5. ANÁLISE DOS DADOS QUANTITATIVOS, APRESENTAÇÃO DOS
5.4 DISCUSSÃO
5.4.3 Suspensão Temporária de Contrato de Trabalho
Um ponto merecedor de uma análise mais aprofundada diz respeito às reações dos trabalhadores em relação à suspensão temporária de contrato de trabalho realizada pela Gama ao longo dos meses de janeiro a junho de 2009.
Primeiramente é importante destacar que foi detectado pelo questionário ITRA que respondentes da pesquisa que passaram por suspensão temporária de contrato de trabalho tiveram uma avaliação significativamente mais grave do custo físico no trabalho em relação aos demais.
Outro ponto que merece atenção é o significativo aumento do número de funcionários afastados do trabalho por atestado médico que seguiu ao retorno dos trabalhadores que estavam com contrato suspenso.
Tem-se que nos meses de junho, julho, agosto e setembro de 2009 o número de funcionários afastados por licença médica superior a 15 dias passou de uma média de cerca de 80 afastados por mês para 92 em junho, 101 em julho, 119 em agosto e 116 em setembro, sendo que nos meses de outubro, novembro e dezembro os afastamentos retornaram às médias anteriores de cerca de 80 afastamentos por mês.
Interessante ressaltar que, embora esse período do início do segundo semestre de 2009 corresponda aos meses em que se viveu um surto de Gripe A – H1N1 na região da Gama, percebe-se que os afastamentos acima citados se referem a licenças superiores a
15 dias, com afastamento pelo INSS, e são, em sua maioria, referentes a condições osteomusculares, com exceção de apenas 3 que se enquadram na categoria “transtornos mentais”, o que, na classificação dada pela própria empresa, inclui doenças como depressão, dependência química, entre outras.
Embora a produção da Gama tenha reestabelecido seus padrões anteriores à crise, é sabido que os trabalhadores que foram afastados receberam proposta de acordo de demissão voluntária, programa ao qual apenas uma minoria aderiu. No relato de alguns entrevistados verifica-se que relatam um clima de “ansiedade”, “medo”,
“nervosismo”, no retorno ao trabalho depois do afastamento, pois “já estavam nervosos em casa, sem saber se iam voltar ao trabalho, e quando a Gama quis fazer acordo para demitir ficaram mais nervosos ainda porque acharam que não iam ter seu emprego de volta”.
Alguns entrevistados relatam que no retorno ao trabalho foram mudados de turno, e/ou posto de trabalho, o que é por eles considerado ruim. Alguns relatos (3 dos 21 operadores) apontam para uma percepção dos trabalhadores da existência de pressão por parte da empresa para que pedissem demissão: “parece que fizeram tudo para piorar, para a gente não se adaptar à volta mesmo, como o caso da mudança de turno, todo mundo tem uma vida programada lá fora, mudar o turno assim atrapalha tudo, tem gente que estudava e agora tem que largar a faculdade, já eu que preferia continuar no primeiro turno porque agora chego em casa e meus filhos já estão dormindo, nem os vejo mais”.
Embora não se possa afirmar que a administração da Gama tenha efetivamente realizado algum tipo intencional de pressão é possível verificar que alguns funcionários que foram afastados sentem que a maneira como foram alocados após seu retorno como uma pressão para que peçam demissão. O que reflete que acreditam que a empresa precisa, ou está por demitir, mais funcionários.
Três gerentes de Recursos Humanos da Gama que foram entrevistados afirmam que a empresa não está mais demitindo para diminuir contingente, afirmando que as demissões que ainda ocorrem são decorrentes de problemas particulares de desempenho dos trabalhadores. Afirmam ainda que nenhum funcionário da Gama foi demitido no período de crise: “apenas os contratados temporários não foram renovados, dos que foram afastados em suspensão temporária todos voltaram, menos os que não quiseram,
além disso, claro que algumas demissões ocorreram, mas só foram demitidos os colaboradores que já apresentavam algum problema de desempenho”.
Embora o discurso da administração demonstre que a redução do quadro de operadores não é uma realidade na Gama, percebe-se no relato dos trabalhadores que o medo de perder o emprego é fonte de vivências de sofrimento, que se refletem basicamente no adoecimento osteo-muscular e no afastamento do trabalho.
É necessário apontar duas análises possíveis para estes acontecimentos:
É possível que a pressão, o medo, a ansiedade relacionada ao desconhecimento do futuro de seu emprego esteja sendo somatizado pelos trabalhadores decorrendo em seu adoecimento. Este argumento é particularmente reforçado pelos resultados obtidos pela aplicação do Inventário ITRA, que permitiu verificar que estes trabalhadores avaliam de maneira mais grave o custo físico no trabalho. Mas pode ser também que, em alguns casos, estratégias coletivas de defesa (MENDES, 2007) estejam em ação.
A análise possível neste caso é a seguinte:
É sabido pelos trabalhadores que o maior motivo de afastamentos do trabalho são problemas osteo-musculares decorrentes de esforço físico repetitivo na linha de produção da empresa Gama. É sabido também que uma das maiores preocupações da empresa em relação à qualidade de vida e saúde de seus trabalhadores está relacionada aos cuidados com a ergonomia para evitar doenças ocupacionais.
É possível, ainda, inferir que:
(i) Se o sofrimento vivenciado pelos trabalhadores os levam a querer se distanciar ou evitar o trabalho;
(ii) Se o medo de perder o emprego os leva à busca de formas de reasseguramento, como afastamentos pelo INSS que garantem que, ao menos durante certo período de tempo, estarão financeiramente seguros;
(iii) Se os trabalhadores buscam um afastamento pelo INSS para solucionar os problemas acima citados;
Então talvez seja natural esperar que a racionalização do sofrimento seja direcionada ao adoecimento físico, uma vez que é a forma de sofrimento mais ampla e indiscutivelmente aceita na empresa.
A defesa de proteção (MENDES, 2007) que pode estar sendo utilizada neste caso é os trabalhadores recorrerem a médicos externos à Gama, que lhes dão atestados por adoecimento osteomuscular, o que lhes garantem serem afastados pelo INSS e
proporcionam uma relativa e breve segurança em relação à manutenção de seu emprego e renda, assim o sofrimento decorrente do medo e ansiedade que leva à necessidade de evitar a situação de sofrimento é racionalizado como adoecimento de uma forma que justifica a ausência no trabalho.
Outra questão interessante que chama atenção na suspensão temporária do contrato de trabalho que merece ser mencionada é a forma de atuação do sindicato dos trabalhadores e a falta de identificação destes como mesmo.
Sabe-se que para que esta negociação tenha sido possível um acordo entre empresa, ministério do trabalho e sindicato dos trabalhadores teve que ser assinado. A decisão teria de ser votada em assembléia pelos operadores. Sabe-se que a negociação ocorreu no mês de dezembro de 2008, durante o período de férias coletivas dos operadores, e a votação foi realizada no dia retorno. Tem-se com isso que a participação dos trabalhadores na negociação foi mínima, sendo que, em grande parte, não tinham total entendimento do que estava sendo votado e assinado, relatando que “na volta das férias coletivas foi votada a realização dos cursos”, e não a suspensão temporária em si.
O que se pode verificar nestes acontecimentos é que ainda que exista uma representação sindical forte no setor automotivo e na Gama de modo particular, os trabalhadores não parecem se identificar com suas ações, apresentando em diversos relatos a “dificuldade de lidar com pressões do sindicato”, se mostrando identificados com os objetivos organizacionais, quais sejam os de produtividade. Reclamam por exemplo que “tem que trabalhar direitinho na frente dos representantes do sindicato, se não já vem reclamação”, “os delegados sindicais atrapalham o bom andamento da produção”, entre outros relatos que demonstram que o sindicato é visto mais como um órgão fiscalizador do que representativo pelos trabalhadores.
Mais uma vez o que se percebe nessas falas e no modo de atuação dos trabalhadores é uma identificação com a empresa e seus objetivos e uma alienação em relação à sua identificação de classe, não se percebendo como representados pelo sindicato.