• Nenhum resultado encontrado

v limites atribuídos ao poder do príncipe

, B A síntese de Tomás de Aquino

Capitulo 2 0 pensamento político da Idade Médio

O. v limites atribuídos ao poder do príncipe

A afirmação das primeiras doutrinas absolutistas, na corte do papa ou nos ambientes régios, não im pede que uma boa parte dos giosadores sublinhe as incoerências evidentes contidas no direito romano. Estes giosadores insistem especialm ente numa sentença do C ódigo de Justiniano, a Digna vox, que afirma que “é da majestade daquele que govem a que o Príncipe se proclam e a si m esm o subm isso à lei”. Põem igualmente em evidência a contradição presente entre as m áxim asprinceps legibus solutus est eprinceps legibus al- ligatus est(“o príncipe está ligado pela le i”). A ssim , as m esm as fontes antigas que ju s­ tifica m o d esen v o lv im en to da doutrina absolutista permitem defendera opinião oposta, a da necessária limitação do poder régio: segundo esta última, o príncipe é a única fonte das leis, m as deve submeter-se voluntariamente a elas, particularmente àquelas que ele m esm o decretou. Assim se forja, no pensam ento jurídico leig o em plena ascensão, o m o­ delo do “príncipe respeitador das leis” legado por Isidoro de Sevilha e transmitido pelos teó lo g o s do século XI (Adalberão de Laon, Fulbert e Ivo de Chartres).

Esta posição hostil aos argumentos absolutistas incita os juristas m edievais a identi­ ficar dois grandes limites à autoridade legislativa do príncipe.

A primeira reside na origem popular do poder. Encontra-se de fato no direito romano a idéia de que o povo (populus) é o depositário original da faculdade de legislar e que ele a transmite ao príncipe através da lex regia (“lei régia”). A idéia tem uma conseqüência importante: o príncipe não pode legislar contra o s interesses daqueles que lhe confiaram o poder. Sua autoridade tem, pois, um lim ite. 0 argumento é inicialm ente utilizado pelos partidários do papa contra o imperador; permite justificar a hierarquia entre o poder pa­ pal, absoluto porque conferido diretamente por D eus, e o poder imperial, limitado por­ que foi concedido pelos homens. N o entanto, é retomado por numerosos juristas favorá­ veis ao imperador. Certamente, por razões bem com preensíveis, esses juristas afirmam que o poder imperial é de essên cia divina. Mas tentam conciliar este argumento com a idéia de uma origem popular. D e maneira admirável, a sua análise desem boca em argu­ m entos bastante variáveis. A lguns o utilizam para assentar definitivam ente o poder do imperador; interpretam a lex regia com o uma transferência definitiva do imperium em proveito do principe e, assim, reconhecem que a vontade deste último é incontestável, m esm o quando transgride as leis anteriores e o costum e. Outros giosadores adotam uma p osição m ais moderada; julgam que a transferência do poder de legislar é revogável quando o príncipe muda ao seu bel-prazer as leis e o s costum es por razões que não de­ pendem nem da “justiça” nem da “necessidade” . A o agir assim , age contra o povo; per­ de, pois, a sua legitimidade. Os giosadores certamente não tiram todas as conclusões de um tal argumento (o príncipe deve partir dele m esm o? D ev e ser derrubado? Deve reparar a sua falta?). Mas o aparecimento da idéia de consentim ento popular, deduzido do direito romano, dá nascim ento a uma corrente doutrinal duradoura oposta ao absolutismo prin­ cipesco. T eó lo g o s ou filósofos dos séculos XIII e X IV, com o Tomás de Aquino ou Mar- sílio de Pádua, tom ar-se-ão porta-vozes dessa idéia do poder moderado.

118 História das idéias políticas

A autoridade do príncipe é limitada, em segundo lugar, pela idéia do “direito natural” (ou “lei natural”). Aqui, os comentadores do século XII foijam um pensamento que inspi­ rará claramente a filosofia arístotélica do século seguinte. Exegetas do direito romano c o ­ m o H ugolino ou Placentino, sem se oporem claramente às teses absolutistas, não deixam de lembrar que a autoridade do príncipe só pode ser respeitada se ele m esm o agir de acordo com o jus naturale, quer dizer, com o conjunto das leis e dos princípios im utáveis d esco­ bertos pela razão, concebidos na Idade M édia com o o prolongamento na terra das leis d ivi­ nas. Este argumento conduz ao desenvolvim ento do princípio da autolimitação do legisla­ dor. O s juristas consideram, de fato, que o respeito pelo direito natural baseia-se só na sa­ bedoria do príncipe. N ão prevêem controle exterior à sua vontade. O impacto da doutrina jurídica sobre o pensamento político m edieval é aqui particularmente importante, porque o respeito pela lei, particularmente a lei natural, tom a-se um dos critérios centrais que permi­ tem distinguir, a partir do século XII, o príncipe virtuoso do príncipe tirano. U m século m ais tarde, Tom ás de Aquino, em sua tentativa de síntese dos conhecim entos antigos e cristãos, reproduz essa visão ao fazer do respeito pela lex naturalis a condição do bom g o ­ verno. N esta perspectiva, a vontade do tirano não é a lei; é a perversão da lei. Em m enos de um século, são postas as balizas de um princípio de legalidade.

Em sum a, o direito erudito contribui de maneira substancial para a renovação das idéias políticas m edievais. A poiando-se em categorias racionais e num m odo de pensa­ m ento lógico, o direito foija um discurso profano que é um dos principais vetores do novo pensam ento erudito.

A evolu ção das percepções afeta de m odo particular o papel do príncipe. Durante a A lta Idade M édia, a con fu são crescen te feita entre o rei (rex) e o sacerdote (sacerdos) contribuíra para o surgim ento do m o d elo da realeza litúrgica, centrada na im agem de Cristo (o rei com o vicarius Christi). A partir dos sécu los X Il-XIII, o progresso da ciência jurídica favorece uma abordagem m ais concreta, mais im pessoal e m enos religiosa do poder político. O príncipe não existe mais sim plesm ente co m o figura de D eu s, persona­ gem legendário e carismático; tom a-se também o titular de um “cargo régio” que pre­ ex iste a ele e lhe im põe seus deveres. O recurso crescente às n oções antigas de respubli­ ca (para evocar a monarquia) e de persona publica (para designar o rei) traduz bem o as- cen so dessa concepção despersonalizada da realeza. É, assim , toda a im agem do rex que evolui sob o im pacto do direito. O tradicional rex justus, que não era senão o intérprete e o protetor das leis divinas, cede lentam ente o lugar ao rex legislator, criador de normas, detentor de uma vontade própria.

A lém do príncipe, a secularização das idéias políticas afeta a representação da co leti­ vidade humana. A noção de societas humana se im põe no vocabulário filosófico. D e sig ­ na uma com unidade humana regida por leis e costum es que lhe são próprios, ligada a um rei que legisla em seu nome. N ão se confunde mais com a societas christiana, com unida­ de dos crentes reunidos pela fé e cuja cabeça é o papa. Doravante ela forma um “corp o” político, apreendido por diversas formas abstratas: a “cidade” (civitas), o “reino” (regnum), a “com unidade do reino” (comunistas regni), a “coisa política” (res politica), o “p o v o ”

[populus).

Enfim, o progresso da ciência jurídica, associado à renovação da filosofia do século XIII, desem penha um papel importante na transformação dos critérios morais que d efi­ nem o “ju sto” e o “bem ’’. À doutrina cristã que fundava a ordem terrestre e seu s valores na revelação divina, o direito substitui um pensam ento moral em que a primazia da lei e

Copítulo 2 - 0 pensamento potilico da Idade Média. 119

da virtude d o príncipe são doravante os penhores do bem com um . A explicação sobrena­ tural não é mais suficiente para justificar o poder e a hierarquia na sociedade humana. É toda a concepção da justiça humana que é chamada a ser redefinida sobre bases novas.

§ 4. A JU S T IÇ A , O PO V O E A R A ZÃ O ^ v

V iu-se que a “redescoberta” da filosofia antiga contribui ativamente para a abertura de um debate sobre a legitimidade do poder. A o passo que a teologia fazia de toda a h ie­ rarquia o reflexo de uma ordem eterna fixada pela Criação, um número crescente de c lé ­ rigos sensíveis às idéias novas ousa levantar a questão “o que è um poder justo?” a partir de critérios que não são mais exclusivam ente religiosos. Por trás desta pergunta d ese­ nha-se um debate de uma am plidão considerável que expõe a teologia clássica aos pri­ meiros esb oços do pensam ento humanista. Onde o povo era considerado uma m assa ig­ norante, certos espíritos livres viam , ao contrário, um corpo capaz de consentir com a or­ dem política. Onde o homem era visto com o um sujeito passivo, destinado à im potência e à obediência na expectativa da graça eterna, o pensam ento novo inova ao reconhecer nele uma faculdade de julgam ento e de autonomia. A definição tradicional da justiça está totalmente subvertida.

Outline

Documentos relacionados