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3. UM RECUO NO TEMPO: MUDANÇA GRADUAL E APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS

3.3 A história de Pasteur

3.4.2 O principio da irredutibilidade

O primeiro parágrafo numerado de Latour, o 1.1.1, enuncia o seu ‘princípio’ de irredutibilidade. Nele, já pode ser observada uma de suas ‘contradições’. Latour afirma que nada é redutível ou irreduzível a nada. Afirma também que seu princípio não é algo que governa alguma coisa:

1.1.1 Nada é, por si só, redutível ou irreduzível a qualquer outra coisa.

Chamarei isso de ‘princípio da irredutibilidade’, mas é um princípio que não governa, uma vez que isso seria uma contradição (LATOUR, 1993, p. 157).

Se analisarmos essa defesa a partir da lógica clássica, por exemplo, temos problemas evidentes. O princípio do terceiro excluído afirma que toda sentença deve ser ou verdadeira ou falsa, não há uma terceira possibilidade. Se afirmamos, por exemplo, que ‘algo possui tal cor’, ou isso será verdade ou será verdade que ‘algo não possui tal cor’. Soma-se a isso o princípio da não-contradição, que afirma que não é possível que algo seja verdadeiro e falso ao mesmo

momento, e concluímos que não pode ser o caso que ‘algo possua e não possua tal cor’. Latour, ao defender que nada é nem redutível nem irreduzível a nada está ferindo o princípio do terceiro excluído. Afinal, segundo ele, ou algo é redutível ou algo não é irredutível (não redutível). Não poderia ser o caso de uma terceira opção.

Além disso, ao defender que seu princípio não governa, ele fere o princípio da não contradição, ao menos, se entendermos princípio em sua acepção comum. A palavra ‘princípio’

possui dois significados principais. O primeiro deles refere-se a início. Neste sentido, ser o princípio de algo é estar em seu começo. Dizemos, por exemplo, ‘no princípio da Terra, o homem não existia’. Com isso, queremos dizer que, em um tempo anterior ao nosso, houve um período que não havia seres humanos. O segundo significado de princípio refere-se a ‘governo’,

‘comando’ ou ‘direção’. Nesse sentido, que é o comumente utilizado por filósofos, ‘princípio’

significa aquilo que dirige ou que governa alguma atividade. Algum filósofo poderia dizer, por exemplo, que o princípio da ciência é a lógica. Isso significaria que o que rege a atividade científica são as regras lógicas. Seriam elas as responsáveis por guiar o empreendimento científico. Para fazer ciência, necessariamente deveríamos segui-las. Este princípio ofereceria, então, a direção a ser seguida aos interessados a fazer ciência. Karl Popper, por exemplo, sugeriu algo próximo a isso, ao enaltecer o modus tollens como a forma lógica da possiblidade de falseabilidade das teorias científicas203. Diferente disso, ao estabelecer uma indicação, tal como a proposta por Latour, o significado que se espera da palavra ‘princípio’ estaria vinculado à noção de governo. Por isso, ao afirmar que seu princípio não governa, Latour estaria ferindo o princípio da não contradição. Afinal, algo não poderia reger e não reger algo ao mesmo tempo.

A defesa de Latour recorda a de Paul Feyerabend, que, de seu modo irônico e provocativo, afirma existir apenas um princípio que poderia ser aplicado a toda a ciência e em todas as fases de seu desenvolvimento: o princípio do tudo-vale: “[...] há apenas um princípio que pode ser definido em todas as circunstâncias e em todos os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio do tudo-vale”. (FEYERABEND, 2003, p. 43). Ao defendê-lo, Feyerabend age de modo provocativo. Afinal, se o princípio dá a direção para algo, afirmar que tudo é permitido seria o mesmo que afirmar que é possível seguir qualquer caminho. Se pudermos seguir qualquer direção, não teríamos um princípio – no sentido de direção – pré-estabelecido. Para Feyerabend, este era um modo de criticar ‘indiretamente’ os filósofos contemporâneos a ele. Feyerabend não defende, contudo, que a atividade científica seja um caos ou que os cientistas não seguem regras em momento algum. A crítica principal dele não

203 Cf. POPPER, 2006.

era aos cientistas, mas aos filósofos e historiadores que tentaram descrever a ciência com uma ou poucas simplificações: “[...] minha intenção não é substituir um conjunto de regras gerais por outro conjunto da mesma espécie: minha intenção, ao contrário, é convencer a leitora ou o leitor de que todas as metodologias, até mesmo as mais óbvias, têm seus limites”

(FEYERABEND, 2003, p. 49). As críticas de Feyerabend, contudo, não se esgotam em apontar as limitações dos modelos propostos por outros filósofos. Ele também propõe, de algum modo, maneiras as quais incentivariam o progresso científico. No mesmo caminho das provocações anteriores, Feyerabend afirma que a análise do princípio do tudo vale estabelece

‘contrarregras’204. Esta defesa é provocativa no mesmo sentido do princípio do tudo vale.

Afinal, se existisse uma regra contrarregra, então não existiriam regras. Feyerabend defende que a contrarregra aconselha a introduzir hipóteses inconsistentes com as teorias e fatos bem estabelecidos pela ciência. Estabelece-se o que ele chama de a contrarregra da contra indução205.

No caso de Latour, ele também estava ciente de tal contradição. Reveja o que ele afirma: “Nada é, por si só, redutível ou irreduzível a qualquer outra coisa. Chamarei isso de

‘princípio da irredutibilidade’, mas é um princípio que não governa, uma vez que isso seria uma contradição” (LATOUR, 1993, 157). Diferente de Feyerabend, contudo, Latour não deixa explícito sua ironia ou o seu jogo de palavras. Afinal, como vimos, ele acredita ter alcançado seu objetivo, ao apenas ‘seguir os autores’, e não ter reduzido a história da pasteurização da França a causas sociais ou forças. Mas Latour, apesar de chamar seu ‘contra princípio’ de irredutibilidade, não se contentou em afirmar que nada é redutível, mas defendeu também que nada é irredutível. É curioso, então, a escolha do nome de seu capítulo de livro Irreduções e de seu ‘contra princípio’. Seguindo seu conselho, ele bem poderia ter sido chamado de ‘princípio da redução’ ou de ‘reduções’.

Apesar de possíveis semelhanças, recordando a ‘contrarregra’ de Feyerabend, Latour se opõe ao método do tudo-vale. Para ele, nada pode ser equivalente e são as associações entre agentes que permitem os tornar diferentes e que permitem que as assimetrias sejam produzidas.

Para Latour, os relativistas, ao defenderem que tudo vale, perdem a possibilidade de analisar como as diferenças são criadas:

204 “Examinar o princípio em detalhes concretos significa traçar as consequências de ‘contrarregras’ que se opõem a regras bem conhecidas do empreendimento científico” (FEYERABEND, 2003, p.45).

205 “A contrarregra correspondente aconselha-nos a introduzir e elaborar hipóteses que sejam inconsistentes com teorias bem estabelecidas e/ou fatos bem estabelecidos. Aconselha-nos a proceder contra indutivamente”

(FEYERABEND, 2003, p.45).

1.3.6 Uma vez que nada é equivalente, ser forte é fazer equivalente ao que não era.

Desta forma, vários agem como um. [...] [...] Se todos os discursos parecem ser equivalentes, se parece haver ‘jogos de linguagem’ e nada mais, então alguém tem sido pouco convincente. Este é o ponto fraco dos relativistas. Eles falam apenas de forças incapazes de aliar-se com os outros para convencer e vencer. Repetindo ‘tudo vale’, perdem o trabalho que gera inequivalência e assimetria (1.1.11) (FEYERABEND, 2003, p.169).

Vale citar que Latour já se manifestou, em textos posteriores, que sua ideia seria diferente da de Feyerabend. Para Latour, não há o que se opor à razão, mas deve-se colocá-la como objeto de análises, mostrar como ela se constitui. O mesmo valeria para a ‘não-razão’:

“Ele [o princípio da simetria] não defende a luta romântica que Paul Feyerabend leva contra

‘Razão’, uma vez que ele não diz nada sobre a questão” (CALLON e LATOUR, 1982, p. 25).

Não nos parece, de qualquer maneira, que os interesses de Latour estejam tão distantes de compreender a razão. Talvez, ele não queria entender ou determinar um mecanismo único para ela, mas ao querer entender como construímos o que entendemos por razão, seu discurso também trata dela, mas de outra maneira, a partir de outro escopo e com outros interesses ou objetivos.