• Nenhum resultado encontrado

RENATO HOLLANDA SILVA. O CORTE NA EDUCAÇÃO E A POLÍTICA DA MORTE: humor, cinismo e resistência nas charges de Duke

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "RENATO HOLLANDA SILVA. O CORTE NA EDUCAÇÃO E A POLÍTICA DA MORTE: humor, cinismo e resistência nas charges de Duke"

Copied!
90
0
0

Texto

(1)

RENATO HOLLANDA SILVA

O CORTE NA EDUCAÇÃO E A POLÍTICA DA MORTE:

humor, cinismo e resistência nas charges de Duke

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Linguística da Universidade de Franca, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística.

Orientadora: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi.

FRANCA

2021

(2)

RENATO HOLLANDA SILVA

O CORTE NA EDUCAÇÃO E A POLÍTICA DA MORTE:

humor, cinismo e resistência nas charges de Duke

COMISSÃO JULGADORA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA

Presidente: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi Universidade de Franca

Titular 1: Prof. Dr. Lauro José Siqueira Baldini Universidade Estadual de Campinas

Titular 2: Profa. Dra. Luciana Carmona Garcia Manzano Universidade de Franca

Franca, 12/03/2021

(3)

AGRADECIMENTOS

Ao longo do percurso não me faltaram conversas, estímulos e, principalmente, não me faltou o apoio de colegas, amigos e familiares que partilharam deste projeto, cada um ao seu modo. Agradeço a todos, com quem compartilho agora os frutos desta breve proeza em meio a um período totalmente atípico ocasionado pela pandemia da COVID-19.

Em primeiro lugar agradeço a Deus, por ter me proporcionado a vida até aqui com muita saúde.

À minha família, meus pais Onecyr e Baltazar e à minha irmã Jussania, que acompanharam toda a minha trajetória, acalentaram os meus anseios, as minhas dúvidas, aflições e festejaram com muita alegria as minhas conquistas.

À minha orientadora Aline Fernandes de Azevedo Bocchi que me acolheu com muita generosidade na linha de pesquisa, soube ser paciente, redirecionando-me em momentos oportunos, sempre de forma delicada, porém ao mesmo tempo rigorosa e precisa.

Aos professores Lauro José Siqueira Baldini e Luciana Garcia Manzano, pela leitura deste texto e pelas ricas contribuições.

Aos amigos Márcio e Eduardo, que estiveram comigo em momentos de escuta e acolhida.

Às minhas amigas Graça e Bianca, que partilharam comigo suas experiências e contribuições para que esta pesquisa fosse realizada com tanto êxito.

Agradeço à CAPES, cujo apoio financeiro tornou viável a concretização deste sonho.

E por último, porém não menos importante, aos meus colegas e professores do mestrado que dispensaram um apoio inestimável para que eu pudesse seguir com objetivo, coragem e firmeza todo o trajeto desta pesquisa.

(4)

Quadro nenhum está acabado, disse certo pintor; Se pode sem fim continuá-lo, primeiro, ao além de outro quadro que, feito a partir de tal forma, tem, na tela, oculta, uma porta que dá a um corredor que leva a outra e a muitas outras.

João Cabral de Melo Neto

(5)

RESUMO

SILVA, Renato Hollanda. O corte na educação e a política da morte: humor, cinismo e resistência nas charges de Duke. Orientadora Aline Fernandes de Azevedo Bocchi. 2021.

90f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade de Franca, Franca.

Problematiza-se, nesta pesquisa de mestrado, o funcionamento discursivo de charges formuladas a partir de decisões e dizeres polêmicos do governo Bolsonaro sobre a temática do

“contingenciamento” de verbas para educação de nível superior. Tendo em vista um corpus construído a partir de recortes de charges de autoria de Duke, publicadas no jornal O Tempo, objetiva-se compreender processos de produção de sentidos de resistência ao discurso bolsonarista, o que implica o exame das diferentes posições-sujeito que se confrontam e enfrentam nas charges, consideradas formulações verbo-visuais. Com ancoragem nos pressupostos da Análise de Discurso, na esteira de Pêcheux e Orlandi, articulam-se conceitos como memória discursiva, interdiscurso, acontecimento, interpelação/identificação, posição- sujeito etc., os quais embasam análises realizadas no batimento entre descrição e interpretação, e visam problematizar os diferentes posicionamentos ideológicos subjacentes às propostas políticas da educação superior para a sociedade brasileira. As análises descortinam o funcionamento discursivo das charges, indiciando um processo discursivo que afirma um posicionamento crítico ao articular efeitos de humor e resistência, decorrentes de uma prática filiada ao cinismo antigo (kynismos), cujo modo de funcionamento coloca em cena a ironia e o humor. A partir delas, é possível reconhecer a necropolítica ou política da morte que subjaz discursos e práticas bolsonaristas, interrogando seus efeitos e implicações sociais. (O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001).

Palavras-chave: Análise de Discurso; charges; humor; resistência; kynismos-cinismo.

(6)

ABSTRACT

SILVA, Renato Hollanda. The cut in education and the politics of death: humor, cynicism and resistance in Duke's charges. Advisor Aline Fernandes de Azevedo Bocchi. 2021. 90f.

Dissertation (Master in Linguistics) – University of Franca, Franca.

It is problematized in this master's research, the discursive functioning of charges formulated based on the controversial decisions and statements of the Bolsonaro government on the subject of “contingency” of funds for higher education. In view of a corpus built from clippings of charges by Duke, published in the newspaper O Tempo, the objective is to understand processes of producing meanings of resistance to Bolsonarist discourse, which implies examining the different subject-positions that confront and face in charges, considered verb-visual formulations. Anchored in the assumptions of Discourse Analysis, in the wake of Pêcheux and Orlandi, concepts such as discursive memory, interdiscourse, event, interpellation/identification, subject-position etc., are articulated, which support the analyzes carried out in the mix between description and interpretation and they aim to problematize the different ideological positions underlying the political proposals of higher education for Brazilian society. The analyzes reveal the discursive functioning of the charges, indicating a discursive process that affirms a critical position when articulating effects of humor and resistance, resulting from a practice affiliated to the old cynicism (kynismos), whose operating mode puts irony and humor on the scene. From them it is possible to recognize the necropolitics or politics of death that underlies Bolsonarist discourses and practices, questioning their effects and social implications. (This work was carried out with the support of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel – Brazil (CAPES) – Financing Code 001).

Keywords: Discourse Analysis; charges; humor; resistance; kynisms-cynicism.

(7)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Charge publicada no jornal O tempo em 16/05/2019 ... 43

Figura 2 – Charge publicada no jornal O tempo em 18/05/2019. ... 49

Figura 3 – Charge publicada no jornal O tempo em 07/05/2019. ... 61

Figura 4 – Charge publicada no jornal O tempo em 05/05/2019. ... 72

(8)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

1 A ANÁLISE DE DISCURSO: UM PONTO DE PARTIDA ... 16

1.1 O DISCURSO ENTRE O SIMBÓLICO E O POLÍTICO ... 17

1.2 O SUJEITO DO DISCURSO ... 19

1.3 A IDEOLOGIA COMO PROCESSO DE INTERPELAÇÃO DE SUJEITOS E NATURALIZAÇÃO DE SENTIDOS ... 22

1.4 MEMÓRIA E INTERDISCURSO ... 26

1.5 FORMAÇÃO DISCURSIVA (FD), PRÉ-CONSTRUÍDO ... 27

1.6 ACONTECIMENTO DISCURSIVO ... 31

2 DESLIZAMENTOS METAFÓRICOS ENTRE “CORTE” E “MORTE” EM DUAS CHARGES DE DUKE: EFEITOS DE UMA COMPOSIÇÃO ... 35

2.1 APONTAMENTOS PRELIMINARES SOBRE A CHARGE ... 36

2.1.1 A CHARGE: UMA MATERIALIDADE SIGNIFICANTE ... 38

2.1.2 MEMÓRIA, IMAGEM E SEUS TRAJETOS DE LEITURA ... 40

2.2 SE QUISER LIQUIDAR UM POVO, COMECE COM OS CORTES NA EDUCAÇÃO...43

2.2.1 O APARELHO ESCOLAR E SUA FUNÇÃO POLÍTICA ... 46

2.3 DO CONTINGENCIAMENTO AO CORTE: UMA CRÍTICA AO DISCURSO BOLSONARISTA ... 49

2.3.1 O CORPO: UMA MATERIALIDADE SIGNIFICANTE ... 51

2.3.2 AS MODALIDADES DE IDENTIFICAÇÃO SEGUNDO MICHEL PÊCHEUX ... 52

2.3.3 A CHARGE COMO PRÁTICA DE RESISTÊNCIA ... 54

3 PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA POLÍTICA NAS CHARGES DE DUKE: HUMOR, IRONIA E CINISMO ... 57

3.1 A CHARGE COMO PRÁTICA DISCURSIVA SUBVERSIVA ... 58

(9)

3.2 “TEM QUE CORTAR ISSO DAÍ MESMO”: POSIÇÃO-SUJEITO ELEITOR

ALIENADO ... 60

3.2.1 UMA TOMADA DE POSIÇÃO FACE À EVIDÊNCIA DA POLARIZAÇÃO POLÍTICA ... 64

3.2.2 FUNÇÃO-AUTOR E EFEITO-LEITOR NAS CHARGES DE DUKE ... 69

3.3 A PRÁTICA POLÍTICA BOLSONARISTA COMO PRÁTICA TERRORISTA...72

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 79

REFERÊNCIAS ... 81

(10)

INTRODUÇÃO

Pesquisar a temática da educação de ensino superior no Brasil é urgente. Isso porque os processos de escolarização produzem efeitos de sentidos nos sujeitos, perscrutando seus corpos, os quais são também afligidos pelo modo como as práticas políticas de decisões acerca de tal temática se dão. Tendo isso em vista problematizam-se, nesta pesquisa, charges que tematizam a educação e a política, aqui alçadas ao estatuto de objeto de estudo. Objetiva- se, a partir de um corpus constituído por recortes que dão a ver um embate de posicionamentos ideológicos acerca dessa questão, investigar os modos de funcionamento da charge compreendida como prática de resistência, uma vez que inscreve posições de crítica e denúncia que se efetivam por meio da ironia, do sarcasmo, em que é possível reconhecer uma potência subversiva kynica (DI NIZO, 2019).

Nesse emaranhado discursivo de referida urgência, as (in)tensas polarizações políticas são efeitos da interpelação pela ideologia em uma conjuntura nacional. Discursos aparentemente polarizados parecem cristalizar lugares discursivos que se contrapõem, a partir das posições ideológicas de cada sujeito: observa-se, desse modo, a atualização do lugar discursivo do sujeito de direita e de esquerda. Nesse novo cenário de polarização política no Brasil, há presença de um litígio discursivo entre direita e esquerda. Conforme Mariani (2019, p. 270-271):

As palavras comunismo, comunista e esquerda foram progressivamente deslocadas do campo específico de debate sobre ideias políticas e, como efeito, produziu-se um forte movimento para o silenciamento de ideias sobre sociedade e sobre economia formuladas na ordem do discurso materialista. Em função deste deslocamento e ressignificação, estas palavras, na atualidade, estão sendo determinadas por efeitos de sentidos variados, dentre os quais destaca-se o da criminalização.

Embora este trabalho não trate diretamente da criminalização destacada por Mariani, há de se considerar que tais lugares, enrijecidos, na atualidade, são constituídos pelos papéis e funções sociais em meio à ressignificação da política e dos movimentos gerados por ela. O embate discursivo da ordem da política parece tender para a forte circulação de valores morais que funcionam, para a sociedade, como efeitos, os quais se relacionam a uma posição-

(11)

sujeito que defende cortes pecuniários nas universidades públicas como forma de (re)organização das verbas.

Tendo isso em vista, este trabalho vislumbra o conceito de ideologia como

“condição para a constituição do sujeito e dos sentidos” (ORLANDI, 2005), ou seja, o sujeito é produzido como evidente no discurso, pelo funcionamento da ideologia que o constitui como efeito-sujeito. Interessa para essa reflexão pensar como sujeitos situados no interior de relações de forças entre os elementos antagonistas de um campo político se mobilizam pela linguagem. Acerca disso, Pêcheux coloca que:

Um discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas: por exemplo, o deputado pertence a um partido político que participa do governo ou a um partido da oposição; é porta-voz de tal ou tal grupo que representa tal ou tal interesse, ou então está ‘isolado’, etc. Ele está, pois, bem ou mal, situado no interior da relação de forças existentes entre os elementos antagonistas de um campo político dado. O que diz, o que anuncia, promete ou denuncia, não tem o mesmo estatuto conforme o lugar que ele ocupa; a mesma declaração pode ser uma arma temível ou uma comédia ridícula segundo a posição do orador e do que ele representa, em relação ao que diz. Um discurso pode ser um ato político direto ou um gesto vazio, para ‘dar o troco’, o que é uma outra forma de ação política (PÊCHEUX, 1997, p. 77 – grifos do autor).

Os sentidos da ação política dependem, portanto, da posição ideológica daquele que a emprega. Conforme Orlandi (2007, p. 21), “o político é o fato de que o sentido é sempre dividido, tendo uma direção que se especifica na história, pelo mecanismo ideológico de sua constituição”. Ou seja, a ideologia disponibiliza certos sentidos à política, decide e normatiza o que é (ou não) aceitável como direito e/ou dever do cidadão. Os padrões (Leis, Pec’s e Emendas) são definidos ideologicamente, já que os sentidos de certo e errado são constituídos no/pelo consenso, em um processo no qual a política interfere diretamente ao oferecer uma gama de projetos que perscrutam um efeito de sentido de resolução das mazelas da população.

Nesta pesquisa, buscamos compreender o funcionamento de charges que tematizam as decisões do governo Bolsonaro no que diz respeito à temática do contingenciamento de verbas para educação de nível superior. Examinamos a materialidade de charges publicadas no jornal O Tempo, de autoria de Eduardo dos Reis Evangelista, conhecido pelo pseudônimo Duke. Desse modo, a partir da insurgência dos discursos políticos na sociedade, questionaremos os efeitos de sentidos dos ditos do governo Bolsonaro sobre cortes na educação superior, já que essa questão é comungada em praticamente todos os tecidos sociais. Nas plataformas multimidiáticas, nos terrenos acadêmicos e de pesquisas, no cinema, nas ruas, fala-se de/sobre isso. Entretanto, no que diz respeito às especificidades da charge, essas discussões em relação ao tema tocam, principalmente, o seu efeito cômico e ambíguo.

(12)

Deste modo, procura-se problematizar as formas de aparecimento das contraidentificações (PÊCHEUX, 2009) nas charges, as quais inauguram um espaço para a heterogeneidade, já que elas correspondem a uma tomada de posição do sujeito engajado na luta contra a evidência ideológica. Assim, o sujeito “se contra-identifica com a formação discursiva que lhe é imposta” (PÊCHEUX, 2009, p. 199). Ou seja, ao questionar a ideologia vigente, o sujeito ainda assim acaba por ocupar um lugar dentro da mesma formação discursiva, mas um lugar de questionamento e não de reduplicação do saber vigente. Na contraidentificação, abrem-se possibilidades plurais para que seja instaurada a diferença, o questionamento, o embate, e isso parece gerar, por conseguinte, o lugar das distintas posições- sujeito no interior de uma mesma formação discursiva.

Na contemporaneidade, observa-se uma importante ampliação de discursos dos posicionamentos políticos como busca do sujeito pela sua liberdade e pela luta em favor de certos valores sociais e morais (im)postos. Observa-se a ocorrência, no período das eleições de 2018, de uma polarização discursiva em relação às propostas apresentadas em campanha pelos candidatos com maior intencionalidade de votos, propostas estas que evidenciavam a educação, visível nos discursos dos candidatos denominados como de esquerda, ou que contemplavam a segurança pública, como nos discursos dos candidatos nomeados como direita.

A charge é uma produção discursiva em que a linguagem correlaciona o verbal com o imagético. Sua interpretação se faz a partir dessa associação. Nessa interlocução verbo- visual, percebe-se que a charge retoma um discurso já-dito e, no jogo discursivo de revelar esse enunciado anteriormente falado, acaba por evidenciar as posições discursivas do lugar do sujeito enunciativo (Duke), compreendido, pelo viés da Análise de Discurso (AD), como aquele “que toma posições a partir do lugar em que se reconhece como sujeito e, portanto, se coloca em seu discurso como portador de uma identidade que acredita ser objeto de sua livre opção” (ZANDWAIS, 2005, p. 148). Ainda, a respeito do sujeito enunciativo ou sujeito- enunciador, Baptista (2011, p. 28) diz que ele, “ao operar com determinadas escolhas, não o faz por realizar um ato individual de liberdade; esse movimento é condicionado por certo lugar enunciativo e posicionamento discursivo”. E o discursivo, ou seja, aquele que é tomado por uma posição e interpelado pela ideologia, o qual implica a relação do simbólico com o político em um tom de crítica às decisões e falas do atual presidente sobre a educação superior e verbas para a mesma, propiciando a constituição desses sentidos.

Assim, a charge suscita efeitos de sentido para além da superfície linguística e proporcionam (re)significações para aquilo que já é conhecido. O discurso chargístico se caracteriza pelo efeito cômico produzido perante um acontecimento social. Na charge o

(13)

efeito-autor propõe-se a criticar algo e assume uma posição ideológica de embate das propostas do governo Bolsonaro a respeito da educação superior.

Ao trabalharmos os recortes das materialidades das charges de Duke, retiradas do jornal O Tempo e coletadas entre o período de 04 de maio de 2019 a 18 de maio de 2019, compreende-se um efeito cômico de provocação despertado a partir do cinismo e da alienação que o autor busca referenciar ao discurso pró-bolsonarista, alimentado pelas pautas da

“balbúrdia”1 atribuída ao profissional da área de humanas, do “patriotismo”, atribuído ao atual presidente Jair Bolsonaro e, principalmente, dos investimentos em educação.

Assim sendo, esta pesquisa tem por objetivo compreender os efeitos de sentido constitutivos das charges de Duke, ou seja, seus modos de formulação, constituição e circulação (ORLANDI, 2012), por meio da análise de recortes que compõem o nosso corpus de pesquisa.

Conforme Orlandi (2012, p. 9) há três momentos de produção do sentido ou três instâncias do discurso, que são: o nível da constituição, o nível da formulação e o nível da circulação. O nível da constituição é o que trabalha a partir da memória do dizer, e faz intervir a condição histórico- ideológica mais ampla. O nível da formulação é o que trabalha as condições de produção e circunstâncias de enunciação específicas, sendo um espaço de significação particular, e o nível da circulação, o qual é o espaço em que os dizeres significam pelo modo como circulam. Para a autora, os sentidos são a consequência dos três modos que se dão conjuntamente.

Em vista disso, ancoramos nossas reflexões no arcabouço teórico da Análise de Discurso, com a intenção de problematizar as condições de produção (PÊCHEUX, 2010) e os processos de contraidentificação (PÊCHEUX, 2009) nesses discursos, os quais permitem observar como são constituídos os sentidos aos quais os sujeitos se filiam para significarem a educação.

Conforme Orlandi (2005) e Mazière (2017), a Análise de Discurso (AD) é originária dos anos 60 a partir das pesquisas de Michel Pêcheux e seu grupo na École Normale Supérieure, os quais propunham a teorização do discurso como objeto constituído no entremeio da Linguística, do legado de Saussure, do Materialismo Histórico, especialmente representado na Teoria da Ideologia de Louis Althusser, e da Psicanálise de Lacan. A Análise de Discurso avança no Brasil efetivamente por Orlandi e seu grupo, os quais possibilitaram

1 O nome “balbúrdia” aparece na fala do ex-ministro da educação do governo Bolsonaro, Abraham Weintraub, em abril de 2019, como forma de nomear a prática acadêmica nas universidades brasileiras, em especial as públicas. Segundo suas declarações, “a presença de sem-terra e gente pelada dentro dos campus” mostraria que os pesquisadores, docentes e alunos dedicavam-se à “balbúrdia”, servindo de motivo para cortar recursos da educação superior. Este termo será retomado e explicitado durante a análise de um recorte deste corpus de pesquisa. Disponível em: <https://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2019/04/30/mec-cortara-verba- de-universidade-por-balburdia-e-ja-mira-unb-uff-e-ufba.htm>. Acesso em: 20 jan. 2021.

(14)

desenvolvimentos teóricos importantes, trabalhando sempre no entremeio (ORLANDI, 2005) das disciplinas que a constituem.

A Análise de Discurso (AD) parte do pressuposto de que o sujeito não é fonte do sentido; os processos de produção de sentidos se formam por um trabalho de filiação a uma rede de memória, o qual acontece pela inscrição em diferentes formações discursivas, que vão representar, no interior do discurso, diferentes posições-sujeito, resultado das contradições, dispersões, descontinuidades, lacunas, pré-construídos, presentes nos discursos (GRIGOLETTO, 2005). Ao mostrar que linguagem e sentido não são transparentes, a teoria do discurso trabalha a ilusão do sujeito como origem. Assim, para Grigoletto (2005), o sujeito da AD não é o indivíduo, sujeito empírico, mas o sujeito do discurso que carrega consigo marcas do social, do ideológico, do histórico e tem a ilusão de ser a fonte de sentido.

No batimento entre descrição e interpretação, inscrevemos gestos analíticos do material recortado. Orlandi (2005, p. 60) descreve a interpretação tendo em vista dois momentos:

a. em um primeiro momento, é preciso considerar que a interpretação faz parte do objeto de análise, isto é, o sujeito que fala interpreta e o analista deve procurar descrever esse gesto de interpretação do sujeito que constitui o sentido submetido à análise; b. em um segundo momento, é preciso compreender que não há descrição sem interpretação, então o próprio analista está envolvido na interpretação.

E é neste vai e vem entre interpretação e descrição que se atravessa o efeito de transparência e de evidência da linguagem, que se desconstrói a ilusão de onipotência do sujeito (ORLANDI, 2007, p. 61). Nesse movimento de batimento, analisamos os efeitos de sentidos produzidos, interpelados ideologicamente pelo discurso político; buscamos verificar e contextualizar as condições de produção desses discursos, pois conforme Pêcheux (2010, p. 77):

“um discurso é sempre pronunciado a partir de condições dadas”, que incluem sujeito e situação.

No caso da proposta de análise, ao apresentar as charges e os sentidos que nelas se constituem, necessita-se observar como, nesses processos discursivos, emergem discursos outros, que repetem já-ditos sobre política, candidatos e propostas educacionais.

Assim, retomam-se significações passadas que podem ser vistas nas discursividades das charges, pelo funcionamento da memória. Isso porque nosso dizer advém de um já-dito, que é por ora esquecido e habita a memória discursiva, mesmo que não se tenha consciência disso.

Por fim, propomos ao leitor que conheça o desenrolar deste caminhar pelo trabalho aqui realizado, que é composto por três capítulos que problematizam as charges de

(15)

embate aos discursos pró-bolsonaristas acerca da educação de nível superior no Brasil e das verbas a ela destinadas.

No primeiro capítulo, empreendemos um percurso teórico pelo campo da Análise de Discurso, e retomam-se os principais conceitos que a integram, tais como discurso, sujeito, ideologia, memória, interdiscurso etc., que serão posteriormente mobilizados nas análises das charges. No segundo capítulo, convocamos os conceitos apresentados em análises que se ocupam dos processos de significação constitutivos das charges. Nelas, compreenderemos a discursividade da charge e, também, a depreenderemos como formulação verbo-visual, de cuja estrutura participam a imagem, a palavra e o corpo.

No terceiro capítulo, tais conceitos se desdobram e aprofundam na problematização das práticas de resistência a partir, fundamentalmente, de Pêcheux e Orlandi em duas análises posteriormente apresentadas. Nelas, vislumbra-se o deslocamento dos efeitos de “corte” para “contingenciamento” de verbas para o ensino superior. Nesse capítulo, ao descortinar o funcionamento das charges, as análises possibilitam um movimento de crítica à necropolítica, a qual subjaz à política bolsonarista, em efeitos de humor e resistência que se articulam à ironia, além do entendimento do funcionamento kynico (DI NIZO, 2019), nessas materialidades.

(16)

1 A ANÁLISE DE DISCURSO: UM PONTO DE PARTIDA

Neste capítulo, propomos traçar um breve percurso do estudo da Análise de Discurso, a qual é o lugar teórico onde nos posicionamos para analisar o nosso objeto – a charge. Além disso, trazemos ainda o conceito de discurso e alguns de seus dispositivos teóricos à luz dos principais autores que nortearam esta pesquisa, Michel Pechêux e Eni P.

Orlandi. Para Orlandi (2005), a Análise de Discurso relaciona-se a três domínios disciplinares: Linguística; Marxismo e Psicanálise. Embora tenha sido influenciada por estes três campos, a AD representou, na verdade, uma superação em vários pontos de cada um deles, portanto inaugurou um novo recorte disciplinar, cujo objeto é o discurso.

A Análise de Discurso de M. Pêcheux considera a discursividade não somente em sua forma abstrata ou empírica, mas em sua forma material, em consonância com as contribuições do Materialismo Histórico, da Psicanálise e da Linguística. A AD contempla a linguagem como não transparente e questiona de que modo um objeto simbólico pode significar-se. Posto isso, compreende-se que a linguagem aparece como uma mediação entre o real, o natural e o social. “Essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive” (ORLANDI, 2005, p. 15).

Em O discurso: estrutura ou acontecimento, Pêcheux (2002) define o lugar da AD em contraposição às outras ciências, como teoria que se ocupa de objetos inscritos em espaços discursivos não estabilizados logicamente. Compreende-se que esse posicionamento define uma teoria que determina o sujeito do discurso como aquele que é afetado pela história e pela língua, que colhe significantes para investir nos objetos simbólicos, e, ao mesmo tempo, é investido por este acontecimento do significante pela interpelação ideológica, para daí produzir sentido(s) e questionar como ocorre a materialidade discursiva (MALDIDIER, 2017).

A AD trata do discurso e teoriza a interpretação, isto é, coloca-a em questão.

Assim, o estudo do discurso distingue-se da Hermenêutica, e tem como objetivo compreender:

como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido. A AD não estaciona na interpretação, trabalha seus

(17)

limites, seus mecanismos, como parte dos processos de significação. Também não procura um sentido verdadeiro, através de uma chave de interpretação. Não há esta chave, há método, há construção de um dispositivo teórico. Não há uma verdade oculta atrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo, deve ser capaz de compreender (ORLANDI, 2005, p. 26).

O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. Seu estudo permite avaliar o que o homem – ser especial – faz, como organiza sua capacidade de significar e significar-se.

A AD trabalha, portanto, com a língua do mundo, com formas de exprimir os homens falando, tendo em vista a produção de sentidos, enquanto parte de suas vidas, “seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade”

(ORLANDI, 2005, p. 16), e analisa o homem em seu contexto histórico, os processos e as condições de produção de linguagem, pela análise da relação estabelecida pela linguagem com os sujeitos que a dizem e as situações inerentes ao que foi dito.

Assim sendo, o observador de discurso analisa a linguagem sob as suas aparências para encontrar as “regularidades” em sua produção. Com esta finalidade, ele estabelece relações com o campo das ciências sociais, questionando a transparência da linguagem, e com o conhecimento da Linguística, interrogando a historicidade. Portanto, a Análise de Discurso tem como objetivo pensar o sentido dimensionado no tempo e no espaço das práticas do homem. Para tanto, ela “descentraliza a noção de sujeito e relativiza a autonomia do objeto da Linguística” (ORLANDI, 2005, p. 16).

1.1 O DISCURSO ENTRE O SIMBÓLICO E O POLÍTICO

A palavra discurso em seu bojo traz o conceito de “curso, de percurso, de correr por, de movimento” (ORLANDI, 2005, p. 15). Em síntese, o discurso é a palavra em movimento, prática de linguagem, o que permite a observação do homem falando. O objetivo da Análise de Discurso é a compreensão da língua com sentido, do “trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história” (ORLANDI, 2005, p. 15).

Segundo Orlandi (2005, p. 20), “a noção de discurso, em sua definição, distancia-se do modo como o esquema elementar da comunicação dispõe seus elementos definindo o que é a mensagem”, conforme o esquema: emissor, receptor; código, referente e mensagem. De acordo com a AD, esse esquema não é separado em sequência linear e nem

(18)

estanque. O processo de significação ocorre de forma simultânea. A linguagem nesse sentido tem duas finalidades: comunicar e não comunicar. “As relações de linguagem são relações de sujeitos e de sentidos e seus efeitos são multipolos e variados. Daí a definição de discurso: o discurso é efeito de sentidos entre locutores” (ORLANDI, 2005, p. 21).

Deste modo, o discurso, segundo Orlandi (2005), é de difícil definição, pois ele não se circunscreve ao esquema elementar da comunicação entre um emissor, um receptor e a mensagem. A AD aborda, além da transmissão de informação, o funcionamento da linguagem

“que põe em relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história”, ou seja, “na perspectiva discursiva, a linguagem é linguagem por que faz sentido. E a linguagem só faz sentido porque se inscreve na história” (ORLANDI, 2005, p. 25).

Em outras palavras, a AD não vai se ocupar do sentido dos textos ou demais objetos simbólicos, mas sim dos modos e das dinâmicas com que, por ocasião das condições de produção, os sentidos se estabelecem ao longo do fio da história. Para isso, ela não pensa a língua como um sistema abstrato e formal, nem o sujeito como a fonte dos sentidos. Os sentidos não são produzidos pelo sujeito, mas são anteriores e externos a ele. Além disto, a AD trabalha “refletindo sobre a maneira como a linguagem está materializada na ideologia e como a ideologia se manifesta na língua” (ORLANDI, 2005, p. 16).

Por isso, os processos discursivos estão na fonte da produção dos sentidos e a língua é o lugar material onde se realizam os efeitos de sentido. Os estudos da AD consideram que é:

[...] possível construir procedimentos efetivos capazes de restituir o traço da estrutura invariante dos discursos (o sistema de suas “funções”) sob a série combinatória de suas variações superficiais, “empíricas”: portanto, reconstruir alguma coisa dessa “estrutura presente na série de seus efeitos” (PÊCHEUX, 2009, p. 254-255).

A AD é uma teoria constituída de uma prática: “é porque o analista tem um objeto a ser analisado que a teoria vai-se impondo” (MALDIDIER, 2017, p. 10), ou seja, é à medida que o objeto se apresenta que se faz possível analisá-lo, tendo por base um escopo teórico que permite desvelar aquilo que se passa nos entremeios, evidenciar a polissemia semântica, questionar um aparente equívoco, ou estranhar o aparente “óbvio” que se repete.

Para tanto, é necessário rastrear a memória discursiva, enfatizar o sujeito, trabalhar com os não-ditos, silenciamentos do dizer e analisar o discurso de uma forma sempre parcial e datada sócio historicamente, já que ele é heterogêneo, polissêmico, dinâmico e atravessado pela ideologia.

(19)

Esta teoria nos permite atrelar às possibilidades de práticas de leituras e análises, um olhar particular sobre o sujeito, seu discurso, e sua inscrição político-social.

Desta maneira, o caminho percorrido até aqui permite aferir que a teoria preconizada por Pêcheux, consoante Orlandi (2005), abre uma perspectiva de trabalho em que a linguagem não se dá como evidência, oferece-se como lugar de descoberta. Lugar do discurso: sempre marcado pela articulação do simbólico com o político, o que faz intervir a ideologia sujeitando e assujeitando o sujeito no discurso (ORLANDI, 2005).

A palavra marca um lugar historicamente determinado dentro das condições de produção de um dizer. Todo discurso, assim sendo, é um ato político. Segundo Orlandi (2005), a formação discursiva – lugar provisório da metáfora – representa o lugar de constituição do sentido e de identificação do sujeito.

Assim, pelo exposto até este lugar, pode-se afirmar que todo discurso é em si político, conforme o posicionamento de Pêcheux (1997) e Orlandi (1997), pois demanda a problematização do social com todas suas implicações: “conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidades etc.” (ORLANDI, 2005, p. 17). E, principalmente, implica as “circunstâncias em que estas produções linguísticas são colocadas em curso no dizer (os sujeitos em seus lugares e em determinadas situações) e o contexto sócio histórico, ideológico mais amplamente de condições de produção” (ORLANDI, 2005, p. 30).

1.2 O SUJEITO DO DISCURSO

Os primeiros movimentos quanto à direção desta pesquisa revelam que o sujeito do discurso é aquele que poderá fazer politicamente no social via posicionamento no discurso. O sujeito é um conceito relacionado à atualização de uma memória intricada a uma experiência singular; sua compreensão é um desafio, particularmente no que tange a trama discursiva das charges ora analisadas, que se articulam ao político. Pretende-se ao longo desta pesquisa abordar o sujeito do discurso, ou seja, aquele que pensa ser a origem do que diz, mas que, em realidade, é efeito de processos discursivos, posto que é constituído pelo discurso, além de ser interpelado pela ideologia. Dessa forma, abordamos no decorrer deste capítulo o sujeito da Análise de Discurso como instrumento analítico para perscrutar o corpus desta pesquisa, bem como os conceitos de Interdiscurso, de Formação Discursiva (FD), Memória Discursiva (MD) e Pré-construído.

(20)

O sujeito, para Pêcheux, é uma noção estabelecida com base na tríplice aliança:

Linguística, História e Psicanálise; tanto o sujeito quanto o discurso são determinados por elementos sociais, históricos e ideológicos. Para entender como os discursos produzem sentidos, é necessário observar suas condições de produção, ou seja, os lugares, as circunstâncias e os sujeitos que dele participam. Faz-se necessário, ainda, analisar os dispositivos utilizados para demarcar suas posições na sociedade e (re)afirmar identidades (ORLANDI, 2005).

Observa-se que:

O sujeito da AD não é o sujeito empírico, mas a posição sujeito projetada no discurso. E isso se dá no jogo das chamadas formações imaginárias que presidem todo discurso: a imagem que o sujeito faz dele mesmo, a imagem que ele faz de seu interlocutor, a imagem que ele faz do objeto do discurso. Assim como também tem a imagem que o interlocutor tem de si mesmo, de quem lhe fala, e do objeto do discurso. Em relação a esse imaginário, o que conta é a projeção da posição social do discurso. Desse modo, não é do operário que estamos falando, por exemplo, mas da imagem que nossa sociedade faz do operário. Ou do pai, ou do professor, ou do presidente etc. por aí pode-se refletir sobre o quanto o nosso discurso é en-formado pelo imaginário (ORLANDI; LAGAZZI-RODRIGUES, 2007, p. 3).

Assim, segundo a AD, nas relações sócio-históricas, são produzidos efeitos de sentidos entre interlocutores num espaço constantemente tenso de disputas, polêmicas, repetições, rupturas e deslocamentos. O sujeito pode migrar de uma posição para outra, produzindo um efeito de sentido diferente: “Devemos ainda lembrar que o sujeito discursivo é pensado como ‘posição’ entre outras” (ORLANDI, 2005, p. 49), ou seja, ocorre uma modulação do nosso discurso e da nossa identidade nas diferentes relações. O sujeito assume um lugar no discurso ao transmitir uma imagem de si e oferece ao seu interlocutor também um lugar no discurso. Esse processo, marcado pelo modo como o sujeito é interpelado pela ideologia, foi denominado por Pêcheux (1990) como jogo das formações imaginárias e descrito como constitutivo do discurso.

Pêcheux (2009, p. 163) diz que o sujeito da AD é um sujeito do discurso, uma

“forma-sujeito”, isto é, uma posição no discurso dentre outras possíveis e que o “ego” ou “o imaginário no sujeito” não se reconhece em sua divisão e em seu “assujeitamento ao Outro”.

O sujeito, nesse processo, acredita ter autonomia e liberdade, mediante seu funcionamento de identificação com a formação discursiva que o domina e que constitui os traços daquilo que o determina em seu discurso, fundando sua unidade imaginária. O “ego” fundamenta aquilo que Pêcheux (2009) denomina “forma-sujeito”. Consoante o autor (2009):

(21)

O efeito da forma-sujeito do discurso é, pois, sobretudo, o de mascarar o objeto daquilo que chamamos o esquecimento no 1, pelo viés do esquecimento no 2.

Assim, o espaço de reformulação-paráfrase que caracteriza uma formação discursiva dada aparece como lugar de constituição do que chamamos o imaginário linguístico (corpo verbal), (op., cit., p.177, grifos do autor); [...] todo “ponto de vista” é o ponto de vista de um sujeito (op., cit., p.179).

Assim, o sujeito não é o ser empírico, mas sujeito de discurso, que carrega marcas sócio-histórico-ideológicas; a forma-sujeito “simula o interdiscurso no intradiscurso”

(PÊCHEUX, [1975], 2009, p. 167).

As charges, ora analisadas, trazem indícios dos efeitos que estão diretamente ligados aos esquecimentos de que trata Pêcheux. O esquecimento nº 1 é ideológico, da ordem do inconsciente e pressupõe que o sujeito tem a ilusão de que é origem de seu dizer. Em contrapartida o esquecimento nº 2 dispõe sobre a ocorrência de o sujeito se apoiar na ilusão de que o que ele diz só pode ser dito de uma forma, ou melhor, de que a linguagem é transparente (SANTOS, 2019, p. 100-101).

Segundo Orlandi (2005):

Não é vigente, na Análise de discurso, a noção psicológica de sujeito empiricamente coincidente consigo mesmo. Atravessado pela linguagem e pela história, sob o modo do imaginário, o sujeito só tem acesso à parte do que diz. Ele é materialmente dividido desde sua constituição: ele é sujeito de e é sujeito à. Ele é sujeito à língua e à história, pois para se constituir, para (se) produzir sentidos ele é afetado por elas.

Ele é assim determinado, pois se não sofrer aos efeitos do simbólico, ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, não produz sentidos (ORLANDI, 2005, p. 48).

O sujeito do discurso, assim, é fruto de um entremeio entre movimentos metafóricos e metonímicos, paráfrase e polissemia: ele significa em determinadas condições pelo funcionamento do interdiscurso que sustenta seu dizer, inscrito pela memória, que por sua vez está intrincada às formações discursivas, que são constitutivas das formações sociais, determinadas pelas injunções ideológicas.

Portanto, o sujeito do discurso, para AD, pode ser mapeado, notado, flagrado em seu(s) movimento(s) em determinadas marcas linguísticas. No bojo da AD, o sujeito é formalizado em relação a algumas de suas características principais: o sujeito do discurso se caracteriza por não ser empírico e, apesar de ganhar corpo na materialidade linguística, não é quantificável, não é normatizável, por não ter compromisso com as leis e normas que regem a semântica, o direito, as demais teorias. Ele emerge no discurso como sujeito faltoso, errante,

(22)

desejante e passível de equívocos, ambiguidade e falhas, que se manifestam na ordem da língua e são afetados pela ideologia em dadas condições de produção.

1.3 A IDEOLOGIA COMO PROCESSO DE INTERPELAÇÃO DE SUJEITOS E NATURALIZAÇÃO DE SENTIDOS

Em AD, a ideologia foi (re)significada a partir da linguagem, e se situa como um processo que se faz presente em qualquer interpretação que vise os sentidos para qualquer objeto simbólico que questione o ser humano. Orlandi (2005, p. 46) esclarece este mecanismo de interpelação de sujeitos e naturalização dos sentidos:

Naturaliza-se o que é produzido na relação do histórico e do simbólico. Por este mecanismo – ideológico – de apagamento da interpretação, há transposição de formas materiais em outras, construindo-se transparências – como se a linguagem e a história não tivessem sua espessura, sua opacidade – para serem interpretadas por determinações históricas que se apresentam como imutáveis, naturalizadas. Este é o trabalho da ideologia: produzir evidências, colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência sujeito do discurso, afetado pela história e pela língua, que colhe significantes para investir nos objetos simbólicos, e, ao mesmo tempo, é investido por este acontecimento do significante através da interpelação ideológica, para daí produzir sentido(s) e questionar o como a materialidade discursiva significa (ORLANDI, 2005, p. 46).

Ao dispor da língua, compreendida como sistema relativamente autônomo, o sujeito o faz de maneira única; embora possa desprezar regras e normas, ele está submetido ao real da história e ao real da língua, o que demonstra que, mesmo quando há a intenção de comunicação plena, a identificação também é falha, pois “(...) a evidência da identidade esconde o fato de que ela é o resultado de uma identificação-interpelação do sujeito, cuja origem externa, não obstante, é lhe ‘estranhamente familiar’” (PÊCHEUX, 1996, p. 150).

De acordo com Pêcheux (1996), como todas as evidências, inclusive as que fazem com que uma palavra “nomeie uma coisa” ou “tenham um significado” (incluindo, portanto, as evidências da “transparência” da linguagem), a “evidência” de que você e eu somos sujeitos – e de que isso não é um problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar (...). Assim, o sujeito e o sentido se constituem por meio da interpelação em que “o sujeito é chamado a existir” (PÊCHEUX, 1996, p. 149). Conforme se observa na definição de ideologia de Althusser (1985, p. 90):

(23)

O outro da ciência - a ciência surge como uma ruptura, uma descontinuidade do senso comum, da ideologia. A ideologia está presente no imaginário e insere-se na relação dos indivíduos com suas condições de existência. Em relação à produção econômica, concernente à ideologia, os sujeitos percebem-se livres e com condições de alcançar posições mais altas na hierarquia social; todavia, não se dão conta de que o sistema capitalista os conduz a ocupar uma determinada função nas relações de produção (ou de exploração), (grifo do autor).

Pode-se dizer que, para esse autor, a ideologia é inerente ao sujeito, conforme estas duas teses: “Só há prática através de e sob uma ideologia”; “Só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito”, as quais levam à formulação central: “a ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos” (ALTHUSSER, 1985, p. 93). Esse filósofo estabelece que o processo de interpelação ideológica produz dois traços: o do sujeito e o do sentido.

Segundo Althusser (1985):

Segue-se que, tanto para vocês como para mim, a categoria de sujeito é uma

“evidência” primeira (as evidências são sempre primeiras): está claro que vocês, como eu, somos sujeitos (livres, morais, etc.). Como todas as evidências, inclusive as que fazem com que uma palavra “designe uma coisa” ou “possua um significado”

(portanto inclusive as evidências da “transparência” da linguagem), a evidência de que você e eu somos sujeitos – e até aí não há problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar (ALTHUSSER, 1985, p. 94).

É importante dizer que Althusser (1985) conceitua a ideologia como relação imaginária do sujeito com suas condições materiais de produção. Na citação anterior, compreendemos o sujeito como um efeito ideológico, ou seja, “produzido” com significados próprios de cada sociedade.

Lembra Maldidier (2017), que foi a partir de Freud que se iniciou, conforme mencionado por Althusser (1985), a suspeita:

“[...] do que escutar, logo o que falar (e calar), quer dizer; que este ‘querer dizer’ do falar e do escutar descobre, sob a inocência da palavra e da escuta, a profundidade assinalável de um duplo fundo, o ‘querer dizer’ do discurso do inconsciente - esse duplo fundo de que a Linguística moderna, nos mecanismos de linguagem, pensa os efeitos e as condições formais” (apud MALDIDIER, 2017, p. 18).

Silva (2009) declara, a partir de seus estudos em Althusser ([1969], 1985), que a ideologia tem como função:

produzir essas evidências discretamente e impô-las de tal modo que o sujeito não perceba que está sob o efeito do "reconhecimento ideológico". Ou seja, a ideologia faz com que os sujeitos reconheçam-se como "concretos, individuais, inconfundíveis e (obviamente) insubstituíveis" (p. 95), sem suspeitarem do processo de interpelação ao

(24)

qual estão submetidos. E, segundo Althusser, é o conhecimento científico o responsável por nos conscientizarmos de que sempre imaginamos estar fora da ideologia, quando na verdade estamos sempre dentro dela (p. 97), (apud SILVA, 2009, p. 160).

Ou seja, para o autor (1985), a ideologia interfere além da representação dos sujeitos em relação às suas condições sociais, mas também na imagem que os sujeitos têm das formulações linguísticas recebidas ou produzidas. Os discursos não estão imunes à ideologia:

“ela sempre os determina e determina a todos, inclusive aqueles que pretendem ser objetivos, tais como os discursos científicos” (ALTHUSSER, 1985, p. 94).

Já Orlandi (2005, p. 46) explicita que o trabalho da ideologia consiste em produzir evidências, ao colocar “o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência”.

A ideologia faz parte, ou melhor, é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer. Partindo da afirmação de que a ideologia e o inconsciente são estruturas- funcionamento, M. Pêcheux diz que sua característica comum é a de dissimular sua existência no interior de seu próprio funcionamento, produzindo um tecido de evidências “subjetivas”, entendendo-se “subjetivas” não como afetam o sujeito, mas, mais fortemente, como nas quais se constitui o sujeito (ORLANDI, 2005, p. 46).

Orlandi (2005, p. 46) reafirma que há a “necessidade de uma teoria materialista do discurso – uma teoria não subjetivista da subjetividade”, para que seja possível trabalhar esse efeito de evidência dos sujeitos e também dos sentidos. Para ela, não há sujeito sem ideologia; ainda, ideologia e inconsciente estão materialmente ligados.

A reflexão a respeito de ideologia, nesta perspectiva, leva à compreensão específica da interpretação. “Para que a língua faça sentido, é preciso que a história intervenha, pelo equívoco, pela opacidade, pela espessura material do significante”. Daí advém que a interpretação é necessariamente regulada, em suas possibilidades, pela ideologia (ORLANDI, 2005, p. 47). A interpretação, como aponta Orlandi (2005, p. 47-48)

[...] não é mero gesto de decodificação, de apreensão do sentido. A interpretação não é livre de determinações: não é qualquer uma e é desigualmente distribuída na formação social. Ela é garantida pela memória sob dois aspectos: primeiro, a memória institucionalizada (o arquivo), o trabalho social da interpretação onde se separa quem tem e quem não tem direito a ela; segundo, a memória constitutiva (o interdiscurso), o trabalho histórico da constituição do sentido (o dizível, o interpretável, o saber discursivo). O gesto de interpretação se faz entre a memória institucional (o arquivo) e os efeitos de memória (interdiscurso), podendo assim tanto estabilizar como deslocar sentidos. Ser determinada não significa ser (necessariamente) imóvel.

(25)

Orlandi (2005) nos fornece outras pistas a respeito do conceito de ideologia, que passou por grandes desgastes desde a sua origem – nas ciências humanas e sociais.

Muitas vezes banalizou-se, esvaziando-se e identificou-se com uma geral e inespecífica

“visão de mundo”, endureceu-se no sentido de ser “ocultação” da realidade e foi substituída mais recentemente pelo termo de “cultura”.

Observa-se, pelo conteúdo apresentado, que o sentido pode ser estabelecido na remissão da materialidade linguística às formações discursivas, que, por sua vez, representam no discurso as formações ideológicas.

Pêcheux (2009) conclui que:

o processo de interpelação ideológica, realizado pelas formações discursivas, representativas de formações ideológicas, fornece as evidências pelas quais "todo mundo sabe" o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado "queiram dizer o que realmente dizem" e que mascaram, assim, sob a "transparência da linguagem", aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados (PÊCHEUX, 2009, p. 160).

Por isso, o "caráter material do sentido", velado pela impressão de limpidez da linguagem, é a filiação dos sentidos ao "todo complexo das formações ideológicas". Devido a essa filiação, os sentidos não podem ser compreendidos presos aos significantes, mas constituídos a partir das "posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas)"

(PÊCHEUX, 2009, p. 160).

Para Pêcheux (1996), a ideologia determina, sem exceção, todos os discursos.

Ela é a representação imaginária que interpela os sujeitos a tomarem um determinado lugar na sociedade, criando assim a "ilusão" de liberdade do sujeito. Sua reprodução é assegurada por aparelhos ideológicos (religioso, político, escolar etc.) em cujo interior as classes sociais se organizam em formações ideológicas (conjunto complexo de atitudes e representações).

Logo, o discurso é a materialidade da ideologia, por isso, ele só tem sentido para um sujeito quando este o reconhece como pertencente à determinada formação discursiva. Ou melhor, a ideologia tem, pois, uma materialidade, e o discurso é o lugar em que se pode ter acesso a ela (ORLANDI, 2005). Os valores ideológicos de uma formação social estão representados no discurso por uma série de formações imaginárias, que designam o lugar que os locutores se atribuem mutuamente (PÊCHEUX, 2009).

Para finalizar, pode-se dizer, segundo Gregolin (1995, p. 17), que a "ideologia"

é um conjunto de representações dominantes e imaginárias em uma determinada classe dentro

(26)

da sociedade. Como existem várias classes, várias ideologias estão permanentemente em confronto na sociedade. Assim, a linguagem é estabelecida em última instância pela ideologia, porque não existe uma relação direta entre as representações e a língua.

É válido dizer que a formação discursiva pode ser estudada como uma forma de repartição, isso significa dizer que a FD é uma unidade dividida, a qual, embora seja passível de descrição por suas regras de formação, por suas regularidades, ela não é una, mas heterogênea, não de forma eventual, mas constitutiva. Portanto, no interior de uma mesma FD coabitam vozes dissonantes que se cruzam, entrecruzam, dialogam, opõem-se, aproximam-se, divergem, existindo, pois, espaço para a divergência, para as diferenças, pois uma FD é

“constitutivamente frequentada por seu outro” (PÊCHEUX, 2009, p. 57).

1.4 MEMÓRIA E INTERDISCURSO

A memória discursiva, além de solidificar e induzir a direção dos sentidos, também funciona pelo esquecimento dos mesmos, ou seja, alguns sentidos que em um determinado período podiam ser produzidos em uma formação social, hoje, talvez não possam mais ser ditos, formulados, devido às mudanças sociais e ideológicas, ou melhor, às mudanças nas condições de produção. O interdiscurso é primordial no entendimento dos processos discursivos, pois o fato de haver um já-dito vai dar a base de todo o dizer, o que permite entender a relação entre discurso, sujeito e ideologia. Para que as palavras façam sentido, é necessário que já tenham feito antes. Conforme aponta Orlandi (2005, p. 33), “o interdiscurso é o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos”.

Sob o ponto de vista histórico-antropológico, Le Goff (2012) define memória como “um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 2012, p. 419).

Embora as impressões ou informações passadas possam ser atualizadas pelo homem no que tange sua individualidade, o que será determinante nas análises é, justamente, o domínio da memória discursiva e suas implicações no coletivo.

Para Payer (2006), uma sociedade pode reter juízos históricos fixados em sua linguagem; pela repetição, esses sentidos são sustentados socialmente, constituindo memória.

Ela afirma que:

(27)

[...] ao se falar sobre a própria língua, enquanto produção humana e sócio histórica, também está se falando em memória, porquanto nela funciona a repetição. A memória trabalha e é trabalhada, pois, na própria construção da língua, e isto constitui o fundamento do que entendemos como discurso (PAYER, 2006, p. 39).

Para Orlandi (2005), decorrente da dificuldade de se limitar quais repetições representam o que é o mesmo e quais representam o que é diferente dentro da produção de discursos, é possível afirmar que o funcionamento da linguagem se sustenta na tensão entre processos parafrásticos e polissêmicos. A paráfrase significa o retorno ao mesmo espaço do dizer e as diferentes formulações do mesmo dizer já consolidado. Já a polissemia representa o deslocamento (deslizamento) e a ruptura de processos de significação (ressignificação). É responsável pela criatividade discursiva. A repetição de discursos, com seus deslizamentos e ressignificações, constituem a memória discursiva.

Memória discursiva ou interdiscurso é, conforme Orlandi (2005, p. 31) “aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente; (…) o saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”. Já Pêcheux (2010, p. 52) diz que a “memória discursiva é aquilo que, no âmbito da leitura, restaura os implícitos de que a leitura necessita, a condição do legível em relação ao próprio legível”. Esses implícitos referem-se aos já pré-construídos, citados, relatados, os discursos-transversos, constituindo o imaginário da sociedade e que possibilita a (re)produção de discursos.

Por toda essa perspectiva, considerando-se que o esquecimento é constitutivo da memória, é necessário que os já-ditos por outros sujeitos se apaguem em nossa memória e passem para o anonimato para que nossas palavras façam sentido. Dessa forma, o esquecimento torna-se estruturante (ORLANDI, 2005). Uma vez que a interdiscursividade é constituída pelo esquecimento, vale ressaltar que este pode ser categorizado, conforme já mencionado, em esquecimento enunciativo e esquecimento ideológico, que deriva do modo como a ideologia nos afeta (PÊCHEUX, 1975, apud ORLANDI, 2005).

1.5 FORMAÇÃO DISCURSIVA (FD), PRÉ-CONSTRUÍDO

A Formação Discursiva (FD) é uma das proposições mais desenvolvidas e objeto de críticas, revisões, reformulações no seio da Análise de Discurso. Isto porque o

(28)

conceito vincula-se à questão do sujeito, em seu duplo aspecto: linguístico e sócio histórico, sendo também um campo que norteia um dos principais conceitos da AD, devido ao fato de relacionar-se a questões centrais dessa área de pesquisa, bem como ao ato de articular uma série de outros conceitos da teoria (discurso, interdiscurso, ideologia, constituindo uma rede de conceitos de limites muito tênues).

De acordo com o estudo de Narzetti (2018):

Dentre os conceitos da teoria do discurso, o de FD foi, sem dúvida, o que mais passou pelo processo acima citado. Os problemas metodológicos relacionados a esse conceito encontrados nos primeiros momentos da análise do discurso, bem como as próprias mudanças na problemática da teoria do discurso suscitaram e possibilitaram retificações e refinamentos do conceito (NARZETTI, 2018, p. 647).

Para falar sobre Formação Discursiva, Pêcheux fala antes da ideia de Formação Social, pois segundo ele, “o sujeito discursa de diferentes lugares sociais, o que já parece apontar para um ‘lugar’ que controla os dizeres dos sujeitos” (VEDOVATO; LENZ, 2013).

O conceito de FD proposto por Pêcheux foi apresentado em 1971, em dois artigos: o primeiro “Língua, linguagens, discurso”, e em “A semântica e o corte saussuriano:

língua, linguagem, discurso”, assinado por Michel Pêcheux, Claudine Haroche e Paul Henry, cujos conceitos de FD apresentados são idênticos (NARZETTI, 2018).

Entretanto, Narzetti (2018) lembra que:

A expressão formação discursiva aparece já em 1970, na obra intitulada Considérations théoriques à propos du traitement formel du langage, assinada por Antoine Culioli, Catherine Fuchs e Michel Pêcheux. A passagem em que Pêcheux cita a referida expressão é uma nota de rodapé, inserida no texto assinado por Culioli (“La formalisation en linguistique”), que constitui a primeira parte do livro: “la langue n’est pas une superstructure (au sens marxiste de ce mot) mais d’avancer que les formations discursives sont, elles, fondamentalement liées aux superstructures, à la fois comme effets et comme causes (PÊCHEUX, apud NORMAND, 1972). Aparece nesse texto, como dissemos acima, o esboço do conceito e o termo que o nomeia, e não exatamente o conceito já formulado. As outras obras nas quais o conceito é retomado a propósito de retificações, ampliações e refinamentos, são: o artigo, escrito com C. Fuchs, “A propósito da Análise automática do discurso: atualizações e perspectivas”, publicado na Langages, em 1975; o livro Semântica e discurso, de 1975; o artigo “Remontons de Foucault à Spinoza”, de 1977; o artigo “A análise do discurso: três épocas”, de 1983 (NARZETTI, 2018, p. 650).

Durante todo o percurso de seus estudos, Pêcheux reviu a definição de Formação Discursiva, bem como outros conceitos a ela relacionados. O autor (2009) afirma que “toda formação discursiva deriva de condições de produção específicas”. Pêcheux segue sua reflexão apontando que “os processos discursivos não poderiam ter sua origem no sujeito

(29)

já levando em consideração a questão do assujeitamento, ou seja, dentro de uma FD é que ocorre o assujeitamento”. Observa-se, de acordo com a concepção da obra de 2009, que o filósofo parece considerar uma redução do conceito de condições de produção a uma

“variável subjetiva”, ou melhor, ao efeito das relações de lugar nas quais se encontram inscritos o sujeito e a “situação” no sentido material do termo, além da necessidade de que é preciso reconhecer que existe um descompasso entre o imaginário e o real. Este processo resulta, aparentemente, deslocar das condições de produção, a carga subjetiva que fundamentaria um processo discursivo pelo imaginário e pela situação empírica e imediata experienciada pelo sujeito (apud VEDOVATO; LENZ, 2013, p. 1-2).

Por este caminho, Pêcheux amplia o conceito de Formação Discursiva, visto que é ela que determina o que pode e deve ser dito, e não mais só no âmbito imaginário ou do contexto imediato, além de estar ligada à paráfrase e à matriz do sentido. Ainda, de acordo com Pêcheux, “[...] a produção de sentido é estritamente indissociável da relação de paráfrase entre sequências tais que a família parafrásica destas sequências constitui o que se poderia chamar “matriz do sentido” (2009, p. 169); e que “o sentido de uma sequência só é materialmente concebível na medida em que pertence a uma ou outra formação discursiva”

(op. cit.). Logo, pode-se dizer que os efeitos de sentido ocorrem no interior de uma Formação Discursiva (FD).

É legítimo mencionar, segundo Pêcheux (1997, p.169) que todo enunciado, para ser dotado de “sentido”, necessita precisamente pertencer a uma FD, e é este processo

“[...] que se acha recalcado para o sujeito e recoberto para este último, pela ilusão de estar na fonte do sentido, sob a forma da retomada pelo sujeito de um sentido universal preexistente”

(1997, p. 169). Assim, as FDs não são homogêneas e fechadas em si mesmas, pois, em cada FD, há a presença de elementos provindos de outras FDs.

Neste panorama, Carmo ao estudar Pêcheux (2009) cita que:

[...] o caráter material do sentido depende da formação ideológica e da FD em que ele está inscrito. Essa dependência ocorre de duas maneiras: a) o sentido não existe na literalidade, ou seja, ele existe, por exemplo, na paráfrase, desde que se utilizem palavras equivalentes de uma mesma FD. Desta forma, o processo discursivo aparece como um sistema de relações de substituição, paráfrase, sinonímia, desde que esta relação seja determinada por uma mesma FD; b) uma FD dissimula sua dependência pela transparência de sentido e disfarça a objetividade material do interdiscurso, que indica que algo foi falado antes, em outro lugar e independentemente. (apud CARMO, 2014, p. 22)

(30)

Pêcheux (2009) traz outra contribuição para o campo teórico da AD: a noção de pré-construído, que é observada quando ele descreve o funcionamento das relativas explicativas e determinativas, ao citar que:

pelo funcionamento do pré-construído, o enunciado implícito que sustenta a articulação do que é dito não pode ser caracterizado como uma imperfeição da linguagem, mas como a atuação de um terceiro elemento, elemento que não é nem lógico nem linguístico e que é descrito por Pêcheux como “o pensável” (apud CARMO, 2015, p. 18).

A memória discursiva, já discutida anteriormente, é o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. A memória é o já-dito, os sentidos a que já não temos mais acesso, que foram constituídos ao longo de uma história e que estão em nós, sem pedir licença (ORLANDI, 2005).

O conceito de pré-construído formulado por Pêcheux (2009, p. 89) pode ser compreendido como:

um já-dito anterior e exterior, independente, que retorna no enunciado. Isto é, é a marca, no enunciado, de um discurso anterior. Ele se opõe ao que é construído no enunciado. O pré-construído “remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é ‘construído’ pelo enunciado”; é um efeito discursivo ligado ao encaixe sintático, que remete à presença de um discurso em outro.

Portanto, fundamentado neste cenário, é possível dizer que a interpelação do indivíduo em sujeito se dá pela identificação com a formação ideológica e FD que o domina;

em consequência, “essa identificação traz para o sujeito os traços daquilo que o determina”.

Tais traços de identificação são reiterados no “discurso do sujeito por meio do interdiscurso, enquanto pré-construído” (CARMO, 2015, p. 42).

De acordo com o estudo em Pêcheux (2009), Carmo (2015) ainda declara que:

o pré-construído é considerado inicialmente como uma lei psico-lógica do pensamento, determinado materialmente na própria estrutura do interdiscurso.

Segundo o autor (PÊCHEUX, 2009, p. 150-151), quando repelidas as ilusões idealistas das especificidades do pré-construído, este “aparece determinando o sujeito”, impondo e dissimulando seu assujeitamento sob a aparência da autonomia, isto é, através da estrutura da forma-sujeito (CARMO, 2015, p. 42).

O conceito operatório de pré-construído é o que permite pensar o mecanismo da inscrição do sujeito em um domínio de saberes. Trata-se do elemento que torna possível a constituição/reprodução do efeito-sujeito, uma vez que a mobilização (não-sabida) de um

Referências

Documentos relacionados

No entanto, maiores lucros com publicidade e um crescimento no uso da plataforma em smartphones e tablets não serão suficientes para o mercado se a maior rede social do mundo

O objetivo do curso foi oportunizar aos participantes, um contato direto com as plantas nativas do Cerrado para identificação de espécies com potencial

A versão reduzida do Questionário de Conhecimentos da Diabetes (Sousa, McIntyre, Martins &amp; Silva. 2015), foi desenvolvido com o objectivo de avaliar o

A proporçáo de indivíduos que declaram considerar a hipótese de vir a trabalhar no estrangeiro no futuro é maior entle os jovens e jovens adultos do que

Realizar a manipulação, o armazenamento e o processamento dessa massa enorme de dados utilizando os bancos de dados relacionais se mostrou ineficiente, pois o

No primeiro livro, o público infantojuvenil é rapidamente cativado pela história de um jovem brux- inho que teve seus pais terrivelmente executados pelo personagem antagonista,

Finally,  we  can  conclude  several  findings  from  our  research.  First,  productivity  is  the  most  important  determinant  for  internationalization  that 

permanentes.... d) O resultado não operacional decorre, principalmente, do resultado na venda de bens e direitos do permanente e de provisão para perdas de bens não