1. UMA CAUSA COMUM: DAVID BLOOR E BRUNO LATOUR
1.1 David Bloor e o Programa Forte em Sociologia do Conhecimento
1.1.3 Os princípios do Programa Forte
Bloor considera que há quatro princípios gerais que definem o Programa Forte. São eles: da causalidade, da imparcialidade, da simetria e da reflexividade22. Cada um deles foi severamente criticado pelos seus adversários e por comentadores. Há quem considere alguns deles mais fundamentais do que outros. Há quem identifique, por exemplo, a novidade das ideias de Bloor no princípio da causalidade. Em contrapartida, há quem a identifique na simetria. Deteremos nossas atenções na maneira tal como Bloor os entendia e citaremos algumas controvérsias, com a finalidade de elucidá-los.
Em primeiro lugar, o princípio da causalidade define que a abordagem do Programa Forte deve procurar as condições – as causas – que ocasionam crenças ou conhecimento.
Quando David Bloor afirma a necessidade de se procurar por causas, seu interesse está voltado às causas sociais, e não a qualquer tipo de causa. É importante ressaltar, contudo, que ele próprio se mostra consciente da ocorrência de vários tipos de causas que, por sua vez, podem também ocasionar crenças ou estados de conhecimento. Desse modo, podemos compreender que ele não está negando a possibilidade de encontrar causas lógicas ou empíricas, por exemplo, para explicar a crença ou o conhecimento. Mesmo para o Programa Forte, não são somente causas sociais que ocasionam crenças, apesar de esse ser o interesse dele.
O conceito de causalidade, contudo, é bastante controverso. A intenção de Bloor é, mediante o princípio de causalidade, que regeria as investigações sobre o conhecimento, impedir a explicação da institucionalização de uma crença por razões que, liminarmente, excluíssem a participação de causas sociais. Sua argumentação, ao nosso entender, destina-se a
20 “O conhecimento, é claro, deve ser distinguido da mera crença – algo que pode ser feito ao se reservar a palavra
‘conhecimento’ para aquilo que é endossado coletivamente, deixando valer como mera crença o idiossincrático e o individual” (BLOOR, p. 18, 2009).
21 “O sociólogo estará interessado em particular pelas crenças que são assumidas como certas, institucionalizadas, ou ainda, investidas de autoridade por grupos de pessoas” (BLOOR, p. 18, 2009).
22 “Esses quatro princípios, da causalidade, da imparcialidade, da simetria e da reflexividade, definem o que será chamado de programa forte em sociologia do conhecimento” (BLOOR, p. 21, 2009).
defender tal princípio como o fundamento da explicação das controvérsias científicas ou dos episódios históricos, que, dessa perspectiva, devem ser encarados como acontecimentos necessariamente multicausais. Ou, em outras palavras, que, para compreendê-los, será necessário recorrer a uma série de explicações, entre elas, as sociais. A metodologia dos cientistas ou seus experimentos não seriam razões suficientes para compreender os motivos de sua institucionalização. O princípio de causalidade seria uma maneira de se opor a causas únicas, ditas suficientes, que bastassem por si.
O problema é que, em obras anteriores ao Conhecimento e imaginário social, a posição de Bloor parecia mais radical. Em um artigo que remete a uma conferência proferida em 1971 e publicada dois anos depois, ao descrever sua proposta, ele afirma que “Este programa pode ser dividido em quatro requisitos. O primeiro é que a sociologia do conhecimento deve localizar as causas da crença, isto é, as leis gerais que relacionam as crenças às condições necessárias e suficientes para determiná-las” (BLOOR, 1973, p. 173). Alegar que a causalidade, pela qual se interessa a sociologia, está relacionada a condições suficientes, é um compromisso maior do que a defesa de que há várias causas que ocasionam o conhecimento. Compare com a sua definição mais tardia: “Ela [a abordagem] deverá ser causal, ou seja, interessada nas condições que ocasionam as crenças ou os estados de conhecimento. Naturalmente, haverá outros tipos de causas além das sociais que contribuirão na produção da crença” (BLOOR, p. 21, 2009). Em suas obras futuras, a questão vinculada a condições necessárias e suficientes é suprimida.
O pesquisador De Paula Gomes23 dedica uma tese de doutorado a tratar desse comprometimento do Programa Forte como uma teoria causal baseada na procura de condições necessárias e suficientes. Segundo ele,
[...] embora as referências posteriores ao princípio de causalidade na obra de Bloor tenham assumido expressões diversas, ele nunca modificou o essencial da sua concepção desse princípio, definido como a procura de leis causais, a busca das condições necessárias e suficientes das crenças. Para ele, a sociologia da ciência deve se basear nesse princípio porque essa é a principal característica da ciência contemporânea (GOMES, 2008, p.20).
Diferente dele, contudo, consideramos que a mudança no modo de apresentação do princípio de causalidade representa um recuo e uma primeira modificação conceitual relevante das ideias de Bloor. O conceito de causalidade, para Bloor, promove sua posição que marca a insuficiência de questões metodológicas ou experimentais para compreender como o conhecimento é estabelecido em uma comunidade. Segundo nossa interpretação, uma causa, para Bloor, possui um significado amplo e brando – poderíamos dizer, mesmo, impreciso – que
23 Vicente de Paula Gomes é, atualmente, professor na Universidade Federal do Piauí.
envolve as condições ou os motivos que contribuem para a formação do conhecimento. É certo que outros autores criticaram Bloor por ele não ter mostrado com clareza o papel das outras causas. Ele não teria indicado de que modo a relação entre uma causa e outra seria realizada.
Latour, como veremos em outro momento, estará entre esses críticos. Concordamos que nessa obra pouco é dito sobre isso. O problema das causas retorna em suas relações com o próximo princípio defendido pelo Programa Forte.
O segundo princípio é o da imparcialidade. Ele orienta que a abordagem deverá tratar de ambos os lados das principais dicotomias relacionadas ao conhecimento e à crença científica.
Ela torna imperativo explicar tanto a verdade quanto a falsidade; a racionalidade e a irracionalidade, o sucesso e o fracasso da ciência. Pretende-se, com isso, reafirmar a capacidade da sociologia de explicar a ciência como um todo, e não somente os seus devaneios24. No nosso entender, esse princípio deriva do de causalidade. A partir do momento em que todo conhecimento deve ter uma causa, o conhecimento verdadeiro, racional e bem-sucedido, assim como os seus opostos, deve também ter uma. É importante dar ênfase a esses três pares que os estudos sociais da ciência devem levar em consideração. Boa parte das diferenças com Latour serão baseadas, em nosso entendimento, não só na expansão do princípio da simetria, mas também na extensão do rol de elementos a serem tratados de maneira imparcial.
O princípio da simetria é sobre a relação dos dois princípios anteriores. Os mesmos tipos de causas, orienta ele, devem incidir sobre as várias facetas do conhecimento científico, de tal modo que os mesmos tipos de causas devem ser evocados para explicar crenças verdadeiras ou falsas e as demais dicotomias mencionadas25. Este princípio também complementa o princípio da causalidade, de acordo com os ideais do Programa Forte. Se fosse admitido somente o princípio da causalidade, seria possível explicar o conhecimento por meio de causas outras que não sociais e, assim, restringir o apelo às causas sociais somente à explicação dos equívocos científicos. Bastaria mostrar, de um lado, as condições de produção daquilo que foi considerado racional por uma determinada comunidade e, de outro lado, outras condições, não do mesmo tipo, daquilo que foi considerado irracional pela mesma comunidade.
Por isso, o princípio da simetria, ao nosso entender, é o ponto principal da defesa do Programa Forte. É ele que determinará que os mesmos tipos de causas sejam evocados para explicar tanto um quanto outro lado das dicotomias recobertas pelo princípio da imparcialidade: verdadeiro e
24 “2. Ela [a abordagem] deverá ser imparcial com respeito à verdade e à falsidade, racionalidade e irracionalidade, sucesso ou fracasso. Ambos os lados dessas dicotomias irão requerer explicação” (BLOOR, p. 21, 2009).
25 “3. Ela [a abordagem] deverá ser simétrica em seu estilo de explicação. Os mesmos tipos de causas deverão explicar, digamos, crenças verdadeiras e falsas” (BLOOR, p. 21, 2009).
falso, racional e irracional, sucesso e fracasso. Não por acaso, o princípio de simetria será um dos principais tópicos de debate entre Bloor e Latour.
Assim como os demais princípios sofreram críticas das mais variadas ordens, não foi diferente o que se passou com a simetria. Conforme Larry Laudan26, por exemplo, o que torna o Programa Forte pouco plausível e lhe ocasiona dificuldades é o princípio de simetria. Seria aceitável sustentar que crenças tenham causas, inclusive as falsas e as defendidas por si mesmas (como poderiam ser tratadas as relacionadas à lógica e à matemática – ver mais adiante), mas isso não quer dizer, conforme Laudan, que elas tenham os mesmos tipos de causas. Bloor teria tratado da mesma maneira três situações referentes ao conhecimento as quais requerem explicações diferentes. Cada uma delas pode ser relacionada a diferentes formas de relativismo.
São elas:
1) Simetria epistêmica: a qual se refere a crenças verdadeiras e falsas.
2) Simetria racional: aplicada a crenças racionais e irracionais.
3) Simetria pragmática: que trata de crenças bem e malsucedidas.
O objetivo de nossa pesquisa não está nas críticas que envolvem acusações de relativismos oriundas de outros lugares que não o próprio debate e diferença entre a proposta do Programa Forte e da Teoria Ator-rede. Contudo, a crítica à indistinção entre os distintos escopos do princípio de simetria evidencia uma estratégia utilizada por Bloor. Ele realmente desconsidera as diferenças entre aquilo que é racional, verdadeiro ou bem-sucedido. Sua defesa é, meramente, sobre como abordar aquilo que uma comunidade considera como tal.
Há outra dificuldade primordial no trabalho proposto por Bloor, apontada por Laudan, com a qual estamos de acordo. Não há uma definição clara do que seria uma causa, do que seriam tipos de causas semelhantes ou do que as diferenciariam. Podemos chamar isso de o problema de classificação dos mesmos tipos de causas ou de problema da semelhança dos tipos de causas (sameness of type of cause). Nas palavras de Laudan, “No cerne da tese de simetria está uma falta de clareza fundamental que dificulta a avaliação dessa tese. Refiro-me à noção de identidade de tipo de causa” (LAUDAN, 1984, p. 55). Muitos outros pesquisadores criticaram Bloor pela falta de precisão na identificação de causas semelhantes e dessemelhantes.
26 Larry Laudan está entre os filósofos da ciência mais conhecidos da contemporaneidade. Entre seus livros, destaca-se Progress and its problems: towards a theory of scientific growth, de 1977, e Science and values: the aims of science and their role in scientific debate, de 1984. Na década de 80, ele entrou em debate direto com David Bloor.
A pesquisadora Karyn Freedman27 reforça a crítica de Laudan. Segundo ela, “parte do problema aqui é que se nos dissermos que devemos explicar todas as crenças que defendemos pelos
‘mesmos tipos de causas’, então precisamos ter alguma ideia de como classificar as causas”
(FREEDMAN, 2005, p. 142). Mendonça28 corrobora as críticas de Freedman, frisando a ausência de uma taxonomia de causas:
Uma das dificuldades remanescentes ao postulado da causalidade diz respeito à noção de sameness of type das causas. Uma coisa é admitir que as teorias, independentemente de serem verdadeiras ou falsas, racionais ou irracionais, são socialmente causadas; outra, completamente diferente, é aceitar que as causas em questão são as mesmas. Talvez fosse necessária a elaboração de uma taxonomia das causas, de modo a se poder explicar mais satisfatoriamente as crenças diferentes, e sobretudo as opostas (MENDONÇA, 2008, p. 47).
Voltando ao Laudan, segundo suas críticas, se a diferença entre causas não é importante ou se Bloor pretende falar de uma maneira geral sobre elas, sua tese seria inócua ou incontroversa. Laudan assume uma versão mais fraca do princípio, que ele próprio extrai da obra de Bloor. Para ele, o princípio da simetria e a defesa do ‘mesmo tipo de causas’ seria apenas uma maneira de dizer (façon de parler). Discordamos, contudo, que isso torne a tese de Bloor incontroversa ou que ela seja apenas uma façon de parler. Conforme ficará mais claro com o desenvolver de nossa pesquisa, defenderemos que a aplicação generalizada do conceito de social ou de causas sociais pode até ser criticada como inócua, mas isso não deixará de ser incontroverso nem eliminará a defesa, promovida por Bloor, da procura pelas causas do conhecimento.
Por fim, o último princípio defendido pelo Programa Forte é o da reflexividade. Ele orienta que os mesmos padrões de explicações utilizados pelo Programa Forte devem ser utilizados para explicar a própria sociologia29 – inclusive a do próprio Programa. Ou seja, o ponto de vista que ele assume para fazer a defesa da sua tese não deve ser encarado como um ponto de vista privilegiado em relação aos demais – uma espécie de ponto de vista de um sujeito transcendental (Kant), o ponto de vista do olho de Deus (Putnam) ou um point-of-view-from-nothing (Nagel). Se o Programa Forte fosse imune aos seus próprios princípios – e, entre eles, à própria reflexividade –, estaria ele retirando da ciência a prerrogativa de ser autoexplicativa
27 Karyn L. Freedman é professora da University of Guelph, no Canadá. Ela fez uma interessante análise sobre a epistemologia naturalizada, defendida por David Bloor, em seu artigo ‘Naturalized epistemology, or what the Strong Programme can’t explain’ (Cf. FREEDMAN, 2005).
28 André Luís de Oliveira Mendonça é professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua tese de doutorado, ‘Por uma nova abordagem da interface ciência/sociedade: a tarefa da filosofia da ciência no contexto dos science studies’, apresenta boas reflexões sobre os problemas enfrentados pelo Programa Forte (Cf.
MENDONÇA, 2014).
29 “4. Ela [a abordagem] deverá ser reflexiva. Seus padrões de explicação terão que ser aplicáveis, a princípio, à própria sociologia (BLOOR, p. 21, 2009).
(de não precisar de explicações sociológicas) e a repassando à sociologia. De acordo com Bloor, defender esse privilégio seria refutar a sua própria teoria. Afinal, é parte da sua argumentação que não existe nenhuma forma de conhecimento ou cultura privilegiada e não há nenhuma dessas coisas que não poderia ser explicada por meio de causas sociológicas.