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Aplicabilidade do Regime Jurídico da Violência Associada ao Desporto

Na nossa opinião, a lei que temos vindo a estudar apresenta um conjunto de normativos que vão ao encontro das directivas internacionais, estando também adaptado à realidade portuguesa. Como é referido pelo Comissário João Pestana26, a Lei n.º 39/2009 de 30 de Julho afigura-se uma "lei moderna, actual, bem conseguida e completa" 27 . Pese embora algumas dificuldades de implementação, explanadas seguidamente, o actual normativo jurídico "respeita na íntegra os compromissos internacionalmente assumidos", sendo que, "as soluções que o legislador colocou à disposição" se afiguram "suficientes" (entrevista Dr. Fanha Vieira).

Contudo, apesar de existir um conjunto de medidas legais que cumprem as directivas internacionais mais relevantes, as mesmas não estão, actualmente, a ser aplicadas na sua totalidade. Se tivermos presente os comentários proferidos nas entrevistas, depressa nos apercebemos que a opinião é unânime. Segundo o Comissário Pestana, "no que diz respeito aos Grupos Organizados de Adeptos e algumas sanções que os organizadores das competições, promotores, e mesmo as autoridades administrativas e judiciais têm e que a lei lhes atribui, mais de 60/70% da lei não está a ser aplicada, como tal, também não temos como saber se a sua aplicação é boa ou se é má, porque, pura e simplesmente, ela não está a ser usada". O facto de algumas disposições legais não estarem a ser aplicadas provoca que outras normas previstas no regime jurídico não sejam, também elas, aproveitadas. Isto é, a lei, para funcionar convenientemente, tem de funcionar de forma integrada e em toda a sua extensão.

Actualmente, impera no seio dos GOA um certo sentimento de impunidade, uma vez que, eles próprios são alvo de processos, criminais ou contra-ordenacionais, sendo que, no fim de todo o processo, na maioria das vezes não lhes são aplicadas as coimas e sanções devidas. Segundo o Chefe do Núcleo de Informações Policiais do Comando Metropolitano de Lisboa (NIP/COMETLIS):

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Proferidas em sede de entrevista, anexa ao presente relatório. 27

27 "Eu acho que uma aplicação eficiente da lei iria concorrer de forma valiosa e eficaz para a diminuição dos níveis de violência. Neste momento, existe uma percepção muito grande de impunidade no seio dos GOA e dos adeptos mais violentos. E existe por, efectivamente, existir mais impunidade agora que existia há alguns anos, pela razão de que, neste momento, está-se a assistir a um fenómeno curioso. Passo a explicar. Actualmente, a polícia tem actuado e tem feito muita documentação de actos contrários à lei (detenções, autos de notícia, participações), e eles sabem isso, são chamados a participar nesses processos, quer seja na qualidade de arguidos ou de suspeitos, e chegam ao fim e percebem que nada é feito. Portanto estamos a pôr a nu uma fragilidade." (entrevista Comissário João Pestana)

Já para o Vice-Presidente do Instituto de Desporto de Portugal, a má aplicação das normas muito se deve à última instância de aplicação da lei, isto é, os tribunais:

"Por fim, temos aqui, no meu entender, o elo mais problemático, que é a parte ligada à última instância de aplicação da lei, os tribunais. E aí, claramente, ainda não há uma cultura por parte dos Srs. Magistrados, sejam do Ministério Público, seja Magistratura Judicial, para este problema (...) Se calhar o Estado deveria fazer um esforço de sensibilizar os magistrados para esta situação e efectivamente dar-se aqui um contributo, porque algumas vezes a lei é aplicada e ninguém sabe, logo, o alarme social não é de tal forma relevado. Por outro lado, a maior parte das pessoas a quem nós aplicamos as coimas, recorrem e chegam ao tribunal e (...) saem com uma multa que nunca é paga, ou levam uma admoestação." (entrevista Dr. Fanha Vieira)

Por exemplo, se olharmos para as competências atribuídas aos tribunais, nomeadamente, as previstas no artigo 36.º, deparamo-nos com um forte poder de impor ao arguido a medida de coacção de interdição de acesso a recintos desportivos, sempre que existam fortes indícios do cometimento de práticas criminais previstas na lei n.º 39/2009. Porém, não compete unicamente aos tribunais a aplicação desta medida. Podemos extrair da lei três modos distintos de aplicar as interdições: como "pena acessória de privação do direito de entrar em recintos desportivos"28; como "medida de coacção de interdição de acesso a recintos desportivos"29; ou como "sanção acessória"30. A utilização das duas primeiras é da responsabilidade dos tribunais e são aplicadas no âmbito de um processo-crime, quer seja como pena acessória, quer como uma medida de coacção, enquanto o processo decorre. Já a aplicação da terceira é da responsabilidade do IDP, nas competições desportivas de natureza profissional, ou do Governo Civil do distrito, nas restantes competições, e corresponde a uma sanção acessória aplicada aquando da condenação por um processo contra-ordenacional. Contudo, a falta de sensibilidade das diversas entidades para a aplicação destas prerrogativas permite que estas medidas não sejam aplicadas. Como afirma o Chefe da Unidade Metropolitana de Informações Desportivas (UMID) do COMETLIS:

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Previsto no artigo 35.º da Lei n.º 39/2009 de 30 de Julho 29

Previsto no artigo 36.º da Lei n.º 39/2009 de 30 de Julho 30

28 "Se, por um lado, deveria haver mais condenações dos indivíduos, mesmo as penas de multa e de prisão, por outro lado, temos ainda uma situação mais grave, que é a não aplicação, tanto das medidas de coação, enquanto se está a desenvolver o processo, como depois a aplicação efectiva de medidas de interdição a esses adeptos, caso eles sejam condenados." (entrevista Subcomissário Sérgio Soares)

Ou então, e conforme afirma o Subintendente Costa Ramos, as que são aplicadas não são do conhecimento da própria polícia. Acerca desse assunto, o Chefe do PNIF português acrescenta que já se começa a ter conhecimento de algumas aplicações, embora escassas, que, seguramente, não passarão a casa das dezenas. Podemos mesmo afirmar que as poucas interdições de acesso a recintos desportivo estão a ser aplicadas de forma casuística e quase episódica. São ainda aplicadas sem que haja qualquer conhecimento, posterior e atempado, por parte da polícia, o que, não trazendo anexas a obrigatoriedade de apresentação à hora do jogo numa esquadra de polícia, nada garante que esse adepto não assista ao jogo.

Na nossa opinião, a débil aplicação das interdições de acesso aos recintos desportivos é, talvez, um dos grandes responsáveis pela ocorrência de actos de violência nos estádios e imediações, uma vez que, como é do conhecimento da polícia, grande parte das acções de violência são praticadas ou iniciadas por um conjunto de indivíduos já conhecido e cadastrado31. Se tivermos em atenção os estudos desenvolvidos pelo Home Office britânico, reparamos na elevadíssima eficácia destas medidas. Um dos estudos teve como objectivo analisar as banning orders aplicadas em Inglaterra entre 2000 e 2007, de modo a verificar a sua eficácia. De entre os resultados obtidos32, destacamos a elevadíssima percentagem de indivíduos, cerca de 92%, que cumpriram essa sanção e que, a partir do momento em que o prazo de interdição terminou, voltaram a assistir aos espectáculos desportivos, tornando-se adeptos sem qualquer risco, isto é, deixaram de ser identificados e associados a qualquer desordem pública ou acto de incivilidade dentro do estádio (Home Office, 2010).

Como podemos verificar existe uma aplicação eficaz desta sanção noutros países, já em Portugal assiste-se a uma utilização pouco efectiva dos normativos legislativos por

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Numa entrevista ao Jornal "A Bola" (no dia 1 de Abril de 2011), o Comissário João Pestana, referindo-se aos acontecimentos ocorridos no jogo Sporting-Benfica, realizado no dia 21 de Fevereiro de 2011, divulgou um conjunto de dados acerca dos indivíduos prevaricadores: "A PSP documentou 20 adeptos nos incidentes embora o total tenha andado pelos 50. Desses 20: 15 tinham antecedentes de situações de violência associada ao desporto nos dois anos anteriores; 8 haviam sido identificados ou detidos em duas ou mais situações nos últimos dois anos; 4, em quatro ou mais situações. Das 34 ocorrências no desporto praticadas, sempre de 2008 a 2010, por estes mesmos 20 adeptos, 16 foram crime Não são coincidências. As situações de violência têm rastilho em pequenos núcleos de agitadores que incendeiam os ânimos. Desde então, até ontem, esta amostra de 15 adeptos somou mais 17 ocorrências ao currículo, todas participadas pela PSP".

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Acresce a essa excelente eficácia a percentagem de detenções que originam a aplicação desta sanção. Na temporada de 2009/2010 foram detidos 1225 adeptos ingleses (em jogos da Premier League), do qual resultou a aplicação de banning orders a 339 desses adeptos (cerca de 28%).

29 parte das instituições responsáveis pela sua aplicação (promotor do espectáculo, organizador da competição, IDP, CESD, Tribunais ou Polícia). Acontece também que, dado o curto espaço temporal de aplicação da lei, as diferentes instituições/entidades ainda possuem diferentes formas de interpretação dos artigos, nomeadamente, quem tem a real atribuição de competências para aplicar determinadas normas ou qual o alcance temporal e espacial em que é exequível a sua aplicação33.

Além disso, é necessário ter em consideração que uma acção ilícita praticada por um adepto pode ser alvo de um processo que decorre em duas instâncias distintas, e em paralelo. Isto é, a prática de um crime ou contra-ordenação (à luz da Lei n.º 39/2009) vai originar um processo criminal ou contra-ordenacional, que será instruído nas entidades competentes (tribunais e IDP ou Governo Civil). Contudo, em paralelo a esse processo, poderá decorrer um processo de natureza disciplinar, independentemente das sanções e condenações que advenham do outro processo34.

É também nosso entender que os organizadores das competições desportivas deveriam utilizar com mais regularidade as sanções previstas nos seus regulamentos disciplinares, bem como, prever nos seus regulamentos medidas punitivas mais graves e pesadas. Por exemplo, se tivermos em conta o preceituado no Regulamento Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), verificamos que estão previstos nos seus artigos sanções a aplicar aos clubes pelos comportamentos dos seus adeptos. Tais sanções variam entre a multa, perda de pontos desportivos, jogos à porta fechada e/ou interdição do recinto desportivo. Todavia, se olharmos para o preconizado nos artigos 140.º a 151.º, deparamo-nos com uma difícil aplicação das medidas mais gravosas, sendo necessário ocorrerem actos cujo resultado tenha, directamente, consequências no normal decurso do jogo. Consideramos então que actos de extrema violência, praticados por adeptos de um clube, no exterior do recinto desportivo, e relacionados com o espectáculo desportivo, deveriam ser, também eles, alvo das sanções disciplinares mais gravosas, a aplicar aos clubes. Facto que revela, na nossa opinião, um excessivo peso dos clubes como força de pressão junto do poder político e das instâncias administrativas.

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O Subintendente Costa Ramos, aquando da nossa entrevista, apresentou -nos um exemplo disso mesmo: "nós tivemos um caso, muito recente, (...), onde a Comissão de Ética para a Segurança no Desporto tem uma interpretação da aplicação da lei e logo a seguir num tribunal, num mesmo caso, foi aplicado de forma diferente. Têm interpretações diferentes".

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No entanto, apesar das nossas observações verificarem a existência de actos que incorreriam numa sanção disciplinar, tal não foi aplicado aos clubes.

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CAPÍTULO III - OS GRUPOS (ORGANIZADOS) DE

ADEPTOS

No capítulo alusivo aos Grupos Organizados de Adeptos, não poderíamos abordar o tema sem ter presente algumas noções, basilares e de extrema importância, acerca das claques de futebol.

Um dos factores que mais influencia a ocorrência de comportamentos exacerbados de violência é a existência de grupos de adeptos (com diferentes níveis de organização) com uma filosofia de apoio ao clube caracterizada pela adopção de símbolos, cânticos e comportamentos próprios. Estes grupos são, vulgarmente, conhecidos por claques de futebol. Podemos distinguir duas subculturas de adeptos: a primeira, denominada hooligan, é de origem inglesa e predominante no norte da Europa; a segunda é a subcultura ultra, de origem italiana e presente maioritariamente nos países do sul europeu. Estas subculturas apresentam diferentes formas de organização, comportamentos de apoio específicos e formas de violência distintas35.

No decorrer do presente capítulo procederemos ao estudo da actualidade dos Grupos Organizados de Adeptos portugueses, baseando-nos nas observações realizadas, enquanto método de pesquisa preferencial, e nas entrevistas efectuadas a alguns elementos que, pela sua proximidade ao tema, demonstraram ser uma fonte de informação primordial. Pretendemos deste modo apresentar uma imagem do panorama actual dos GOA, bem como, da sua directa relação no tocante ao fenómeno em análise.