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Características de Assertividade

38 Capítulo 2: Assertividade

2.3 Características de Assertividade

A assertividade surge como um constructo complexo e multidimensional, cujas dimensões são diferentemente valorizadas em função dos objectivos ou âmbito de estudo (Arrindell, Sanderman, Hageman, et al., 1990; Vagos, 2006). A sua manifestação pode ocorrer em três modalidades parcialmente independentes – afectiva, comportamental e cognitiva (Golden, 1981; Herzberger, Chan, & Katz, 1984), que devem ser consideradas de forma diferenciada e, ao mesmo tempo, interligada (Azais, Granger, Debray, & Ducroix, 1999)

2.3.1 Dimensão cognitiva.

A dimensão cognitiva foi alvo de atenção apenas recentemente (Vagos & Pereira, 2009b), referindo-se a uma forma específica de compreender as relações interpessoais (A. Del Prette & Del Prette, 2003). Trabalhos recentes têm apontado esta dimensão cognitiva como associada a esquemas interpessoais, que incluem, por definição, representações relativas a si próprio, aos outros e às relações sociais (Elliott & Lassen, 1997; Safran, 1990a; Young, et al., 2003). Vagos e Pereira (2007a, 2007b) verificaram que a assertividade se associa a diferentes esquemas precoces mal-adaptativos, enquanto definidos por Young e colaboradores (2003), que se referem a representações negativas relativamente a vários domínios interpessoais. Especificamente, o défice assertivo aparece associado aos esquemas de abandono/ instabilidade, privação emocional, defeito/ vergonha, fracasso e subjugação. Assim, o sujeito com défice assertivo parece ter representações do outro como instável e emocionalmente frio nas suas interacções; representações do self como possuindo falhas e tendência ao fracasso, que o tornam não digno de amor de outros; representações da necessidade de controlar a própria expressão emocional e pensamentos; e representações da relação como condicional a permitir-se ser subjugado e

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controlado por outros. Estes temas vêem no sentido dos quatro temas cognitivos que já Golden (1981) havia considerado terem um papel fundamental no funcionamento assertivo: medo de rejeição e necessidade de aprovação, super-preocupação com as necessidades e direitos dos outros, auto-avaliação negativa e expectativas acerca do próprio desempenho muito elevadas, mas não acerca do desempenho do outro, e crença de que a situação problemática é imutável e permanente.

Posto isto, os esquemas associados à competência assertiva serão provavelmente positivos (Castanyer, 2005), na sequência daqueles definidos por Elliott e Lassen (1997). Referir- se-ão a uma representação positiva das próprias características e competências, a uma representação do outro como confiável e emocionalmente próximo, e a uma representação da relação como recíproca e fonte de gratificação e satisfação. Tal corresponde a uma representação tripartida que vinha sendo referida na literatura de forma desordenada: representações do self, do outro e da relação (Vagos & Pereira, 2009b).

No que se refere a si próprio, o indivíduo assertivo parece possuir algumas características particulares, como auto-estima saudável, sustentada numa visão integrada dos próprios pontos positivos e negativos, auto-confiança, confiança nas próprias convicções, adaptabilidade, auto- controlo, tolerância à frustração, energia, sociabilidade, interesse pela opinião dos outros, empreendedorismo, determinação e persistência (Arrindell, Sanderman, Hageman, et al., 1990; Carochinho, 2002; Castanyer, 2005; Martins, 2005). O indivíduo assertivo assume responsabilidade por si mesmo, pelos seus desejos, sentimentos, pensamentos e acções, bem como pelas suas falhas e dificuldades, encarando-as de forma construtiva. Assim, define objectivos realistas em função das exigências da situação e das suas próprias competências (Z. Del Prette & Del Prette, 1999) e cria expectativas positivas, mas realistas acerca da forma de os concretizar e dos obstáculos previsíveis a esta concretização (Martins, 2005), o que poderá optimizar o seu desempenho profissional e social (Jardim & Pereira, 2006). A auto-direcção característica da assertividade parece poder contribuir para o ajustamento emocional interno do sujeito (Watanabe, 2006).

Ao mesmo tempo, este indivíduo assume responsabilidade social (Alberti & Emmons, 1990), ou seja, responsabilidade pela influência que os seus actos possam ter sobre os outros, procurando alcançar objectivos de forma correcta, respeitando os objectivos dos parceiros de interacção e colaborando, no sentido de atingir o melhor resultado possível para todas as partes envolvidas (A. Del Prette & Del Prette, 2003). Tal implica a valorização e representação do outro como igual, com os mesmos direitos fundamentais na relação, que devem ser respeitados (Alberti & Emmons, 1990; Castanyer, 2005). Assim, o indivíduo assertivo demonstra preocupação e tenta compreender o ponto de vista dos outros, assumindo uma postura empática, porque o reconhece como igualmente valioso e pertinente. Neste caso, o indivíduo é capaz de considerar como se pode adequar ao ponto de vista do outro, sem pôr em causa a própria autenticidade

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(Martins, 2005; Park & Yang, 2006). O outro é visto como alguém digno e capaz, com quem se discute ideias e opiniões, mas nunca o valor de cada um em si mesmo. Assim, os dois lados em relação podem afirmar as suas posições sem se anularem um ao outro (Martins, 2005), mas pelo contrário influenciando-se mutuamente. Esta percepção da própria influência sobre os outros parece ser diminuída no sexo feminino, enquanto no sexo masculino é diminuída a percepção da influência dos outros sobre o próprio, indicando diferenças na base cognitiva assertiva em função do sexo (Smye & Wine, 1980). Será de ressalvar que resultados demasiado elevados de consideração pelos outros poderão ser mal adaptativos ao nível do ajustamento emocional do sujeito, tanto em sujeitos do sexo feminino como masculino (Watanabe, 2006). A vertente cognitiva assertividade surge assim, como um ponto intermédio e equilibrado, mais uma vez remetendo para o conceito de esquemas cognitivos interpessoais adaptativos (Elliott & Lassen, 1997).

A consideração da interdependência pauta as relações interpessoais assertivas pelo respeito, frontalidade, valorização mútua, partilha, diálogo, consensos justos, compromissos e cedências de parte a parte. Ambas as partes aceitam o espaço que ocupam na relação e a influência de uma sobre a outra, procurando aceitar-se e flexibilizar-se. A relação é baseada na crença tanto nos próprios direitos como nos direitos dos outros, procurando-se, por isso, obter benefícios mútuos, mesmo que possa haver alguma frustração dos próprios interesses, pois todos os parceiros de interacção têm igual direito à defesa das próprias opiniões, direitos e interesses. Assim, a comunicação numa relação assertiva baseia-se no julgamento racional, ou seja, na percepção de que existem diferentes formas de pensar e diferentes soluções para o mesmo problema, que podem ser igualmente válidas e devem, portanto, ser reconhecidas, exploradas, avaliadas e integradas na medida do possível (Castanyer, 2005; Martins, 2005). Tal perspectiva fundamenta a eficácia e satisfação/ gratificação obtida nas interacções sociais, consequência do bem-estar de todos os interlocutores (Jardim & Pereira, 2006). A assertividade parece ser, assim, ingrediente das relações saudáveis, produtivas, equilibradas, cooperativas, contínuas, efectivas, nos ambientes profissional, social ou familiar (Alberti & Emmons, 1990; Jardim & Pereira, 2006; Martins, 2005; Park & Yang, 2006).

Sabendo a influência deste tipo de estruturas cognitivas no processamento subsequente de informação, a assertividade surge associada a uma capacidade de análise das exigências e circunstâncias da situação, que facilitem a resposta adequada (Spence, 2003) e a uma representação tripartida da realidade social, referindo-se a si mesmo, ao outro e às relações interpessoais.

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