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A partir de depoimentos com profissionais envolvidos com as questões do projeto de arquitetura e do projeto de restauro, passa- mos a ilustrar as respectivas considerações como se segue no texto a seguir. A íntegra dos respectivos depoimentos encontra-se no Anexo C do presente trabalho.

Primeiramente apresentamos o relato do arquiteto Noe Ce- melli, gerente de Arquitetura da Boulevard Matarazzo Empreen- dimentos sobre a concepção do projeto.

Noe Cemelli:

O processo de concepção e desenvolvimento do empreendi- mento começa a tomar forma a partir das ideias de Alexandre Allard. Desde a aquisição da propriedade ele já vislumbrava a criação de um hotel, um shopping de alto padrão e espaços culturais com a participação de Jean Nouvel e de Philippe Stark que estavam contratados. Nesta concepção estava a experiência de Alex com o projeto de restauro do Hotel Royal Monceau (reinaugurado no verão europeu de 2010) em Pa- ris, que contava em seu cerne com o trinômio cultura, alto luxo e patrimônio, com a participação de Philippe Stark.

No final de 2009, Alex Allard estava em busca de novos pro- jetos para investir em São Paulo e acabou se deparando com a área do hospital próximo da Avenida Paulista, a qual foi adquirida, finalmente, em 2011. A compra do imóvel envol- veu um determinado risco, pois a Previ não tinha alvará de execução, existindo somente um projeto legal antigo que se encontrava suspenso. A partir daí houve a obtenção de dois documentos fundamentais ou seja, um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) e um projeto legal modificativo de 1996 elaborado a partir do projeto inicial do arquiteto Júlio Neves. Com esses documentos nas mãos, Alex Allard empreendeu uma busca por investidores, cujo esforço foi recompensado com a identificação de um investidor chinês de Hong Kong denominada CTF (holding Chow Tai Fook Enterprises Limi- ted), que detém a bandeira hoteleira Rosewood, ou seja Alex Allard acertou duas vezes, e isso se deu no começo de 2014. Antes disso houve uma série de tratativas com o Banco do Brasil (CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil), quando ocorreu um planejamento conjunto de um grande centro cultural, primeiro com o escritório de Edo Rocha e depois com o escritório Konigsberg & Vannucci, com um progra- ma bem ambicioso que demandava uma sala de ópera para 2.500 pessoas que atingiria seis subsolos, dois cinemas, um teatro italiano para 400 pessoas, um teatro black box para 200 pessoas, um auditório para 250 pessoas, e três salas de exposições contando cada uma com 1.000m². A ópera era de nível mundial com todos os seus requisitos de palco, tamanho, abertura de boca de cena. Nós fomos muito longe e houve um gasto em projetos e tempo.

E depois o Banco do Brasil saiu do empreendimento, acre- dito por determinação de novos investimentos pela sede em Brasília e devido a mudança na Diretoria deles, nova orientação dos orçamentos, enfim não sabemos até hoje todas as razões e nós acreditamos também que eles não es- tavam prontos para operar um Centro Cultural deste tama- nho. CCBB no Centro da cidade hoje tem perto de 400 m²

e o novo tinha mais de 4.000 m². Nós na época estávamos cobrando deles a definição de um curador para iniciar as programações futuras pois estamos adiantados nos proje- tos. De um dia para o outro tivemos que colocar os projetos do Centro Cultural na gaveta e as datas coincidem mais ou menos com a entrada do operador Rosewood.

Na época, o Centro Cultural teve o projeto de Philippe Stark e já tinha a Torre de Jean Nouvel e os usos da Torre eram um pouco diferentes, contando com um uso misto e antes ti- nha quartos, um pouco de residências e escritórios. Hoje só temos quartos e residencial. Na época os preços de escritó- rios estavam caindo e o preço do residencial estava subindo, aí o projeto sofreu uma adaptação com a entrada do novo operador e ao mercado. Philippe Stark teve seu escopo de atuação modificado, deixando de cuidar do Centro Cultural e mudando para uma maior atuação no hotel. E também ao longo do tempo o quesito técnico começou a ser melhor equacionado, na medida em que nós íamos conhecendo os prédios e entendendo como eles funcionavam e o que era possível fazer.

O bonito daqui é que foi tudo natural. Nós temos os técni- cos do Condephaat e do Conpresp que nos acompanham e fiscalizam, mas sendo muito abertos para a gente viabilizar nosso projeto. O fato de ser tudo transparente, sem ter de esconder nada, de inventar, de mudar, nos ajuda muito a trabalhar. Até hoje a relação que a gente tem com eles – eles vêm uma vez por mês – eles estão a par de tudo, não é uma coisa congelada. Até hoje a gente descobre que precisamos abrir uma porta onde está uma janela e aí é possível resolver em reuniões com atas oficiais onde se resolve o caso, se está fora da alçada deles vai para a reunião do Conselho.

Aqui no empreendimento nós temos cinco pilares de atua- ção que são: o patrimônio, a cultura, a arte, a qualidade e o verde (a vegetação). (CEMELI, 2019).

RESTAURO

No presente momento elencamos parcialmente a fala do ar- quiteto Roberto Toffoli Simoens Silva, responsável pelo projeto de restauro:

O que nós pensamos primeiramente era definir uma linha, uma certa filosofia de trabalho, que reconhece a importân- cia do conjunto, usando a Resolução de Tombamento como norte que vai dar subsídio inclusive para um Plano Diretor do Empreendimento. O primeiro projeto que nós aprova- mos foi um Projeto de Prefeitura que serviu como base de um Plano Diretor. Aquele projeto traduzia a Resolução de Tombamento de maneira muito efetiva. Pouco tempo de- pois desenvolvemos um Projeto de Restauro, tem um proje- to técnico que envolve as intervenções propriamente ditas, quer dizer, naquilo que estava protegido pela Resolução de Tombamento, que no caso era cobertura, fachadas, janelas... então nós definimos uma forma de tratar esses elementos. Tem muitos projetos que se sobrepõem e uma questão que a gente teve que ficar atento a uma certa linha de atuação coerente e que dialoguem, projetos de arquitetura, restauro, projetos de instalações, etc...

O Projeto de Prefeitura não foi tratado como um Master

Plan. Não era tanto nesse sentindo... havia uma questão de

construir os conceitos na medida em que se ia trabalhando os conceitos iam aos poucos sendo elaborados e amadureci- dos...e os conceitos iam sendo alterados, modificados. Tanto que em 2017 nós fizemos uma revisão do Projeto Modifica- tivo de Restauro que seguia a mesma filosofia de trabalho mas que adaptava às questões ligadas à segurança e salu- bridade, e aí a gente foi descobrindo o que tinha e o que não tinha nos prédios. Entre 2011 e 2015 foram feitas inúmeras prospecções, inúmeros trabalhos de reconhecimento dos edifícios, informações essas que foram contribuindo às re- visões do projeto.

Tenho que destacar que Grupo Allard primou por uma ex- celência técnica em todas as suas frentes. Nada foi feito mais ou menos. Os profissionais que estão envolvidos no empreendimento são o que existe de melhor da engenha- ria, da arquitetura, das técnicas em geral, gente de mais alto calibre. Todos os procedimentos que foram adotados primaram pelos cuidados com os prédios. Hoje nós temos um nível de conhecimento das edificações, um registro do sítio com grande acuidade.

Bom, voltando aqui no caso da obra, em 2017 nós fizemos essa nova aprovação e nós iniciamos um processo de libe- ração das obras de restauro. Nós estamos sempre muito vinculados a um plano geral de trabalho. Não é o restauro que define o cronograma geral e sim o contrário. Então nós iniciamos em 2018 o restauro da Maternidade, que está sen- do transformada em um hotel. Hoje é o grande trabalho de restauro que está em curso, um trabalho extremamente in- teressante e que está sendo muito bem feito com muito boas equipes de preservação, mas é claro que existem interferên- cias de diversas naturezas e dificuldades de obras.

Os órgãos de preservação acompanham e registram com regularidade mensal o andamento dos trabalhos e uma das minhas atribuições é apresentar o projeto, mostrar a evo- lução dos trabalhos e principalmente mostrar as adapta- ções necessárias daquilo que está projetado e aprovado para aquilo que está acontecendo efetivamente.

Esse projeto, essa história desse projeto é uma história de inovações. Desde o início, desde a aquisição, da primeira proposta, das primeiras premissas, da formação de um gru- po multiprofissional de excelência, tudo foi sendo constru- ído passo a passo e todos nós sabíamos que não existia uma referência no Brasil, existem referências internacionais, mas aqui no país um negócio dessa complexidade desse ta- manho, nós desconhecemos. Todos os passos que foram da- dos foram acontecendo com um certo ônus do pioneirismo.

O Hospital Matarazzo, assim como outras instituições de saúde construídas na época, eles assumiram um certo cará- ter republicano, secular, de universalização do atendimen- to médico. Enquanto a Santa Casa, na época, estava voltada a uma certa comunidade por se tratar de uma instituição de caráter confessional.

Essa carga histórica é a mais importante do Hospital Mata- razzo, pelo fato de Você ter ali um equipamento que foi se consolidando na medida em que o próprio atendimento e as pesquisas biomédicas se desenvolveram em São Paulo. E mesmo alguns edifícios que são mais trabalhados aqui, eles são simulacros de uma arquitetura florentina do século XVIII, simulacro tudo feito no século XX, o primeiro bloco é de 1904, tem bloco de 1915, o outro de 1918, 1925, 1935...Você tem uma sequência de edifícios que vão sendo construídos na medida em que essas atividades vão acontecendo e que vão seguindo uma arquitetura ligada a uma comunidade que está financiando aquilo. E como Você disse, era uma casa de mútuo e a gente chama de Hospital Matarazzo, mas nunca foi do Matarazzo propriamente, sendo ele uma lide- rança empresarial da época.

Esse reuso do conjunto consolida um sentido secular: hotel, loja, galeria, restaurante, cinema, teatro, restaurante, escri- tório e ele está sendo incorporado em uma lógica absoluta- mente urbana desvinculada de uma visão provinciana lá de trás e é esse um ponto importante, sendo os usos correntes. É óbvio que o tratamento que está sendo dado não tem nada de corrente, seja a qualidade do projeto, os investimentos re- alizados, os profissionais envolvidos, a qualidade das obras tudo isso está entrando em outro patamar que foi definido a partir de uma visão empresarial, que é uma estratégia em- presarial que foi adotada para viabilizar esse empreendi- mento.

O Estúdio Sarasá fez um estudo de patologias, executou um trabalho muito grande mas era de reconhecimento visual, mas nada de nuvem de pontos. Montaram uns andaimes para verificar argamassa solta, identificando o som cavo... Existem alguns trabalhos que são corriqueiros. O que que é o restauro basicamente daquele conjunto.

Primeiro passo é a recuperação da estrutura, qual seja Você tem que garantir a estanqueidade do conjunto para deter o processo de deterioração. Isso vale para qualquer obra. Segundo passo é recuperar a argamassa. Isso envolve a aná- lise granulométrica das argamassas, quando são feitos os testes físico-químicos que no final permitem Você ter os traços das argamassas.

Terceiro passo é o restauro dos caixilhos. Há ainda a cober- tura e o sistema de captação de água, e a impermeabiliza- ção quando nós fizemos algumas sugestões e técnicas em um projeto geral conduzido por empresa especialista. Os laboratórios que nós trabalhamos foram: o IPT e o Falcão Bauer, que são laboratórios com boa reputação e os resulta- dos foram satisfatórios.

No caso da Cidade Matarazzo, em particular, tendo em men- te muitos edifícios construídos em períodos distintos com traços distintos, então discutimos com os órgãos de preser- vação o seguinte: vamos adotar uma estratégia que onde nós faremos um trabalho de recuperação da argamassa original, onde entrarmos então com argamassa utilizando um traço médio, para homogeneizar como um todo. Não vamos tirar tudo e recompor tudo com esse novo traço, mesmo porque boa parte da argamassa existente é consolidada. Mas onde houver a intervenção e a gente mostra onde houve a inter- venção contemporânea, nós trabalharemos com um traço

intermediário, inclusive porque esse tipo de traço ele aco- moda as próprias tensões do material. Então Você trabalha com um traço que não é tão rígido ou tão flexível, e ele tende a se acomodar, não apresentando fissuramento e ele vai se adaptar ao funcionamento do edifício. Essa então foi uma linha definida.

Quanto às cores, nós fizemos um levantamento cromático conduzido pelo Estúdio Sarasá e que foi inconclusivo. E o que foi constatado é que não houve a indicação de uma cor definitiva e apresentou então uma palheta de cores, pois lá pelos anos 40 os prédios foram pintados integralmente com a mesma cor para dar um sentido de homogeneidade. Então nós combinamos com os órgãos de preservação que as intervenções nós trabalharíamos prédio a prédio, a partir de uma palheta de cores conhecida e que nós discutiríamos essa palheta no momento adequado.

A velatura permite que as nuances da argamassa fiquem aparentes e aí tinha gente que falava que estava manchado, a rugosidade está diferente, mas sem problema porque o prédio era assim e o que estamos fazendo aqui não é cons- truir um prédio novo. Então esse tipo de trabalho desmisti- fica um pouco essa necessidade de que tudo tem que ficar perfeito, pois o prédio nunca foi certinho e bonitinho. A gente precisa recuperar as características originais mais importantes.

Depois em termos de janelas, todas elas foram removidas e foram para uma oficina onde elas foram decapadas, trata- das contra insetos e cupins, e estamos em fase de instalação. Quanto aos trabalhos na cobertura, nós utilizamos o ma- deiramento estrutural existente, caibros, ripas, etc. e essas madeiras aguentam o tranco e apresentam deterioração nos engastes de paredes em função da captação de água de chuva.

Na Maternidade a estrutura do telhado estava muito boa, com numeração em suas tesouras.

Existe uma orientação geral para tratar os trabalhos de res- tauro e óbvio que existem peculiaridades para cada edifí- cio. Mas o trabalho de restauro, com exceção da Capela que tem revestimentos internos que temos que recuperar, o trabalho externo é tratar as coberturas, fazer as interven- ções necessárias para estancar o processo de deterioração, depois argamassa e finalmente a caixilharia. Este é o tra- balho básico.

Nós temos muitos problemas em relação à Europa, que do ponto de vista físico existem duas questões que são muito complicadas, quais sejam: primeiro, o nosso clima é muito agressivo, países tropicais com grande incidência de chuvas e umidade; e a outra é a materialidade dos nossos elementos construtivos. O prédio é de barro, é de tijolo, então nós não conseguimos fazer uma série de procedimentos que são comuns na Europa, por exemplo a anastilose, que simples- mente é desmontar e remontar. Por exemplo, se Você chega no Museu Britânico tem um templo da expansão grego para a Turquia, então Você tem uma série de elementos que são

montados e desmontados. Se Você chegar na Grécia, boa parte que Você encontra nos sítios arqueológicos são có- pias fidedignas e os originais estão em museus, ou seja, eles tiram um pedaço de coluna, um capitel coloca no mu- seu e faz uma cópia no lugar.

Se Você considerar a natureza do nosso patrimônio, tijolo e taipa de pilão por exemplo, Você não consegue fazer essa desmontagem.

Houve um tempo que todo mundo (a parte inteligente do empreendimento) que fizesse parte do empreendimen- to, demorou um pouco para perceber essa questão do pa- trimônio, não como um estorvo, mas ser compreendida como uma parte estruturadora do projeto. E é curioso, pois do ponto de vista do tamanho de obra, o restauro é muito pequeno, porém ele se constitui em um caminho crítico, ou seja o empreendimento foi liberado porque houve um compromisso do Grupo Allard com o Ministério Público, com a sociedade civil e com os órgãos de preservação em fazer um restauro como deve ser feito e isso tem sido uma postura espetacular do Grupo Allard. (SILVA, 2019).