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Fantasia e gozo: possibilidades no diagnóstico diferencial

5.8 As contribuições de “Kant com Sade” (1998)

Este texto deveria ter sido publicado com prefácio para o livro sadiano A Filosofia na

Alcova. Fora, contudo, publicado na revista Critique – n° 191 de Abril de 1963, como uma

resenha da edição das obras de Sade.

Neste artigo, Lacan fará algo que, minimamente, é inusitado: vai fazer uma aproximação entre Sade, tido como imoral e subversivo e Kant, tido como alguém que promove a moral e a ética. De acordo com esse último, nenhum fenômeno pode se fundar ou prevalecer numa relação constante de prazer. É impossível enunciar uma lei dessa natureza, isto é, portanto, uma lei que defina como vontade o sujeito que a introduz em seus costumes.

É importante afirmar que, ainda segundo Kant, tem-se que

(...) é no momento em que o sujeito já não tem diante de si objeto algum que ele

encontra uma lei, a qual não tem outro fenômeno senão alguma coisa já significante,

máxima sirva de lei, é necessário e suficiente que, na experiência de tal razão, ela

possa ser aceita como universal por direito de lógica. O que, lembremos sobre esse

direito, não quer dizer que ela se imponha a todos, mas que valha para todos os

casos, ou, melhor dizendo, que não valha em nenhum caso, se não valer em todos

(Lacan, 1998, p. 778).

Kant é um grande filósofo moral que contesta os princípios aristotélicos. De acordo com ele, a lei moral não pode estar ligada a um objeto material. A lei não depende de um objeto sensível e empírico; neste sentido, o sujeito só acede à lei quando não mais padecer do objeto, quando o objeto não mais ditar as regras, ou sejam quando o lugar de objeto for esvaziado. Sendo, só é possível ser moral, ético, se houver o esvaziamento do objeto.

Em contrapartida, Sade vai discutir a natureza e a verdade do objeto kantiano. Trará à tona toda a barbárie humana, afirmando que o bem supremo do homem é a sua maldade. Neste sentido, é possível adiantar que o suporte da lei que Kant sustenta é o próprio objeto de gozo que ele recalca.

Lacan enxerga o perverso como um grande moralista, por ensinar a verdade sobre a ética. Diante de um sujeito moral, adaptado em sua vida medíocre e cotidiana, o perverso comparece para desvelar o gozo do sujeito, para apontar onde ele goza; ponto este, desconhecido e recalcado pelo sujeito; aquilo que lhe traz horror e ele não quer saber.

O bem supremo diz do gozo, da maldade que é inerente a todo sujeito. Assumir essa essência abre a possibilidade de uma ética. De acordo com a proposta sadiana, renunciar a pulsão é negar que o que move o sujeito é o gozo. Sade nomeia aquilo que Kant não conseguiu definir. A ética, neste sentido, não é fundada no desejo, mas no gozo.

Eis a máxima sadiana: “Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode dizer-me

qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite me detenha no capricho das

extorsões que me dê gosto de nele saciar”. Esta é pronunciada pela boca do Outro,

desmascarando a fenda, normalmente, escondida do sujeito. É bem verdade que o gozo é aquilo que pelo qual se transforma o fenômeno sadiano. Gozo esse que se encontra preso no Outro. A fantasia sadiana possui uma estrutura na qual

(...) o objeto é apenas um dos termos onde pode extinguir-se a busca que ela

representa. Quando o gozo se petrifica aí, ele se torna o fetiche negro em que se

reconhece a forma efetivamente oferecida em um certo tempo e lugar, ainda nos dias

atuais, para que nela se adore seu deus. É isso que advém do executor na

experiência sádica, quando sua presença se resume, em última instância, a não ser

mais do que seu instrumento. Mas o fixar-se seu gozo nela não o livra da humildade

de um ato em que ele não pode entrar senão como ser carnal e, ate a medula, servo

do prazer (...) O desejo, que é o fautor dessa fenda do sujeito, sem dúvida se

conformaria em se dizer vontade de gozo. Mas essa denominação não o tornaria

mais digno da vontade que ele invoca no Outro, provocando-a até o extremo de sua

separação de seu pathos, pois, para fazê-lo, ele já começa derrotado, fadado à

Neste sentido, pode-se mencionar o desejo perverso como vontade de gozo, assim como afirmou Lacan neste texto de 1998. O autor situa a vontade de gozo como imperativo categórico kantiano, marcando o desejo como um dever.

A perversão está do lado do saber e vai mostrar ao neurótico ou ao psicótico onde ele goza. O primeiro deseja estourar, ultrapassar os limites do outro, visa o obsceno. A Lei que vem do Outro é a lei do gozo, que situa o perverso como seu instrumento. O perverso busca desvelar a divisão ao sujeito, em seu princípio, ali onde o sujeito começa dividido e alienado ao Outro; revela a posição do sujeito em relação ao Outro primordial. Não se busca o sofrimento e a dor, como alguns acreditam. O que se almeja é a divisão e a angústia do sujeito. É neste ponto que o perverso goza.

De acordo com essa noção, o sádico não almeja provocar o sofrimento de seu parceiro. O que ele busca

(...) é a sua divisão subjetiva que o sofrimento permite fazer emergir da vítima, isto

é, separar o logos do pathos. Na cena da tortura, o sádico se apodera da totalidade

do logos(...). Ele sacrifica sua subjetividade a um Outro gozador (...) reduz-se a ser

apenas uma voz que enuncia o mandato do gozo, e um instrumento que o executa

como um funcionário zeloso. A vítima, o sujeito a ponto de desaparecer, se divide

entre corpo e fala, sofrendo todo peso da angústia (Dias, 2003, p. 175).

Na cena de tortura, entre o sádico e o masoquista, resta a este último apenas o grito. Neste apoderamento do logos o que resta é o grito do outro; desvelado em sua divisão.

A perversão anuncia a Lei simbólica como uma lei do gozo absoluto. É relevante ressaltar que o perverso não está fora da Lei ou do Outro. Encontra-se articulado ao Édipo e à sua lei, embora decante o desejo em desejo de gozar. Essa lei é referenciada e se enuncia no Outro, postulando o desejo como vontade de gozo. Trata-se de uma lei que se impõe por um “capricho” e que em nada está relacionado a racionalidade ou vontade. Não há força de discurso, consideração ou motivação. Trata-se de ser porque é; de um caráter absoluto. Quase um “quero porque quero”, se pudéssemos ser bem sucintos.

Desta maneira, pode-se mencionar a posição que o perverso ocupa: de objeto, dejeto diante do Outro. Especificando melhor, instrumento do gozo do Outro. Esta é sua posição fantasmática.

A fórmula da fantasia que para o neurótico se coloca como $ ◊ a, se apresenta na perversão como a ◊ $. Enquanto a neurose interroga o Outro a respeito do desejo e o demanda uma posição localizada no próprio desejo do Outro, o perverso se apresenta como a resposta. Não se trata de uma questão que será colocada, mas de uma imposição, de uma resposta categórica. É neste sentido que é possível afirmar que o perverso é a causa pela qual o sujeito, o parceiro se divide. Cabe ressaltar que é aí que ele, o perverso, se torna instrumento do gozo do Outro; não está subvertido aos enlaces da cadeia significante, pois se identifica com o resto, com o impossível, com o real que torna possível aceder ao gozo do Outro, com a causa de desejo do Outro. Vira resto, meio, utensílio, objeto através do qual o Outro alcança o gozo. É o próprio objeto a.

uma questão quanto à divisão subjetiva. O sinal dessa divisão é a angústia e sua

prova, nesses casos, é buscada no Outro. A manobra perversa vai fazer com que a

angústia sempre apareça do lado de seus parceiros. É imprescindível que ela se

apresente assim. Sua posição de objeto visa essa angústia, mas a angústia de que se

trata aqui, é a angústia do Outro (...) Isso equivale a dizer que, nas cenas (...) o

perverso se coloca no lugar de objeto a – embora de forma denegada – buscando a

angústia do Outro (Gondim, 2006, p. 118).

Essa configuração não se mantém sozinha. O perverso precisa ter um par com quem possa atuar sua fantasia, provocando a divisão subjetiva e a angústia extrema do sujeito. Seu desejo metaforseado em vontade de gozo depende de uma não autorização do par em gozar de seu corpo. O perverso vive o gozo e para o gozo.

Sua aposta consiste em saber, sempre mais, mais ainda, sobre o possível corporal

ante o impossível da relação sexual. Sonha com um trazer de volta no real, por sua

atividade encenadora do fantasma, daquilo que a castração lhe obrigou a entregar.

Desaparece como sujeito para ser, desde o lugar do objeto, o senhor do gozo

invulnerável à divisão, essa divisão que translada sobre o outro. Procura,

incansável, fazer passar o gozo pelos desfiladeiros do discurso e assim controlá-lo

O matema invertido na perversão, assim, aponta a posição de objeto ocupado pelo sádico – e não de sujeito do fantasma – apresentando-se como instrumento da vontade de gozo absoluto de um Outro gozador.

Daí se dirige à vítima, a quem é deixado todo peso da subjetividade, e a divide de

modo mais profundo entre a submissão à voz imperativa e a revolta contra a dor, até

que ela desmaie. Ele visa produzir um sujeito mítico, nunca atingido, um puro

sujeito do prazer, isto , um sujeito que só experimenta prazer ao gozar (...) As

servícias infligidas visam extrair do gozo sua parcela de dor, isolar aquilo que, no

gozo, é o mal, a fim de revelar um puro prazer, sem mistura (Dias, 2003, p. 176).

A vontade de gozo se impõe e personaliza a estrutura perversa. Trata-se de ultrapassar o bem estar, a baixa tensão, a diminuição do prazer em busca de um bem supremo: o gozo! Ele afirma a existência de um prazer pleno e o desnuda. O perverso é o mestre que instaura o gozo como possível. O desejo, nestes casos, é reduzido à pulsão, ou seja, há uma indiferenciação quanto ao objeto, numa busca desenfreada pela satisfação. O objeto, neste sentido, é a própria satisfação. O desejo, assim, se apresenta como vontade de gozo. Ao enunciar o gozo do sujeito, o perverso desnuda a posição do sujeito enquanto objeto do gozo do Outro, isto é, o masoquismo original.

É fundamental pensar como essa estrutura se coloca no matema da fantasia. Sendo esta

sujeito do inconsciente e o objeto a ($ a), o sujeito está no traço do corte, constata- se sua presença no momento de dessubjetivação que se precipita no terceiro tempo

da fantasia, destacando um puro olhar e bater. O objeto na fantasia não se reduz ao

objeto da pulsão parcial (o seio, o excremento, o olhar e a voz), o resto é tomado

como função (o que resta mais-além, inalcançável) (Dias, 2003, p. 174).

Ao considerar a fantasia em sua função de apoiar o desejo na neurose, isso se diverge nos casos perversos. Nestes, o desejo se faz vontade de gozo; implicando um desaparecimento do próprio sujeito, já que este se coloca como vontade do gozo do Outro. É esta sua posição na fantasia. Almeja apreender o objeto a no Outro, ali onde objeto a e gozo do Outro estão misturados, sem delimitação.

Como tela de anteparo erguida frente ao Real e ao gozo, a fantasia, em seu matema $ ◊ a, representa a posição do sujeito diante desse Outro. Enquanto o neurótico se afirma em sustentar o desejo do Outro, o psicótico está posicionado como objeto do gozo do Outro, enquanto o perverso, como instrumento do gozo - para o Outro gozar. O que o perverso desconhece é que ao acreditar fazer do outro seu objeto, é ele mesmo que está como objeto do Outro na lógica da fantasia. “(...) o perverso, confrontado muito mais de perto com o impasse do ato sexual (...) faz das malhas da fantasia o aparelho condutor pelo qual furta, em curto- circuito, um gozo do qual nem por isso o lugar do Outro o separa” (Lacan, 2003, p. 327).

Ao se considerar agente da ação, o perverso não é nada mais que objeto, ferramenta útil ao gozo do Outro. Conforme afirma Lacan (1963): (...) o que ele não sabe é o que ele procura (...) fazer aparecer a si mesmo como puro objeto (p. 118)

Ele se torna funcionário do Outro, alienando seu trabalho para que um Outro continue a gozar. Não é nada mais que um utensílio, um objeto a serviço do gozo do Outro.

Ele é o fetiche que venera, é o chicote com que flagela sua vítima, é o contrato com

escraviza seu flagelador (...) Em suma, ele é a, um a que positiviza o falo, que nega que o falo falte, que assegura que o gozo se falifica no Outro (...) Pois esse Outro a

que se consagra o perverso não é – se bem ele não queira sabê-lo – um Outro

absoluto que está fora do gozo; o Outro é a sede de um gozo que lhe é próprio e que

o perverso desconhece, um gozo que é possível precisamente pela falta do órgão

que, para ele, imaginariza o falo ( Braunstein, 2007, p. 256).

Sendo assim, pode-se afirmar que, na cena perversa, quem comanda é o ser de gozo. O que a fórmula da fantasia apresenta, nestes casos, é que o perverso se posiciona como objeto causa de desejo para causar a divisão do Outro; para levar o Outro àquilo que o causou, a suas origens, ao seu masoquismo original, como alienado ao Outro, como objeto para o Outro gozar.

O perverso tenta ocupar o lugar do objeto causa de desejo, do falo que não tem e

não é para consagrar o Outro ao gozo e, gozando, acentuar no Outro sua divisão. O

objeto da fantasia na perversão está fora do Outro significante, por isso, ele não

(...) Ali onde o neurótico foge, o perverso se precipita, revelando a defesa e sua

erotização, pois, na renegação da castração da mãe, transforma a castração em

gozo, o horror em fascinação (Dias, 2003, p. 175).

Ao desmentir a castração, o desejo e a pulsão são convertidos em vontade de gozo. O horror da castração é transformado em gozo. Neste sentido, é possível pensar que o perverso está muito próximo do desejo do Outro. E, apesar de muitas discussões aprovarem o contrário, o perverso encontra-se numa angústia dilacerante frente a esse Outro.

Por fim, uma consideração... alheia à psicose.

O sujeito, através das operações de alienação e separação, é lançado na articulação

significante, indicadora da falta no Outro e, ao mesmo tempo, reconhecimento de

sua própria falta. Na escuta do fantasma, uma nova clínica se faz. Algo de fora de

todo o simbólico, excluído do significante, vindo sob a forma de repetição (...) Na

impossibilidade de um DITO, a construção vem se fazer presente, não para dar

significação ou preenchimento do vazio. A “restituição” do fantasma fundamental

que sustenta os símbolos até o acesso à verdade inconsciente vai revelar ao sujeito

Uma frase, arrastando a gramática, vai implicar que se articule uma lógica, lógica

do NÃO-TODO. A verdade ganha, na impossibilidade de dizê-la toda, seu estatuto

(...) A verdade do desejo funda o estatuto ético do inconsciente, e é como vai operar

a partir desse lugar: colocando em questão seu próprio desejo (...) O Outro não dá

ao sujeito barrado o significado da sua existência, mas o significante de sua falta

(...) ( Mader, 1993, p. 123).