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O direito e a legitimação do p oder régio

, B A síntese de Tomás de Aquino

Capitulo 2 0 pensamento político da Idade Médio

B. O direito e a legitimação do p oder régio

Os séculos XII e XIII, séculos dc renascimento do pensamento jurídico, são também acompanhados da reconstrução dos poderes régios. Tal ligação não deve nada ao acaso; os reis e os grandes príncipes contribuem vigorosam ente para o progresso do direito erudito do qual se servem com o de uma arma para afirmar a sua legitimidade temporal frente ao poder pontifício, por um lado, para estender sua autoridade sobre os senhores feudais, por outro lado. A difusão dos conhecim entos jurídicos se faz, com efeito, num contexto p olí­ tico submetido a incessantes jo g o s de poder entre as autoridades estabelecidas. Ora, uma grande parte desses afrontamentos se desenvolve no terreno intelectual. Arsenal de idéias e de normas despojadas de qualquer referência a Deus, o direito romano pode facilm ente ser utilizado pelos grandes poderes seculares para servir às suas am bições políticas. Em suma, o desenvolvim ento rápido do pensamento jurídico contribui, a longo prazo, para o progres­ so de uma reflexão leiga sobre o poder no fim da Idade Média.

1. O saber dos juristas, um a arm a ao serviço do poder

A aspiração dos príncipes à autonom ia em relação ao papado, m as tam bém o proces­ so de fortalecim ento da prerrogativa régia, adaptam -se muito mal ao pensam ento teocrá- tico. Por um lado, a teologia mantém os príncipes na dependência moral da Igreja; por outro lado, o ensinamento cristão, p elo seu universalism o, não permite muito defender a idéia de uma centralização do poder em escala dos territórios realengos em formação (caso da França e da Inglaterra). N e sse co n tex to , o su c e sso do direito rom ano nos am ­ bientes p rincipescos deve muito ao fato de que é um direito leigo, um “jus" distinto do

“fas" que rege a relação entre os hom ens e a potência divina. É devido tam bém, com o su­ blinha Jean G audem et, ao raro eq u ilíb rio ao qual o “g ên io rom ano” sou b e chegar ao combinar num m esm o corpus “uma preocupação m uito concreta das n ecessidades práti­ cas e a inserção do direito num contexto de pensam ento doutrinal” (em Braudel e Duby,

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D esde meados do século XII, a corte do imperador germânico, as de França e de In­ glaterra, mas também a Cúria Romana, cercam-se de “juristas”. Esses juristas, especia­ listas do direito romano, servidores zelosos que agem na sombra do poder, desempenham um papel decisivo nas querelas doutrinais que opõem os poderosos. A sua m issão é, cla ­ ramente, a de justificar, com a ajuda de fórmulas bem foijadas, a legitimidade temporal de seu protetor. Desem penham um papel essencial na restauração da idéia monárquica. Já na luta que opõe o imperador Henrique IV e o papa Gregório VII, os “imperialistas” ti­ nham recorrido à lex regia e à lex de império para defender a causa imperial. Em 1115, o comentador lm ério dera a sua ajuda a Henrique V. M as é sob Frederico Barba Ruiva que é forjada, pela primeira vez, uma doutrina do poder absoluto e universal do imperador a partir das máximas romanas. Em 1158, quatro doutores bolonheses proclamam de fato sua “onipotência” ao elaborar uma lista de direitos senhoriais (regalia) que fazem dele, a exem plo do imperador romano de outrora, a lex animata (“lei viva”). Segundo esse prin­ cípio o imperador é capaz de fazer e desfazer as leis.

N e sse m ovim ento, o s reis da França e da Inglaterra não ficam para trás. Preocupa­ dos com a restauração de teses “im perialistas” que o s colocam na órbita d o soberano germ ânico, Luís VII, Filipe A ugusto e Henrique II Plantageneta põem -se a defender a sua autoridade recorrendo aos juristas mais em vista - obtendo ao mesmo tempo, para­ doxo da história, o apoio de num erosos canonistas próxim os do papa, porém preocupa­ dos em apoiar a idéia m onárquica contra as pretensões universalistas do imperador ger­ m ânico. A ssim , na França, o s especialistas da lex romana, trabalhando para os capetin- g e o s, espalham bem cedo a idéia de que “o rei é imperador em seu reino”, julgando com toda lógica que ele não precisa prestar fidelidade ao imperador. Do outro lado do Mancha, o tratado do ju iz Bracton sobre “as leis e costum es da Inglaterra” (m eados do século XIII) dá um bom testem unho da cultura romanista que inspira o edifício doutri­ nal da monarquia dos Plantagenetas.

Todos os monarcas descobrem assim as virtudes do direito romano. As antigas m á­ xim as se tom am armas ideológicas utilizadas pelos grandes poderes seculares para esta­ belecer suas am bições políticas. O direito erudito dá, sobretudo à dominação política, um fundamento autônomo desprendendo-a pouco a pouco dos preceitos religiosos. C er­ tamente, o s juristas dos sécu los XII e XIII continuam a apreender a lex humana numa or­ dem dirigida pela mão de Deus. Filósofos, juristas e teólogos se esforçam por lembrar a sua subordinação à lex naturalis, a qual está inscrita no contexto da lex divina. N o entan­ to, desde o scculo XII, o trabalho assíduo dos juristas permite resgatar um “direito p ositi­ v o ” (juspositivum) pertencente exclusivam ente à sociedade humana e destinado a regu­ lamentar as relações entre o rei e seu povo. Os lugares da vida terrestre, a cidade (civitas), a “coisa pública” (respublica) ou o reino (regnum) são entidades im plicadas no o rd e­ nam ento d ivin o do mundo, mas tampouco são apreendidas doravante como espaços dc ação autônoma submetidos a um sistem a de regras temporais, o jus, que abrange ao m es­ mo tempo a lei foijada pelo legislador humano (a lex) e os princípios dc origem costumeira (a consuetudo). Primeiramente inscrita nos dieta dos juristas medievais, essa nova “leitu­ ra” da ordem social difunde-se tanto mais rapidamente na sociedade porque o direito eru­ dito se estende desde o século XII a numerosas atividades sociais. Contribui para o apa­ recim ento de “ países de direito escrito” (regidos pelo direito romano c que se distingue doravante dos “países de direito costum eiro”). É, brevemente, o conjunto de mcntalida- des que evolui sob o impacto do direito erudito.

116 História das idéias políticas

2. O rei e a lei: a interpretação absolutista, o direito natural e o papel do povo

A partir do século XII, o desenvolvim ento do direito leig o introduz um laço cada vez m ais evidente entre o rex e a lex. 0 rei é, com efeito, considerado pela maioria dos juris­ tas com o o único legislador temporal. A ele se reconhece a capacidade de “fazer e d esfa­ zer” as leis humanas, no respeito pelas leis de D eus. N o entanto, uma questão crucial fica suspensa, a saber: qual é a extensão de seu poder na cidade? N outros termos, se o rei é a fonte da lei, pode fazer tudo? Q uais são os lim ites de sua autoridade? E le também deve conform ar-se às leis que publica? Para retomar uma fórmula então em voga, ele está “a ci­ ma da lei” ou “em baixo da le i”?

A filosofia m edieval, sob a influência das releituras de A ristóteles, faz dessa questão o cerne da reflexão sobre o governo político. M as são os especialistas do direito, porque agem muitas v e z e s diretamente no ambiente dos príncipes, que são o s primeiros im plica­ dos na discussão sobre a extensão dos poderes daquele que cham am de “legislador”. A partir do século XII inicia-se, pois, um debale sobre a potência régia que continuará du­ rante sete séculos (ver capítulo 3). O põe partidários do absolutism o e defensores de uma concepção moderada do poder.

"Princeps legibus solutus "

A té o sécu lo XI a subordinação do príncipe à lei não sofre nenhum a discussão. Sen­ do a lei de essência divina, ela se im põe absolutamente a todas as autoridades seculares. D e maneira paradoxal, são os canonistas, que trabalham pela reforma da Igreja, que, por seu apoio à doutrina da plenitude do poder pontifício, libertam os prim eiros dessa con­ cepção tradicional. Sua vontade de afirmar a supremacia tem poral do papa os incita, de fato, a desenvolver novos argumentos em favor do absolutism o monárquico. A póiam e s­ pecialm ente o direito do pontífice a opor-se às legislações principescas e ao costum e, em nom e de um poder que lhe foi diretamente atribuído por D eus (de m odo diferente do im ­ perador e dos reis, cujo poder é conferido, segundo eles, p elo povo). Para isso não h esi­ tam em recorrer às idéias antigas para com por suas sentenças canônicas, fazendo, por exem plo, do papa a lex animata do mundo cristão. São eles que forjam a expressão “p o ­ der absoluto” (potestas absoluta) para convencer sobre o caráter incontestável da vonta­ de papal; ela obterá um su cesso im ediato junto aos teóricos da monarquia, felizes dem ais por poder utilizá-la em proveito do rei.

A redescoberta dos escritos romanos permite aos juristas prosseguir nessa revisão das co n cep çõ es do poder iniciada p elos canonistas. Preocupados em defender a causa imperial ou monárquica, não tardam a encontrar, nos escritos de Justiniano, argumentos para afirmar a potência principesca. Daí a considerar o poder norm ativo do legislador temporal com o incontestável é só um passo. Este é rapidamente superado. O s juristas li­ bertam, com efeito, os príncipes de todo escrúpulo ao se apoiarem em duas fórmulas c é ­ lebres do grande jurisconsulto romano U lpiano (s. II-III): “o príncipe está desligado das le is ” (jmnceps legibus solutus esi) e “o que agradou ao príncipe possui força d e le i”

(quodprincipiplacuit legis habet vigorem). T êm pressa cm considerar, nessa base, que o poder secular tem não som ente por função legislar, mas que pode por isso agir contraJus, quer dizer, anular qualquer norma anterior escrita ou não escrita (direito romano, lei hu­ mana, costum e) que lhe pareça má. Sendo a vontade do príncipe a fonte da lei, este tem toda liberdade para governar segundo seu bel-prazer.

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O cam inho do absolutism o doutrinal está doravante aberto. Certamente, as casas ré­ gias não conseguirão impor a sua autoridade no seu reino senão em termos de um longo processo histórico marcado pelo enfraquecimento da autoridade pontifícia e, sobretudo, p elo d eclínio das estnituras políticas feudais. Mas as fontes intelectuais que permitirão que o s teóricos do absolutismo e da razão de estado afirm em a supremacia do príncipe sobre seus súditos no século XVII estão já em germe nos debates da Idade Média.

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