4. TRABALHO NA LINHA DE PRODUÇÃO DA EMPRESA GAMA
4.1 HISTÓRICO DO SETOR AUTOMOTIVO
4.1.4 Anos 90 e 2000
Já a década de 90 foi marcada pela liberalização de mercados que estabeleceu um maior fluxo de comércio entre os países. Com a finalidade de reduzir custos e ganhar mercados, as empresas do setor automotivo passaram a buscar novos fornecedores e se instalaram em países com vantagens de custos (IEL/NC, 2008).
Segundo Marx (2008), neste período, no contexto global, a saturação dos mercados dos Estados Unidos, Europa e Japão levam as grandes corporações do setor automotivo a expandir sua capacidade de produção para regiões com maior potencial de crescimento de demanda, como os mercados emergentes do Brasil, Argentina, México, Leste Europeu, Rússia, Índia e China.
Dentre as principais características desses mercados emergentes pode-se destacar o baixo custo de produção em relação aos países desenvolvidos, maior crescimento nas vendas de veículos em relação aos mercados tradicionais, abundância de matéria-prima e mão-de-obra mais barata que os países ditos desenvolvidos (IEL/NC, 2009).
Com isso, em relação ao cenário nacional, tem-se no Brasil durante os anos 90 a chegada de novas montadoras, como a Chrysler, Mercedes Benz, Renault, Honda, Toyota, Mitsubishi, entre outras (MARX, 2008).
Ainda segundo o mesmo autor, as montadoras instaladas no Brasil incorporaram novas formas de gestão da produção como, por exemplo: a adoção de programas de gestão inspirados no modelo Toyotista, a terceirização de atividades e novas formas de organização da cadeia de suprimentos, promovendo assim um aumento na produtividade da indústria nacional.
Conforme Marx (2008), a internacionalização e globalização da produção que ocorreu neste período, bem como a busca por novos mercados, levaram a mudanças nas estratégias de produtos, à busca por menores custos e maior diversificação, levando ao desenvolvimento de famílias de produtos montados sobre plataformas globais padronizadas, permitindo o desenvolvimento do conceito de modularização e terceirização do desenvolvimento de produtos, uma vez que, seguindo as especificações padronizadas, as peças podem ser feitas por diversos fornecedores e montados em qualquer lugar do mundo.
Carleial, Gomes Filha e Neves (2004) escrevem que nos anos 90 o Brasil se tornou um dos destinos favoritos de investimentos do FDI- Foreign Direct Investment (Investimento direto Estrangeiro) no setor automotivo, devido aos seguintes aspectos: o crescimento do mercado interno devido à estabilidade econômica proporcionada, nesta época, pelo Plano Real (1994 a 1998); a proximidade com o Mercosul, que constitui um importante mercado regional; bem como a implementação da nova legislação automotiva, realizada em 1995, que é um marco importante para o desenvolvimento do setor automotivo nacional uma vez que criou uma série de incentivos para a implantação de novas montadoras.
Uma forte concorrência entre os estados brasileiros teve início devido à nova legislação automotiva de 1995. Com o intuito de atrair empresas automotivas, principalmente montadoras, eram oferecidas vantagens como a cessão de terrenos, a isenção ou desconto em impostos e taxas estaduais por períodos de tempo determinados, além da construção de infra-estrutura como estradas, terminais portuários, instalações elétricas, entre outros. Eram disponibilizados ainda subsídios e financiamentos provenientes de fundos regionais e bancos governamentais, tais como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, que ofereciam juros menores que os praticados pelo mercado (CARLEIAL; GOMES FILHA E NEVES, 2004). Em troca, as empresas automotivas beneficiadas se comprometiam com a geração direta e indireta de empregos.
Esta disputa entre os estados ficou conhecida como “guerra fiscal” (CARLEIAL;
GOMES FILHA E NEVES, 2004), e ainda que demonstrasse a ausência de uma política nacional coordenada de desenvolvimento regional, teve como resultado a expansão do setor automotivo no país. Como resultado destas ações o setor automotivo assumiu a seguinte configuração geográfica:
Tabela 01 - Distribuição geográfica da indústria automotiva no Brasil
EMPRESA UNIDADES INDUSTRIAIS /
EMPRESA UNIDADES INDUSTRIAIS / preparação de CKD para exportação, motores e transmissões
(Fábrica Anchieta) Automóveis, comerciais leves
Volkswagen Taubaté - SP Automóveis
Volkswagen São Carlos - SP Motores
Volvo Pederneiras - SP Caminhões articulados, pás-carregadeiras, motoniveladoras, escavadeiras, skid steers
(Volkswagen/Audi) Automóveis, comerciais leves
Volvo Curitiba - PR Caminhões, cabines de caminhões, chassis de
Montadora)1 Caminhões International (montagem) Fonte: ANFAVEA (2007)
NOTA: (1) Mesma unidade industrial; (2) New Holland sucedeu Fiatallis a partir de 1º/2/2005; (3) Mesma unidade industrial; (4) A Ford adquiriu o controle integral da Troller Veículos Especiais em janeiro de 2007; (5) Inauguração da fábrica prevista para o segundo semestre de 2007; (6) Mesma unidade industrial (Aliança Renault-Nissan).
Percebe-se que a maior parte das empresas está localizada na região Sudeste e Sul, com exceção das fábricas da Ford e Mitsubishi, que estão instaladas no Nordeste e Centro-Oeste, respectivamente. A concentração das empresas nessas regiões é
decorrente de diversos fatores, tais como os incentivos oferecidos pelos estados para atrair a indústria, bem como os efeitos da economia de aglomeração, isto é, as vantagens econômicas que as empresas possuem ao se instalar em uma região em que o setor já esteja bem desenvolvido (IEL/NC, 2009).
Verifica-se na tabela acima que um dos estados brasileiros com maior concentração de empresas ligadas ao setor automotivo é o Paraná, principalmente na Região Metropolitana de Curitiba - RMC, que atualmente conta com mais de seis mil indústrias relacionadas à indústria automotiva (IEL/NC, 2009).
Esta concentração é resultado de uma política agressiva de incentivos a investimentos industriais protagonizada pelo estado do Paraná ao longo dos anos 90, além de ampla campanha de divulgação de vantagens do estado e da RMC para a implantação de indústrias (CARLEIAL; GOMES FILHA E NEVES, 2004).
Embora a consolidação do setor automotivo na RMC tenha ocorrido ao longo dos anos 90, as primeiras indústrias do setor já se encontravam instaladas na região desde os anos 70 (IEL/NC, 2009). Meiners (1999) escreve que projetos de grande porte, denominados âncoras, se instalaram nas cidades industriais de Curitiba e Araucária nos anos 70, e com elas chegavam à região os moldes produtivos e administrativos modernos, como a produção em ampla escala. Conforme o autor, é desse período a instalação na região metropolitana de Curitiba de fábricas como a Volvo, New Holland, Denso, Krone e Bosch, além da constituição da Hubner.
Empresas que, segundo o autor, são embrionárias do complexo automotivo no estado do Paraná.
Já a partir da segunda metade da década de 90, novas e modernas indústrias foram instaladas no estado do Paraná. Volkswagen, na época Volkswagen-Audi, Renault e Nissan, com sua fábrica de utilitários em aliança com a Renault, instalaram-se em São José dos Pinhais, e com isso a RMC consolidou ainda mais sua importância econômica para o setor (IEL/NC, 2009).
Carleial, Gomes Filha e Neves (2004) apresentam uma breve caracterização da produção das novas entrantes que se instalaram na RMC nos anos 90. Escrevem que estas assumiram uma produção puxada por demanda, seguindo os preceitos do Just-in-Time, e uma organização do trabalho com as características do chamado teamwork, isto é, times versáteis que planejam suas atividades diariamente, de forma a programar o gerenciamento do tempo e das atividades da equipe conforme as demandas de produção.
Os autores escrevem ainda que a RMC até então não possuía tradição de trabalho industrial, tão pouco de trabalho na indústria automotiva, e portanto as montadoras que se instalaram na região precisaram desenvolver uma cultura industrial para o setor. Deste modo, alianças foram realizadas com diversas instituições, como o SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e CEFET - Centro Federal de Educação Tecnológica, para o desenvolvimento e treinamento de recursos humanos para atuar na produção do setor automotivo na RMC (CARLEIAL; GOMES FILHA E NEVES, 2004).
Em 2006 a RMC já respondia por aproximadamente 10,2% dos empregos diretos gerados pela fabricação de automóveis, camionetas e utilitários no Brasil e concentrava cerca de 95% dos vínculos empregatícios formais gerados pelo setor automotivo em todo o estado do Paraná (IEL/NC, 2009). Além da representatividade do número de empregos gerados em atividades relacionadas à indústria automotiva na RMC, outra informação relevante refere-se à qualidade do emprego que é gerado pelo setor, uma vez que a remuneração média das atividades do setor automotivo é superior à média das demais atividades na RMC (IEL/NC, 2009).
Sesso Filho, Moretto, Rodrigues, Balducc e Kureski (2004) ao apresentar uma revisão sobre a evolução da indústria automobilística do Estado do Paraná, escrevem que atualmente o setor automotivo da Região Metropolitana de Curitiba é o mais desenvolvido do Estado, sendo suas principais características a sofisticação (alta tecnologia) de suas unidades, e o desenvolvimento de novos padrões de organização da produção.
Em âmbito local, nacional e mundial este foi o panorama que se estabeleceu ao longo dos anos 90 até meados dos anos 2000. No entanto, é fundamental para a compreensão da atual situação de trabalho vivenciada na linha de produção da empresa Gama discorrer sobre os acontecimentos que tomaram lugar no final de 2008 quando eclodiu uma forte crise financeira mundial que teve grande impacto sobre a indústria automotiva mudando a realidade da produção mundial de carros.