Com inúmeros artigos, livros, escritos elogiosos e apaixonados, que não deixam de ser cansativos e repetitivos ou exagerados, com as famosas frases do arquiteto, geralmente curtas e incisivas, citadas à exaustão, a obra de Egon Eiermann parece ser do tipo que não há nada mais a ser dito. Até mesmo a proposição deste estudo parece ser algo banal na Alemanha (ou que não mereça demasiada atenção); Broos, que não é conhecido por lá (e tampouco o é no Brasil), torna-se tão somente mais um Eiermann-Schüler (discípulo de Eiermann) entre os inúmeros que existiram e que eventualmente formem uma Eiermann-Schule (Escola Eiermanniana). Sendo um dos arquitetos mais conhecidos e divulgados do século XX em território alemão, e um dos principais da segunda geração de modernos, a onipresença de Eiermann em livros de história (alemães) sobre a arquitetura do século passado deve-se não somente a quantidade e à qualidade arquitetônica de suas obras. Suas obras ajudaram a compor o cenário alemão pós-guerra, com obras paradigmáticas, que ajudam a contar trechos de uma história de reconstrução e reerguimento, como a Tecelagem Blumberg e o Pavilhão Alemão da Exposição Mundial de Bruxelas. Como poucos arquitetos em seu país, Eiermann desenvolveu sua obra arquitetônica desde os anos 1930 cuja surpreendente evolução, baseada em determinados pontos notáveis, atravessa os anos 1930 e 1940 e pode ser sentida em sua obra pós-guerra. Conta-se ainda a significativa influência na formação das novas gerações de arquitetos. Professor carismático, ainda hoje, passados mais de quarenta anos de seu falecimento e mais de sessenta anos de sua primeira turma, parece ainda manter fortes e vivas as lembranças na mente de seus alunos. A existência ou não de uma Eiermann-Schule continua sendo, até hoje, assunto polêmico entre críticos, ex-alunos e colaboradores do arquiteto. Ele nunca teria ensinado um estilo de projeto e, sim um método projetual, dizem os que refutam a idéia; e sim, haveria uma escola, pela inegável influência que Eiermann exerceu e os inúmeros discípulos que formou, embora o próprio arquiteto contestasse esta idéia. Entre as características principais desta possível Escola estariam a precisão técnica, a clareza construtiva e formal, e a expressão técnica do edifício extraída de suas soluções estruturais, construtivas e funcionais. Como coloca Wolfgang Bley, ex-aluno e colaborador de Eiermann, os alunos de Karlsruhe eram conhecidos por saber fazer.1
Entretanto, se houve ou não uma Escola de Eiermann, se Hans Broos faz parte dela, excede os objetivos do estudo aqui proposto, tampouco esta questão nos parece
merecer maiores delongas. Em relação a isso, o crítico da arquitetura Wolfgang Pehnt faz uma importante distinção (que extrapola a mera constatação da existência ou não da referida Escola, e que antes nos dá uma interessante visão de dois pólos dentro da arquitetura alemã de meados do século passado), ao diferenciar entre uma
Eiermann-Schule e uma Scharoun-Schule. Pehnt escreve que uma de suas primeiras
tarefas como editor, no início dos anos 1960, foi organizar um dicionário popular sobre a arquitetura moderna internacional,2 e coube à ele selecionar e escrever sobre
dois representantes da Segunda Geração de arquitetos modernos alemães, ou seja: mais novos que Gropius, Mies e Mendelsohn, e mais velhos que Oswald Matthias Ungers, por exemplo. Decidiu-se então por Egon Eiermann e Hans Scharoun: “eles me pareciam as figuras mais fortes no panorama alemão dos anos de 1960 e, além disso, como arquitetos, incorporavam possibilidades opostas em relação ao projeto”.3 E nos revela o porque: “Eiermann, a quem a clareza e a nitidez da forma e
a elegância da solução está presente no coração, Scharoun, examina cada tarefa de tal forma, como se ela lhe fosse apresentada pela primeira vez.”4 Pehnt diz que esta
formulação lhe é ainda hoje plausível: “Ambos os arquitetos, Eiermann em Karlsruhe e Scharoun em Berlim, eram professores carismáticos, que podiam inspirar seus alunos e colaboradores. Seus ensinamentos e suas obras exemplares construídas foram tão intensamente tomadas e trabalhadas que tornam a Eiermann-Schule e a Scharoun-Schule dois pólos de abordagens e modos de trabalhar.”5 “Em Karlsruhe
foi ensinado a arte do ajuste, em Berlim o ajuste da arte. Para o realista Eiermann, eram a construção, o material, a função, a economia, que justificavam a forma em seu discurso, para o vitalista Scharoun, eram torrentes vitais, aspiração à forma, o existencial e o essencial. Para Eiermann dever-se-ia poder basear as decisões com argumentos, para Scharoun ativar a força do espírito criador.”6
Ao contrário de seu colega Scharoun ou do “organicista” Hugo Häring, Eiermann recusava a individualidade e a excepcionalidade da obra pela validade e aplicabilidade das soluções; o “novo” não lhe parecia necessário, quando se podia partir de soluções legítimas e comprovadamente válidas, afinal “nós estamos aqui para fazer sempre coisas novas, ou estamos aqui para melhorar as coisas que já existem?”7 E nesta postura, se aproxima de Mies van der Rohe, que
tendia à repetição de uma solução considerada ideal e universal, a fazer de cada obra um experimento.
No ateliê de Eiermann dominava a Ratio e a eloquência;8 o arquiteto procura
no aspecto construtivo, na correta construção e na estrutura, a justificativa formal de sua obra: “Nós não somos pintores. Nós não somos escultores. Somos arquitetos”9 dizia aos alunos. Precisão, clareza de pensamento e a negação do
Eiermann tinha uma atitude bastante informal com seus alunos, que carinhosamente o chamavam simplesmente Egon, algo significativo num país cujas formalidades de tratamento são algo bastante importante. Raramente preparava as aulas que iria lecionar, quase sempre de improviso e ligadas a um problema concreto, geralmente relacionadas à alguma obra que estava projetando ou executando no momento. Eiermann era um dos poucos professores que também construíam, e trazia problemas práticos de sua rotina do escritório para serem resolvidos em sala de aula. Esta aproximação com a realidade junto aos estudantes – aliada ao desejo por novas construções, alimentado após os anos de sufocamento político – fazia com que os alunos se identificassem muito com o jovem professor. Já no final da década de 1940, pouco tempo após sua chegada à Universidade de Karlsruhe, o crescente número de projetos de seu escritório particular faria com que o endereço de seu escritório se confundisse com sua sala no departamento de arquitetura. Até 1970 ainda era possível ver parte dos projetos de seu escritório na universidade.10
As aulas, que segundo o plano de estudos, eram dirigidas a apenas duas turmas, logo estariam abarrotadas de alunos, com quase todos os estudantes do curso, atraídos por aquela figura radiante, como seus alunos o retratam. Seu jeito espontâneo e carismático, sua linguagem cotidiana e ativa linguagem corporal o afastavam do estereótipo clássico de professor, e logo transformaria as aulas em uma espécie de “espetáculo”, apoiado no talento teatral e de desenho do mestre.11
Em poucos anos o arquiteto construiria uma reputação que lhe valeram nos anos 1950 e 1960 convites para outras universidades alemãs e estrangeiras.
O afluxo de estudantes para Karlsruhe era bastante grande, e a maioria deles dirigia-se para as aulas de Eiermann. Entre 1950 e 1960 o arquiteto contabilizava uma média de vinte e oito formandos sob sua orientação, sobrecarga que fazia parte das queixas do arquiteto. Entretanto, segundo Kabierske, as aulas geralmente ficavam aos cuidados de um assistente formado.12
De 1947 a 1955 Egon Eiermann foi a principal figura dentro do curso de arquitetura da Universidade de Karlsruhe, época em que recebe muitas encomendas e vê seu nome se projetar no cenário nacional e internacional. Seu renome logo se confundiria com a própria escola, que mais e mais estaria centrada na figura do arquiteto e com ele se identificaria. Em breve, a escola seria “uma, senão a instituição de ensino dominante para arquitetos na República Alemã.”13 Externamente, a escola conservaria uma visão de homogeneidade; o
corpo docente – Otto Haupt, Heinrich Muller, Otto Ernst Schweizer e agora Egon Eiermann – correspondiam a uma visão uníssona, direcionada ao ensino dentro da concepção da arquitetura moderna, ao contrário da polarização de
convicções que tinha lugar em Stuttgart, entre figuras como Paul Schmitthenner e Richard Döcker. No final dos anos 1950 veio uma fase de grandes projetos, que projetou de forma incontestável e definitivamente seu nome no cenário nacional e internacional, com obras ambiciosas como o Pavilhão Alemão na Exposição Mundial de Bruxelas de 1958 (1956-1958), a Versandhaus Neckermann (1958- 1961), a Embaixada Alemã em Washington (1958-1964) e um dos projetos mais celebrados, a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche (1957-1963) em Berlim.