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2 DESLIZAMENTOS METAFÓRICOS ENTRE “CORTE” E “MORTE” EM DUAS

2.2 SE QUISER LIQUIDAR UM POVO, COMECE COM OS CORTES NA

2.2.1 O APARELHO ESCOLAR E SUA FUNÇÃO POLÍTICA

A educação, vislumbrada na charge, vem no sentido de rememorar as vivências de um país, suas escolhas e sua historicidade. Pêcheux (2010), em Ler o arquivo hoje, cita Kundera para dizer que “quando se quer liquidar os povos”, se “começa a lhes roubar a memória” (p. 55). Isso implica considerar, então, o trabalho “através do qual os aparelhos do poder de nossas sociedades gerem a memória coletiva” (p. 57). Um país que questiona a educação e a escolarização, as pesquisas e a universidade enquanto condições para transformações e enquanto lugar de explicitação da história apaga sua memória.

Consoante Althusser (1980), a escola é um Aparelho Ideológico de Estado, que no complexo com o dominante das formações sociais é sobredeterminada por um governo caracterizado pela austeridade, ou seja, uma política centralizadora com controle da educação e cultura. Na sociedade capitalista contemporânea, o aparelho de Estado dominante é o Aparelho Ideológico Escolar (p. 60). O autor explica que esta tese pode parecer paradoxal, na medida em que a classe dominante prefere ser vista aos olhos da sociedade (ou seja, aos olhos dela própria e da classe dominada) como sendo fortalecida fundamentalmente pelo aparelho político, o sistema democrático parlamentar nascido do sufrágio universal que coloca em luta diversos partidos.

3 Disponível em: <https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/a-era-dos-psicopatas-bem-sucedidos/>. Acesso em: 01 fev. 2021.

Conforme dizeres ainda de Althusser (1980), os mecanismos que envolvem a reprodução das relações de produção são envolvidos pela ideologia da escola universal, livre de qualquer tipo de ideologia (não é de esquerda, não é de direita, não é progressista, não é conservadora), libertadora (já que os professores não podem desrespeitar a liberdade intrínseca que as crianças têm, não é papel deles influenciar qualquer tipo de opinião e decisão) e, claro, exemplar, a partir da produção de um efeito de modelo, que as crianças tornam-se boas cidadãs na medida em que aprendem com o exemplo dos adultos e dos conhecimentos virtuosos e libertadores que lhes são dadas. Tal situação leva-nos ao questionamento de qual seria a implicação deste corte de investimento em educação.

Trata-se de um corte que se inscreve no apagamento de lugares discursivos, de vozes que se fizeram possíveis na academia em outros governos. Dentro do conjunto de Aparelhos Ideológicos, há uma instituição que tem papel preponderante: a escola. A escola acolhe todas as crianças de todas as classes sociais desde muito cedo, a partir do período em que elas estão mais vulneráveis, e inculca-lhes os saberes práticos que a ideologia dominante tem como fundamentais (como a língua portuguesa, matemática, as ciências e as lições morais). No Brasil, logo depois do Ensino Fundamental, uma grande massa de crianças sai da escola e entra na produção; são os subempregados, trabalhadores da camada mais baixa do mercado de trabalho. Os que seguem na jornada de estudos do aparelho escolar terminam o Ensino Médio e se transformam em trabalhadores, médios, às vezes, operários especializados com cursos técnicos, às vezes trabalhadores mal remunerados de escritórios.

O efeito de pré-construído é aquilo que é dado na formulação como indiscutível, como um saber construído anteriormente e que, nessa discursividade, não se questiona. Na fala da personagem, o que é dado como saber a partir da sustentação desse dizer é a ideia de que sem a educação um povo é destruído.

O vocábulo “povo” descreve um público específico, o popular, a população de baixa renda que em outros momentos pôde frequentar as universidades devido aos programas de benefício dos governos anteriores; cortam-se pessoas desse lugar de discussão, ou até mesmo corta-se a educação enquanto lugar de discussão. O governo decide, assim, pautado em quem o elegeu, em quem o escolheu, apagar memórias, silenciar possíveis aprendizados históricos provenientes de lutas sociais como a ditadura. Quando a personagem Thanos pronuncia “aprendendo com o Brasil” e não “aprendendo com o governo Bolsonaro”, produzem-se os sentidos que são próprios da responsabilização de um país inteiro – população – nas decisões, já que na democracia, a cada decisão do governo, o cidadão se faz presente.

Em seus modos de formulação, em que se intrincam imagem e palavra, a charge faz alusão ao corte nas verbas destinadas à educação superior pelo governo Bolsonaro.

Nesse caso, o corte de verbas da educação também representa o corte na vida das pessoas, ou seja, simboliza a morte. Assim, a ironia é produzida a partir do corte que se faz como aniquilamento de sujeitos e que denuncia essa decisão do governo; ironia e cinismo compreendidos como uma prática discursiva que dissimula a característica da posição ideológica bolsonarista. Este cinismo é pensado a partir da obra de Di Nizo (2019) como uma divisão ideológica; dominação/resistência. A autora (p. 17) propõe essa reflexão mediante a apresentação do “par antitético Kynismo-cinismo”, o qual inscreve a contrariedade do cinismo como prática de resistência ao poder designado a escrachar e reprovar suas contradições (kynismos) e do cinismo enquanto prática oriunda do poder para destruir qualquer artifício crítico, visto que a própria crítica que poderia ser feita já está incorporada. Dito de outra forma, “o cinismo enquanto reação irônica do poder à crítica subversiva kynika (zynismos ou

‘razão cínica’, aqui considerado como cinismo em oposição ao kynismos)” (DI NIZO, 2019, p. 17).

O funcionamento deste par antitético, ainda segundo Di Nizo (2019, p. 29), culmina-se no que ela denomina como cinismo contemporâneo, o qual é resultado de diversos entrecruzamentos de movimentos políticos-ideológicos revelados a partir de embates entre resistência e opressão. Pensando em nossa materialidade, apropriar-nos-emos da construção da autora ao dizer que:

O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, pode ser considerado como protótipo do cinismo contemporâneo incorporado no escalão mais elevado do poder político, na medida em que encarna ao mesmo tempo a figura do rei e do bobo da corte em seu patético e burlesco personagem, revelando escancaradamente, por meio de sua “franca imoralidade” e de suas gargalhadas sarcásticas, “que as leis comuns existem somente para os tolos” (DI NIZO, 2019, p. 29).

O discurso cínico do governo Bolsonaro faz uma torção no sentido de “corte” e

“morte”, a charge por sua vez, torce, novamente, os sentidos para replicar o discurso como uma manifestação de resistência a partir da prática Kynica. Para tanto, Duke inscreve nesta formulação um deslizamento metafórico de “corte” para “morte”, o qual necessariamente é depreendido através da relação imagética, que reverbera efeitos de sentido de aniquilação.

Segundo Pêcheux (1993, p. 96): “Chamaremos efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual para lembrar que esse ‘deslizamento de sentido’

entre x e y é constitutivo do ‘sentido’ designado por x e y”. Dito de outra maneira, é a

viabilidade do efeito metafórico, conforme explica Pêcheux (1993), que permite que um efeito semântico possa ser substituído contextualmente por outro(s), sem que dele se desvincule plenamente. Tal efeito que carrega a possibilidade de deslocamento dos sentidos, caso contrário, o que sucederia seria apenas uma reprodução dos sentidos, nos quais a interpretação, as falhas, os deslocamentos não teriam lugar, pois seriam corriqueiras repetições. Nesta perspectiva, trabalharemos os recortes de nossos corpus de pesquisa, retomando estes funcionamentos em outros gestos analíticos.

2.3 DO CONTINGENCIAMENTO AO CORTE: UMA CRÍTICA AO DISCURSO