68 Capítulo 3: Ansiedade Social e Assertividade na Adolescência
3.2 Ansiedade Social e Assertividade na Adolescência
A adolescência surge como um período particularmente importante para a aquisição de um repertório social versátil e adequado, que permita estabelecer relações de qualidade, sendo que a “persona social” é estabelecida na adolescência e será difícil de alterar posteriormente
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(Larson, et al., 2002). No entanto, nem sempre o adolescente consegue estabelecer e usufruir de tais relações (Engels, et al., 2002). Factores que impeçam ou inibam o adequado desenvolvimento e funcionamento interpessoal do adolescente surgem como alvos importantes de investigação (La Greca & Lopez, 1998), já que face a mudanças drásticas e coincidentes a todos os níveis de funcionamento, a adolescência surge como associada a maior susceptibilidade ao desenvolvimento de sintomas psicopatológicos (Landazabal, 2006). Timidez, ansiedade interpessoal, dificuldade na resolução de problemas sociais e ausência de assertividade são problemas comuns na adolescência (Z. Del Prette & Del Prette, 1999; Silva, 2004), que podem influenciar a qualidade das relações com pares e consequente usufruto retirado das mesmas, a médio e a longo prazo.
Salientamos a ansiedade social e o défice assertivo, tratando-se de défices interpessoais comuns na adolescência, que podem surgir relacionados. Tanto a ansiedade social como a assertividade se relacionam especificamente ao domínio social do funcionamento do indivíduo, embora a primeira se defina como um aspecto emocional que interfere neste funcionamento e a segunda como um aspecto comportamental. É na infância e adolescência que mais facilmente se tem verificado a co-existência de ansiedade social e défice de competências sociais, possivelmente por não ter ainda havido aprendizagem de comportamentos de segurança ou compensatórios, o que torna estas dificuldades mais notórias (Levitan & Nardi, 2008).
A nível conceptual, a sobreposição entre ansiedade social e défice assertivo é evidente. Ambos incluem componentes emocionais, comportamentais e cognitivas, que se assemelham entre si. Senão vejamos, ambos se caracterizam pela activação de ansiedade em intensidade desproporcional face a vários tipos e situações sociais, e de forma diferenciada face a esses mesmos tipos de situações sociais; o comportamento ansioso e não assertivo é caracterizado por passividade, inibição, tentando passar despercebido e não incorrer o risco de desagradar ao outro. O sistema de crenças ou esquemas interpessoais inerentes a ansiedade social parecem associar-se ou mesmo coincidir com o descrito como referente a um estilo de comunicação passivo, não assertivo: o outro é representado como assustador, perigoso e cujo afecto é dependente e condicional à própria submissão, enquanto o próprio é alguém cujo valor é determinado pelo quanto consegue ser aceite pelo outro, que está numa posição social de valor. Por outro lado, relativamente ao processamento cognitivo, poderão ser situadas algumas diferenças. A ansiedade social associa-se à importância dada ao custo esperado do evento social e à percepção da própria eficácia em determinada situação social, enquanto o ser-se assertivo se associa à capacidade de adaptar as próprias respostas à exigência da situação e aos resultados esperados do comportamento assertivo (Hannesdóttir & Ollendick, 2007; Smári, et al., 1998).
Esta associação implícita entre ansiedade social e assertividade é corroborada pelos trabalhos descritos nos capítulos 1 e 2. No que se refere à ansiedade social, é referido o défice de competências sociais em sujeitos com ansiedade social (Alfano, et al., 2006), que leva a que o
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treino assertivo seja parte integrante da intervenção (Rowa & Antony, 2005). Já a assertividade, por definição, inclui o nível apropriado de ansiedade em situações interpessoais (Wolpe, 1973), o que se associa a treino de relaxamento para evitar o efeito inibidor de níveis desadequados de ansiedade sobre o desempenho assertivo (Spence, 2003).
A revisão de literatura explicitada nos capítulos anteriores deste trabalho, leva a concluir que a relação entre estes dois tipos de défices interpessoais na adolescência pode ser recíproca, funcionando o défice assertivo quer como factor etiológico ou apenas como factor de manutenção de ansiedade social (Levitan & Nardi, 2008). Por um lado, a ansiedade social pode prejudicar a expressão de competências sociais (Wolpe, 1973), sendo que as distorções cognitivas inerentes às perturbações internalizantes podem levar a uma análise inadequada da situação e a uma resposta social igualmente desadequada (Erwin, 2002). Neste caso, a dificuldade estará apenas ao nível do desempenho, podendo haver conhecimento e aptidão social, que simplesmente não é posta em prática da forma mais adequada (Smári, et al., 1998). De facto, indivíduos com diferentes níveis de ansiedade social parecem poder ser diferenciados em função de um funcionamento cognitivo não assertivo (Golden, 1981). Por outro lado, ao não permitir ao indivíduo ter um bom desempenho social, o défice assertivo acarreta consequências sociais negativas, que poderão levar à activação ansiosa em situações sociais, gradualmente generalizada. Azais e Granger (1995) definem o contínuo de ansiedade social como inserido no âmbito das perturbações de assertividade, sendo que a assertividade poderá ser usada como indicador de ansiedade (Abdel, 1992). Assim, estimular o desempenho assertivo pode levar a superar a ansiedade (Wolpe, 1973), o que é sustentado pelo facto de que o treino de competências sociais tem sido consistentemente aplicado com sucesso junto a sujeitos com ansiedade social, passando pelo ensino e treino contextualizado de competências assertivas e por técnicas de redução de ansiedade (Angélico, Crippa, & Loureiro, 2006).
Assim, a literatura parece consensual em associar a ansiedade social e o défice assertivo, embora os pressupostos implícitos desta associação careçam, na nossa opinião, de suporte empírico e explícito, como uma rápida pesquisa em bases de dados online (e.g. Web of knowlege ou B-on) pode confirmar. São poucos os trabalhos que se têm debruçado sobre a compreensão desta associação característica do desempenho social do adolescente de forma directa, utilizando instrumentos de avaliação da assertividade e da ansiedade social. Além disso, os resultados obtidos são muitas vezes contraditórios, por serem utilizados diferentes tipos amostra (por exemplo, clínica Vs comunitária), tipos de tarefa social (desempenho Vs interacção), métodos de análise (observação naturalista Vs condições experimentais; Levitan & Nardi, 2008). Passaremos a referir os que encontrámos.
A assertividade tem sido associada à ansiedade traço (Abdel, 1992; Bandeira, Quaglia, Bachett, Ferreira, & Souza, 2005), mas também à ansiedade relativa a contextos interpessoais em particular. Orenstein, Orenstein e Carr (1975) apresentaram um dos primeiros trabalhos
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neste âmbito, salientado que a assertividade se associava de forma significativa e inversa aos medos interpessoais em específico e não a quaisquer medos, por exemplo de animais. No mesmo sentido apontaram os trabalhos de Pearson (1980) e Kearney, Beatty, Plax e MacCroskey (1984), referindo-se ao constructo de apreensão em contextos de comunicação, na sua associação com comportamento assertivo. Estes últimos autores concluem que a ansiedade sentida em contextos de comunicação apenas se associa a comportamentos assertivos em contextos interpessoais de contacto directo com outros. Moore, Huson e Smith (2007) encontraram uma correlação negativa entre uma medida afectiva e comportamental de assertividade e uma medida cognitiva de ansiedade social. Esta variedade de domínios psicológicos considerados poderá explicar que esta associação não tenha atingido o nível de significância estatística. Por outro lado, a associação entre ansiedade social e défice assertivo poderá ser especialmente notória em populações clínicas (Chambless, Hunter, & Jackson, 1982; Levitan & Nardi, 2008).
Considerando as várias dimensões do funcionamento psicológico, poderemos referir uma associação significativa positiva e elevada entre ansiedade social e medidas de tensão ou desconforto sentido ao ser-se assertivo (Arrindell, Sanderman, Hageman, et al., 1990; Arrindell, Sanderman, & Ranchor, 1990), especialmente relativamente à dimensão assertividade de iniciativa, ou seja, a capacidade de tomar a iniciativa, de iniciar relações ou resolver problemas em situações sociais. Já entre medidas de ansiedade social e frequência de comportamento assertivo encontramos correlações significativas negativas mas mais baixas (Arrindell, Sanderman, & Ranchor, 1990; Bandeira, et al., 2005). De facto, a mesma activação ansiosa poderá associar-se a diferentes manifestações de comportamento assertivo. Por um lado, poderá associar-se a uma frequente prática comportamental, definida como um desempenho assertivo ansioso; por outro, poderá associar-se a uma reduzida prática comportamental, definida neste caso como um défice assertivo manifesto a nível emocional e comportamental (Arrindell, Sanderman, Hageman, et al., 1990), que poderá caracterizar o ansioso social.
Sujeitos com ansiedade social revelam dificuldades significativamente maiores em várias áreas de aptidões e desempenho social, reflectidas não apenas num défice de prática comportamental mas também de gestão emocional. O sujeito com ansiedade social não apenas faz uma sub-avaliação sistemática do próprio comportamento, percebendo ter menos competências sociais, ou seja, menos capacidade de responder de forma adequada às exigências da situação (Hofmann, 2007; Segrin & Kinney, 1995), como o seu desempenho é objectivamente prejudicado, já que são avaliados como menos socialmente competentes pelos parceiros de interacção (Segrin & Kinney, 1995). Sujeitos com ansiedade social de ambos os sexos demonstram menores competências sociais, são mais estranhos na relação interpessoal, reservados, não expressivos e incapazes de esconder a sua ansiedade (Creed & Funder, 1998). Estas dificuldades sociais parecem associar-se principalmente ao défice na assertividade positiva, ou seja, à dificuldade de expressar sentimentos positivos, como dar e receber elogios, dizer que se gosta ou que se está satisfeito (Arrindell, Sanderman, Hageman, et al., 1990).
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A ansiedade social aparece associada a estilos interpessoais disfuncionais, nomeadamente assertividade diminuída (definida como dificuldade em expressar necessidades ou ser firme face a outro), evitamento do conflito, medo de rejeição e dependência interpessoal aumentada (Alden & Philips, 1990; Davila & Beck, 2002). Por sua vez, a assertividade diminuída e dependência interpessoal aumentada parece associar-se a maiores níveis de stress nas relações interpessoais, nomeadamente com familiares, amigos ou parceiros românticos (Davila & Beck, 2002), que se tornam especialmente interferentes na infância e adolescência (Rapee & Alden, 2004). Estes dados chamam a atenção para a dualidade nas respostas interpessoais assertivas, que podem por um lado passar por evitamento comportamental ou, por outro, por comportamentos passivos, submissos e/ou dependentes, parecendo este último caso ter consequências mais nefastas para a satisfação interpessoal do sujeito. O nível de competências sociais auto e hetero-percebido parece poder explicar a rejeição a que são sujeitos os indivíduos com ansiedade social, enquanto a ansiedade social auto-relatada se parece associar a sentimentos subjectivos de solidão (Segrin & Kinney, 1995).
Stipelman (2005) procurou avaliar objectivamente se a estruturação de tarefas de natureza social poderia diminuir a ansiedade suscitada e, consequentemente aumentar o nível de competência assertiva demonstrada pelo sujeito. Os resultados obtidos indicam que nem a estruturação da tarefa social se associa à diminuição de ansiedade em todos os sujeitos, nem esta diminuição de ansiedade, quando verificada, se associa a uma maior competência social não verbal. Assim, estes resultados não confirmam a hipótese da inibição comportamental ser causada por elevados níveis de ansiedade e chama a atenção igualmente para a resposta ansiosa não ser unicamente dependente das características da situação. Foram os sujeitos que criaram expectativas acerca da natureza estruturada da tarefa social ser menos ansiógena que experienciaram, de facto, níveis de ansiedade mais reduzidos, embora um desempenho igualmente pobre (Stipelman, 2005). Tal salienta dois aspectos. Por um lado, o défice assertivo parece caracterizar os sujeitos com ansiedade social; por outro, a resposta emocional e possivelmente comportamental ao evento parece estar dependente de um ciclo cognitivo auto- confirmatório.
Assim, se o défice assertivo co-existe com a ansiedade social, de forma mais evidente na infância e adolescência, e parece haver um substrato cognitivo associado a estes défices interpessoais, o modelo cognitivo poderá ser uma ferramenta útil à conceptualização integrada do desempenho social do adolescente.