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3 PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA POLÍTICA NAS CHARGES DE DUKE: HUMOR,

3.1 A CHARGE COMO PRÁTICA DISCURSIVA SUBVERSIVA

3.2.2 FUNÇÃO-AUTOR E EFEITO-LEITOR NAS CHARGES DE DUKE

A charge como é uma composição material, ela tem em sua significação a existência de um autor que inscreve sentidos em gestos de interpretação. Escrever/desenhar é um ato que implica falar de si, assumir uma posição face à incompletude do sujeito e do sentido, inscrever-se em relação à repetição e aos deslocamentos de sentido. A escrita/desenho, enquanto lugar de interpretação, torna-se um espaço simbólico em que a memória trabalha. Embora apresente um efeito de novidade, o que é dito sempre reaparece e retorna vindo de um outro lugar, e é a partir disso que o sujeito irá organizar os enunciados dispersos no tempo e no espaço, ao produzir a discursivização dos elementos oriundos do exterior que, ao serem “recontextualizados, se naturalizam, ‘apagando’ as marcas de sua procedência, de sua exterioridade/heterogeneidade/dispersão” (INDURSKY, 2001, p. 31).

Nossa análise visa descortinar o posicionamento discursivo da função-autor, na medida em que esta função concebe o discurso enquanto produção de efeitos de sentidos determinados pela ação da ideologia e sob o atravessamento do inconsciente.

A função-autor denuncia a ignorância da personagem (fig. 3) no que diz respeito a suas próprias contradições. Orlandi (2012, p. 65) afirma que a função-autor “constrói uma relação organizada – em termos de discurso – produzindo um efeito imaginário de unidade”. Neste processo, o sujeito não é dono de seu dizer, pois tudo o que é formulado está na ordem do repetível, ou seja, em algum lugar, em algum momento, isso já foi dito. Logo, entendemos que toda vez que se tem um efeito imaginário de unidade, isto é, que se tem uma função-autor, o sujeito é colocado imaginariamente na origem do sentido e é responsabilizado por sua produção (ORLANDI, 2012).

A produção de uma charge – materialidade significante – dá-se por um gesto de autoria, e resulta da relação dessa composição significante com a exterioridade. Nesse sentido, na esteira de Orlandi (2012), o autor é carregado pela força de sua composição material, cuja função é dada pelo gesto de interpretação, depreendido pelo trabalho de autoria, na sua relação determinada historicamente com a exterioridade, pelo interdiscurso. Do sujeito, pode-se dizer, que ele é interpretado pela história. “O autor é aqui uma posição na filiação de

sentidos, nas relações de sentidos que vão se constituindo historicamente e que vão formando redes que constituem a possibilidade de interpretação” (ORLANDI, 2007, p.15).

Portanto, neste percurso, a autoria é depreendida como uma função (função-autor) exercida pelo sujeito discursivo e ela se caracteriza pela "produção de um gesto de interpretação" (ORLANDI, 2007, p. 97), onde o autor é colocado como o responsável pelo sentido do que diz, do que formula, produzindo sentido de acordo com as determinações históricas a que está assujeitado e, com isso, significando-se como autor. Trata-se, assim, de uma forma de se posicionar no interior de uma Formação Discursiva (PÊCHEUX, [1975]

2009).

Para a personagem (fig. 3), a formulação, presente no quarto quadrinho: “Esse povo é muito mal-educado”, não se apresenta como contraditória, mas sim, alinhada às outras três. Percebe-se, neste lugar, possivelmente, a presença de um discurso transverso que produz a articulação com um outro enunciado, de outra FD, que emerge como efeito de sustentação; a evocação sobre a qual se apoia a tomada de posição do sujeito.

Orlandi e Guimarães (1988) especificam que o princípio da autoria é necessário para qualquer discurso, colocando-o na origem da textualidade. Segundo a concepção defendida pelos autores, um texto pode até não ter um autor específico, mas, pela função-autor, sempre se lhes imputa uma autoria. Trazemos essas considerações para pensar a materialidade da charge, entendemos que, em seu gesto de autoria, Duke escancara as contradições entre as formações discursivas. O que entendemos por autor é, pois, a representação, ou melhor, a imagem produzida para esse posicionamento que aqui denominado como gesto de autoria. Enquanto gesto, ou seja, um ato em nível simbólico (ORLANDI, 2012), há também a inscrição de um efeito-leitor, definido como aquele que se identifica com sua posição crítica e, nessa identificação, compartilha sentidos através do riso.

Conforme Orlandi (2012, p. 65-66):

[...] se temos, de um lado, a função-autor como unidade de sentido formulado, em função de uma imagem de leitor virtual, temos, de outro, o efeito-leitor como unidade (imaginária) de um sentido lido. [...] o efeito-leitor é uma função do sujeito como a função-autor.

A função-leitor constitui-se na relação com a linguagem, isto é, em função da materialidade textual já trazer em si um efeito-leitor que é criado pelos gestos de interpretação de quem o produziu, pela resistência material da textualidade e pela memória do sujeito que lê (ORLANDI, 2012). Isso acontece porque a textualidade é constituída por gestos de

interpretação, sejam estes do sujeito-autor ou do sujeito-leitor, um está em relação à completude do outro. O que se caracteriza por texto é efeito da discursividade, mesmo que esta seja permeada por faltas, falhas, lacunas, equívocos.

No recorte (fig. 3), depreendemos, a partir deste efeito-leitor, a alienação do cidadão brasileiro em relação aos dizeres bolsonaristas sobre a “balbúrdia” nas universidades públicas e os investimentos relacionados à educação. O material também ironiza e movimenta os sentidos ao convocar o corpo, um corpo bem educado, ou seja, aquele que permanece estático em frente à televisão e adequa-se aos dizeres e comportamentos do ditador.

A relação entre corpo e ideologia também pode ser explorada nesta análise, já que a dimensão corporal revela-se de extrema importância para se pensar não apenas o ato de fala, mas também o funcionamento ideológico, uma vez que é a repetição do corpo que assegura a eficácia da ideologia (DI NIZO, 2019, p. 208). Na charge (fig. 3) percebemos um corpo inerte aos discursos provenientes da televisão, um corpo subjugado, submisso. Isso nos faz pensar a relação do discurso opressor ao Aparelho Ideológico de Estado, ou melhor, a televisão, enquanto um veículo de doutrinação.

O humor ideológico produzido pelo funcionamento discursivo da charge (materialidade em que recursos como a imagem, cor, letras, números, são utilizados nos processos de significação), relaciona a personagem (fig 3) a uma posição-sujeito eleitor alienado, cujos dizeres provocam o riso, pois estão na ordem do absurdo, daquilo que escapa ao apreensível. Ao formular a charge, o autor nos possibilita a releitura dos discursos políticos e midiáticos, além da retomada das discussões sobre as questões do corte de verbas para a educação superior, o que provoca a construção de outros sentidos sobre tais discursos, uma vez que, retomados os já-ditos, as possíveis leituras da charge estarão inscritas nos processos sócio históricos e ideológicos.

Como dito por Klauck, Beriula e Maiolini (2019), a charge, como material produzido para fazer humor, atua como instrumento de ação política de resistência ao atual regime brasileiro. Há no humor o tom de denúncia ao escrachar as angústias perante a política, o governo e as práticas pertencentes a estes. A análise da charge proporciona, pelo viés da Análise de Discurso, a compreensão de um processo discursivo que abarca muitos outros discursos que já vieram antes, ou melhor, que está marcado pela heterogeneidade discursiva. No entanto, já no processo interdiscursivo, efeitos de sentido diferentes podem advir conforme as condições de produção constitutivas do cenário político brasileiro atual o qual está vinculado a práticas cínicas e negacionistas.