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3. METODOLOGIA

3.1 Definição constitutiva e operacional dos conceitos

Sendo o objetivo desta pesquisa reconhecer e analisar relações existentes entre o contexto de trabalho na linha de produção da empresa Gama e os processos de subjetivação dos trabalhadores nela inseridos, representados pelas vivências de prazer, sofrimento e adoecimento relatadas pelos trabalhadores faz-se mister esclarecer o que se vai considerar nesta pesquisa tanto constitutiva quanto operacionalmente como (i) contexto de trabalho e (ii) processos de subjetivação.

3.1.1 Contexto de Trabalho

Define-se o contexto de trabalho como o conjunto da organização do trabalho, das condições de trabalho e das relações de trabalho (MENDES, 2007), desse modo cabe explicitar as definições constitutivas e operacionais de cada um desses conceitos:

3.1.1.1 Organização do Trabalho

Definição Constitutiva: Compreende a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa, as relações de poder que envolvem o sistema hierárquico, as modalidades de

comando e as questões de responsabilidade (MENDES, 2007)

Definição Operacional: Verifica-se a avaliação dos trabalhadores em relação à organização do trabalho pelas questões 1, 2, 3, 4, 5, 8 e 9 da escala 1 do inventário de trabalho e riscos de adoecimento (ITRA), às quais se relacionam com o ritmo de trabalho, com os prazos e pressões para realizar tarefas, com a cobrança por resultados, com a rigidez das normas para execução das tarefas, com a fiscalização do desempenho, com a divisão entre quem planeja e quem executa e com a repetitividade das tarefas.

3.1.1.2 Condições de Trabalho

Definição Constitutiva: compreende o ambiente físico, químico e biológico, as condições de higiene, de segurança e as características antropométricas do posto de trabalho (MENDES, 2007).

Definição Operacional: Verifica-se a avaliação dos trabalhadores em relação às condições de trabalho pelas questões 22 a 31 da escala 1 do inventário ITRA, que se relacionam com questões tais como o acesso a informações necessárias à execução das tarefas, a precariedade das condições de trabalho, o conforto do ambiente físico, a adequação do mobiliário disponibilizado nos postos de trabalho, os instrumentos de trabalho serem suficientes e adequados para realizar as tarefas e os riscos à segurança decorrentes das condições de trabalho.

3.1.1.3 Relações sócio-profissionais de Trabalho

Definição Constitutiva: refere-se a todos os laços humanos originados na organização do trabalho, tanto as relações com hierarquia, chefias, supervisores e demais trabalhadores (MENDES, 2007).

Definição Operacional: Verifica-se a avaliação dos trabalhadores em relação às relações sócio-profissionais de trabalho pelas questões

6, 7, 11, 12, 13, 14, 15, 16,

17, 18, 19, 20 e 21

da escala 1 do inventário ITRA, que se referem ao número de pessoas que realizam as tarefas, às expectativas em relação aos resultados, à descontinuidade das tarefas, à clareza na definição das tarefas, à autonomia, à justiça na distribuição das tarefas, ás possibilidades de participação dos trabalhadores nas decisões, às dificuldades na comunicação entre chefia e subordinados, às disputas

profissionais no local de trabalho, à integração no ambiente de trabalho, à comunicação entre funcionários, ao apoio das chefias para o desenvolvimento profissional e á facilidade de acesso a informações.

3.1.2 Processos de Subjetivação

Definem-se processos de subjetivação os processos que se manifestam nas vivências de prazer e sofrimento relatadas pelos trabalhadores, bem como as estratégias de defesa adotadas pelos trabalhadores para mediar as contradições da organização do trabalho, as patologias sociais e o processo de saúde e adoecimento no trabalho (MENDES,2007). Operacionaliza-se o conceito de “processos de subjetivação” por meio das vivências de prazer e sofrimento e das estratégias de defesa relatadas pelos trabalhadores por meio do questionário ITRA e/ ou entrevista, deste modo cabe explicitar cada um destes conceitos:

3.1.2.1 Vivência de prazer

Definição Constitutiva: Tem-se de modo geral que congruências entre as dimensões diacrônica e sincrônica acarretam ressonância simbólica entre estes registros possibilitam vivências prazerosas (DEJOURS 1994, 1997 e 2000). A vivência de prazer também pode advir de sublimação. Ferreira e Mendes (2003) escrevem que as vivências de prazer apresentam as seguintes características: se originam no bem que o trabalho causa no corpo e nas relações com as pessoas; suas principais causas encontram-se nas dimensões da organização, das condições e das relações de trabalho que estruturam os contextos de produção de bens e serviços. Tem-se deste modo que o prazer pode ser vivenciado de forma direta por meio dos processos sublimatórios, o que significa a possibilidade de descarga pulsional quando em contato com determinados contextos de produção, e de forma indireta, pela ressignificação do sofrimento, e pela transformação das situações de trabalho por meio da mobilização coletiva (FERREIRA E MENDES, 2003).

Definição Operacional: Verifica-se a avaliação dos trabalhadores em relação às vivências de prazer por meio de entrevistas e pelas questões 1 a 17 da escala 3 do inventário ITRA, que se referem às seguintes questões: Liberdade com a chefia para

negociar o que precisa; Liberdade para falar sobre o meu trabalho com os colegas;

Solidariedade entre os colegas; Confiança entre os colegas; Liberdade para expressar opiniões no local de trabalho; Liberdade para usar a criatividade; Liberdade para falar sobre o trabalho com as chefias; Cooperação entre os colegas; Satisfação; Motivação;

Orgulho; Bem·estar; Realização profissional; Valorização; Reconhecimento;

ldentificação com as tarefas e gratificação pessoal com as atividades;

3.1.2.2 Vivência de sofrimento

Definição Constitutiva: Tem-se de modo geral que uma contradição ou incongruência entre as dimensões diacrônica e sincrônica acarretam sofrimento e podem desembocar em doença mental e psicossomática conforme a organização da personalidade de cada indivíduo. (DEJOURS 1994, 1997 e 2000)

Definição Operacional: Verifica-se o relato e avaliação dos trabalhadores em relação às vivências de sofrimento e adoecimento por meio de entrevistas e pelas questões 18 a 32 da escala 3 do inventário ITRA, bem como das escalas 2 e 4 do mesmo inventário, que se referem às seguintes questões: esgotamento emocional; estresse;

insatisfação; sobrecarga; frustração; insegurança; medo; falta de reconhecimento;

desvalorização; indignação; inutilidade; desqualificação; injustiça; discriminação, necessidade de ter controle das emoções; ter que lidar com ordens contraditórias; ter custo emocional; ser obrigado a lidar com a agressividade dos outros; necessidade de disfarçar os sentimentos; ser obrigado a elogiar as pessoas; ser obrigado a ter bom humor; ser obrigado a cuidar da aparência física; ser bonzinho com os outros;

necessidade de transgredir valores éticos; ser submetido a constrangimentos; ser obrigado a sorrir; ter que desenvolver macetes; ter que resolver problemas; ser obrigado a lidar com imprevistos; necessidade de prever acontecimentos; possibilidade de usar a criatividade; necessidade de usar a forca física; ter dores no corpo; dores nos braços; dor de cabeça; distúrbios respiratórios; distúrbios digestivos; dores nas costas; distúrbios auditivos; alterações do apetite; distúrbios na visão; alterações do sono; dores nas pernas; distúrbios circulatórios; insensibilidade em relação aos colegas; dificuldades nas relações fora do trabalho; vontade de ficar sozinho; conflitos nas relações familiares;

agressividade; dificuldade com os amigos; impaciência; amargura; sensação de vazio;

sentimento de desamparo; mau-humor; vontade de desistir de tudo; tristeza; irritação;

sensação de abandono; dúvida sobre a capacidade de fazer as tarefas e solidão.

3.1.2.3 Estratégias de defesa

Definição Constitutiva: São regras de conduta construídas e conduzidas pelos trabalhadores, que variam de acordo com as situações de trabalho e que são caracterizadas pela sutileza, engenhosidade, diversidade e inventividade dos mesmos, de forma que consigam suportar o sofrimento sem adoecer. (MENDES, 2007; DEJOURS 2000 e 2003).

Definição Operacional: Formas de suportar o sofrimento relatadas em entrevista e/ou observadas na linha de produção da empresa Gama.

3.1.3 Definição de conceitos relacionados

3.1.3.1Tecnologia de gestão

Definição Constitutiva: “o conjunto de técnicas, instrumentos e estratégias utilizados pelos gestores (...) para controlar o processo de produção em geral, e de trabalho em particular, de maneira a otimizar recursos nele empregados, pondo em movimento a força de trabalho capaz de promover a geração de excedentes apropriáveis (lucro) de forma privada ou coletiva”. (FARIA, 1997, p. 30).

Definição Operacional: Práticas de gestão utilizadas pela empresa possíveis de se verificar por observação ou por meio de entrevistas.

3.1.3.2 Mecanismos de controle

Definição constitutiva: a gestão do trabalho é instrumentalizada através dos mecanismos de controle (FARIA, 2008). Os mecanismos de controle agem de várias formas visando otimizar da utilização tempo e aumento da produtividade, adestrando o corpo e as emoções.

Definição operacional: aspectos da gestão e organização do trabalho que objetiva ou subjetivamente determinam o comportamento dos trabalhadores, podendo seus efeitos serem observados no comportamento uniforme dos funcionários,

manutenção da ordem e cumprimento dos objetivos conforme estipulado pelos dirigentes, pela obediência e pela submissão.