• Nenhum resultado encontrado

Os primeiros movimentos quanto à direção desta pesquisa revelam que o sujeito do discurso é aquele que poderá fazer politicamente no social via posicionamento no discurso. O sujeito é um conceito relacionado à atualização de uma memória intricada a uma experiência singular; sua compreensão é um desafio, particularmente no que tange a trama discursiva das charges ora analisadas, que se articulam ao político. Pretende-se ao longo desta pesquisa abordar o sujeito do discurso, ou seja, aquele que pensa ser a origem do que diz, mas que, em realidade, é efeito de processos discursivos, posto que é constituído pelo discurso, além de ser interpelado pela ideologia. Dessa forma, abordamos no decorrer deste capítulo o sujeito da Análise de Discurso como instrumento analítico para perscrutar o corpus desta pesquisa, bem como os conceitos de Interdiscurso, de Formação Discursiva (FD), Memória Discursiva (MD) e Pré-construído.

O sujeito, para Pêcheux, é uma noção estabelecida com base na tríplice aliança:

Linguística, História e Psicanálise; tanto o sujeito quanto o discurso são determinados por elementos sociais, históricos e ideológicos. Para entender como os discursos produzem sentidos, é necessário observar suas condições de produção, ou seja, os lugares, as circunstâncias e os sujeitos que dele participam. Faz-se necessário, ainda, analisar os dispositivos utilizados para demarcar suas posições na sociedade e (re)afirmar identidades (ORLANDI, 2005).

Observa-se que:

O sujeito da AD não é o sujeito empírico, mas a posição sujeito projetada no discurso. E isso se dá no jogo das chamadas formações imaginárias que presidem todo discurso: a imagem que o sujeito faz dele mesmo, a imagem que ele faz de seu interlocutor, a imagem que ele faz do objeto do discurso. Assim como também tem a imagem que o interlocutor tem de si mesmo, de quem lhe fala, e do objeto do discurso. Em relação a esse imaginário, o que conta é a projeção da posição social do discurso. Desse modo, não é do operário que estamos falando, por exemplo, mas da imagem que nossa sociedade faz do operário. Ou do pai, ou do professor, ou do presidente etc. por aí pode-se refletir sobre o quanto o nosso discurso é en-formado pelo imaginário (ORLANDI; LAGAZZI-RODRIGUES, 2007, p. 3).

Assim, segundo a AD, nas relações sócio-históricas, são produzidos efeitos de sentidos entre interlocutores num espaço constantemente tenso de disputas, polêmicas, repetições, rupturas e deslocamentos. O sujeito pode migrar de uma posição para outra, produzindo um efeito de sentido diferente: “Devemos ainda lembrar que o sujeito discursivo é pensado como ‘posição’ entre outras” (ORLANDI, 2005, p. 49), ou seja, ocorre uma modulação do nosso discurso e da nossa identidade nas diferentes relações. O sujeito assume um lugar no discurso ao transmitir uma imagem de si e oferece ao seu interlocutor também um lugar no discurso. Esse processo, marcado pelo modo como o sujeito é interpelado pela ideologia, foi denominado por Pêcheux (1990) como jogo das formações imaginárias e descrito como constitutivo do discurso.

Pêcheux (2009, p. 163) diz que o sujeito da AD é um sujeito do discurso, uma

“forma-sujeito”, isto é, uma posição no discurso dentre outras possíveis e que o “ego” ou “o imaginário no sujeito” não se reconhece em sua divisão e em seu “assujeitamento ao Outro”.

O sujeito, nesse processo, acredita ter autonomia e liberdade, mediante seu funcionamento de identificação com a formação discursiva que o domina e que constitui os traços daquilo que o determina em seu discurso, fundando sua unidade imaginária. O “ego” fundamenta aquilo que Pêcheux (2009) denomina “forma-sujeito”. Consoante o autor (2009):

O efeito da forma-sujeito do discurso é, pois, sobretudo, o de mascarar o objeto daquilo que chamamos o esquecimento no 1, pelo viés do esquecimento no 2.

Assim, o espaço de reformulação-paráfrase que caracteriza uma formação discursiva dada aparece como lugar de constituição do que chamamos o imaginário linguístico (corpo verbal), (op., cit., p.177, grifos do autor); [...] todo “ponto de vista” é o ponto de vista de um sujeito (op., cit., p.179).

Assim, o sujeito não é o ser empírico, mas sujeito de discurso, que carrega marcas sócio-histórico-ideológicas; a forma-sujeito “simula o interdiscurso no intradiscurso”

(PÊCHEUX, [1975], 2009, p. 167).

As charges, ora analisadas, trazem indícios dos efeitos que estão diretamente ligados aos esquecimentos de que trata Pêcheux. O esquecimento nº 1 é ideológico, da ordem do inconsciente e pressupõe que o sujeito tem a ilusão de que é origem de seu dizer. Em contrapartida o esquecimento nº 2 dispõe sobre a ocorrência de o sujeito se apoiar na ilusão de que o que ele diz só pode ser dito de uma forma, ou melhor, de que a linguagem é transparente (SANTOS, 2019, p. 100-101).

Segundo Orlandi (2005):

Não é vigente, na Análise de discurso, a noção psicológica de sujeito empiricamente coincidente consigo mesmo. Atravessado pela linguagem e pela história, sob o modo do imaginário, o sujeito só tem acesso à parte do que diz. Ele é materialmente dividido desde sua constituição: ele é sujeito de e é sujeito à. Ele é sujeito à língua e à história, pois para se constituir, para (se) produzir sentidos ele é afetado por elas.

Ele é assim determinado, pois se não sofrer aos efeitos do simbólico, ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, não produz sentidos (ORLANDI, 2005, p. 48).

O sujeito do discurso, assim, é fruto de um entremeio entre movimentos metafóricos e metonímicos, paráfrase e polissemia: ele significa em determinadas condições pelo funcionamento do interdiscurso que sustenta seu dizer, inscrito pela memória, que por sua vez está intrincada às formações discursivas, que são constitutivas das formações sociais, determinadas pelas injunções ideológicas.

Portanto, o sujeito do discurso, para AD, pode ser mapeado, notado, flagrado em seu(s) movimento(s) em determinadas marcas linguísticas. No bojo da AD, o sujeito é formalizado em relação a algumas de suas características principais: o sujeito do discurso se caracteriza por não ser empírico e, apesar de ganhar corpo na materialidade linguística, não é quantificável, não é normatizável, por não ter compromisso com as leis e normas que regem a semântica, o direito, as demais teorias. Ele emerge no discurso como sujeito faltoso, errante,

desejante e passível de equívocos, ambiguidade e falhas, que se manifestam na ordem da língua e são afetados pela ideologia em dadas condições de produção.

1.3 A IDEOLOGIA COMO PROCESSO DE INTERPELAÇÃO DE SUJEITOS E