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grandes princípios do liberalismo político

A s primeiras teorias políticas liberais estão ainda amplamente impregnadas da preo­ cupação de proteger o homem contra os abusos do poder. D escansam , a esse respeito, so ­ bre cinco grandes princípios fundadores.

O primeiro c a recusa do absolutism o. Para os prim eiros liberais, o poder absoluto do Estado é o território do despotism o. Para limitar o arbitrário político, a única solução con siste, por um lado, em impedir a concentração do poder no seio do Estado, por outro, em proteger os diferentes “corpos interm ediários” que formam a sociedade fora do Esta­ do (a partir do sécu lo XIX se falará da “sociedade c iv il”).

O segundo princípio é a figura inversa do primeiro: a defesa da liberdade. O hom em é livre, de fato, quando não é inquietado pelo Estado. C om o se verá, a liberdade será estendi­ da, no século XVIII, ao conjunto dos “direitos naturais” e, na R evolução Francesa, aos “di­ reitos civis” (ver capítulo 5). Nas primeiras teorias, porém, ela está estreitamente ligada a duas problemáticas centrais. Em prime iro lugar, está ligada à segurança e à propriedade. N e sse caso, o Estado não pode confiar nem nas pessoas nem em seus bens. Em seguida, a liberdade está ligada à liberdade religiosa. N este caso, o Estado não deve misturar-se nem co m opiniões religiosas nem com convicções morais dos indivíduos. N o prolongamento do pensamento reformado, o liberalismo insiste, a esse respeito, no direito do “foro ínti­ mo” , que será ampliado um pouco mais tarde para a “liberdade de consciência”. Nenhum po­ der, qualquer que seja, pode ter a pretensão de orientar a consciência individual.

O terceiro princípio do liberalism o político é o pluralism o. C om o a liberdade, ele e x ­ prime a rejeição do absolutismo. Mas, ao contrário da liberdade, não é um valor em si; é sim plesm ente um princípio de organização da vida social. É a garantia de que um poder pode ser parado a qualquer mom ento por um outro poder, que um grupo será sem pre li­

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mitado pela existência de outros grupos, que um a opinião será eternamente confrontada com outra opinião. Nenhum elem ento, na sociedade, pode, pois, aspirar à hegem onia e oprimir todos os outros. E sse pluralism o deve caracterizar, em primeiro lugar, o funcio­ namento do Estado. O poder institucional tem a vocação a estar dividido em várias enti­ dades. O pluralismo, porém, deve também afetar a vida em sociedade: todas as minorias (especialm ente as religiosas) têm direito a ser protegidas; nenhuma pode sofrer vexações por parte da maioria.

O quarto princípio é a soberania do povo. O pensam ento liberal é moderno pelo fato jde considerar que o poder civil nâo depende do governo de D eus, mas permanece um as­ sunto propriamente humano. A idéia do povo soberano não faz automaticamente dos pensadores liberais defensores da democracia. A soberania, para os liberais, designa sim plesm ente a origem do poder. Não justifica que seu exercício seja confiado ao povo, bem mais numeroso e bem mais ignorante para governar. Concretamente, permite antes de tudo contestar a tese do direito divino nos séculos XVII e XVIII. Em 1789, permitirá derrubar o A ntigo R egim e. Mas será preciso esperar até meados do século X IX para que o pensam ento liberal se insira realm ente no pensam ento democrático.

A desconfiança em relação ao poder concentrado, por um lado, em relação à dem o­ cracia direta, por outro lado, justifica o quinto princípio liberal: a defesa do governo re­ presentativo. Os representantes são os delegados da sociedade no Estado; garantem que o poder seja exercido sob o controle daqueles que obedecem a ele. São a primeira condi­ ção para que seja instaurado um regim e moderado que proíbe que o Estado vá além de suas prerrogativas. Concretamente, os primeiros liberais são fervorosos partidários da monarquia parlamentar encarnada, d esd e\16 8 p elo regim e inglês. Este é claramente identificado, frente ao absolutism o francês, com o a concretização moderna da constitui­ ção mista.

Estes cinco princípios do liberalismo político formam o que certos historiadores das idéias chamam de “liberalismo constitucional”. A expressão designa as diferentes teorias que, na seqüência da Revolução Inglesa, aspiram a lutar contra o despotism o monárquico por uma transformação de sua arquitetura institucional. É essencialm ente graças a uma nova organização do Estado, que privilegia o pluralismo e a separação dos poderes, que seus autores pretendem proteger as liberdades civis e políticas. J. Locke é o fundador in- conteste dessa abordagem liberal convencida da necessidade de reformar o governo civil.

2. John L ocke e os lim ites do poder civil

M édico e filósofo inglês, John Locke (1632 -1 7 0 4 ) é o autor de uma obra central es­ crita tardiamente (está então com m ais de 55 anos): o Tratado do governo civil (1689). Os dois livros que o Tratado encerra reúnem as idéias fundadoras do liberalism o políti­ co. Escritos provavelmente antes da revolução de 1688-1689, constituem uma réplica contundente às teses absolutistas que dominaram a Inglaterra de Jaime II. Contra todos os argumentos em favor do poder absoluto do soberano, Locke desenvolve aí um sistem a filo só fico que afirma a necessidade de uma lim itação estrita do poder de Estado.

As obras da juventude de L ocke não o predispunham a contestar o autoritarismo m o­ nárquico. A s teses que ele sustenta na década de 1660 - quando a Inglaterra sai da expe­ riência crom w elliana e de quinze anos de violências c de perseguições religiosas (que opunham protestantes m oderados, fanáticos puritanos e católicos) - não são muito d is­ tantes das posições absolutistas. U m dos primeiros escritos políticos, o Magistrado civil

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(1660), associa as leis humanas a obras de D eus na terra. O “m agistrado” (o rei) detém direitos m uito am plos, especialm ente o de legislar no âmbito religioso a fim de proteger a sociedade do fanatismo e da crueldade dos homens.

Entretanto, bastante rapidamente o filósofo inglês toma con sciência da necessidade de aplicar um princípio de “prudência” em política. C onvencido da incapacidade de o rei impor uma direção universal em matéria de religião, ele apela que se recorra à tolerância com relação às seitas e igrejas protestantes (Ensaio sobre a tolerância, 1667). A ssim , com Baruch Spinoza (Tratado teológico-politico, 1670), é um dos primeiros autores m o­ dernos a fazer da liberdade de pensam ento um direito inalienável de todo ser humano. Mas nem sempre consegue desfazer-se de uma visão tradicional centrada na ação do Cria­ dor, fonte única da “lei natural”, na qual o s hom ens se inspiram para governar.

E nvolvido em intrigas contra o s Stuart, Locke teve de exilar-se na Holanda. Som en­ te depois da queda de Jaime II é que ele ousa voltar à Inglaterra e publicar aí seu Tratado sobre o governo civil. O primeiro livro é dedicado a contestar vigorosam ente a tese do di­ reito divino desenvolvida por Robert Filmer em De Patriarcha (16 8 0 ). O segundo é en­ dereçado aos argumentos de H obbes e de seu Leviatâ (1651), É deste segundo livro que, retomando a tese hobbesiana do contrato cujas con clu sões pretende refutar, expõe seus argumentos mais originais. Toda a sua demonstração visa mostrar que o consentim ento com o poder civil (pelo contrato) não pode coagir os hom ens a abandonarem seus direi­ tos naturais. D esde sua apresentação do estado natural, L ocke contesta as idéias de Hob­ bes; considera que os hom ens, em sua condição natural, vivem na concórdia, na solida­ riedade e na justiça, lá onde seu antecessor acha que os hom ens estão em guerra perma­ nente. N o entanto, admite L ocke, a propriedade e o com ércio são fontes de desigualdade que com prom etem as possibilidades de paz. Por isso c necessário que os indivíduos rea­ lizem um pacto social a fim de se unirem e delegar a sua soberania a um governo civil ca­ paz de sancionar as violações da lei natural.

O contrato, os direitos naturais e os fm s do governo civil

Locke se reapropria, pois, da idéia de contrato, popularizada no com eço do século por Grotius e retomada num sentido autoritário por Hobbes. Ele acha que todo governo toma sua fonte no consentimento dos hom ens que decidem se reunir a fim de lutar contra a de­ sordem e fundaras regras de uma vida social harmoniosa. O filósofo inglês introduz a essa altura uma inovação capital ao distinguir a sociedade e o poder civil - enquanto, até então, a filosofia considerava a sociedade, o corpo político e o poder que o encarna com o uma só entidade. Locke considera, com efeito, que a passagem do estado natural para o estado so ­ cial se faz em dois tempos: os hom ens realizam um primeiro pacto a fim de consentir com a formação da sociedade; num segundo tempo, concordam, por um segundo pacto, a dar-se um governo. Esta distinção feita entre o que se chamará depois a “sociedade civ il” (lugar da vida social) e o Estado (lugar da vida política) se tomará clássica no discurso liberal, em particular sob o impulso de Adam Smith e dos econom istas clássicos.

Sc Locke retoma a ficção contratualista que o Leviatâ tom ou célebre, tira, no entan­ to, conclusões radicalmente opostas. Nada é mais absurdo, segundo ele, que abandonar todos os seus direitos ao poder soberano. Se o s hom ens renunciam a uma parte de sua li­ berdade para associarem -se, é com a finalidade de conservar seus direitos naturais e não para perdê-los. Sua renúncia só tem sentido porque lhes traz uma situação mais favorável que a de sua vida natural. “O poder legislativo [...] não sendo outra coisa que o poder de cada membro da sociedade [...] não poderia ser maior que o que todas essas diferentes

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pessoas tinham no estado natural, antes de entrarem em sociedade” (XII § 135). Para jus­ tificar essa posição, Locke reduz o papel do poder civil ao seu fim, que c sua única razão d c ser. Esse fim é definido no mom ento em que os hom ens decidem associar-se. Ele não sofre nenhuma ambigüidade: “o. gr ande fim que se propõem aqueles que entram numa sociedade [é] gozar de suas propriedades, em segurança e em repouso” (sendo a n o ç io d e “propriedade” entendida em Locke no sentido amplo: garantia dos bens, segurança das pessoas e até liberdade). Por isso o poder civil só tem um fim: “conservar a sociedade e, à medida que o bem público pode permitir, cada membro e cada pessoa que a com põe” (XI § 134). Inversamente, “jam ais teria o direito de destruir, de tom ar escravo, ou de empo­ brecer, de propósito, nenhum súdito” (XI § 135). O poder absoluto é, pois condenável, pois não poderia “concordar com os fins da sociedade e do governo” .

A ssim surgem da teoria do contrato de Locke três grandes princípios do liberalismo político. Em primeiro lugar, existem direitos naturais “inalienáveis” (com o a liberdade ou a propriedade), o que quer dizer que nenhum poder pode confiscá-los, mas também que nenhum homem pode cedê-los (visto que Lhe pertencem com o propriedade). Em se­ guida, o governo civil tem poderes limitados pelos fins que lhe são atribuídos. Diferente das teorias da soberania (ver seção 1), os fins do Estado não residem no próprio Estado: eles são exteriores a ele e, portanto, constituem outros tantos lim ites que circunscrevem o seu poder. Finalmente, conseqüência lógica, a delegação da soberania ao poder civil é provisória. N ão pode ser definitiva, com o afirmava Hobbes. Pode ser retirada quando os dirigentes se tom am tirânicos e a confiança é, assim , rompida com o povo. A resistência à opressão se tom a então legítima: “quando os legisladores se esforçam por arrebatar e destruir as coisas que pertencem com o propriedade ao povo, ou reduzi-lo à escravidão

colocam -se em estado de guerra com o povo, que, a partir de então, é absolvido e isen­ to de obediência a seu respeito” (X IX § 222).

O respeito pela lei e a distinção dos poderes

A lém das conclusões inéditas projetadas por sua teoria do contrato, Locke formula argumentos esclarecedores sobre a organização concreta do poder e fixa assim certos tra­ ços essenciais da concepção moderna do Estado. Ele considera, em primeiro lugar, o res­ peito à lei com o uma das garantias fundamentais da proteção dos direitos naturais. A par­ tir do momento em que os hom ens se dão um governo para preservar a liberdade, a segu­ rança e a propriedade, é necessário que se dêem leis estáveis e que as respeitem escrupu­ losamente. Este imperativo é tão fundamental que não concerne somente aos súditos, aplica-se também ao legislador. A í está, sem dúvida, a contribuição mais essencial de Locke na medida em que o argumento fixa já, no princípio, uma das reivindicações cen­ trais do constitucionalism o d o século XVIII: a garantia da primazia do direito. S ó um Estado respeitoso do direito pode agir com benevolência e não cair na tirania. Mas Locke não chega ainda a em ancipar-se da idéia clássica de “lei natural?”, que continua, segundo cie, a ser o fundamento necessário da lei positiva.

Locke é também um dos primeiros a tentar sistematizar a idéia da separação dos po­ deres sustentada pelas elites d o partido whig e que inspira a revolução de 1688-1689. Ele considera esta separação co m o a segunda muralha contra o arbitrário político. Contra to­ dos os princípios absolutistas, de fato, Locke defende o projeto de dividir o poder civil em três entidades. Atribui um lugar preeminente ao “poder legislativo” cuja tarefa é deli­ berar sobre as leis comuns. A potência desse poder é, no entanto, limitada, com o se viu, pelo fim que lhe é atribuído: o bem da sociedade. D ois outros poderes coexistem com

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esse primeiro, mas estão subordinados a ele: o “poder ex ecu tiv o ”, encarregado de garan­ tir a execução regular das leis, e o “poder federativo”, destinado a garantir a segurança nas relações com o s outros Estados (hoje se falaria de poder diplom ático).

É durante essa reflexão sobre o arranjo dos três poderes que Locke dá forma a outra idéia cara aos adversários do absolutism o, a saber: o princípio do g o v em o representati­ v o . O filósofo inglês considera de fato que o m ecanism o da delegação da autoridade com “ representantes” é preferível para fundar um poder civ il ao serviço do interesse geral. Por isso, o poder legislativo deve, segundo ele, ser confiado a uma “assem bléia represen­ tativa” . Sua preferência é claramente por um regim e parlamentar em que a câmara reuni­ ria todos o s com ponentes da sociedade dignos de serem representados. Considera, no en­ tanto, o caso em que os representantes perdessem de vista o bem público e im agina, para responder a isso, um dos m ecanism os chaves do sistem a parlamentar moderno: o direito excepcional, para o poder executivo, apesar de sua subordinação, de reunir e de dissolver o poder legislativo.

3. Fénelon e as liberdades aristocráticas

Pode parecer espantoso associar o pensam ento político de François de Salignac de la M othe-Fénelon (1 6 5 1 -1 7 1 5 ) à gênese das idéias liberais. E sse aristocrata esclarecido da antiga nobreza perigourdina dedica boa parte de sua existência em encontrar um bom lu­ gar no entourage do rei Luís XIV. Próxim o de Bossuet, obtém o s favores de M adame de M aintenon e da duquesa de Beauvillier, antes de se tomar, em 1689, preceptor do duque de Borgonha e depois, em 1695, arcebispo de Cambrai. Sua desgraça bratal é a con se­ qüência direta de seu envolvim ento mistico: im aginando com unhão espiritual com D eus, seu fervor religioso é então julgado ex cessiv o e é denunciado por B ossuet por ocasião da “querela do quietism o” .

Em diversos aspectos, Fénelon d esen volve em seus escritos uma argumentação filo­ sófica antiga. N o entanto, seu pensam ento politico é bem representativo da hostilidade expressa pela aristocracia francesa, no final do sécu lo X V II, com relação à centralização d o poder em V ersalhes. A grande nobreza certamente não está mais em con d ições de contrabalançar a potência régia. A gora ela tira seus recursos da corte do rei. M as certos representantes seus (especialm ente no circulo do duque de Borgonha) persistem em rei­ vindicar em m eias palavras “ liberdades” aristocráticas em relação à coroa. É dessa no­ breza que sairá, em meados do século X V III, um discurso político liberal em penhado em defender os direitos dos “corpos interm édios” do reino contra a monarquia onipotente, por um lado, ao m esm o tem po em que rejeita frontalmente todo reconhecim ento da sobe­ rania do povo, por outro lado.

Fénelon é fascinado pela instituição monárquica. Mas sua fé inabalável o leva a de­ fender a idéia, no prolongam ento do hum anism o cristão dos sécu lo s X V -X V I (ver capí­ tulo 4), da necessidade de submeter a p olitica aos princípios da moral. Ele é, também, se­ cretam ente hostil ao autoritarismo do R ei-Sol. Condena os seus fundam entos numa terrí­ v el Carta a Luís XIV (1693), que muito felizm ente o rei nunca teve ocasião de ler. “V ós só am ais a vossa glória e vossa com odidade - escreve ele. R eferis tudo a vós, com o se fo sseis o D eus da terra, e que todo o resto não fosse criado senão para vos ser sacrificado. A o contrário, sois v ó s que Deus enviou ao mundo som ente para vo sso p ovo” .

É por uma ficção, as Aventuras de Telêmaco, publicada em 1699 sem seu acordo, que sua crítica do absolutism o m onárquico ganha notoriedade. Se o assunto toma sutil-

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mente a forma do relato m itológico, a história não deixa de ser uma severa crítica do des­ potism o. A í ele tenta demonstrar que a onipotência leva à impotência: "os países em que a dom inação do soberano é m ais absoluta são aqueles em que o s soberanos são menos potentes” (livro X). A o oprimir o seu povo, de fato, o tirano Bocóris provoca o levante popular que o levará a ser expulso do reino. A o longo das páginas, o romance todo desfia um conjunto de sugestões políticas favoráveis à monarquia limitada, fazendo da sabedo­ ria aristocrática e das leis fundam entais do reino proteção contra a crueldade do príncipe mas também canais pelos quais a verdadeira potência pode ser exercida.

N a seqüência dos textos políticos (entre eles as Tables de Chaulnes cm 1711), Fénc- lon desvela uma concepção do governo político centrado na prudência. A este respeito, a sociedade está ameaçada por d ois excessos: a tirania principesca e a anarquia popular. D e fato, se Fênelon condena o absolutism o do soberano, odeia igualmente o povão cuja única qualidade é semear a desordem no reino. Rejeita categoricamente a idéia da ori­ gem popular do poder. Contra as am eaças ele opõe a força da lei natural, o papel estabili­ zador da tradição, bem com o o s direitos da aristocracia. Sobretudo, seu humanismo o leva a considerar, na linha de L ocke, que o único fim do governo político é a utilidade ge­ ral. É claro que ele não é muito sensível ao individualism o de Locke e ao seu discurso so ­ bre a liberdade individual, tam pouco visualiza com precisão um edifício institucional. M as ele aparece em vários pontos (a preferência pela monarquia limitada, a defesa dos direitos da nobreza diante do Estado, a busca do bem com um com o fim do político) como um precursor do liberalismo aristocrático francês ao qual a obra de M ontesquieu dará, em pleno século do Ilum inism o, uma sólida arquitetura teórica.

4. M ontesquieu e a separação dos poderes

Charles-Louis de Secondat (1 6 8 9 -1 7 5 5 ), barão de La Brède e de M ontesquieu, tem um lugar de destaque no panteão dos grandes teóricos liberais. C om ele, o liberalism o francês encontra um prim eiro corpo doutrinal. Sua obra política principal, O espirito das leis (1 7 4 8 ), constitui uma etapa essencial na cam inhada para a modernidade filo só ­ fica. Rica, com plexa, de rara densidade, ela foi objeto de abundantes leituras, p elo m e­ nos diversas. Se Raymond Aron via nela um form idável apelo à liberdade, à tolerância e ao pluralism o, que contribuiu para a form ação das dem ocracias m odem as (As etapas do pensamento sociológico, 1967), Louis A lthusser denunciava um projeto de essência conservadora, essencialm ente preocupado em defender a aristocracia contra o s assal­ tos de um terceiro estado cada v e z m ais hostil à socied ad e p rivilegiada do A n tigo R e­ g im e (Montesquieu, a política e a história, 1959). A s am bigüidades que atravessam a obra de M ontesquieu dão testem unho, de fato, das contradições num erosas d esse sécu ­ lo de transição marcado pelo su cesso do pensam ento racionalista, a crescente potência do ideal de liberdade, mas tam bém a inquietação crescente da aristocracia, comprimida entre a monarquia autoritária e as cam adas burguesas sem pre mais hostis às tradições da sociedade feudal.

A pesar dos seus eq u ívocos, O espirito das leis tem abundantes propostas e idéias reformadoras que constituirão, com o Contrato social de Rousseau, uma das principais fontes de inspiração dos revolucionários de 1789. A obra é já de grande modernidade por sua forma. A o passo que a maioria dos filó so fo s continuam a se perguntar sobre os

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