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Fonte: Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto (2009)

Todavia, a cidade assume um novo papel com a chegada da ferrovia ao seu território, conforme se discutirá no tópico a seguir. A perspectiva é de mostrar a contribuição que a melhoria do sistema de transporte e comunicação representou no desenvolvimento urbano local, discutindo-se as mudanças das funções, do papel, dos conteúdos e da dinâmica da cidade.

1.5. A chegada da ferrovia a Araguari e as espacialidades engendradas: mudança das funções, do papel, dos conteúdos e da dinâmica da cidade

1.5.1. As funcionalidades urbanas e o papel da cidade na primeira metade do século XX A compreensão da evolução urbana de uma cidade exige a análise dos aspectos econômicos vigentes em cada período, uma vez que as mudanças nas relações de produção engendram transformações na estrutura urbana. Nesse sentido, faz-se necessária a consideração dos aspectos históricos que atuaram na constituição da formação socioespacial e na dinâmica particular de determinado centro urbano. Tal formação é determinada pela divisão territorial do trabalho que se expressa no espaço, divisão essa que transforma os conteúdos e funções dos lugares, uma vez que [...] “o movimento da sociedade e a transformação dos conteúdos e funções dos lugares podem ser entendidos pelas sucessivas divisões territoriais do trabalho” (SANTOS, 1993, p. 105).

Nessa perspectiva, há que se considerar que no território brasileiro, conforme já mencionado, a implantação da ferrovia foi a expressão da melhoria de seu nível técnico, possibilitou o escoamento de produtos de exportação e, mais do que isso, ofereceu condições favoráveis à interiorização do povoamento. Tal implantação representou um importante fator no sistema urbano brasileiro, pois valorizou áreas e imprimiu significativas mudanças nas funções, papéis e conteúdos das cidades. Houve, assim, uma [...] “repercussão direta nas suas funções e estruturas urbanas; estímulo às modificações operadas no interior da estrutura urbana de diversas cidades antigas atingidas pela ferrovia” (GEIGER, 1963, p. 90). O autor reitera a importância do sistema ferroviário ao afirmar que: “O papel da ferrovia na evolução da rêde urbana é, portanto, enorme. Existe a influência direta, pela valorização das cidades atravessadas pela estrada” (GEIGER, 1963, p. 110).

Na análise do processo de evolução urbana dos núcleos urbanos do país, a partir do enfoque dos sistemas de transportes e comunicações, seja de forma geral ou específica, um fator que merece atenção é a posição ocupada por determinado núcleo em relação à organização das linhas férreas. O fato de funcionar como simples estação terminal, “ponta de trilho” ou entroncamento e contar com a presença de oficinas de reparo do material ferroviário influenciou diretamente o processo de desenvolvimento urbano das cidades que foram atingidas pela ferrovia.

O desenvolvimento territorial e urbano de Araguari deve ser entendido a partir da posição que essa cidade desempenhava em relação ao sistema ferroviário implantado na região do Triângulo Mineiro. É importante considerar que as condições naturais dessa região eram favoráveis à implantação desse sistema e à sua consequente inserção e integração à economia nacional. Guimarães (1990, p. 31) afirma que:

Dado que as condições naturais do Triângulo como um todo eram potencialmente favoráveis, devemos, então, buscar nas condições históricas dos transportes o elemento de diferenciação dos diversos núcleos urbanos nos seus respectivos contatos com o mercado nacional.

A importância do sistema de transportes, conforme nos aponta o autor, é o fato de que representou um fator de definição na rota econômica e no consequente papel de alguns municípios do Triângulo Mineiro. Destarte, tal importância deve ser considerada na análise da evolução dos centros urbanos dessa região, pois esse sistema representa um significativo fator de estruturação e organização espacial. Nesse sentido, torna-se necessário atentar para o fato de que os núcleos que foram atingidos pelo transporte ferroviário, a primeiro momento, e depois pelo rodoviário foram beneficiados.

Dentre esses benefícios, pode-se destacar a ampliação dos fluxos comerciais com outros centros urbanos em âmbito regional e nacional, a partir da possibilidade que o sistema de transporte oferece para o escoamento da produção local e para a importação de produtos escassos localmente e necessários à reprodução social da população residente. A intensificação das relações sociais, culturais e econômicas representa outro benefício e ocorre em decorrência de pessoas que têm nesses núcleos urbanos atingidos pela melhoria dos transportes um ponto obrigatório de parada ou mesmo são atraídas para seu interior, passando, em alguns casos, a residir nesses lugares. Essa atração advém de estratégias adotadas por agentes locais de tais núcleos.

Nessa perspectiva, tais benefícios refletem-se na ampliação do comando regional de determinado centro urbano a partir da posição ocupada em relação aos sistemas técnicos. Desse modo, passaremos à análise das condições e reflexos advindos da implantação da ferrovia Mogiana em Araguari.

1.5.1.1 - A ferrovia Mogiana em Araguari e as novas espacialidades engendradas

Antes de nos atermos à abordagem sobre as condições da implantação da Mogiana em Araguari e as espacialidades que foram geradas, vale comentar que a presença da ferrovia

nessa cidade possibilitou a transformação da dinâmica espacial e temporal preexistente. Em outras palavras, significa dizer que, com a implantação do sistema de transporte ferroviário em seu território, representado inicialmente pela Mogiana e, posteriormente, pela estrada de Ferro Goiás, o tempo e o espaço para se atingir o litoral e o sertão foram relativamente reduzidos. A importância do contato com os núcleos urbanos litorâneos, especialmente com a cidade de São Paulo, deve-se à possibilidade que representava à inserção na dinâmica capitalista que estava se constituindo no país e, de forma específica, na região do Triângulo Mineiro. E também à vinculação com as características da economia agroexportadora do país que perdurou até a primeira metade do século XX e que era voltada diretamente para o litoral, ou, melhor dizendo, para o mercado consumidor europeu.

A locomotiva Espírito Santo do Pinhal, da ferrovia Mogiana, foi a primeira a adentrar as terras pertencentes ao município de Araguari, no dia 21 de abril de 1896. Essa data corresponde à realização de um teste da ponte metálica construída sobre o Rio das Velhas14. A partir desse teste, seria demarcado o caminho por onde passariam os trilhos de ferro e aconteceria a escolha do local de implantação da estação na cidade. Não obstante o fato de corresponder a apenas um primeiro teste da linha, ele foi capaz de gerar um grande entusiasmo entre a população, já que a chegada de uma locomotiva representava o advento do “moderno”, que atendia aos ideais dos políticos, da imprensa e, de forma específica, da elite local dirigente.

A representatividade do apito da primeira locomotiva que penetrou o território araguarino, mesmo que em caráter experimental, fica clara nas palavras de Porto (1960, p. 13):

Apito que a cidade ouviu cheia de esperança. Naquele 21 de abril de 1896, a cidadezinha amanheceu toda enfeitada para o grande dia de festa [...] Todo mundo trajando preto a rigor, fumando cigarrinho de palha nas comentações sobre o extraordinário acontecimento daquele dia [...] Aquela máquina era a esperança [...] Era o apito da Mogiana, trazendo para as fronteiras deste sertão a sua força civilizadora e o entusiasmo para uma nova vida de trabalho e de fartura.

      

14 Inicialmente, esse rio foi denominado “Rio das Abelhas” e, posteriormente, “Rio das Velhas”. De acordo com

uma reportagem do Jornal Gazeta do Triângulo (15/01/1939, n. 98, p. 6), o “Rio das Velhas” passou a denominar-se “Rio Araguari” a partir do decreto-lei n. 148, de 17 de dezembro de 1939. Por meio de tal decreto, foram estabelecidas as novas divisas municipais e inter-distritais de Minas Gerais pelo governador desse estado. O curso d’água recebeu o nome do município devido a reivindicações “bairristas” da população de Araguari, que almejava tal denominação para o rio. É importante deixar claro que o Rio Araguari é o limite natural que faz a divisa entre os municípios de Araguari e Uberlândia. Cumpre destacar também que na região central do estado de Minas Gerais há um importante rio denominado Rio das Velhas. Esse rio percorre 51 municípios mineiros e é um afluente da Bacia do Rio São Francisco. Sua importância deve-se ao fato de que foi um dos principais caminhos do Ciclo do Ouro, que contribuiu para o desenvolvimento da região central desse estado.

A festa de inauguração oficial era um evento tão aguardado que, em maio de 1896, houve a promulgação da Lei n. 20 pela Câmara Municipal, cujo objetivo era a destinação de recursos para essa festa. No dia 12 de setembro do mesmo ano, ocorreu o teste da linha no percurso entre São Pedro de Uberabinha e Araguari. O local de chegada dessa locomotiva corresponde à área que foi destinada à estação, que já se encontrava em processo de construção. A escritora Maria Paula Fleury Godoy, que visitava a cidade à época, destacou em seu livro a importância do acontecimento para a sociedade araguarina:

Inaugurou-se a estrada de ferro durante a nossa estada em Araguari. Imaginem que barulhada. Veio da roça não sei quanta gente para ver o ‘bicho que lança fogo e tem partes com o diabo’.... Houve mesa de doces, brinquedos, muita cerveja. As senhoras em grande toalete, na estação, esperando a máquina que vinha tôda enfeitada com bandeiras. Quando, porém, ela apitou, foi uma corrida por ali a fora. Mulheres tiveram ataques, homens velhos juraram que nunca se serviriam de semelhante cousa, que urrava feito bicho e tem fogo no corpo. Os moleques corriam de pavor, derrubando os tabuleiros de biscoitos. E, enquanto isso, a máquina entrava triunfal na pequena estação de Araguari. Durante muitos dias só se falou na tal invenção do capeta (GODOY, 1961, p. 39-40).

Nesse sentido, é importante considerar a importância que a presença da ferrovia representava para Araguari. A referência da autora à locomotiva como um “bicho que lança fogo e tem parte com o diabo” pode ser justificada pela novidade que o trem de ferro representava à época a um centro urbano do interior do país, como é o caso da cidade de Araguari. A “invenção do capeta”, segundo a denominação adotada pela autora, possibilitava o deslocamento de pessoas e mercadorias e o contato da população com os valores culturais do mundo moderno.

Conforme nos aponta Borges (2004), a construção da estação e de todo o complexo ferroviário também imprimia transformações socioespaciais na cidade, pois constituía um processo de destruição/reconstrução do espaço. Esse autor, ao referir-se à importância da ferrovia para o território goiano, corrobora essa afirmação, uma vez que em Araguari ela também representou um símbolo de modernização. Em suas palavras:

O trem de ferro, simbolizado pela velha ‘maria fumaça’, com sua cauda de aço, penetrava nas entranhas dos sertões e fecundava a tradicional sociedade agrária com valores culturais do mundo moderno. Desse modo, contribuía decisivamente para a transformação da paisagem regional, a partir de um processo dialético marcado pela destruição/reconstrução do espaço (BORGES, 2004, p. 96).

A estação da Mogiana foi definitivamente inaugurada e aberta ao tráfego em 15 de novembro de 1896 e Araguari passou, assim, a ser o ponto terminal dessa ferrovia. Essa estação foi construída em uma área de platô, passando a ocupar um lugar de destaque no

cenário local da cidade, sendo que o local recebeu a denominação de “Alto da Mogiana”. A foto 13 permite uma visualização dessa estação.