Nos anos 1930 Eiermann projetou casas nos arredores de Berlim que, a um primeiro momento, apresentam-se de um modo bastante convencional. Adaptam- se aos requerimentos da “boa construção” da época: renunciam à cobertura plana e às grandes aberturas de vidro, optando por telhados inclinados e aberturas moderadas. Mas esta adequação não é senão mais aparente do que real: os telhados são apenas levemente inclinados e as aberturas negam displicentemente qualquer noção de simetria. E, mais importante que isso, o modo como são inseridas e se relacionam com o exterior é totalmente diverso do esperado. Nestas casas Eiermann cria um sentido de ligação entre o interior e exterior que será preservado em sua obra pós-guerra, e que pode ser lido, em alguns casos, na “dissolução da fachada”, presente em projetos de diversos programas.
Características de sua fase berlinense, as Residências Bolle (1934-1936), Dienstbach (1936), Matthies (1937) e Steingroever (1937) guardam muitas semelhanças na sua volumetria, nos materiais empregados e no resultado estético alcançado; exemplos de uma arquitetura que também é “sentida” em sua construção e nos materiais. Principalmente as três primeiras são casas bastante compactas e com uma volumetria extremamente simples, dotadas de uma naturalidade e graciosidade que as tornam especialmente interessantes.
As casas parecem tentar conservar em seu interior o mesmo sentido de natureza intocada que é preservada no exterior. O piso externo, de pedra, com recorte irregular, avança pelo interior das casas, até mesmo pelas áreas sociais, sem que os elementos construídos constituam uma barreira ou um limite. Na casa Steingroever, a escada e a meia-parede, feitas em granito com acabamento bruto, fazem referência a uma natureza arcaica que foi trazida para o interior da casa. O espaço construído também é espaço natural. O
arquiteto cria a união entre interior e exterior que não é somente visível, ela é também vivenciada. Na casa Bolle, o jardim de inverno, que delimita a sala de jantar, também contribui para a sensação de uma natureza presente no espaço de convivência. As casas também buscam um maior diálogo com o jardim através da volumetria, ao se desfazerem do bloco único e criarem alas em formato “S”, “L” ou “T”, que podem ser simplesmente a prolongação de um setor da casa. Procuram desta forma, se decompor em partes e tentam criar maiores oportunidades de relacionamento entre interior- exterior. Mas a casa continua sendo um objeto totalmente autônomo; ela se conserva distinta do meio onde surge.
O arquiteto também utiliza elementos naturais e vazados como fechamento e limite entre ambientes, perfazendo no interior da casa a mesma comunicação que realiza entre interior-exterior. Na Casa Bolle, os três ambientes que compõem o setor social são colocados em um único espaço, e o arquiteto os separa apenas visualmente com uma estante de metal e vidro e uma lareira, mas os mantém inteiramente comunicáveis.
O aspecto de naturalidade destas casas também é corroborado pelos materiais utilizados e pelo modo como são empregados. Em todas elas, o arquiteto parte de materiais convencionais e os usa de um modo inesperado, como as pedras utilizadas na cobertura e no piso, com corte irregular, ou então,
Fig. 3 – Egon Eiermann. Residência Dienstbach. Berlim. 1936.
o aspecto rugoso das paredes, feitas com tijolos de barro cobertos com uma fina camada de reboco. Assim também se apresentam as paredes internas das casas, deixadas, por vezes, sem revestimento.
A admiração do arquiteto pelo rústico e pelo simples encontra nestas casas um dos melhores exemplos. Na Casa Dienstbach, o arquiteto chega até mesmo a colocar ratã natural como preenchimento da porta da garagem, por entre a estrutura de madeira. Aquele material será fartamente utilizado em seus projetos de mobiliário a partir de final dos anos 1940, que aliam um desenho acolhedor com a utilização de materiais naturais.
O caráter rústico das casas Bolle e Dienstbach é ainda mais acentuado nas superfícies da Casa Matthies. Nas casas anteriores reconhecíamos a construção da parede, através da superfície irregular mostrada com o fino reboco; na Casa Matthies o arquiteto intensifica seu caráter rugoso e sem muitos cuidados, ao não retirar os excessos das juntas entre os tijolos. Os excessos são incorporados à parede, como parte dela. De maneira geral, o arquiteto mostrou- se sempre um adepto incondicional das superfícies rugosas e do caráter rústico da construção, que concilia com a concepção de volumes mais puros. É o que mostram algumas de suas obras do pós-guerra como as igrejas Matthäuskirche e a Kaiser- Wilhelm-Gedächtniskirche.
Ao mesmo tempo que evitam uma linguagem provocativa, estas pequenas casas nos arredores de Berlim são decididamente contem- porâneas, e se colocam nas antípodas da arquitetura “regionalista” de arquitetos como Paul Schmitthenner ou Paul Schultze-Naumburg. Do mesmo modo, são impensáveis em relação à estética preconizada pela Bauhaus, sua superfície lisa e homogênea, sua cobertura plana e sua pureza volumétrica irretocável.
Fig. 5 – Egon Eiermann. Residência Bolle. Berlim. 1934-1936.
Estas casas representam senão uma congruência na obra de Eiermann: a busca por uma linguagem moderna, mas que amplia o rol de materiais e formas, e sai do moderno estrito que já caracterizava as realizações do final dos anos 1920. Mostram um tipo de orientação
projetual que não é resultado apenas da vigilância oficial no Terceiro Reich. Sua casa Hesse, construída pouco antes do fatídico ano de 1933, já demonstra a linguagem flexível e descontraída, que busca nos materiais tradicionais “humanizar” a arquitetura. O arquiteto segue suas convicções, formuladas desde sua época como aluno de Hans Poelzig,26 e mostra
em que termos sua obra se filia à arquitetura moderna.
Embora tais características sejam também próprias da casa Steingroever, esta se revela uma obra de transição em relação ao modo como se relaciona com o exterior. Neste ponto diferencia-se das precedentes e liga-se às casas “Haus der Dame” (Projeto, 1937) e Vollberg (1939-1942).
A Residência Steingroever possui um programa muito mais vasto que as anteriores; sua planta, em “T”, possui dois pavimentos em sua maior ala; entre duas destas alas, o arquiteto faz um pátio aterrado, no nível do segundo andar, para o qual volta as aberturas das áreas social e íntima, que lhe são adjacentes. Também antes, as casas tinham esta franca conexão com o espaço externo, mas pareciam
Fig. 7 – Egon Eiermann. Residência Hesse. Berlim. 1931-1933.
Fig. 8 – Egon Eiermann. Residência Steingroever. Berlim. 1937. Perspectiva do arquiteto.
ser simplesmente inseridas naquele espaço, sem o perturbar. Aqui o arquiteto delimita o jardim, a casa cria um novo espaço, não se limita apenas a inserir-se num ambiente, transforma-o. Aqui o arquiteto também “cria” o espaço natural. Gradativamente as casas passam a ser mais expansivas e a delimitar o jardim, através do uso de alas e muros, agregando de forma mais incisiva o espaço externo para junto do espaço de convivência. As casas tendem a fundir-se com a natureza e deixam de lado o caráter “autônomo” das primeiras obras. Inicialmente, elas tendem a se inserirem no ambiente natural, sem o modificar; depois passam a “criar” um espaço para si e a delimitar com maior nitidez o espaço externo, transformando-o também em espaço habitável.
Assim ocorre no projeto fictício da casa “Haus der Dame” (1937), solicitada pela Revista “Die Dame”. O arquiteto parte de soluções bastante próximas ao desenvolvido para a casa Steingroever, mas vai além disso. Aqui Eiermann materializa a idéia de um “voltar-se para dentro” levando em consideração todo o terreno, quando o arquiteto ergue muros e pretende que todo o espaço seja habitável. Da mesma forma que antes, o arquiteto delimita o espaço natural, e pretende ampliar o espaço social da casa. É a simultaneidade no projeto da casa e do jardim: o arquiteto os projeta de maneira simultânea e indissociável. Ao contrário daqui, na casa Vollberg (1939-1942) que dispunha de um amplo terreno, a necessidade não era tornar todo ele habitável, mas criar áreas de intimidade e convivência para seus moradores. A solução adotada foi a concepção em várias alas e a delimitação do jardim através de muros baixos, que criam espaços mais reservados e jardins integrados aos ambientes adjacentes. Esta casa, em sua concepção “aberta”, “espalhada” no terreno, se coloca contrária às primeiras casas, mas expõe o desejo sempre presente de unir o interior
Fig. 10 – Egon Eiermann. Residência Vollberg. Berlim. 1939-1942.
da casa com o exterior imediato. A concepção em alas foi o modo encontrado pelo arquiteto para lidar com um vasto programa, e ao mesmo tempo, proporcionar o contato direto com a natureza e locais de maior privacidade.
Nos três primeiros exemplos a casa ainda é um objeto fechado e compacto, um ponto central a partir do qual irradiam-se as relações com o exterior, onde o piso contínuo tem especial importância. Os volumes conservam-se fundamentalmente autônomos, nos quais a composição em alas é apenas ensaiada. Já nas demais, as formas adotadas são, ao contrário, mais expansivas, para justamente captar o espaço ao redor trazendo-o para seu domínio.