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CAPÍTULO 3: PERCURSO METODOLÓGICO

3.1 APORTES METODOLÓGICOS

A presente pesquisa parte de uma epistemologia feminista de ciência e se referencia nas abordagens qualitativas de inspiração etnográfica. De acordo com Maria Cecília Minayo (2007), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Norman Denzin e Yvonna Lincoln (2006) pontuam que, por trabalhar com subjetividades, essas abordagens explicitam a natureza socialmente construída da realidade e o processo de construção conjunta do/a pesquisador/a e do/a participante, a partir de um movimento crítico e reflexivo dessa relação. Para tais autores

“a pesquisa qualitativa é uma atividade situada que localiza o/a observador/a no mundo. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo” (DENZIN & LINCOLN, 2006, flexão de gênero realizada pela pesquisadora). Nesse sentido, através de métodos múltiplos, essas práticas transformam o mundo em notas de campo, conversas, fotografias, entrevistas e outros tipos de representação. A pesquisa qualitativa procura compreender os fenômenos em seus cenários naturais, a partir dos significados que as pessoas lhes conferem. Acerca do/a pesquisador/a, Yvonna S. Lincoln pontua:

O bricoleur18 político sabe que a ciência significa poder, pois todas as descobertas da pesquisa têm implicações políticas. Não existe nenhuma ciência livre de valores. O que se busca é uma ciência social cívica baseada em uma política da esperança (LINCOLN, 1999 apud DENZIN & LINCOLN, 2006).

A partir da compreensão de que não existe neutralidade em ciência, vinculo minha pesquisa ao paradigma feminista pós-estrutural de pesquisa qualitativa, interpretando o mundo em termos de minha localização dentro de um contexto histórico, marcada por um gênero, raça, classe social e ideologias específicas. O movimento feminista realizou uma crítica ao paradigma positivista de ciência, denunciando que com os ideais de objetividade, racionalidade, neutralidade e distanciamento entre pesquisador/a – objeto, este modo de pensar a ciência silenciou as mulheres e outras minorias. Ou seja, ao se propor enquanto neutra, a ciência estava, todavia, servindo aos ideais dominantes, pois, ao se dizer detentora de um saber geral, na verdade, falava a partir do lugar do homem branco ocidental. Dessa forma, através de produção marcadamente androcêntrica e partindo da ideia de um sujeito masculino universal, os saberes produzidos pretensamente enquanto neutros serviram para a manutenção de um status quo de opressão e dominação de minorias, inclusive das mulheres, que, vale lembrar, foram inicialmente proibidas de participar do meio de produção científica (BANDEIRA, 2008; NARVAZ & KOLLER, 2006).

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Devido às múltiplas possibilidades de instrumentos possíveis, os autores fazem uso da metáfora do pesquisador qualitativo com um bricoleur, que é um indivíduo que junta pedaços para confeccionar colchas.

Para o feminismo pós-estrutural, a ciência é sempre impregnada de valores materiais e culturais, sendo o próprio conhecimento científico em si, também um sistema de dominação19. Nesse sentido, esse novo paradigma de ciência se pretende enquanto um conhecimento posicionado, crítico, situado, de caráter transformador, substituindo a neutralidade positivista pelo engajamento do/a pesquisador/a. Nessa perspectiva, a neutralidade dá lugar a interesses posicionados explícitos, a objetividade será substituída pela construção de saberes parciais e localizados e a construção de leis gerais dará lugar à tensão entre micropolítica e macropolítica (HARAWAY, 1995). O afastamento pesquisador/a – objeto não é buscado, mais sim uma reflexividade acerca dessa relação pesquisador/a-participante, compreendendo que ambos construirão o conhecimento juntos/as, a partir de uma afetação mútua. Reconhece- se a importância da subjetividade do/a pesquisador/a em relação às etapas do processo de produção de conhecimento, pensando como a pesquisa atravessa-o/a, propondo que este/a atue com reflexividade, criticidade e posicionamento (BANDEIRA, 2008).

Em concordância com Katia Aguiar e Marisa Rocha (2003), penso a pesquisa como importante espaço de problematização coletiva e participação dos grupos sociais na busca de solução para as situações vividas, envolvendo compreensão e mudança de realidade. Dessa forma, a atividade de pesquisa objetiva promover uma tomada de consciência dos fatores envolvidos na problemática e participação coletiva com vistas a mudança da ordem social, pressupondo assim, que cada comunidade tem em si potencial de conhecimentos e humano para dirigir seu próprio desenvolvimento. Nessa perspectiva da pesquisa implicada com a promoção de justiça social, faz-se necessário relativizar a ideia de “verdade” e abandonar a neutralidade, objetividade e totalização dos saberes (AGUIAR & ROCHA, 2003; FINE et. al., 2006).

Como pesquisa inserida no projeto “guarda-chuva” Diálogos para o desenvolvimento social de Suape, que busca possibilidades de compreensão e intervenção acerca dos impactos

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Estou afirmando a ciência enquanto um sistema de dominação uma vez que, em seu surgimento, se propôs enquanto detentora d“A” verdade baseada nos princípios da racionalidade e pretendendo superar “A” verdade anterior que advinha da religião.

sociais trazidos pelo desenvolvimento econômico da microrregião de Suape20 a partir da instalação do complexo portuário-industrial (UFPE, 2010), e, no ínterim das discussões supracitadas, desejo prezar pelo posicionamento das mulheres convidadas a participar da pesquisa como sujeitos possuidores de um conhecimento único sobre suas vivências, capazes de participar da construção de conhecimentos sobre si mesmas. Considero que refletir sobre as experiências de maternidade por parte dessas mulheres através de seus próprios discursos pode contribuir para repensar políticas de assistência uma vez que, quer seja no âmbito da gravidez e maternidade, quer seja no campo do abuso de drogas ilícitas, tendo-as como foco de intervenção, não as têm ouvido.

Dessa forma, considero coerente a análise que o grupo de pesquisadoras coordenadas por Michelle Fine et. al. (2006) faz sobre sujeitos que são invisibilizados, todavia são tornados visíveis enquanto “espetáculo moral”. No caso das mulheres grávidas e mães usuárias de crack, estas são pensadas no discurso do senso comum enquanto mulheres irresponsáveis, “mães-más”, e nesse sentido são „olhadas‟. Contudo, suas experiências não são ouvidas no processo de formulação das políticas de assistência. Diante disso, essa pesquisa pretendeu trazer as vozes dessas mulheres para o debate das políticas que versam sobre suas realidades.

Para tal, realizei observação participante no Programa Luz, fazendo registros no diário de campo e realizando entrevistas semiestruturadas com quatro mulheres. Cada uma dessas etapas será melhor explicada no próximo tópico desse capítulo. Considero importante, todavia, pontuar desde já que, por um cuidado ético as mulheres e a instituição onde foi realizada a pesquisa, essas receberão nomes fictícios nesse texto, bem como as outras pessoas da rede das jovens que sejam citadas nas entrevistas e/ou trechos do diário de campo. Isso farei por compreender que uma pesquisa desse tipo, com jovens usuárias de crack – sendo essa uma prática ilegal – deve prezar pelo anonimato enquanto um cuidado de proteção a fim de não vulnerabilizá-las ainda mais. Além disso, o tema da pesquisa é delicado, uma vez que está atravessado pelas questões de estigma e desigualdades produzidas em torno da junção dos significantes: drogas, mulheres, maternidade e pobreza.

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A microrregião de Suape é composta pelas cidades do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, ambas no estado de Pernambuco.

Acerca dos procedimentos éticos, evidencio que o Projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape, do qual esse estudo faz parte, está aprovado em comitê de ética em pesquisa com seres humanos. Além disso, a pesquisa seguiu as normas dos comitês de ética em pesquisa, realizando-se após a assinatura dos termos de consentimento livre e esclarecido (TCLE) das jovens e com aprovação das instâncias municipais que gerenciam o programa onde foi realizada21. Entretanto, em concordância com Mary Jane Spink (2000) acerca do questionamento ético em pesquisa, pontuo que, apesar de ter seguido os procedimentos legais e compreendê-los como importantes instrumentos de garantia dos direitos dos/as participantes, parto de uma visão mais ampla acerca do que seja o fazer ético em pesquisa.

A autora afirma que a ética prescritiva – que se estabelece através da moral contratual pela assinatura dos termos – não é suficiente para garantir que a pesquisa seja ética. Ao considerar a complexidade do fenômeno abordado nesse estudo, pontuo a necessidade de haver uma ética da responsabilidade com o/a outro/a, que Mary Jane (2000) vai apresentar enquanto condição necessária ao estabelecimento de uma ética dialógica. Refiro-me, nesse sentido, à minha responsabilidade com as participantes e também com o conhecimento construído. Essa é uma das razões pelas quais, fundamentando-se nas epistemologias feministas, esse texto é escrito em primeira pessoa, para responsabilizar e deixar claro que esse conhecimento não é neutro, mas que ele é construído com interesses e pressupostos específicos.

Além disso, reconheço no meu encontro com os/as jovens a existência de uma relação desigual, sendo necessário segundo a proposta de Fine et. al (2006) ao/à pesquisador/a criticidade e reflexividade para “trabalhar o elemento de união e separação” reconhecendo o que separa e o que une entrevistador/a e participante. A partir dessa postura, procurei minimizar hierarquias sem deixar de reconhecê-las, uma vez que minha presença no campo, por mais bem aceita que fosse, é uma intervenção externa num sistema de relações preexistentes.

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Dessa forma, essa pesquisa busca seguir a proposta de “pautar-se na competência ética e ser apenas marginalmente dependente da ética prescritiva dos códigos” (SPINK, 2000). Para tal, me propus a realizá-la partindo dessa ética da responsabilidade; no que tange às participantes e ao conhecimento produzido, comprometendo-me a buscar, através desta pesquisa, promover justiça social (FINE et al, 2006).