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Como o arco que vibra tanto para lançar longe a flecha como pra lançar perto o som: a voz humana tanto vibra pra lançar

C ARACTERIZANTES E CONSTITUINTES

Construímos a hipótese da quase-sílaba sobre critérios acústico-articulatórios (prosodemas e fonemas musicais apresentam certas propriedades físico-articulatórias) e distribucionais (em certas condições, uma sílaba indiferenciada ocupa determinados pontos da cadeia da fala). Mas é possível acrescentar um argumento fundado exclusivamente sobre a forma da expressão.

Retomemos a distinção fonema/prosodema. Jakobson explica que entre fonemas há oposição; entre prosodemas há oposição e contraste:

etc [σ]

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“Todo traço prosódico encerra duas coordenadas: de um lado, termos polares, como registro alto e registro baixo, tom ascendente e tom descendente, ou quantidade longa e breve, podem aparecer, coeteris paribus, na mesma posição na seqüência, de sorte que o falante usa seletivamente e o ouvinte seletivamente apreende uma das duas alternativas. Essas duas alternativas, uma presente e a outra ausente, numa mesma unidade da mensagem, constitui uma verdadeira oposição lógica. Por outro lado, os dois termos polares só são plenamente reconhecíveis quando se acham ambos presentes numa dada seqüência. Assim, as duas alternativas de um traço prosódico coexistem no código como dois termos de uma oposição e, além disso, co-ocorrem e produzem um contraste dentro da mensagem[...]Reconhecer e definir um traço inerente depende apenas da escolha de duas alternativas[...]Não depende da comparação dos dois termos polares e da sua co-ocorrência”[grifos nossos].54

A oposição é uma função paradigmática (uma função in absentia), da ordem do sistema. Dois sons opõem-se no sistema da língua quando num deles temos a presença de determinado(s) traço(s), enquanto no outro temos a ausência desse(s) mesmo(s) traço(s). Por exemplo, é a presença do traço [+sonoro] em /b/ que o opõe a /p/, marcado pela ausência desse mesmo traço. Todos os sons fonologicamente pertinentes de uma língua natural estão organizados em categorias com base em critérios opositivos como esse. Portanto, a oposição é a função que está na base do sistema de fonemas consonantais e vocálicos de todas as línguas naturais55.

Já o contraste é uma função sintagmática (uma função in praesentia), da ordem do processo. Os funtivos que participam de um contraste têm que coexistir na cadeia. Como se deduz da passagem de Jakobson acima, o contraste pressupõe a oposição, mas o contrário não ocorre56. Com base nisso, pode-se concluir que:

54 JAKOBSON, R. (1975) Fonema e fonologia : ensaios, p. 120-121 (grifos nossos).

55 Evidentemente, estamos focalizando aqui apenas o que ocorre no plano da expressão. Para que o

som ascenda à condição de fonema, ele tem que entrar numa correlação com uma oposição semelhante no plano do conteúdo.

56 O mesmo ocorre com certas categorias do plano do conteúdo: “Uma categoria flexiva é sempre ao

mesmo tempo paradigmática e sintagmática. É assim que gostaríamos de definir a flexão, que precisamente por este traço se distingue da derivação, unicamente paradigmática, com a qual tem sido tão freqüentemente confundida na lingüística clássica [...] os fatos sintagmáticos pressupõem os fatos paradigmáticos e são sua conseqüência.” HJELMSLEV, L. (1978) La Categoria de los casos, p. 146. (T.l.a.).

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(i) prosodemas opõem-se entre si no sistema através da presença vs. ausência de um traço prosódico. Por exemplo, a sílaba tônica opõe-se à sílaba átona, pois apresenta o traço [+forte], ausente na sílaba átona.

(ii) prosodemas contrastam entre si no processo através da co-presença do termo oposto. A oposição pelo traço [+forte] que distingue /cáqui/ de /caqui/ é eficiente apenas quando ambos os termos da relação estão justapostos contrastivamente no processo. Por essa razão, a sílaba com o traço [+forte] sempre é antecedida e/ou sucedida por sílabas sem esse traço. Daí que, das quatro combinações logicamente possíveis para /ca/ e /qui/, apenas se realizem aquelas nas quais as sílabas adjacentes contrastam entre si:

/ca'qui°/57

/ca°qui'/

ao passo que as cadeias sem contraste são prosodicamente “agramaticais”:

*/ca'qui'/58

*/ca°qui°/

Os exemplos revelam que a cadeia de acentos (construída com prosodemas) e a cadeia de sílabas (construída com fonemas) estão sujeitas a um condicionamento modal: os acentos devem justapor-se na cadeia obedecendo a certas regras, ao passo que as bases das sílabas podem justapor-se na cadeia livremente. Na terminologia de Hjelmslev os acentos selecionam-se entre si, ao passo que as sílabas combinam-se entre si59. Hjelmslev

generaliza esse fato e afirma que o mecanismo de qualquer linguagem é tributário desse

57 Utilizamos o símbolo ( ' ) para representar o traço [+forte] e ( º ) para [-forte].

58 Convencionalmente o asterisco antes de palavra indica uma forma reconstruída. Aqui ele representa

uma “agramaticalidade” prosódica.

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condicionamento modal do /dever/ e do /poder/60. Essas funções estão presentes em

qualquer semiótica, em ambos os planos, da expressão e do conteúdo61. São elas que

definem as categorias mais gerais de um texto, os caracterizantes e os constituintes.

Grosso modo, caracterizante é o elemento que pode entrar numa relação de seleção

enquanto o constituinte não pode fazê-lo62. A cadeia de acentos é uma cadeia de

caracterizantes, a cadeia das bases silábicas é uma cadeia de constituintes. Caracterizantes e constituintes se pressupõem reciprocamente: toda sílaba é determinada por um valor prosódico e todo valor prosódico determina uma sílaba. Assim como não existe sílaba sem acento, não pode haver acento sem sílaba. A intensidade, a altura e a duração são determinações da sílaba que não podem existir em si mesmas e por si mesmas.

Portanto, ou admitimos que altura, intensidade e duração caracterizam uma quase- sílaba, ou teremos então que admitir um acento que acentua o “nada”, numa estranhíssima relação de determinação em que existiria apenas a grandeza determinante, mas não a determinada, o que constitui uma contradição em termos. Conseqüentemente, embora uma quase-sílaba não possa ser apreendida empiricamente (se o sentido está na diferença, como apreender uma grandeza indiferenciada?), ela é uma grandeza “algébrica” cuja existência é exigida pela coerência interna do sistema.

60 A solidariedade é uma função na qual ambos os funtivos devem estar presentes, a seleção é uma função

na qual um funtivo deve estar presente e o outro pode estar presente, por fim a combinação é uma função na qual ambos os funtivos podem estar presentes.

61Nossos exemplos poderiam sugerir que seleção e combinação afetam apenas o texto cujo plano da

expressão se manifesta linearmente (verbal, musical, cinematográfico etc). Mas numa fotografia, por exemplo, estes “condicionamentos modais” afetam o campo (dever estar à frente de), a distribuição de massas (dever estar à direita de) e assim por diante. É evidente que a pintura surrealista, assim como a música atonal e a literatura das vanguardas do século XX ocupam uma posição especial nesse contexto, mas, nesses casos, é ainda hoje difícil reconhecer os mecanismos de construção do sentido, embora eles com certeza existam. O máximo que se pode fazer é chamar a atenção para a difícil palavra “sentido” que, evidentemente, não pode ser empregada sem nuances quando comparamos a poesia de Camões e a de Augusto de Campos, a melodia de Tom Jobim e a de Alban Berg, a prosa de Machado de Assis e a de Natalie Sarraute. Para mais detalhes ver CARMO Jr, J. R. (2005) Da voz

aos instrumentos musicais: um estudo semiótico.

62Mais precisamente, caracterizante é o elemento que participa de uma seleção heterossintagmática ou

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