3. UM RECUO NO TEMPO: MUDANÇA GRADUAL E APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS APROFUNDAMENTOS CONCEITUAIS
3.3 A história de Pasteur
3.3.4 Grupos de controles: o alistamento de Pasteur
Latour afirma encontrar uma série de grupos de controle (control groups) nos materiais analisados. O termo escolhido por ele parece fazer referência ao utilizado na medicina e nas ciências biológicas experimentais, que definem uma amostragem de experimento que não sofre modificações ou interações, em oposição às amostragens que são submetidas à intervenção. Em experimentos, esses grupos, não ‘manipulados’, servem de parâmetro de comparação. Latour lista alguns dos grupos encontrados nos materiais analisados: higienistas, biólogos, cirurgiões, engenheiros sanitaristas, fisiologistas, veterinários, médicos e médicos militares. Latour também coloca entre eles ‘grupos’ de não-humanos: tuberculose, cólera, difteria, tétano, febre amarela, raiva e peste. Conforme Latour, cada um deles respondeu de forma diferente às propostas de Pasteur.
O gênio do cientista teria sido mobilizar, deslocar, cada um desses grupos, desses outros atores, conforme os interesses de seus estudos. Pasteur e os pasteurianos teriam transladado agentes de outros grupos para agentes de seu interesse. Pasteur acompanhou um movimento em andamento, composto por uma série de agentes. Ele pode até ter precedido alguns movimentos e, em algum momento, a responsabilidade de um conjunto deles foi dada a ele. Não basta, contudo, conforme Latour, como fazem alguns historiadores, afirmar que Pasteur foi o responsável, em potência, por todo acontecimento relacionado a tal episódio científico, como se toda força estivesse contida nele e sido atribuída, a partir dele, aos demais agentes.
3.3.5 Revue Scientifique: Higienistas, cirurgiões, ‘biólogos’...
No início de sua análise, de decomposição de ‘forças’, atribuídas a um só homem, uma das primeiras surpresas de Latour é verificar que Pasteur e suas ideias são poucas vezes citados na revista de divulgação científica, Revue Scientifique. Esta constatação reforça a proposta de Latour, de oposição à hagiografia. Outro ponto relacionado à sua pesquisa a partir desta revista é a relação que os autores fazem entre saúde e riqueza. Buscava-se uma regeneração da sociedade, procurava-se por alguém que pudesse reorganizá-la, para alcançar a prosperidade.
Tais ideais são relacionadas ao movimento dos higienistas, que tinha por interesse a educação da população, a limpeza das cidades, torná-las arejadas, refazê-las segundo moldes mais apropriados, fazer drenos, fontes, escolas, parques, creches etc. Para eles, era preciso livrar a cidade dos doentes, delinquentes e ignorantes, dos sujos e da sujeira. Latour relata isso, tal como se tais ideias fizessem parte de uma ‘infraestrutura’ dada, a qual proporcionou o ‘acúmulo de energia’, preparando o caminho para a chegada de Pasteur. A ‘infraestrutura’ apresentada, como uma necessidade de mudança social, de propor transformações na sociedade em busca de saúde e prosperidade, é tomada como dada pelos próprios autores da revista científica. Os higienistas estavam à procura de algo que unisse suas múltiplas frentes de ação.
Os higienistas são o primeiro grupo de análise, tomado por Latour, para mostrar as traduções realizadas entre seus interesses e forças, para os de Pasteur. A revista científica não teria os definidos precisamente. Por isso, para Latour, higienistas seriam todos aqueles que se declaram com tal. Contudo, Latour também define ‘higiene’, que por consequência, define os higienistas, como um estilo. A utilização de tal conceito levou a alguns estudiosos compararem os trabalhos de Latour com Ludwik Fleck, que utilizou a noção de estilo de pensamento e fez
um estudo sobre a gênese dos fatos científicos, ao analisar a história da sífilis191. O estilo dos higienistas seria aquele que adota uma maneira de fazer ciência, de divulgar suas crenças, sem um argumento central bem definido. Eles oferecem conselhos, mostram preocupação, sugerem remédios, regulamentações, fazem estudos de caso, apresentam estatísticas. Suas preocupações são gerais, eles não possuem uma causa específica para definir, por exemplo, o que é uma doença. Ela pode ser desde bueiros abertos, até a aglomeração de pessoas. Pela falta de atenção em um ponto definido, nada era ignorado. Várias frentes de atuação eram simultaneamente tomadas: comida, urbanismo, sexualidade, educação, forças armadas. Higienistas indicavam três principais agentes, que dificultavam o desenvolvimento de suas ações:
1. A inércia das autoridades públicas;
2. A resistência da população, que ignorava seus interesses;
3. A morbidade espontânea.
Essa última ideia se baseava no fato de não ser encontrada uma causa definida para doenças, mostrando, inclusive estatisticamente, que ora uma doença era atribuída a um local, ora a uma estação do ano, ora certa doença respondia a um tratamento, ora não. Em uma visão que relembra a posição de Thomas Kuhn e de sua defesa do período de ciência pré-paradigmática, Latour afirma que a falta de unanimidade era desanimadora para os higienistas e isso os deixava fracos192.
Latour não cita somente interesses vinculados à área de pesquisa sobre higiene. Ele fala também de levantamentos de fundos para pesquisa, de interesses econômicos, de interesses políticos e uma série de outros interesses ditos sociais. Cientistas procuravam financiamentos para suas pesquisas e ter uma causa específica contribuía para isso. Indústrias queriam vender produtos de limpeza, que pudessem melhorar a qualidade de vida das pessoas. Políticos tinham por interesses instituir políticas públicas.
Latour se mostra surpreso ao observar o período em que Pasteur começa a ser citado na Revue Scientifique, que foi no começo de 1880. Desde o seu surgimento, os artigos não questionam o trabalho de Pasteur, mas simplesmente o aceitam. Latour, contudo, não atribui isso à eficácia ou à verdade das teorias de Pasteur. Outros cientistas teriam apresentado
191 Parte responsável dessa relação entre Fleck e Latour foi motivada pelo próprio Latour. Ele escreveu um posfácio à tradução francesa de Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Nele, ele tenta aproximar o trabalho de Fleck ao seu (Cf. LATOUR, 2005).
192 “Mas, pelo seu alcance e ambição, este movimento permaneceu fraco, como um exército que tenta defender uma longa fronteira espalhando suas forças. [...] Não havia maneira de concentrar as forças do movimento em apenas alguns pontos” (LATOUR, 1993, p. 21)
propostas semelhantes e teriam sido questionados pela comunidade científica. A aceitação do trabalho de Pasteur, segundo Latour, teria sido tão forte que precisaria de algo mais.
Podemos, obviamente, atribuir essa confiança à qualidade da evidência produzida por Pasteur, à eficácia dos tratamentos propostos - enfim, à verdade da ciência pasteuriana. Mas isso é absolutamente impossível, primeiro, porque, quando outros foram apresentados com a mesma evidência, isso foi considerado como questionável e, em segundo lugar, porque a confiança concedida a Pasteur foi tão grande que deve ter sido baseada em outra coisa (LATOUR, 1993, p. 26).
Não é questionado, por ele, se as propostas de Pasteur tiveram ou não êxito e se elas obtiveram resultados práticos. O ponto de Latour é que seria preciso mais do que isso. Ele chega a falar que seria impossível que a eficácia de uma teoria bastasse por si para a sua aceitação.
A unanimidade sobre os trabalhos de Pasteur é reforçada pelos poucos opositores encontrados na Revue Scientifique. Latour lista somente dois: um físico francês, chamado Peter, e Robert Koch, físico alemão. Latour reconhece que os historiadores apontam outras resistências à Pasteur. Contudo, ele recorda que sua leitura é de alguém que tivesse tido contato somente com os materiais por ele analisados. Sobre seus dois opositores, recorrendo ao princípio de simetria, Latour mostra a razoabilidade dos questionamentos deles em oposição ao trabalho de Pasteur. Koch, por exemplo, estaria sendo apenas cauteloso em relação às generalizações feitas por Pasteur.
O êxito de Pasteur e seus similares foi deslocar toda uma série de interesses, que foram renegociados. Após Pasteur ter dado visibilidade aos microrganismos, toda uma série de interesses difusos foi centralizada e transladada para o novo agente. ‘Miasma’ (teoria que identificava os odores da putrefação, em solos e água, como causadores de doenças), ‘contágio’,
‘sujeira’, por exemplo, viraram ‘microrganismos’. Afirma Latour,
Os Pasteurianos, não nos esqueçamos, que não eram mais do que algumas dúzias de homens, inicialmente, partiram por sua vez para dirigir e traduzir o movimento higienista. Na França, o resultado foi tal que o movimento higienista passou a ser identificado com o homem Pasteur e, em última instância, seguindo um hábito muito francês, o homem Pasteur foi reduzido às ideias de Pasteur e suas ideias aos seus
‘fundamentos teóricos’ (LATOUR, 1993, 23).
Conforme Latour, a partir disso, o mundo foi povoado por mais um agente. O nascimento de uma criança, por exemplo, não envolveria mais somente a mãe, a parteira e a criança. Um quarto ator passou a fazer parte da cena: os microrganismos. A proposta de Latour, ao atribuir a Pasteur e aos pasteurianos uma parte da responsabilidade por ter tornado ‘visível’
este novo agente, não deveria nos surpreender. A novidade está em colocar esses novos agentes como pertencentes ao conceito de social. Sim, os microrganismos, para Latour, também são o
‘social’. Eles não são somente algo que participa da natureza. Eles passaram a fazer parte da sociedade, como um todo. Eles a transformaram, assim como a sociedades os modificaram.
Além dos higienistas, outros grupos tiveram seus interesses deslocados e alinhados com as pesquisas de Pasteur. Os cirurgiões já tinham conhecimento sobre os resultados positivos que a assepsia e a higiene traziam. Latour afirma que em alguns momentos, nas revistas em análises, os estudos de Pasteur foram interpretados como o desenvolvimento de algo que os cirurgiões seriam responsáveis, mesmo não tendo o microrganismo evidenciado.
Tal constatação leva Latour a defender que, casos como esses, mostram que não há diferença entre conhecimento e crença. Latour recorre à estranha defesa de que o que há são ângulos de relações entre agentes: “O entusiasmo dos cirurgiões mostra claramente que não podemos distinguir ‘crença’ de ‘conhecimento’. Os graus que levam da indiferença mais céptica ao fanatismo mais apaixonado são contínuos e medem o ângulo de relações entre os agentes”
(LATOUR, 1993, 46). Deixando, no momento, as especulações de Latour sobre crença e conhecimento, o importante é entender que os interesses ou forças dos cirurgiões são deslocados para os microrganismos de Pasteur. Assim como os higienistas, os cirurgiões passaram a ser mais precisos em suas ações.
Conforme Latour, cada um dos grupos sociais envolvidos no processo de pasteurização da França tinha por interesse que o trabalho de Pasteur se tornasse indisputável. Não era simplesmente Pasteur que lutava para convencer os demais grupos a vê-lo como aquele que apresentava uma solução para todos os problemas. Os demais grupos tinham essa vontade. Os higienistas ganhavam em ‘força’ quando apresentavam as questões não como suas pautas, mas, sim, como uma necessidade apresentada por um terceiro, no caso, Pasteur. Não seriam, então, os higienistas que estariam sozinhos reivindicando mudanças. Latour afirma que eram os resultados do laboratório de Pasteur que afirmavam isso. Sobre esse processo de aglomeração e redistribuição de forças, Latour afirma que há dois mecanismos que devem ser distinguidos.
Um primeiro que mostra como tantos agentes estão interessados nos trabalhos de Pasteur e outro que mostra como a responsabilidade de todos é atribuída a uma só pessoa.
Latour faz uma reflexão sobre a relação entre indisputabilidade, progressos em campos de estudo e a noção de tempo. Para Latour, assim como o cientista social deve abdicar de encontrar interesses sociais antes que seus atores os informem, os historiadores devem
abandonar a noção de períodos. São os atores que devem defini-los193. O tempo, então, não teria uma ordem cronológica. São os atores que definem suas conquistas e, a partir delas, tornam o tempo irreversível e determinam aquilo que é indisputável. Latour parece afirmar que é possível que vários anos passem, mas nenhum tempo se passe. Para quem não tinha por interesse em ser um historiador, é, no mínimo, curioso afirmar qual é a melhor maneira para se compreender uma história: “Se realmente quisermos explicar a história, teríamos de aceitar a lição que os próprios atores nos dão. Assim como fizeram suas sociedades, eles também fizeram sua própria história” (LATOUR, 1993, p. 42). Me parece que a única saída para compreender essas
‘contradições’ de Latour seria compreender que ele não quer fazer sociologia, nem história, tal como comumente entendida, mas as quer praticar de outra maneira. Além de acompanhar a construção da ‘natureza’ e dos interesses sociais de cada grupo, Latour propõe que acompanhemos a formação das noções de tempo. Em obras mais tardias, Latour voltará a abordar essa questão. Podemos colocar essa questão como mais uma entre os objetivos e métodos de Latour. Ele não chega a dizer isso, mas poderíamos, talvez, tratar as noções temporais mencionadas em cada artigo que analisamos como mais um agente.
Os micróbios, de novos agentes, tornam-se, então, para os demais envolvidos, indiscutíveis. Passam a compor o ‘social’ e, por isso, a alterá-lo. Conforme Latour, sua posição de unanimidade os torna também autoritários. Lembremos que, para Latour, eles são vistos como agentes. Eles alteram a ciência, as leis, a economia e a moralidade pública. A luta dos higienistas pela regeneração social ganha força com os seres microscópicos194. Leis foram alteradas, normas de higiene foram criadas. Procedimentos de limpeza passaram a ser mais bem avaliados pela sociedade. Não só Pasteur e os higienistas, mas também os micróbios e o mundo se alteraram. Novos serviços e indústrias foram criados e modificados. Os micróbios passaram a também fazer parte da política. Eles alteraram, por exemplo, a divisão e a urgência dos fundos destinados à pesquisa. As análises de Latour mostram toda uma complexidade de relações, as quais é bastante difícil precisar a influência que cada agente tem em outro, ao mesmo tempo que se percebe que eles se impactam mutualmente.
193 “Assim como pedimos à sociologia que abandone seus ‘grupos sociais’ e seus ‘interesses’ e permita que os atores se definam, devemos pedir à história que abandone seus ‘períodos’, seus ‘pontos altos’, seu
‘desenvolvimento, e seus ‘grandes intervalos’. Nada se perderia com isso, pois os atores são tão bons historiadores quanto sociólogos. Algo certamente se ganharia com isso: em vez de explicar os movimentos dos atores pelo tempo e pelas datas, explicaríamos, finalmente, a construção do próprio tempo com base nas próprias traduções dos agentes” (LATOUR, 1993, p. 51).
194 “As catracas do direito científico, do direito jurídico e da moralidade pública devem ser transformadas, uma após a outra, para forçar o ritmo da regeneração social e dar espaço tanto às massas urbanas como aos micróbios”
(LATOUR, 1993, p. 57).