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1945: ano zero?

No documento A modernidade em Hans Broos (páginas 113-118)

Por isso mesmo, antes de uma total ruptura, predominou continuidade no ambiente pós-1945, pelo menos no que tange ao corpo de profissionais e até mesmo ao tipo de planejamento urbano exercido até então. A evidência do que foi praticado no segundo pós-guerra leva-nos a refutar a tão propagada ideia de “hora zero” como acena o título do filme do conhecido diretor italiano. A ideia de “ano zero” ou “hora zero” e sua alusão a um suposto desmantelamento das práticas e convicções existentes e a um renascimento total é, de fato completamente errônea. São muitos os casos em que a carreira de arquitetos bem sucedidos durante o Regime Nazista segue no pós-guerra de maneira ilesa, como atestam os casos de Friedrich Tamms, Rudolf Hillebrecht, Hans Bernhard Reichow, Hanns Dustmann, Konstanty Gutschow, Rudolf Wolters, entre outros, além de Karl Bonatz, que sucedera Hans Scharoun como Secretário de Urbanismo de Berlim em 1946 e após a divisão da cidade tornou-se Diretor de Planejamento na parte ocidental.

Muitos foram os escritórios de planejamento do governo ou os escritórios particulares que interromperam suas atividades por apenas alguns dias. Helmut Hentrich e seu sócio Hans Heuser, que haviam trabalhado com encomendas da Organização Todt17 para a remodelação de Hamburgo, interromperam suas

tarefas por apenas duas semanas e, então, seguiram adiante.18 O escritório, que

depois passa a ser Helmut & Petschnigg, se transformaria em um dos maiores e mais bem sucedidos dos anos 1950 e 1960 do país.

De fato, estes e outros arquitetos, que haviam trabalhado no setor de “Reconstrução de Cidades Destruídas pela Guerra”, chefiado por Albert Speer, haviam adquirido uma vantagem de experiência junto a atividades que seriam muito válidas nos anos pós-guerra: “eliminação de escombros, abrigos, construção racionalizada de habitação voltada ao futuro, neste caso, sem um planejamento urbano demasiado atencioso.”19

Muitas foram as cidades, entre elas Berlim, Düsseldorf, Hanover, Munique, Nuremberg, que tiveram seus Escritórios de Planejamento chefiados pelos mesmos arquitetos, ou seus colaboradores, dos tempos anteriores a 1945. Em outras situações, estes, mesmos não estando em postos de comando, continuariam a exercer influência decisiva e a definir as diretivas do planejamento pós-guerra, como membros de júris em concursos.20 Mas não eram somente os profissionais

que continuavam ativos; também perduravam projetos do tempo nazista. Para muitos arquitetos, também soluções propostas para aquela época pareciam conservar sua validade. Projetos monumentais daquele tempo chegavam a ser descaradamente apresentados como novos; outros, levemente modificados e propostos.21

Friedrich Tamms foi um destes casos, em que a carreira de antes e após a guerra prosseguiu de forma surpreendentemente intocada. Encarregado a partir de 1938 do novo planejamento de Berlim, e com atividades na Organização Todt e no setor de Reconstrução do Terceiro Reich, Tamms foi nomeado em 1948 Diretor de Planejamento de Düsseldorf e exerceria influência por mais de vinte anos no planejamento daquela cidade. Sob o comando de Tamms, é proposto o plano para a reconstrução e remodelação da cidade. Nele são planejadas amplas avenidas que rasgam a cidade, e seguem diretamente para o núcleo urbano antigo. São previstas, inclusive, estradas com dois andares. Ao contrário, eram os arquitetos de fato modernos, que se autodenominavam “Architektenring,” em alusão ao grupo dos anos 1920 Der Ring que, em sua contra proposta, apresentam um planejamento com diferenciação e hierarquia de ruas, as quais formam círculos e meio-círculos concêntricos, e preservam o centro histórico do grande fluxo

de veículos, e, ainda, com ruas para pedestres. As avenidas largas, de percursos mais retilíneos, o uso de transporte individual com arrojados edifícios, valem a Düsseldorf, nos anos 1950, o título de uma das cidades mais progressistas do país,22 sob a direção de Tamms.

Assim também seguiram os projetos de reconstrução de outras cidades, sustentados por arquitetos com farta experiência neste setor, provenientes do Terceiro Reich. Estes projetos simplificadores, e que reservavam pouca atenção ao ambiente construído, tidos como os mais arrojados e “modernos”, revelam sua inegável proximidade e filiação com a postura adotada no Regime Nazista. Isso leva Pehnt a considerar, também a partir de outros motivos, que a influência da Carta de Atenas – numa Alemanha que, a partir de 1933, é fechada para as influências externas e onde revistas internacionais não circulavam – é exagerada junto à crítica especializada.23

Fig. 3 – Plano para remodelação de Düsseldorf. À esquerda o plano de Friedrich Tamms (1949). À direita a contra-proposta do Architektenring (1950).

A Carta teria sido introduzida no conhecimento dos arquitetos alemães apenas a partir de 1945,24 dois anos após sua publicação. O autor coloca que a principal

questão tratada pela Carta de Atenas – a especialização da cidade e sua separação em partes – não deve ser superestimada. Um dos motivos refere-se ao fato de que desde tempos anteriores a 1933 alguns planejadores e teóricos enfocam a separação de funções da cidade; nisso a Carta de Atenas não seria de modo algum revolucionária. Outra questão é que desde o tempo nazista, a descentralização das construções era vista como a melhor medida de segurança contra ataques aéreos, e o mesmo pensamento prosseguiu nos anos posteriores, em meio à Guerra Fria.25 Tal pensamento, que surgia velado nos projetos urbanos do pós-

guerra, fora oficialmente colocado como diretiva para a formulação de planos urbanísticos em 1938.26

Também o fato de que a Carta promove a Circulação a um dos itens essenciais de que é composta uma cidade, ao lado do Trabalho, Habitação e Lazer, ao invés de ser apenas um meio de comunicação que serve aos demais, não é nenhuma surpresa, já que o automóvel vinha sendo objeto de culto há décadas. Mas até que ponto esta postura simplificadora é fruto do próprio contexto histórico ou do pensamento moderno (ou ambas, já que este também é fruto de seu tempo) é uma questão que ultrapassa o problema aqui proposto. É interessante notar, porém, que a Carta de Atenas e a tão discutida “Tabula Rasa”, podem não ser consequências apenas do pensamento moderno, como a crítica dos anos 1960 tão ferozmente lhe outorgou. Podem ser sim, frutos de uma época de pensamento. Não raramente, a teoria é que acompanha o que emerge na prática.

Isso fica claro ao se analisar projetos urbanos feitos pelos escritórios municipais comandados por arquitetos e planejadores vindos do período Nazista. A mesma monumentalidade exigida e aspirada pelo Regime é colocada em prática no pós- guerra por estes mesmos planejadores, tendo em comum as amplas avenidas que rasgam a cidade, sem demasiada atenção aos estragos feitos. Só que agora, ao invés dos grandes eixos triunfais e dos prédios imponentes num estilo neoclássico, são propostos igualmente grandes eixos, não mais destinados à representatividade do Estado ou às demonstrações públicas, mas com ousados edifícios em altura, com sua estética limpa e cristalina.

No pós-guerra a arquitetura moderna não possuía mais o inimigo comum a ser combatido – o academicismo. Ou melhor, ele ainda sobrevivia, porém mais como um símbolo reacionário de um passado não tão distante, que contava agora com certo repúdio não só da classe moderna, mas em parte da sociedade (principalmente imprensa diária e especializada), e os arquitetos que a ele ainda

se filiavam tratavam rapidamente de mudar deliberadamente sua estética como prova de sua “limpeza” política. No pós-guerra, a arquitetura moderna valeu como “desnazificação”, e ganhou adeptos que não se filiavam tanto assim às suas propostas sociais e reformadoras (já caducas, é verdade), mas que se mostraram rapidamente familiarizados com suas premissas formais, tornando fácil a conversão de escritórios tradicionais para “causa” moderna. A arquitetura do Movimento Moderno talvez não tenha se tornado tão predominante quanto sugerem alguns críticos, mas seguramente torna-se soberana em certos meios; em muitos casos, mais por uma necessidade conjuntural que por uma filiação ético-moral.

Escritórios que até bem pouco tempo construíam nos moldes da estética tradicional e corpulenta do Terceiro Reich, demonstram que aprenderam rapidamente a linguagem do moderno. No início dos anos 1950, Helmut Hentrich e Hans Heuser, provenientes do Terceiro Reich e acostumados à arquitetura imponente, constroem o Edifício Administrativo da Victoria Versicherung (1951), em que ainda é visível o gosto pelo peso, a noção de simetria e de massa. Alguns

anos depois, o mesmo Hentrich, junto de seu novo sócio Hubert Petschnigg entram subitamente e definitivamente na bandeira do moderno. Com o Drei- Scheibenhaus para Phoenix-Rheinrohr (1957-1960) exaltam precisão, leveza e transparência; edifício que se tornou um dos ícones da arquitetura pós-guerra na Alemanha ocidental.

Fig. 4 – Helmut Hentrich, Hans Heuser. Edifício Administrativo da Victoria Versicherung. Düsseldorf. 1951.

Fig. 5 – Helmut Hentrich, Hubert Petschnigg. Edifício Phoenix-Rheinrohr. Düsseldorf. 1957-1960.

No documento A modernidade em Hans Broos (páginas 113-118)