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Brutalismo e Neoexpressionismo alemão

No documento A modernidade em Hans Broos (páginas 198-200)

Com os pressupostos modernos desmantelados, já que a arquitetura do período não mais compartilhava da mesma base filosófica e doutrinária, os anos 1950 assistem a um rico e complexo descortino de proposições no panorama arquitetônico mundial, cujas manifestações não se resumem apenas ao chamado Estilo Internacional. Bastante diversa, porém, é a narrativa crítica referente a este período. Em meio às solinhadas bases modernas e à emergência de uma variada gama de arquiteturas impossível de ser “etiquetada” sob uma denominação comum,21 a arquitetura compreendida entre os anos pós-guerra e os anos 1970 tem

sido tratada de maneira simplista, desde uma visão canônica e parcial pela revisão crítica da modernidade, que não privilegia as próprias características do período, mas o vê amarrado a concepções que lhe precedem ou são ulteriores, (neste caso, entre modernismo e pós-modernismo). Exemplo disto é o desconhecimento quase total no Brasil, de boa parte dos arquitetos e obras citados e analisados nesta tese.

Somente o caso alemão já nos dá boas e irrevogáveis demonstrações do variado contexto da época. Nele há a convivência (nem sempre pacífica) de arquiteturas de cunho historicista, nos moldes tradicionais, com fortes influências da arquitetura escandinava, a chamada corrente “neoexpressionista”, arquitetura orgânica, sobretudo nas mãos de Scharoun e seus discípulos (que também passa a ser confundida com a arquitetura neoexpressionista), além, é claro, do Estilo Internacional, baseado nos edifícios norte-americanos.

Enfim, elencar o conjunto destas propostas e suas imensas variações (maior peso da tecnologia em alguns, maior peso do vernáculo em outros) seria tarefa impossível, tampouco nos interessa, além das obras já aqui indicadas. Importa demonstrar, ainda que parcialmente, o quão rica e complexa se mostra a realidade do período e o quão pobre e distorcido tem sido seu retrato junto à crítica que lhe é posterior.

Interessante notar que, mesmo após a reconstrução alemã nos anos 1950 e 1960, os arquitetos alemães conhecidos e divulgados, continuam sendo os mestres da vanguarda, agora em suas carreiras norte-americanas. Dos arquitetos alemães que continuaram no país neste tempo e que se tem maior conhecimento, ao

menos no Brasil, continuam sendo Hans Scharoun, Frei Otto e, posteriormente e com menos ênfase, Oswald Matthias Ungers; ao demais, lhes foi reservado tão simplesmente função anódina ou quase quimérica. Muito mais se comenta as obras do pós-guerra de mestres da arquitetura realizadas na Alemanha, como Mies e Gropius (que pouco construíram em sua terra natal) e Corbusier (Unidade de Habitação de Berlim); ou paradoxalmente, a obra de eminentes visitantes como Alvar Aalto (com diversos edifícios construídos) e arquitetos das novas gerações, igualmente ilustres como van den Broek, Bakema, o escritório SOM, entre outros.

Por este motivo, não é surpreendente que a obra de Egon Eiermann não seja sequer mencionada no Brasil, ou ainda obras de Scharoun (excetuando-se a alardeada Filarmônica de Berlim), ou Gottfried Böhm, ou – extrapolando os limites alemães – até mesmo a obra tardia de Marcel Breuer – que difere substancialmente do Breuer da Bauhaus ou das residências nos Estados Unidos dos anos 1940, a que sempre sua obra é aludida – sejam praticamente ignoradas ou não recebem a devida atenção.

No caso de Eiermann, que interessa a este estudo, parece ser mais paradoxal ainda, o fato de que autores alemães sequer mencionem a existência de elementos brutalistas em seus projetos, ou de obras que, de forma indubitável, se aproximam desta tendência. Sempre analisada a coerência formal de sua obra – o que de fato existe – ela não fica imune à mudança dos tempos. Os elementos formais e estruturais individualizados e exteriorizados de que faz uso como meio compositivo, forte característica de sua arquitetura desde os anos 1940, a partir de fins dos anos 1950 e anos 1960 tornam-se mais expressivos e com alusão a um peso visual e massa corpórea dantes não buscada pelo arquiteto. No Edifício da Neckermann (1958-1961) esta linguagem mais agressiva ganha especial interesse, quando o arquiteto potencializa estas características de sua arquitetura, e recorre agora, ao concreto armado.

Sua última obra, o Edifício da Olivetti, o qual não viu concluído, talvez seja aquela que mais ostensivamente apresenta características brutalistas – mais uma vez, não aventadas pela crítica local, que justifica a escolha estrutural do edifício com pilar central ladeando duas construções mais baixas – influenciados pelo discurso do próprio arquiteto – como, mais que uma opção funcional, uma “imposição” funcional, tendo em vista o vasto programa, o exíguo terreno e suas inúmeras limitações legais. Uma “injunção” que, aliás, toma como modelo o projeto para o novo Centro Administrativo da cidade de Marl na Alemanha (1958, 1962-1967) de Bakema e van den Broek, principalmente, ao compararmos um desenho do arquiteto que precede a solução final. Ambos os projetos se baseiam na concepção do pilar central, de matriz wrightiana, (ícones do Brutalismo Paulista), solução que o arquiteto vinha demonstrando em projetos anteriores não realizados, como para o Edifício da IBM em Böblingen (1965-1966), além de um projeto posterior para a Embaixada Alemã em Moscou (1969). Entretanto, o forte teor estrutural da proposta de Egon Eiermann para a Olivetti, é diluído pela presença das passarelas externas, notórias em sua arquitetura pela leveza e movimentação que sugerem. A proposta que tanto animou as fachadas dos mais importantes prédios do arquiteto, acabaram agora por desfazer a força sugestiva que tal proposição encerra. Ademais, as edificações de um pavimento da Olivetti, já demonstram ser vitimários do mal que abatia o Brutalismo em escala internacional – ostentam certo exagero estrutural, que já ganha ares de ornamentação em aço e negam a limpidez e concisão de obras anteriores. Outro projeto parece incorrer nesta questão, como o Edifício Administrativo da Fischtel & Sachs (projeto, 1964-1966). Além disso, em muitos projetos, a partir dos anos 1960, o arquiteto propõe o edifício escalonado. Solução muito utilizada no Brutalismo, por um lado esteve sempre muito viva na memória do arquiteto,22 mas por outro, revela proximidade à tendência brutalista,

principalmente com o projeto de Habitação para a cidade de Wulfen (1963-1964), onde, ao invés da solução leve da Prefeitura de Essen (1963) ganha formas mais densas e compactas em concreto armado.

No documento A modernidade em Hans Broos (páginas 198-200)