1. UMA CAUSA COMUM: DAVID BLOOR E BRUNO LATOUR
1.2 Bruno Latour, a sua versatilidade e a antropologia da ciência
1.2.5 Mito, cultura e o objeto de estudo do laboratório
O próprio observador passou pela experiência de compreensão do que era pesquisado no laboratório. Segundo ele, sempre que questionava os cientistas sobre o que eles faziam, ele recebia a resposta de que eles lidavam com a pesquisa em neuroendocrinologia. Quando questionados sobre o que era isso, ofereciam rápidas descrições, citavam nomes de fundadores e relatavam mudanças de concepções durante a história do campo de pesquisa. Havia um pequeno enredo já definido pelos cientistas para responder a questões como essas. Tal situação levou o observador a afirmar que, tal como ocorre em outras tribos, a dos pesquisadores sob
análise possuía os mesmos atributos de uma mitologia. Uma mitologia, nesse caso, é justamente como os membros de uma determinada etnia relatam o seu surgimento e a sua história84.
Quando nos referimos a um mito, comumente queremos nos referir a algo inventado ou que não é real. De alguma forma, a história contada pelos cientistas sobre suas próprias origens foi construída. No entanto, não significa que tudo é inverídico. Os mitos não estão sujeitos ao regime da verdade ou da correspondência com os fatos; a sua importância está na sua funcionalidade, isto é, na sua capacidade de organizar holisticamente o mundo, os seres e suas relações, dispondo-os hierarquicamente nos mais diferentes domínios (sociais, religiosos, matrimoniais, políticos etc.) Após uma análise feita pelo observador, por exemplo, ele percebeu que o número de publicações envolvendo neuroendocrinologia nos anos 50 – justamente o período descrito pelos cientistas – teve um crescimento exponencial85. O relato é, antes, uma simplificação e uma transformação dos acontecimentos. Nesse recontar, eventos complexos são reduzidos a versões simplificadas. Todo esforço árduo dos participantes é transformado em uma mera luta entre ideias, na qual apenas celebridades saíam vitoriosas.
A história contada pelos cientistas da neuroendocrinologia se assemelhava a isso.
Depois dos anos 40, houve uma junção entre dois campos de estudos: neurologia (ciência do sistema nervoso) e endocrinologia (ciência do sistema hormonal). Segundo os cientistas, a junção aconteceu porque, após a segunda guerra mundial, foi percebido que células nervosas poderiam secretar hormônios e que não havia conexão nervosa entre o cérebro e a hipófise (uma glândula na base do crânio), para que houvesse uma conexão entre o sistema nervoso e o hormonal. Depois de um período de confusão conceitual, houve um súbito momento, em 1950, no qual as ideias se cristalizaram e passaram a fazer sentido. Uma perspectiva chamada de
“modelo de realimentação hormonal” prosperou.
A distinção entre um e outro campo de estudo – no caso, neuroendocrinologia – foi fundamental para os cientistas. A partir dela, são estabelecidas redes de contato entre cientistas e laboratórios. O cientista passa a pertencer a uma cultura. Nesta cultura, está incluída também uma série de crenças, valores, costumes, regras estabelecidas ou tácitas, tradições, habilidades
84 “Neuroendocrinologia parecia ter todos os atributos de uma mitologia: tinha seus precursores, seus fundadores místicos e suas revoluções” (LATOUR e WOOLGAR, 1986, p. 54).
85“A mitologia por meio da qual uma cultura se representa não é, necessariamente, completamente falsa. Uma contagem das publicações por exemplo, mostra que o crescimento de artigos tratando de neuroendocrinologia depois de 1950 foi exponencial” (LATOUR e WOOLGAR, 1986, p. 55).
manuais e compromissos compartilhados. Nesse contexto, Latour sugere que o termo ‘cultura’
– utilizado amplamente no campo da antropologia – seja identificado ao termo paradigma86. O observador, com passar do tempo, compreendeu também que dentro de um paradigma, são identificados sub-paradigmas ou subculturas. Ou seja, uma rede de trabalho e uma série de compromissos, regras, valores etc. compartilhados por um grupo menor de cientistas, dentro do grupo mais abrangente. Enquanto a cultura geral afirma que o cérebro controla o sistema endócrino, eles vão adiante e afirmam que o cérebro controla o sistema endócrino e que esse controle é feito por meio de substâncias químicas (fatores de liberação) – que são de natureza peptídica (união de aminoácidos). Nesse sub-paradigma, os cientistas identificavam seu trabalho ao lidar com substâncias chamadas de fatores de liberação. Segundo eles, seu principal trabalho era para isolar, caracterizar, sintetizar e entender as reações desencadeadas por esses fatores.
A partir do entendimento do que era pesquisado, o observador levantou os principais tipos de pesquisa no laboratório (programas), o número de artigos publicados em cada um deles e o número de citações geradas pelas publicações. É interessante perceber que, assim como os cientistas, a pesquisa de Latour faz uma série de levantamentos empíricos, os transforma em gráficos e os compara com os relatos dos cientistas. Os programas classificados no laboratório eram identificados a partir dos objetivos da pesquisa realizada. Foram identificados três principais. O primeiro lidava com novas substâncias no hipotálamo. O segundo tinha por objetivo reconstruir substâncias já conhecidas. O terceiro procura compreender o mecanismo pelo qual substâncias distintas interagem.
Apesar do observador fazer a leitura do laboratório por meio de uma equiparação a uma tribo ordinária – que possui sua própria cultura e, até mesmo, sua própria mitologia –, é percebido que os próprios cientistas insistem que a atividade que realizam não está associada a coisas tais como uma mitologia. Afirmam que o trabalho deles é diferenciado, porque o interesse deles é nos fatos. De místico ou cultural, não haveria nada87.
Latour frisa que a concepção de fato, desde a sua origem, possui uma concepção ambígua e contraditória. A palavra ‘fato’ deriva do latim facere, que nos remete ao fazer e,
86 “Embora referido como 'cultura' em antropologia, esse conjunto de atributos é comumente classificado com o termo paradigma quando aplicado a pessoas que se chamam de cientistas” (LATOUR e WOOLGAR, 1986, p. 55).
87 “Ao passo que outras tribos acreditam em deuses ou mitologias complicadas, membro desta tribo insistem que suas atividades não são de forma alguma associada a crenças, à cultura ou à mitologia. Em vez disso, eles afirmam estar preocupados apenas com ‘fatos rígidos’” (LATOUR e WOOLGAR, 1986, p. 70).
consequentemente, ao construir. Todavia, ‘fato’ sofreu uma mudança em seu significado e passou a se referir a algo que detém uma realidade objetiva; a algo independente da própria construção de um homem ou de uma comunidade. Eis o ‘paradoxo’ do significado de ‘fato’, enunciado por Latour: seu significado nos remete ao construir, mas seu entendimento comum nos remete a algo sólido, que está no mundo lá fora, independente de nós88.
Lembremos que um dos principais problemas postos por Latour é compreender como um fato passa a ser considerado independente de sua própria produção, mesmo que tenha resultado de relações político-sociais. Outro é determinar, assim como pretendeu Bloor, o modo como a sociologia (representada, aqui, pela antropologia) pode explicar o conteúdo científico.
O fato, neste sentido, é a representação máxima de tal conteúdo, isto é, daquilo de cujo domínio as ciências sociais ou os estudos científicos foram afastados.