Os desenvolvimentos do absolutismo doutrinal
B. As crises políticas e o nascimento do absolutismo doutrinal
Os períodos de instabilidade politica desempenharam um grande papel na constru ção do pensam ento absolutista. A afirmação da necessidade de um Estado forte nunca teve tanta legitimidade, com efeito , com o no mom ento em que a autoridade do rei e a es tabilidade do reino foram postas em perigo por am eaças feudais, perturbações civis ou guerras com potências estrangeiras. Por isso, é exatamente durante periodos de crise que se afirmou com mais força a necessidade da concentração absoluta dos poderes civis e militares.
Na França, a longa fase de instabilidade provocada pela guerra dos Cem Anos e pe los estragos da peste negra (25 m ilhões de mortes na Europa) justificara, nos séculos XIV-X V, o crescimento espetacular do poder régio. D o m esm o m odo, a situação de en fraquecimento das cidades italianas no com eço do século X VI (agitações populares, ri
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validades de clãs, intervenção de potências estrangeiras) leva M aquiavel a defender suas teses sobre a autoridade do príncipe. É também para fazer frente ao enfraquecimento do rei Henrique III durante as guerras religiosas na França, nos anos 1570, que J. Bodin re d ige sua doutrina sobre a potência suprema do Estado. Finalm ente, é em reação à violên c ia com etida durante as duas guerras civis (1 6 4 2 -1 6 4 8 ) que, na Inglaterra, Hobbes publi c a o seu Leviatãsobre o poder absoluto do soberano.
Na França, os grandes argumentos do pensam ento absolutista são elaborados no fim do século XV I, no mom ento em que a guerra religiosa dilacera o reino e mina a legitim i dade monárquica. Nas três últimas décadas do século, uma corrente de idéias estrutu ra-se: seus porta-vozes estão decididos a responder aos ataques dirigidos à coroa. Essa corrente chamada de “os P olíticos” inspira-se em p osições adotadas em 1560 por M ichel de L ’Hospital, chanceler do rei (fam oso por sua tolerância religiosa). B odin é o seu por ta-voz m ais brilhante. Os P olíticos pretendem responder ao m esm o tempo às idéias radi cais dos protestantes (T. de B èze, F. Hotm an) e ao extrem ism o da Liga Católica (J. B ou cher, G. R ose), porque esses dois “partidos”, por razões bem diferentes, constituem uma am eaça para a autoridade da coroa. Os protestantes defendem o direito de resistência (até de revolta) com o resposta às perseguições que sofrem (seus representantes desejavam uma monarquia limitada que respeitasse as m inorias religiosas). Os príncipes católicos, além de sua vontade de romper a reforma e de proteger a religião do reino, pretendem, por sua vez, restabelecer a influência da nobreza frente ao rei após três séculos de pro gresso da potência monárquica. Frente a esses dois m ovim entos, os Políticos traçam uma dupla estratégia. Em matéria religiosa, apelam para um a política de tolerância e de paci ficação. Horrorizados com o m assacre de São Bartolom eu, conscientes dos estragos cau sados pela guerra civil na unidade do reino, estão convencidos que a intransigência reli giosa só pode levar a França à sua perdição. N o plano político, defendem a autoridade absoluta do rei. Os atos do soberano não poderiam ser ditados nem pelo p ovo (resposta aos m onarcôm acos) nem pela nobreza (resposta aos partidários da Liga). O único limite reside na subm issão às leis naturais e no respeito pelas leis fundamentais do reino. Após o período de perturbações e a vacância na cim eira do poder, que se seguem ao assassina to de Henrique III (de 1598 a 1594), os P olíticos saem vitoriosos dc seu com bate contra a Liga; eles conseguem fazer subir ao trono Henrique de Navarra (que se tom a Henrique IV) ao qual se opunham os príncipes católicos; sua política de tolerância inspira o edito de N antes (15 9 8 ) que estabelece a paz entre católicos e protestantes.
D esde então, na França, o absolutism o régio é cada v ez mais considerado com o a condição da paz civil. A s teses de B odin sobre a soberania fazem adeptos. Cada v ez mais filó so fo s e juristas se juntam à causa monárquica. O jurista Guy C oquille atém -se à idéia de regim e misto à qual opõe a tese da concentração de todos os poderes: “O Rei é monar ca e não tem com panheiro em sua M ajestade real” (L 'Institution au droit des Français,
16 03). Charles Loyseau aprofundou a reflexão sobre o “senhorio público” (o Estado) que ele distingue dos senhorios privados (Seigrteuries, 1609). Enquanto estes últim os são o lugar da propriedade, o Estado é o único crisol da soberania. Sua autoridade é. portanto, absoluta. Jurista próxim o a R ichelieu, Cardin Le Bret também se decide em favor do ponto de vista absolutista: “O Rei é o único Soberano em seu Reino e [...] a Soberania é tão d ivisível com o o ponto em geom etria” (De la souveraineté du roi, 1632). A noção de soberania acaba im pondo-se. Encontrará apoios preciosos, durante todo o século, nas te se s do direito divino e na doutrina da razão de Estado.
Capítulo 3 - As doutrinas do Estado 163
A pós o período da Fronda de 1648-1653 (a revolta do Parlamento de Paris, à qual se junta a nobreza nas províncias, constitui a última grande reação feudal à construção do absolutism o régio), Luís XIV leva o poder do rei ao seu auge. Suas