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As ciências (ditas) humanas e seus regimes de verdade

CAPÍTULO 2: A EDUCAÇÃO NA “ÓTICA” FOUCAULTIANA

2.3. As ciências (ditas) humanas e seus regimes de verdade

A sociedade disciplinar, com seus agenciamentos sobre o corpo e os comportamentos, faz do indivíduo um produto do poder e um objeto de saber, com o objetivo de avaliar e hierarquizar seus gestos e dizeres. As tecnologias de si abrem espaço para o desenvolvimento das chamadas ciências humanas, domínios de saber que se fundaram em meio a práticas políticas disciplinares. Assim sendo, essas ciências apontam para as relações de poder que as constituem, reafirmando que qualquer tipo de saber é político.

As ciências humanas, enquanto parte do discurso científico, produzem verdades que são difundidas e consumidas pelos aparelhos de educação e de informação. Essas verdades são transmitidas e controladas por instituições autorizadas, como a universidade e os meios de comunicação, produzidas por sistemas de saber e produtoras de efeitos de poder (FOUCAULT, 1979 [1982, p. 13-14]). Essa produção das ciências é nomeada, por Foucault, como regime de verdade:

os tipos de discurso que ela [a sociedade] acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro (FOUCAULT, 1979 [1982, p. 12]).

Podemos pensar que a pedagogia formula princípios e teorias carregados de “regimes de verdade” sobre o professor, o aluno e as relações que cercam a sala de aula. Ao tentar falar do singular, a pedagogia adota, de acordo com Silva (1994, p. 257), explicações universalizantes para o processo de ensino-aprendizagem, desconsiderando, como as psicologias desenvolvimentistas, o caráter contextual, relacional e histórico que envolve cada sujeito do discurso, cada sujeito falante e desejante.

O discurso que poderíamos nomear de psicopedagógico, estando à frente do controle de saberes e de sujeitos, fundamenta-se, predominantemente, na epistemologia genética piagetiana, priorizando o desenvolvimento cognitivo e suas concepções de criança

e de aluno. Quanto aos estudos piagetianos, Varela (1994, p. 94) afirma que, ao estabelecer uma sequência de etapas de desenvolvimento com as respectivas capacidades cognitivas do indivíduo em cada uma delas, esses estágios se estruturam, principalmente, em função de um processo de maturação que se pretende universal.

As práticas pedagógicas chamadas “modernas” e seus “princípios psicológicos do desenvolvimento” são constituídos de afirmações tidas sempre como verdadeiras, porque legitimadas cientificamente (WALKERDINE, 1998, p. 146). O processo de legitimação e “multiplicação” das práticas pedagógicas se dá de forma a limitar professores e profissionais em interface com a área da educação, dificultando a problematização dos artefatos teóricos e técnicos da psicologia e da pedagogia, tornando-os parte, tacitamente, dos pressupostos sobre as crianças e sobre suas condições de aprendizagem.

Pensamos que a pedagogia não se constitui como um espaço neutro, promotor do desenvolvimento das crianças e da mediação do professor no processo de ensino- aprendizagem, visto que esse campo da ciência se caracteriza, segundo Gore (1994, p. 15), como “uma arena de luta”, lugar de poder e resistência, permeado pelas tensões constitutivas das relações interpessoais. Ainda que os especialistas em educação desconsiderem o conflito, constitutivo da/na sala de aula, e trabalhem nas propostas de soluções hegemônicas e homogeneizantes para o âmbito pedagógico, é preciso considerar a sala de aula como parte da sociedade disciplinar, como campo das relações de poder-saber.

A disciplina, espaço no qual emergiram as ciências humanas, é um tipo de poder que contempla instrumentos, técnicas e procedimentos a serem aplicados em um alvo determinado. É uma tecnologia na qual “o indivíduo é fabricado, segundo uma tática de forças e dos corpos” (FOUCAULT, 1975 [1986, p. 190]). Partindo desses sistemas tecnológicos, vários saberes se consolidaram: a medicina, a psiquiatria, a psicologia, a psicopedagogia. Todos eles, enquanto falam sobre o indivíduo, produzem sobre ele enunciados legitimados cientificamente, que o submetem a uma posição de objeto, sobre o qual se exerce um tipo de poder anônimo e funcional.

Desde então, entendemos e analisamos os modos de subjetivação como fundamentados em mecanismos “científico-disciplinares” em que a definição e a medida da normalidade transformam o indivíduo em um ser “calculável”. Essa é a herança deixada pelo advento das “ciências dos homens”, que implantaram outra tecnologia de poder e outra política do corpo, o que nos leva a compreender que toda vez que convocamos um outro

tipo de poder, como alerta Foucault (1975 [1986, p. 198]), trazemos, junto com ele, um outro tipo de saber.

A psicologia, com suas técnicas e sistemas de julgamentos, atua como um corpo de discursos e práticas sobre os agenciamentos da subjetivação na contemporaneidade, gerando moldes baseados na “imagem do eu normal” para “reformar os eus” (ROSE, 2001, p. 146-186), imagens estas que também aparecem nas salas de aula, através da interface com a pedagogia. Além disso, as práticas pedagógicas, influenciadas pelas disciplinas advindas da psicologia, trazem técnicas de memória – “máquinas de lembrar” – para o seu cotidiano, criando um passado amplamente fundamentado no imaginário e (re)criando subjetividades ilusoriamente lineares.

Não podemos deixar de mencionar o exame (técnica principal do sistema disciplinar, na perspectiva foucaultiana) e seu papel junto às ciências humanas, através dos testes, entrevistas e consultas aplicados como mecanismos da disciplina, como métodos avaliativos autorizados e autorizadores de ações que nomeiam e normalizam o sujeito. No âmbito escolar, a ciência psicológica ganha esse lugar legitimado de diagnosticar “diferenças” e “desvios”, pois, nas palavras de Foucault (1975 [1986, p. 198]), disciplinas como a psicologia “mandam os indivíduos de uma instância disciplinar a outra [das escolas para os consultórios] e reproduzem, de uma forma concentrada, ou formalizada, o esquema de poder-saber próprio a toda disciplina”.

A sociedade disciplinar implanta suas técnicas de controle para vigiar, hierarquizar e sancionar o sujeito e, para tanto, utiliza-se das ciências humanas, de seus técnicos e peritos. Suas técnicas avaliativas são recursos legitimados cientificamente, artefatos apropriados para enquadrar o indivíduo ao grupo em que convive e para adaptá-lo à realidade escolar, profissional, relacional, sempre de acordo com as normas previamente estipuladas por instituições de saber e, portanto, de poder. Cada exame produz classificações e verdades sobre a população educacional, não só favorecendo seu agenciamento e sua gestão, mas também controlando seus corpos e seus dizeres ao longo de sua existência e em meio às suas relações cotidianas.