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Em 1819, esta chácara pertencia a Antônio Bexiga, dono da hospedaria que abrigava os tropeiros no início da Rua Santo Amaro e que tinha as marcas da varíola em seu rosto, daí a alcunha. Esta chácara passou a ser propriedade de Thomaz Luís Álvares (também conhecido como Tomás Cruz), que em 1878 vendeu-a para Antônio José Leite Braga. Com o falecimento de Antônio Braga, sua viúva casou-se em 1881 com o engenheiro Fernando de Albuquerque, que fez seu parcelamento com lotes estreitos e compridos, facili- tando a produção de habitações coletivas e de uso misto, voltadas a atividades de sobrevivência de seus moradores. (CASTRO, 2008; VERCELLI, 2018).

É nesta condição de adensamento, com o afluxo de ex-escra- vos após a Abolição e imigrantes italianos aportando na cidade em busca de trabalho, que este quinhão de terra acidentada se tornou atrativo para estas camadas pobres em busca de moradia e tam- bém da sobrevivência. A presença dos córregos Saracura e Bexiga, com as frequentes inundações e a insalubridade em épocas de chu- vas, acabou por determinar uma sensível desvalorização das áreas que eram fator de atração das camadas de menor poder aquisitivo. (VERCELLI, 2018).

As condições precárias de ocupação junto ao córrego do Sara- cura somente tiveram solução em 1930, com a abertura da Avenida

Bairro do Bexiga

Nove de Julho. Nas proximidades da Rua Treze de Maio, distante das áreas inundáveis, a ocupação se deu por camadas médias da população, principalmente imigrantes italianos e seus descenden- tes. Já no alto, as áreas mais planas e regulares próximas da Avenida Brigadeiro Luís Antônio foram as preferidas pelas camadas médias e mais altas da população. Tais fatores condicionaram o perfil dos moradores e dos empreendimentos ali implantados. (SCHNECK, 2010, apud. VERCELLI, 2018).

Diferentemente de outros bairros que se instalaram nas pro- ximidades das estradas de ferro, propiciando a proliferação de in- dústrias e a criação de vilas operárias, como no caso do Brás, da Mooca e da Barra Funda, o Bexiga veio a se transformar em um bairro de comércio mais simples de abastecimento alimentar e à prestação de serviços menos especializados, revelando a coexis- tência entre trabalho e moradia.

Havia a necessidade de composição da renda familiar em oca- siões de dificuldades cíclicas como a crise financeira da Primeira República, de 1897 a 1900, que atingiu a produção fabril, com fe- chamento de postos de trabalho nas tecelagens, ou a sazonalida- de de alguns ramos, como o de bebidas, ou quando do excesso de produção da indústria têxtil no início do século XX, que acarretou desemprego em massa.

Desta maneira, Rolnik (1997) afirma:

[...] com salários baixos e com a busca de reposição de ren- da, funcionavam, nos fundos de quintal, na estalagem, em algum cômodo da casa do proprietário, uma vidraçaria, um ateliê de pintura ou costura, uma alfaiataria, marcenarias, ourivesarias, sapatarias, oficinas de confecção de luvas e de chapéus, ou de artesãos de couro para selarias e montarias, arreios e laços.” (ROLNIK, 1997, p. 79).

ruas do Bexiga, conforme Scheneck (2016):

[...] em número de 80, na Série Obras Particulares, entre 1906 e 1923, destinadas a estacionamento, compreendendo carroças e animais dedicados à distribuição de alimentos oferecidos em quitandas e armazéns do próprio Bexiga e que certamente atendiam aos bairros limítrofes.” (SCHNE- CK, 2016, p.291).

No Bexiga também se instalaram famílias abastadas em bons sobrados nos terrenos maiores e mais altos, inclusive identifican-

Campos Elíseos e de Higienópolis, conforme croquis abaixo: No croquis delineiam-se as ruas que formaram a área ocu- pada pelo bairro. As nomenclaturas mudaram, mas o traçado se mantém praticamente inalterado. Fonte: (Arquivo Aguirra/Acervo do Museu Paulista, Universidade de São Paulo, Apud. SCHNECK, 2016, 56).

Em 1910, de acordo com SCHNECK (2016) “[...] através da Lei nº 1242, a grande área que envolvia o loteamento original do Bexiga passa a ser denominada Bela Vista.” (SCHNECK, 2016, p.49).

Como nos informa Lanna (2011), o Bexiga:

[...]trata-se, portanto da constituição de um bairro que abri- ga uma multiplicidade de situações de moradia envolvendo diversos grupos sociais, com forte predominância de habi- tações coletivas. Vale destacar que habitação coletiva não significa exclusivamente, pelo menos no início do século XX, pobreza e precariedade. Parece-nos que o padrão pre- dominante de moradia em São Paulo, mesmo entre a elite, não incluía , até os anos 1900, a habitação unifamiliar. A partir de 1890, a presença de italianos, imigrantes para o trabalho, se fará marcante no ex-loteamento consolidando um bairro de lotes com frentes estreitas e fundos alonga- dos. Esta forma será largamente favorável à consolidação de edificações de uso misto e formas coletivas de morar. As fontes pesquisadas indicam que a presença de italia- nos como proprietários, no bairro, é majoritária a partir de 1905. Os dados levantados permitem reconhecer a pre- sença predominante de grupos oriundos da Calábria, en- tendida aqui como a região do sul da Itália composta por Campania, Basilicata e Calábria. São encontrados também alguns imigrantes vindos da Puglia e da Sic lia. (LANNA, 2011, p.123).

Imagem 27. Planta dos Terrenos no Bexiga. Fernando de Albuquerque, 1890. Museu Paulista USP (Apud SCHNECK, 2016, p.56).

Imagem 28 (esq.). Abertura da avenida Nove de Julho. No centro, a Praça Pedro de Toledo (atual 14 Bis), 1937. Foto sem autoria conhecida. Fonte: sampahistorica.wordpress.com

Imagem 29 (dir.). Entregador de bebidas. Fotografia: Hildegard Rosenthal, c. 1940. Fonte: Acervo do Instituto Moreira Salles.

Imagem 30 (esq.). Região da atual praça 14 Bis. Autor: Vicenzo Pastore, c. 1910. Fonte: Acervo do Instituto Moreira Salles. Imagem 31 (dir.). Planta Geral da Cidade de São Paulo. Divisão Cadastral da 2ª Secção da Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura Municipal (edição provisória), 1916. Fonte: Acervo Histórico Demográfico do Município de São Paulo. Nesta planta a distinção entre distrito e bairro pode ser interpretada pelo destaque dado a cada um: o distrito Bella Vista grafado em letras maiúsculas, e logo acima, o bairro Bexiga grafado em letras minúsculas. (Apud SCHNECK, 2016, p.71). No círculo, a localização do Ospedale Umberto Primo.