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FSaes: Uma apresentação pessoal...

NC: Eu me formei em Paris, na Escola Nacional de Arquitetura em Paris Val de Seine (ENSAPVS) e depois de formado trabalhei 4 anos em Paris e depois vim para o Brasil com minha esposa. Aqui trabalhei três anos em um escritório de arquitetura do Carlos Sawa- ya Bracher que fazia casas de alto luxo e depois entrei aqui no Ma- tarazzo em 2012 e estou aqui há sete anos.

FSaes: E como que foi o processo de concepção do programa do empreendimento? Houve uma concepção inicial.

NC: A concepção começou a se formar na cabeça do Alexandre Allard, desde a aquisição do hospital, de ter um hotel e um shopping de alto padrão. Desde que eu comecei a trabalhar aqui já tinha o Jean Nouvel e o Philippe Stark contratados e esta era a única certeza contar com eles.

FSaes: E acredito que eles são parceiros na Architecture d'Au- jourd'hui, uma revista de renome internacional, um monumento da cultura francesa desde 1930!!!

NC: Sim, o Alex comprou a revista Desde o começou o que esta- va na concepção na cabeça do Alex Allard, foi o que ele fez no Royal Monceau (reinaugurado no verão de 2010) em Paris com a ajuda do Philippe Starck ou seja juntar patrimônio, cultura e alto luxo.

FSaes: Vc sabe como foi a descoberta aqui por parte do Alex Allard?

NC: Acho que começou em 2009. Diz um pouco a lenda e deve ser verdade, que o Alex estava voando de helicóptero a primeira vez aqui em São Paulo, procurando novos projetos para investir e de re- pente se deparou com a área do Hospital aqui ao lado da Av. Paulista. Ele estava à busca de novos projetos e o Royal Monceau estava sendo finalizado em Paris, isso no final do ano de 2009.

Ele comprou um imóvel sob um determinado risco da Previ, que ainda não tinha alvará de execução e que tinha um projeto legal antigo suspenso e ele conseguiu depois da compra obter dois documentos fundamentais, um era um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) e um Projeto Legal Modificativo de 1996 do projeto inicial do Arquiteto Júlio Neves. Com estes dois documentos em mãos e ele começou a procurar um parceiro de investimento e identificou o CTF, um investidor chinês de Hong Kong que também é dono da bandeira Rosewood, ou seja o Alex Allard acertou duas vezes, e isso só se deu no começo de 2014.

Antes disto ocorreu uma grande aventura com o Banco do Brasil quando a gente tinha planejado com o Edo Rocha e depois o Konigsberg & Vannucci um grande Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) e era muito ambicioso que demandava uma sala de ópera de para 2500 pessoas que atingiria seis subsolos, dois cinemas, um teatro italiano para 400 pessoas, um teatro black box para 200 pessoas, um auditório para 250 pessoas, e três salas de exposições contando cada uma com 1000m². A ópera era de nível mundial com todos os seus requisitos de palco, tamanho, abertura de boca de cena. Nós fomos muito longe e houve um gasto em pro- jetos e tempo.

Na verdade esses estudos faziam sentido na época, pois o Alex tinha acabado de comprar a área da Previ e o próprio Banco do Bra- sil tinha interesse em investir no Novo Centro Cultural. Na época o Centro Cultural era enorme, e o projeto de hotel estava na mater- nidade e era menor comparado com o centro cultural e a Torre do Jean Nouvel.

E depois o Banco do Brasil saiu do empreendimento, acredito por determinação de novos investimentos pela sede em Brasília e devido a mudança na Diretoria deles, nova orientação dos orçamen- tos, enfim não sabemos até hoje todas as razões e nós acreditamos também que eles não estavam prontos para operar um Centro Cul- tural deste tamanho. CCBB no Centro hoje tem perto de 400 m² e o novo tinha mais de 4.000 m². Nós na época estávamos cobrando eles a definição de um curador para iniciar as programações futuras pois estamos adiantados nos projetos. De um dia para o outro tive- mos que colocar os projetos do Centro Cultural na gaveta e as datas coincidem mais ou menos com a entrada do operador Rosewood.

Na época o Centro Cultural teve o projeto do Philippe Stark e já tinha a Torre do Jean Nouvel e os usos da Torre eram um pouco diferentes, contando com um uso misto e antes tinha quartos, um pouco de residências e escritórios. Hoje só temos quartos e residen- cial. Na época os preços de escritórios estavam caindo e o preço do residencial estava subindo aí o projeto sofreu uma adaptação com a entrada do novo operador e ao mercado. O Philippe Stark teve seu escopo de atuação modificado, deixando de cuidar do Centro Cultural e mudando para uma maior atuação no hotel. E também ao longo do tempo o quesito técnico começou a ser melhor equa- cionado, pois na medida em que nós íamos conhecendo os prédios e entendendo como eles funcionavam e o que era possível fazer. No começo no prédio da Maternidade a gente achou, existiu uma plan- ta, que iríamos criar um andar inteiro com subfundação no prédio

inteiro. Isto também em relação à taxa de ocupação que nos obriga a pensar bem as áreas computáveis e não computáveis. Hoje, ape- sar do projeto ser bem ambicioso a gente atua de maneira mais razoável e também a produtividade de algumas sequências cons- trutivas, como a execução das vigas sanduíches. Hoje por exemplo nos projetos dos blocos A,B, C e E do Retail a gente tentou diminuir ao máximo as vigas sanduíche, que foram muito utilizadas na Ca- pela e partes da Maternidade e a produtividade é muito baixa. Nós na obra temos um catálogo de engenharia, com vários tipos de fun- dações. E tudo isso foi um processo de aprendizagem. O Maurício pode falar horas sobre isso, o primeiro a viver as experiências no dia a dia. Temos trechos da obra que nós tivemos atrasos enormes pela complexidade dos trabalhos.

FSaes: Vc está falando do Drop-off na Maternidade? NC: Sim, eu estava pensando no Drop-off!!!.

A Capela é mais impressionante que o Drop-off, mas ele é ainda mais complexo e ainda colocamos uma piscina na cobertura que carregou ainda mais a estrutura. O edifício da Maternidade a gente chama ele de “vivo”, pois ele é muito torto, tendo uma das suas alas afastadas da outra e temos que criar dois referenciais dentro do prédio e ainda o prédio é inclinado e a gente teve que criar umas curvas de níveis internas para mapear as diferenças e verificar onde teríamos que raspar e encher. Foi uma coisa que valeu a pena que fomos aprendendo aos poucos!!!

FSaes: Vale a pena!! Hj eu tenho umas fotografias panorâmi- cas do Drop-off antes e depois e aí a gente vê o espaço realmente se transformar em um lugar!!!

NC: Sim, exato, impressionante. O bonito daqui é que foi tudo natural. Nós temos os técnicos do Condephaat e do Conpresp que nos acompanha e fiscaliza mas sendo muito abertos para a gente

viabilizar nosso projeto. O fato de ser tudo transparente, sem ter de esconder nada, de inventar, de mudar, nos ajuda muito a traba- lhar. Até hoje a relação que a gente tem com eles, eles vem uma vez por mês, eles estão a par de tudo não é uma coisa congelada. Até hj a gente descobre que precisamos abrir uma porta onde está uma janela e aí é possível resolver em reuniões com atas oficiais onde se resolve o caso, se está fora da alçada deles vai para a reunião do Conselho.

Vc comentou das pessoas que atuam no projeto que Vc entre- vistou. A gente aqui no Matarazzo sempre tentou contratar os me- lhores, contando com as competências de cada um e com o tesão de trabalhar conosco e tem sido maravilhoso!! Grande aprendizado!!!

FSaes: Tenho depoimentos muito interessantes deles todos para o Projeto Obra Prima... Tenho depoimentos históricos!!!

NC: Vc sabe que estes principais projetistas Mario Franco, Ma- ffei, Adriana Levisky, Roberto Toffoli, Raul da Teknica, Sérgio da SKK, todas as especialidades principais, todos donos das empresas deles e de alguma forma acho que eles são apaixonados pelo projeto, pois a gente faz eles passarem por sofrimentos tanto com mudanças e até com algumas loucuras que se eles ainda estão por aqui, acho que é por que se interessam para valer.

FSaes: Nas entrevistas que fiz com os engenheiros do consór- cio e da gerenciadora percebo o interesse e o “gostar” da obra. As- sim com os empresários das empresas executoras há um consenso no sentido de gostar do tamanho do desafio. Este empreendimento é uma referência em termos mundiais.

NC: Ela reúne coisas que acaba por torná-la única e exclusiva, pelo tamanho, pelos desafios técnicos e pelo mix de usos.

FSaes: Uma coisa que me chamou a atenção foi a mudança de usos... uma fala do Júlio Katinsky...de hospital para usos diversos...

NC: Sim pelos novos usos que são diferenciados.

FSaes: A obra da Capela do restauro começou. E o Retail? NC: Sim a obra do restauro da Capela começou e no Retail co- meçou o Bloco L, que é o coração do empreendimento todo e metade dele atende o Retail, parte de uso de funcionários quatro andares de lojas e restaurantes, depois tem o Bloco E que é o mais ambicioso dos cinco blocos a restaurar que está na frente do hotel. Já começou há um mês mas não é muito visível por estar sendo executadas as fun- dações (tubulões) nos porões. E Bloco E é um pouco o nosso labora- tório para o restauro do Retail como um todo, os reforços estruturais e tudo. O Bloco E tem o teatro com três subsolos. Nós estamos fazen- do um sistema bem legal. Para o Retail como um todo pensamos em duas opções. Uma opção seria travar a fachada por fora com escora- mento externo, esvaziar os prédios, tirar cobertura, laje e paredes e entrar com equipamentos mais pesados e fazer nossas contenções e depois escavar. Isso é custoso e é um pouco demorado, apresenta suas vantagens mas esta opção está na mesa ainda em estudos para os blocos A, B, C e D nem tudo também. O Bloco E não foi excluído desta opção, mas ele apresenta em uma face o buraco do estaciona- mento que não cabe o escoramento e também o escoramento atrasa o restauro da fachada. Na frente do hotel não cabia fazer assim que iria atrasar o trecho a inaugurar.

Então no Bloco E a gente decidiu manter a laje do nível superior que apresenta trechos que vamos aproveitar, tem trecho que vamos reforçar e tem trechos que apresenta tijolos nas lajes (farofa) e neste caso podemos fazer caixões perdidos e reforçando ou demolir par- tes e combinar com escoramentos. O risco está nas fachadas, deixar dois andares de fachadas soltas e escavar ao lado é um risco grande. O escoramento externo tem outros problemas relativos ao restauro, porque tinha a opção de fazer dois mil furos em uma fachada para fixar os escoramentos e tem outra opção com sanduíches passando pelas janelas, e então isto ainda está em estudo na mesa.

FSaes: Noe, quanto às imagens, a apresentação do projeto para Vc fornecer, seria interessante a mais atual. E nada melhor que Vc o arquiteto cliente principal do empreendimento para indicar e fornecer as imagens para o Projeto Obra Prima.

Sei que Vc tem várias apresentações, portanto com calma Vc seleciona o que Vc considera o melhor para ilustrar o livro. Fun- damental!!!

NC: Vou ver com calma e enviar para Vc o melhor. Nós temos muito conteúdo e eu vou enviar para Vc.

Tem a colaboração também do Hubert de Malherbe que é um designer de marcas de luxo, especialista em shopping, ele trabalhou muito para a Chanel e para o Carrefour. Ele tem essa visão tanto do alto luxo como o do centro comercial e seus fluxos e público, ele tem esses dois lados. E tem o Roger Vivier nosso parceiro no, a Farfetch que vende roupa de luxo na internet das grandes marcas, que é o maior ator mundial de vendas de luxo pela internet. Eles tem equipes infinitas de engenheiros de informática, de aplicações e eles que são nosso parceiro de tecnologia embarcada no shopping. Depois temos o Stark e toda a parte dos artistas e o pessoal da gastronomia também. Tem os dois curadores de arte o Marc Pottier (Hotel) e o Marcello Dantas (Retail) muito interessante Vc conhecer o trabalho deles.

Nós temos cinco pilares de atuação que são: patrimônio, cultu- ra, a arte, a qualidade e o verde (a vegetação).

A parte da qualidade é a nossa parceria com a ADF (Atelier de France) é o que a gente fez aqui no Show Room, para desafiar todos aqui no Brasil para identificar os materiais e os talentos aqui no Brasil.

Estes pilares não se discutem e muito menos a questão da qua- lidade, tem que ter em todo o lugar.

O Alex Allard, com o Philippe Stark e o Jean Nouvel eles sabem o que é possível fazer na França, na Inglaterra, na Europa, com tempo dinheiro e bons profissionais. Aí é que eles querem fazer as mesmas coisas aqui, sem importar os materiais, o mármore e a madeira e os artesãos.

Daí que vem a parceria com a ADF. O Atelier de France é um conjunto de empresas, onde ela é a casa mãe, e tem empresas es- pecializadas internamente em pedra, outra em madeira, outra em serralheria, uma espelho e vidros. Eles atendem o mundo inteiro e nós os convencemos a criar uma filial aqui no Brasil, eles estavam ausentes da América Latina. Temos um contrato de exclusividade com eles aqui no Matarazzo e depois eles terão liberdade para atuar aqui no Brasil, tendo o Matarazzo como uma bela vitrine.

Hoje temos uma equipe da ADF com dois diretores france- ses, dois diretores italianos e mais dois diretores franco-brasileiros cada um em sua especialidade. Estes profissionais voaram o Brasil inteiro com a missão de identificar os materiais e equipamentos adequados para a execução dos trabalhos que necessitamos aqui. Desde o fornecedor de pedras que estava fechada há 15 anos e en- tão reabrimos a jazida, importamos as máquinas necessárias para atender a obra aqui.

A ADF tem um diferencial com escalas de projetos bem de- finidas e muito detalhadas para garantir a perfeita execução dos trabalhos. O objetivo é ter um controle total dos processos e o que percebemos é que a própria ADF aprendeu muito aqui com os pro- fissionais locais.

O paisagismo ficará para uma próxima reunião e área externa com o surgimento do túnel e seu urbanismo específico.

PROJETO OBRA PRIMA -

TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO