Gozo: de Freud a Lacan
2.2 O Gozo em Freud
2.2.1 As Contribuições de “Além do Princípio do Prazer” (1920)
“Além do Princípio do Prazer” (1920) é um texto de suma importância na obra
psicanalítica. É um texto que vai, pela primeira vez, apresentar o conceito de pulsão de morte e natureza pulsional da compulsão à repetição. Refere-se a este último como sendo um fenômeno que comparece nas experiências infantis e no trabalho de análise; atribuindo à mesma, conforme mencionado, a qualidade de pulsão. É, também, neste artigo que Freud vai diferenciar a pulsão de vida (Eros) da pulsão de morte, embora seja somente em 1923, em seu texto “O Eu e o Isso” que esta distinção fique melhor consolidada e argumentada.
Outros dois pontos importantes deste artigo de 1920 são: a proposta de uma nova configuração para o aparelho psíquico e a destrutividade como possibilidade e qualidade inerente a todo sujeito.
Ao longo do desenvolvimento de sua obra metapsicológica, Freud deixa claro o princípio do prazer como regulador dos processos psíquicos. Parte-se da idéia que a cada vez que há acúmulo de energia, a tensão no aparelho aumenta e, como reação, o aparelho busca diminuir essa retenção, evitando o desprazer e alcançar o prazer. Neste sentido, pode-se perceber a característica econômica que este sistema engendra.
O prazer e o desprazer estariam associados ao quantum de excitação presente no psiquismo, sendo o primeiro caracterizado pela diminuição e o segundo, pelo aumento de tensão no aparelho. Freud coloca que, muito provavelmente, a sensação prazerosa, ou não, deriva do nível, da magnitude, ou seja, de quanto esse nível aumentou ou diminuiu num dado período de tempo. O aparelho, dessa forma, se manteria numa tendência de reduzir a tensão ou deixá-la num nível constante.
(...) se o trabalho do aparelho psíquico visa a manter a quantidade de excitação em
nível baixo, então tudo aquilo que for suscetível de aumentá-la será necessariamente
sentido como adverso ao funcionamento do aparelho, isto é, como desprazeroso. O
princípio de prazer deriva do princípio de constância (...) (Freud, 1920, p. 136).
Contudo, Freud reconhece não há como afirmar a prevalência do princípio do prazer na vida psíquica, já que, a grande parte dos processos psíquicos não são intensamente prazerosos e nem mesmo nos conduz a ele. Em contrapartida, o que se percebe são experiências desprazerosas e com baixos níveis de satisfação. É importante conceber, assim, que há uma tendência significativa ao princípio do prazer na vida psíquica, mas que, ao mesmo tempo, há forças outras que fazem o movimento em sentido contrário, nem sempre sendo possível atingir a satisfação, o prazer.
É interessante ressaltar que o princípio do prazer segue um modo de funcionamento primitivo no aparelho psíquico denominado processo primário. Seria muito complicado supor que esse funcionamento estaria de acordo com as exigências da realidade. O que ocorre é que
(...) ante as dificuldades do mundo exterior, o princípio de prazer desde o início
revela-se ineficiente e um perigo para a necessidade de o organismo impor-se ao
ambiente. Assim, ao longo do desenvolvimento, as pulsões de autoconservação do
Eu acabam por conseguir que o princípio de prazer seja substituído pelo princípio
de realidade. Entretanto, o princípio de realidade não abandona o propósito de
obtenção final de prazer, mas exige e consegue impor ao prazer um longo desvio que
implica a postergação de uma satisfação imediata, bem como a renúncia às diversas
possibilidades de consegui-la, e a tolerância provisória ao desprazer. No entanto, o
princípio de prazer continua sendo ainda por muito tempo o modo de trabalhar
próprio das pulsões sexuais, as quais são mais dificilmente “educáveis”. Assim,
sempre volta a ocorrer que, a partir das pulsões sexuais ou a partir do próprio Eu, o
princípio de prazer consegue sobrepor-se ao princípio de realidade (...) (Freud,
1920, p. 137).
É bem verdade que não se pode atribuir a esta substituição (princípio do prazer pelo princípio da realidade) todas aquelas vivências desprazerosas e insatisfatórias. De acordo com Freud (1920), os próprios conflitos do Eu promovem a liberação do desprazer.
insuportável e que poderia ocasionar danos ao aparelho. Essa separação se daria pelo processo do recalque, mantendo em níveis inferiores esse material intolerável. A princípio, essas pulsões ficariam impossibilitadas de alcançar suas metas, ou seja, a satisfação.
Entretanto, caso consigam (...) pelejar até chegarem por desvios diversos a obter
uma satisfação direta ou ao menos uma satisfação substitutiva, esse resultado, que
normalmente teria sido uma possibilidade de sentir prazer, será sentido pelo Eu
como desprazer (...) Em conseqüência de um antigo conflito psíquico que acabou
por resultar em um recalque, o princípio de prazer volta a sofrer uma nova ruptura
quando certas pulsões, justamente na obediência a esse princípio, tentavam obter
novamente prazer (...) Não há dúvida de que todo prazer neurótico é dessa espécie:
um prazer que não pode ser sentido como tal (Freud, 1920, p. 138).
Neste artigo, Freud tenta elucidar como se dariam os fenômenos oníricos daqueles que sofrem de neurose traumática. Com muita freqüência, esses indivíduos sonham com o evento traumática, com o acidente para, logo em seguida, despertar assustado e, muitas vezes, angustiado.
Freud (1920) acrescenta que essa vivencia traumática, devido sua intensidade, sempre retorna ao sujeito, sendo em sua vida corriqueira ou em suas produções oníricas. Ele, segundo o autor, estaria fixado no trauma; o que pode, também, ocorrer na histeria. De acordo com ele, os histéricos sofrem de reminiscências (Freud, 1893).
Apesar desses fatos comparecerem em sua clínica, Freud se questiona como isso seria possível, tendo em vista sua noção-chave de que os sonhos seriam realizações de desejo
e que, em estado de vigília, esses indivíduos não despendem de seu tempo para retomar essas vivências traumáticas. O autor, numa tentativa explicativa, supõe tendências masoquistas inerentes ao Eu.
Em 1924, em seu texto “O Problema Econômico do Masoquismo”, Freud trará uma discussão significativa sobre o fenômeno do masoquismo. Em artigos anteriores tais como, “Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), “Pulsões e suas Vicissitudes”
(1915) e “Bate-se numa Criança” (1919), o masoquismo é tido como uma conseqüência de
um sadismo anterior; não se considera ainda a idéia de um masoquismo primário. Esta noção vai ser esboçada a partir do conceito de pulsão de morte debatido em seu artigo “Além do
Princípio do Prazer” (1920). É importante afirmar que se nesse momento anterior havia um
esqueleto desse masoquismo primário e, neste artigo de 1924, isso vai ser tomado como certo.
A idéia de um masoquismo inicial é fundamentada na “fusão” e “defusão” das duas classes de pulsão: pulsão de vida e pulsão de morte. Neste intuito, o autor demonstra que esse masoquismo erógeno conduz a duas possibilidades: uma delas pode ser chamada de “feminina” e uma outra que pode ser denominada de “masoquismo moral”.
No início do texto, Freud faz a proposta de que seja possível pensar o princípio do prazer não apenas como cuidador da vida psíquica, mas como cuidador da vida como um todo. É importante dizer que o aparelho psíquico guarda a função de reduzir a zero o quantum de excitação que a ele chega, ou, no mínimo, mantê-la num nível mais baixo possível. Essa tendência foi chamada de Princípio de Nirvana. Neste sentido, todo desprazer deveria coincidir com uma elevação da tensão e, por conseguinte, o prazer, como uma redução do quantum de excitação. Sendo, o Princípio de Nirvana estaria a serviço das pulsões de morte – seu objetivo seria passar de um estágio de instabilidade, inerente à vida, à estabilidade do
Nesse contexto, a função do princípio de Nirvana seria a de advertir contra as
reivindicações das pulsões de vida – isto é, da libido – que insistem em interferir no
intencionado curso da vida. No entanto, agora essa afirmação nos parece
necessariamente equivocada. Tudo indica que os aumentos e as diminuições das
magnitudes de estimulação são diretamente percebidos como uma seqüência de
sensações de tensão e obviamente há tensões que são sentidas como prazerosas, bem
como distensões percebidas como desprazerosas (...) Tivemos de nos dar conta de
que, no curso do desenvolvimento dos seres vivos, houve uma modificação que
transformou o princípio de Nirvana, associado à pulsão de morte, no princípio de
prazer. Portanto, a partir de agora não mais consideraremos o princípio de Nirvana
e o princípio de prazer como uma mesma coisa (Freud, 1924, p. 106).
Tem-se, neste sentido, que o princípio de Nirvana revela a tendência da pulsão de morte; o princípio de prazer representa a sua mudança em reivindicação libidinal e, por fim, o princípio de realidade, a influência externa. Eles, é bem verdade, não se destituem entre si; eles, pelo contrário, convivem juntamente, apesar dos conflitos, por vezes, serem inevitáveis, já que uma parte leva em consideração a redução quantitativa da excitação, outra parte, a qualidade da diminuição dessa carga e, uma terceira, um adiamento do escoamento das excitações acumuladas, exigindo uma aceitação temporária da tensão ocasionada pelo desprazer (Freud, 1924).
É importante afirmar que o masoquismo se apresenta de três maneiras: erógeno, feminino e moral. O masoquismo erógeno, ou seja, o prazer derivado da dor, embasa os outros dois tipos. O dito moral se manifesta por uma culpa, normalmente, inconsciente. A última forma é a mais fácil de ser observada. Trata-se de ser colocado, por exemplo, em uma
situação tipicamente feminina, isto é, ser castrado, objeto de coito ou dar à luz. E, é justamente, no momento de culpa no masoquismo feminino que deriva o masoquismo moral. É importante reafirmar que o masoquismo feminino é fundamentado pelo masoquismo primário.
A função de exercer a moralidade e a consciência moral está sob os encargos do supereu, instância herdeira do complexo de Édipo.
Ocorre que, ao longo do tempo, as pessoas que deixaram de ser objeto das moções
libidinosas do Id passaram a atuar no supereu como instância da consciência moral.
Contudo, elas pertencem ao mundo real externo do qual, aliás, foram extraídas.
Portanto, o poder dessas pessoas – atrás do qual se escondem todas as influencias
do passado e da tradição – foi outrora para a criança uma das manifestações da
realidade mais perceptíveis. Assim, é graças a essa coincidência que o supereu,
substituto do complexo de Édipo, pode também se tornar o representante do mundo
real externo e, portanto, um modelo a ser seguido pelos esforços do eu” (Freud,
1924, p. 112-113).
No final do artigo, Freud (1924) vai fazer uma afirmação fundamental que revela que mesmo no processo destrutivo há um quantum de satisfação pulsional e libidinal.
Depois das considerações sobre o masoquismo, voltemos às questões suscitadas no texto de 1920 – “Além do Princípio do Prazer”.
Freud, em suas observações acerca do brincar infantil, descreveu o fort-da como um jogo de desaparecimento e aparecimento.
A criança estava segurando um carretel de madeira enrolado com um cordão (...)
atirava o carretel amarrado no cordão com grande destreza para o alto, de modo
que caísse por cima da beirada de seu berço cortinado, onde o objeto desaparecia
de sua visão, ao mesmo tempo que pronunciava seu ‘o-o-o-o’ significativo; depois,
puxava o carretel pelo cordão de novo para fora da cama e saudava agora seu
aparecimento com um alegre ‘da’ (Freud, 1920, p. 141).
Freud interpretou esse joguete com a renúncia pulsional que a criança conseguiu alcançar – renúncia a satisfação pulsional, por permitir que o Outro se retirasse e, em seu lugar, pudesse brincar de fazer “aparecer e desaparecer”. É importante notar que o fort-da traz, em si mesmo, uma experiência que fora desprazerosa para criança – desaparecimento do Outro (‘fort’); apesar do brincar possibilitar o “retorno”, o aparecimento do Outro (‘da’). Freud nota que apenas um ganho de prazer poderia justificar essa brincadeira. Desta maneira, ao repetir a vivência desprazerosa no joguete, haveria um ganho prazeroso, uma satisfação que seria de outra ordem e, ao mesmo tempo, vinculado a esse modelo de repetição.
É relevante afirmar que a repetição, aqui, não está relacionada ao simples movimento de jogar e recolher o carretel, mas a um movimento que vai muito além disso. Trata-se da repetição do material recalcado e que o sujeito nem, ao menos, se dá conta. Pensa em algo que é atual, cotidiano e não como um evento passado e que estaria sendo recordado. Neste sentido, tem-se que, na clínica, a relação transferencial está permeada de vivências passadas de cunho sexual infantil, ou seja, na vivência edípica do sujeito, atualizada na relação que se estabelece com o analista. A compulsão à repetição seria, de acordo com o autor, algo muito arcaico, elementar, inicial, puro pulsional; estaria suplantando o princípio do prazer, ou seja, um mais além do princípio do prazer.
Neste sentido,
(...) surge a questão de como se estabelece a relação do princípio de prazer com a
compulsão à repetição, que é a manifestação da força do recalcado. É claro que
quase tudo que a compulsão à repetição consegue fazer o paciente reviver outra vez
causa muito desprazer ao Eu, pois nesse processo as atividades de moções
pulsionais recalcadas são expostas. Mas (...) trata-se de um desprazer que não
contradiz o princípio de prazer, pois é ao mesmo tempo desprazer para um sistema e
prazer para outro (Freud, 1920, p. 145).
Outro ponto importante é que a qualidade de conservação das pulsões induz a busca por um estado inorgânico primevo. Ao se pensar que tudo o que está vivo retorna, em algum momento, ao inorgânico – morte – é possível afirmar que : “o objetivo de toda vida é a morte (...) O inanimado já existia antes do vivo (...) Essas pulsões que preservam a vida na verdade foram originalmente serviçais da morte (Freud, 1920, p. 161 - 162).
De acordo com Roza (2004), o termo pulsão poderia ser permeado por dois campos: o do aparelho psíquico - que compreende o inconsciente, o pré-consciente e o consciente - e o para além do princípio do prazer - que seria o próprio local das pulsões. O primeiro setor corresponde ao campo da representação, ou melhor, o representante da representação. Trata- se do local da ordem e da lei, constituído pela rede significante e regida pelos dois princípios fundamentais: princípio de prazer e princípio de realidade. A pulsão encontra-se no segundo setor, acima da ordem e da lei, para-além da linguagem: lugar do acaso, do inesperado.
A pulsão traz consigo a marca da repetição. Ela é o que se repete. É importante dizer que não se trata de repetição do mesmo, mas sempre de uma produção, algo do acaso, que traz o novo, a criação e que implica em incitação de diferença (Roza, 2004). Neste sentido, o autor recusa a idéia da pulsão de morte como uma tendência à repetição. É possível encará-la como uma vontade de destruição, não implicando a agressividade – mesmo que esta possa ser um efeito da primeira. Deve-se entender que isso não implica uma noção de maldade ou crueldade.
A aceitação de uma destrutividade autônoma, não derivada da sexualidade ou não
ligada a ela, era de difícil aceitação por parte de Freud (...) O verdadeiro além do
princípio do prazer vamos encontrar (...) exposto em O Mal-estar na Cultura, sob a
afirmação da plena autonomia da pulsão de morte entendida como pulsão de
destruição (Roza, 2004, p. 133).
Tinha-se, no início freudiano, uma articulação da pulsão de morte com as pulsões sexuais. A noção de destrutividade sempre aparecia atrelada à sexualidade e não como destrutividade autônoma. A pulsão de morte, de acordo com a idéia concebida por Freud, era silenciosa e invisível. Em seu texto O Mal-estar da Cultura (1930[1929]), ele reconhece a agressividade e a destruição como fora do erótico, como não-sexual.
Essa onipresença da destrutividade custava Freud reconhecê-la. Ou melhor, não era
tanto a sua onipresença que provocava a resistência de Freud, mas, acima de tudo,
sua autonomia. Reconhecer uma pulsão destrutiva como algo totalmente
independente da sexualidade, era reconhecer a maldade fundamental e irredutível
do ser humano. Não se trata mais de uma sexualidade que, regida pelo princípio do
prazer, lança mão da agressividade para atingir seu objetivo, mas sim de uma
disposição pulsional autônoma, originária, do ser humano (Roza, 2004, p. 134).
Ainda segundo Roza (2004), a pulsão de morte seria, para Lacan, anti-natural, enquanto que anti-cultural, de acordo com a concepção freudiana. Isto não significa afirmar que seu alvo era a destruição da natureza ou da cultura, mas sim no sentido de questionar ambas, de recusar-se à insistência do mesmo, ou seja, de instigar tanto nas formas naturais como culturais a emergência de novas produções e criações. De acordo com as noções trazidas por Lacan, a pulsão deteria uma dimensão histórica. Em si mesma, a pulsão estaria na posição do a-histórico. Contudo, é fundamental pensar que a pulsão só é considerada como tal devido ao simbólico. Para que seja apreendida numa dada rememoração fundamental, é necessária a cadeia significante, na qual esta rememoração é viável. Ao ser capturada pela cadeia significante, a pulsão alcança sua dimensão histórica. É importante mencionar que aquilo que não é capturado mantém-se como potência dispersa, indeterminado e não- memorável.
Retomando a noção de pulsão de morte como vontade de destruição, Roza (2004) propõe uma nova terminologia: potência de destruição. Essa nova denominação afasta o equívoco no termo ‘vontade’, como também distancia a noção de ‘vontade’
a não-união, advinda do Eros. Por assim dizer, tem-se que a cultura marca a presença de Eros, enquanto uma tentativa de reunião de indivíduos, anulando-se as diferenças e constituindo uma totalidade que é a própria humanidade. A singularidade particular seria “reduzida” à humanidade totalizante.
Ora, se entendermos o desejo como pura diferença, o projeto de Eros seria o da
eliminação da diferença e, portanto, do desejo, numa indiferenciação final que é a
humanidade. A pulsão de morte, enquanto potência destrutiva (e princípio
disjuntivo) é o que impede a repetição do mesmo, isto é, a permanência de
totalidades, provocando pela disjunção a emergência de novas formas. Ela é,
portanto, criadora e não conservadora, posto que impõe novos começos ao invés de
reproduzir o ‘mesmo’. A verdadeira morte – a morte do desejo, da diferença –
sobrevém por efeito de Eros e não da pulsão de morte (Roza, 2004, p. 136-7).
Por fim, tem-se que não tendo objeto próprio, o objeto será ofertado pela fantasia; isto implica afirmar que a caracterização do sexual só é possível via articulação significante e a submissão pulsional. “Anteriormente a essa submissão, o sexual carece de significado. É em termos de significantes que o sexual vai se constituir como diferença. Não há pulsão sexual. A sexualidade constitui-se a partir da captura das pulsões pela rede significante” (Roza, 2004, p. 144).
É necessário fazer uma última consideração a respeito deste texto freudiano tão importante para que, assim, seja possível pensar a noção de gozo postulada por Lacan. A pulsão, é verdade, é o próprio movimento, ou seja, aquilo que não cessa de não se inscrever; é eterna tentativa de se satisfazer.
A pulsão recalcada jamais renuncia à sua completa satisfação, a qual consiste na
repetição de uma experiência primária de satisfação. Todas as formações
substitutivas ou reativas, bem como as sublimações, são insuficientes para remover
sua tensão contínua. É da diferença entre prazer efetivo obtido pela satisfação e o
prazer esperado que surge o fator impelente que não vai permitir ao organismo
estacionar em nenhuma das situações estabelecidas, mas ao contrário, (...)
‘indomado, sempre impele para adiante’ (Freud, 1920, p. 165).
Um aspecto importante a se pensar são as formações do inconsciente e o retorno do recalcado. Sendo o sintoma um exemplo, tem-se que não se trata apenas de um desejo inconsciente que fora recalcado, mas, também, de um quantum de satisfação na manutenção desse sintoma. Este traz em sua essência, tanto o prazer como o desprazer. De fato, na clínica, o sujeito comparece enredado em seus sintomas, dividido entre a ambição de livra-se e as dificuldades encontradas para tal. Isso está ligado ao aspecto inconsciente do sintoma e ao próprio trabalho do recalque que, em linhas gerais, busca afastar o desprazer. É possível afirmar que o quantum de prazer estaria relacionado, justamente, com a satisfação da pulsão e a realização parcial do desejo, nesse retorno do recalcado.
Há, na vida psíquica,
(...) uma tendência à repetição, uma tendência cuja pulsação se afirma sem levar
em conta o princípio de prazer, situando-se acima dele, impondo o sujeito a prova