• Nenhum resultado encontrado

Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo (QEIA)

106 Capítulo 5: Estudo Um – Trabalhos Preliminares

5.1 Preparação de Instrumentos de Medida

5.1.3 Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo (QEIA)

Este instrumento foi construído com o intuito de avaliar a cognição na assertividade, representada por um conjunto de crenças centrais interpessoais. Apesar de existirem alguns instrumentos veiculados à avaliação da cognição na assertividade, associam-se à área restrita da recusa de pedidos irrazoáveis (cf. Capítulo 2). Por isso sentimos necessidade de construir uma escala que correspondesse à versão actualizada do conceito de assertividade e representasse o conjunto de representações interpessoais que a literatura associa a este constructo.

O processo de desenvolvimento deste instrumento teve em consideração as directrizes de P. Kline (2000) e T. Kline (2005). Assim, numa primeira fase, foi definido conceptualmente o constructo a avaliar, tendo por base uma metodologia racional, que combina fundamentação teórica e empírica. Os itens foram, então, construídos em função de representarem um enquadramento conceptual específico baseado em trabalhos anteriores de revisão teórica acerca do conceito de assertividade e da sua dimensão cognitiva em particular (Vagos & Pereira, 2009b) e de análise empírica dos correlatos cognitivos da assertividade, que diferenciam sujeitos com diferentes níveis de assertividade (Vagos & Pereira, 2007a, 2007b). O constructo em estudo ficou assim caracterizado pela presença de crenças centrais relativas a si próprio, ao outro e à relação, que supõem a igualdade de direitos e deveres, o respeito mútuo e a concessão e busca de objectivos comuns. Vinte e cinco itens foram concebidos para representar este constructo e

121

associados a uma escala de resposta gradativa em 5 pontos, desde “totalmente falso para mim” até “totalmente verdadeiro para mim”, referindo-se ao quando o respondente se identifica com cada um dos itens.

As características psicométricas deste instrumento foram avaliadas numa amostra de 996 alunos de ambos os sexos do ensino secundário. Foi avaliada a sua constituição factorial, consistência interna, sensibilidade e validade evidenciada na relação com outras variáveis. Como parte integrante deste trabalho, foi possível previamente divulgar esta escala e resultados da sua avaliação psicométrica junto da comunidade científica (Vagos & Pereira, 2010c).

5.1.3.1 Análise psicométrica.

Foi realizada uma análise factorial exploratória com o método de componentes principais e rotação oblíqua, considerando que teoricamente os factores deveriam estar relacionados, por respeitarem a um único constructo final.

A solução obtida (KMO = 0.92) levou à extracção de 4 factores, de acordo com o

screeplot (Zwick & Velicer, 1986), que explicam 53.03% da variância de resultados. Cada item foi

incluído no factor em que tinha maior índice de saturação, com um mínimo aceitável de 0.40 (Tabela 11).

122

Tabela 11: AFE de Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo

Apoio emocional externo Aptidão pessoal funcional Gestão interpessoal Aptidão pessoal afectiva # 2 .77 # 7 .84 # 8 .45 # 17 .68 # 22 .63 # 4 .58 # 14 .76 # 19 .86 # 24 .87 # 5 .58 # 9 .46 # 10 .53 # 15 .53 # 16 .73 # 20 .61 # 23 .58 # 25 .46 # 3 .61 # 12 .52 # 13 .50 # 18 .69 Valor próprio 6.81 2.20 1.11 1.02 Variância explicada 32.42 10.47 5.26 4.86

Nota: QEIA = Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo.

A análise de conteúdo levou à seguinte definição de factores:

1) Apoio emocional externo: representação positiva dos outros como provedores de apoio, aceitação e afecto (por exemplo, #5: “Quando estou triste, zangado/a ou aborrecido/a, tenho quem me apoie e ajude a sentir melhor”);

2) Aptidão pessoal funcional: representação de si próprio como possuindo as competências necessárias à gestão da vida quotidiana (por exemplo, #3: “Sou capaz de realizar tarefas na escola / trabalho tão bem como a maioria das pessoas”);

3) Gestão interpessoal: representação da capacidade de gerir a frustração interpessoal, parte integrante da realidade social (por exemplo, #13: “Quando alguém de quem gosto se afasta de mim, tento perceber porquê e resolver a situação”);

4) Aptidão pessoal afectiva: representação de si próprio como digno de afecto, apoio emocional e vínculos com outros (por exemplo, #9: “Sinto que sou especial para algumas pessoas”).

123

Quatro itens não saturaram em qualquer factor. A análise do seu conteúdo levou a considerar que o seu sentido poderia ser dúbio (por exemplo, “Por vezes, preocupa-me que as pessoas a quem estou ligado me deixem ou abandonem, mas acho que conseguiria lidar com isso”). Considerando que apresentavam correlações baixas também com a escala completa, estes itens foram excluídos do instrumento, cuja versão final ficou constituída por 21 itens (Anexo VII).

Para a análise da consistência interna da prova recorreu-se ao Alpha de Cronbach, estabelecendo como critério o valor de 0.70 (Nunnaly, 1978). Todas as subescalas e escala completa obtiveram valores adequados, a saber, α = 0.81 para a subescala 1, α = 0.82 para a subescala 2, α =0.76 para a subescala 3, α = 0.74 para a subescala 4 e α = 0.89 para a escala completa.

Os resultados descritivos, de assimetria e de curtose indicam que nenhuma das subescalas ou a escala completa seguem a distribuição normal (Tabela 12).

Tabela 12: Análise descritiva do Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo

Apoio emocional externo Aptidão pessoal funcional Gestão interpessoal Aptidão pessoal afectiva Escala Completa Média 21.27 15.84 31.66 17.15 85.92 Mediana 22.00 16.00 32.00 18.00 88.00 Moda 25.00 20.00 32.00 20.00 94.00 Desvio padrão 3.71 3.16 4.75 2.93 11.61 Assimetria -1.26 -0.53 -0.74 -1.21 -0.92 Curtose 1.52 -0.24 1.02 1.28 0.94 Mínimo 5 5 10 4 38 Máximo 25 20 40 20 105

Verificámos existirem correlações significativas positivas entre todas as subescalas e entre estas e a escala completa (Tabela 13).

124

Tabela 13: Correlação entre medidas do QEIA e medidas completas da ECI-R

1) 2) 3) 4) QEIA 1. Apoio emocional externo -

2. Aptidão pessoal funcional .29** -

3. Gestão interpessoal .55** .51** -

4. Aptidão pessoal afectiva .54** .41** .54** -

Escala Completa .74** .69** .87** .76** -

ECI-R desconforto -.20** -.23** -.34** -.17** -.20**

ECI-R frequência de comportamento .26** .23** .34** .28** .33**

Nota: QEIA = Questionário de Esquema Interpessoal Assertivo; ECI-R = Escala de Comportamento

Interpessoal – Versão Reduzida

**p<0.001

Para avaliar a validade de constructo foi utilizada uma medida multidimensional de assertividade (ECI-R), composta por duas escalas de resposta, uma referente ao desconforto sentido ao ser assertivo e outra respeitante à frequência de comportamento assertivo. Tendo em conta os constructos avaliados por cada instrumento, esperávamos encontrar correlações significativas negativas entre as medidas do QEIA e a dimensão de desconforto e positivas entre as medidas do QEIA e a dimensão de frequência de comportamento. Os resultados obtidos confirmam estes pressupostos, sugerindo evidência para a validade de constructo do QEIA. As correlações encontradas, ainda que significativas, são muito baixas (Tabela 13), o que poderá estar associado a estarem a ser medidas diferentes dimensões do funcionamento psicológico, a saber, níveis de desconforto sentidos, níveis de frequência de comportamento e nível de crenças interpessoais.

5.1.4 Escala de Ansiedade e Evitamento de Situações Sociais para Adolescentes