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A edificação da monarquia e o pensamento do Estado

Capítulo 3 As doutrinas do Estado

um vasto império reunificado. Sua meta é reunir o mundo cristão sob uma lei universal. É essencialm ente dos reis capetíngios que vêm as primeiras resistências no com eço do sé­ culo XIII. São então os únicos monarcas cujos exércitos podem rivalizar com o do impe­ rador. A dupla vitória conseguida cm B o u v in e se em R o c h e -a u x -M o in e s(1 2 14) por Fi­ lipe A ugusto (1180-1223) sobre a coalizão militar do imperador O to IV e do rei inglês João Sem Terra agiu a este respeito com o um catalisador. C onvencidos da legitimidade dos C apctos de reinar sobre o reino de França, os juristas régios com eçam a elaborar no­ vas teses em favor da independência política do rei de França.

Os defensores da autoridade régia se apóiam numa sentença enunciada por canonistas no final do século XII e imediatamente reproduzida pelos juristas régios: “o rei é impera­ dor em seu reino” (rex imperator in regno suo). Esta fórmula afirma sem ambigüidade que o rei não reconhece, no seu reino, nenhuma autoridade superior. Ele exerce a integralida- de dos poderes que o direito romano atribuia outrora ao imperador. Os juristas de Filipe o Belo (1285-1314) se encarregarão de fazer disso o argumento central da coroa de França.

Bastante paradoxalmente, o papado sustenta esta tese durante todo o século XIII. Certamente, com ojá se viu, e le não tem muita dificuldade em lembrar seu direito de diri­ gir os poderes seculares. Entretanto, ao m esm o tempo, o pontífice romano vê no poder do reino francês a melhor defesa contra seu principal rival: o imperador. De fato, os reis capetígios são não só o s únicos a poder opor-se aos exércitos do Sacro Império, mas, s o ­ bretudo, não aspiram a tomar a frente de uma monarquia universal. Estas m otivações le ­ vam o papa Inocêncio III a afirmar, numa decretai puramente circunstancial (1202) que “o rei da França não reconhece superior em matéria temporal”. A fórmula acabará gene­ ralizando-se em meados do século XIII, sob o reinado de São Luís (Luís IX, 1226-1270). Tomar-se-á, dois anos após a sua morte, uina sentença oficial do reino (Etablisscmenis de Saint Louis [Estabelecimentos de São Luís], 1272).

A recusa da autoridade universal do Império será amplamente retomada, no século XIV, nas cidades independentes da Itália do norte que pretendem dotar-se de um gover­ no “republicano”. Juristas italianos com eçam a defender o direito das cidades a se auto­ governarem. Bartole de Sassoferrato (1314-1357), grande romanista italiano do século, é um dos primeiros a justificar essa posição ao sublinhar o d esvio entre o direito romano (mais favorável ao imperador) c a realidade dos fatos, que mostra que numerosos povos não vivem sob sua autoridade direta. Seu contemporâneo Balde (1327-1400) evoca o “direito costum eiro” para contestar a autoridade universal do imperador. Segundo o ca- nonista, o costum e é uma herança jurídica essencial porque, sendo aceito por todos, é a melhor tradução do consentim ento popular.

2. O rei e os senhores: a dinâm ica de m onopolização do poder

O ascenso da monarquia moderna tira vantagem também do m ovim ento histórico de unificação dos reinos de 1 rança, de Inglaterra e de Espanha. V iu-se que a formação do sistema fcudo-vassálico (fini do século IX-XI) é acompanhada pela fragmentação dos territórios régios ein muitas entidades senhoriais. Os reis, ao m esm o tempo em que con­ servam o seu cargo régio e certos privilégios, perdem durante esse período o essencial dc seu poder. Apesar de seu título de suserano, são então bastante incapazes de exercer uma tutela direta sobre os potentes ducados, condados ou baronatos. Som ente com a ajuda de um longo processo histórico de concentração do poder em proveito da coroa régia e que o rei consegue progressivamente elevar-se acima dos poderes senhoriais.

138 História das idéias pofiticas

O crescimento de poder do rei com eça no século XII. Está cheio de ubstáculos, de crises e de ações de resistência de príncipes mais poderosos. Só consegue prevalecer re­ alm ente no século XVII. O processo, portanto, é lento e rem ete a uma diversidade de fa­ tores econôm icos, culturais, políticos e militares que não podem ser todos discutidos aqui. Entre estes, os historiadores atribuem, no entanto, às rivalidades e às guerras um pa­ pel decisivo. Os conflitos internos ao reino, assim com o as lutas externas, concorrem am­ plam ente, durante esse período, para a afirmação da superioridade régia.

A s rivalidades entre os principes, antes de tudo, contribuem poderosamente para o processo de centralização do poder. D e fato, desde o século X, os senhores feudais construí­ ram a sua autoridade sobre a capacidade de administrar um território e proteger com unida­ des que residem aí. N esse sistem a feudal, onde a existência política do príncipe depende fundamentalmente de seu poderio militar, os poderes seculares fazem da guerra e das con­ quistas a sua principal atividade. É claro, desde o fim do século XI até o século XIII, as cru­ zadas permitem canalizar em parte essa aspiração a fazer guerra. Mas o espirito de conquista é exercido também dentro de cada reino: as lutas entre senhores são brutais aí.

Norbert Elias faz dessa dinâm ica dc concorrência feudal o princípio explicativo da formação üos reinos (A dinâmica do Ocidente, 1939). Segundo ele, a história m edieval está marcada por um processo de "m onopolização'’ do poder durante o qual as “casas” m ais poderosas, envolvidas cm con flitos militares incessantes, conseguem elim inar seus rivais e garantir o controle dc territórios cada vez mais vastos. Esta dinâm ica é m ais forte, na França, entre os séculos XII e XIV. Os reis capetingios fazem guerra aí para aumentar o dom ínio régio, em concorrência com as outras grandes “casas” que reinam sobre os du­ cados de Borgonha, de Anjou. de Normandia, de Aquitãnia e sobre os condados de B lois, de Flandre ou de T oulouse. C onfrontam -se co m adversários ferozes, co m o a fam ília Plantageneta (ducado de A njou) que, em m eados do século XII, conquista a coroa da In­ glaterra. Entretanto, são beneficiados por trunfos importantes. A lém de seu poderio m ili­ tar, têm o cargo régio herdado da dinastia carolíngia, o que lhes confere o título de suse- rano (não são vassalos dc ninguém ) e dá à sua função um caráter sagrado que lhes garan­ te o apoio da hierarquia da Igreja. N os primeiros tem pos, essas particularidades não lhes garantem muitos recursos. M as a partir do século XII elas lhes permitem desem penhar um papel de primeiro plano na condução de co a lizõ es militares para proteger o reino ou conduzir cruzadas no Oriente. Permitem também que aumentem os seus poderes de ju sti­ ça além dos lim ites do dom ínio régio. A partir do século X IV , o s reis de França (repre­ sentados p elos Valois a partir de 1328) com batem ate seus parentes próxim os que herda­ ram poderosos dom ínios através da lei dos apanágios.

A situação é um pouco diferente na Inglaterra onde a oposição feudal ao rei não é tão violenta. Três fatores diminuem aí os riscos de confronto entre o suserano e os príncipes feu­ dais, a saber: os conflitos recorrentes com a poderosa Igreja da Inglaterra, a organização de numerosas expedições militares sobre o continente e, enfim, a autonomia concedida aos “barões” pela Grande carta de liberdades inglesas dc 1215 (liberdade de eleger os bispos, obrigação de o rei consultar seus vassalos e os dignitários religiosos para impor certas ta­ xas). Apesar dc algumas incertezas durante o século XIII, o aumento de poder da monar­ quia e a unificação do território se realizam num contexto de relativo apaziguamento e de equilíbrio (que não será realmente perturbado senão no m om ento das “guerras c iv is” de meados do século XVII). A construção da monarquia na Espanha apresenta também sin­ gularidades. N os séculos XII-XIII, a Reconquista contribui para a constituição de uma vas­ ta coalizão de príncipes cristãos decididos a lutar contra a presença árabe. N o século XIV,

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