos questionariam. Não basta que um cientista diga que algo é como tal para que tal informação se torne aceita pelos outros. A descoberta não é algo que simplesmente ocorre. É preciso haver essas traduções de
interesses em outros ramos da sociedade e da academia para que ela passe a existir, pragmaticamente. Mas isso quer dizer que, do ponto de vista teórico, Latour defenda que ele existia antes? Latour responde que a atribuição de existência é sempre retroativa. Ou seja, após o próprio ato da descoberta é que dizemos, por exemplo, que o antraz existia. Se insistirmos na pergunta: mas ele realmente existia? Latour, provavelmente, nos responderia que, após a descoberta dele, sim197. O algo a mais, para dar existência a um ‘fato’, Latour chama também de ‘teatro da prova’. No caso de Pasteur, um pedaço desse ato teatral foi o experimento público realizado na cidade de Pouilly-le-Fort.