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PARTIDO SE A PROXIMA DAS ELITES
o equil íbrio de forças dentro do PTB foi seriamente ameaçado pelos primeiros testes eleitorais após dezembro de 1 945. O desempenho do partido nas eleições de 1 9 de janeiro de 1 947 foi decepcionante. Embora tenha feito dois dos 1 9 deputados federais então eleitos, no que toca às eleições estaduais não fez nenhum governador.45 A situação foi especialmente delicada em São Paulo, onde Hugo Borghi, candidato derrotado ao governo do estado, não obteve o apoio formal do partido, mas manteve a seu lado amplos setores do PTB paulista, evidenciando problemas internos de disciplina e de convivência entre sindicalistas e empre sários.
Quando a 1 1 Convenção Nacional do PTB foi convocada' para os dias 5 a 1 0 de março de 1 947, o assunto Borghi era um dos principais temas e m pauta.46 Em sessão secreta, a Convenção decidiu por sua expulsão e, con seqüentemente, pela desarticulação de diretórios em São Paulo. O PTB paul i sta fora uma obra pessoal de Borghi, que, ao sair do partido, carregou consigo a maior parte dos diretórios municipais (D' Araujo, 1 988). A Convenção aprovou também a reforma dos estatutos, ampliando o Diretório Nacional de 30 para 50 membros, e elegeu nova Comissão Executiva. Nessa ocasião, a preocupação era, mais uma vez, congregar as diferentes regiões do país e também i ncorporar novos setores sociais. O número de trabalhadores foi nitidamente reduzido e os cargos de direção começaram a ser ocupados por- políticos de status sócio econômico mais alto. A rigor, apenas dois componentes da nova Executiva ti nham l igações com o movimento sindical: I1acir Pereira L i ma e Romeu J osé Fiori. Os demais eram profissionais liberais, i ndustriais e políticos de tradição, a exemplo de Salgado Filho e Landulfo A l ves, membro de tradicional família
45 O desempenho d o PT B nessas eleições e m comparação com a s d e 1 954 e 1 955 é analisado em Soares, 1 973.
4 6 Sobre a 11 Convenção Nacional do PTB ver TSE, Processo nº 7/47; Diretrizes, 1 0-3- 1 947; Democracia, 5. I I e 1 8-03- 1 947; O Jornal, 4 a 6-2- 1 947 e Correio da Manhã, 6-3- 1 947.
oligárquica da Bahia.47 Visando expurgar o partido do adesismo de Borghi, a Convenção decidiu ainda criar comissões estaduais de coordenação encar ·regadas de realizar assembléias nos estados para eleger novos diretórios re gionais. Nessa complicada convivência entre sindicalistas, empresários e bu rocratas ficou decidida também a criação de 1 8 comissões técnicas, para funcionarem como órgãos consultivos.
Consolidando a tendência anti-Dutra, em julho de 1 947 o PTB oficializou seu rompimento com o governo federal através de carta circular reservada, assinada pelo presidente da Comissão Executiva Nacional e enviada a todos os diretórios regionais. Argumentava-se que, apesar da contribuição do partido para a eleição do presidente da República, este vinha tomando decisões i mpopulares, contrárias à classe trabalhadora e a Getúlio, sem atentar para a gravidade da situação eco nômica. Dizia a carta: "Recomendamos, portanto, que esse diretório oriente sua ação e a de seus congressistas no sentido de manter constante vigilância sobre os atos governamentais, fazendo a crítica justa dos que forem julgados i ncon venientes ou errados para que o eleitorado verifique que estamos cumprindo nossos deveres e nossos compromissos para com a nação". Assim, colaborar e apoiar o governo "seria atraiçoar nosso programa e colaborar para o sacrifício do povo e especialmente dos trabalhadores".48
Apesar desses esforços na orientação a ser seguida pelo partido, o processo interno de institucionalização continuava tumultuado. Alzira Vargas, por exemplo, mostrava-se descrente quanto à possibilidade de vê-lo crescer de forma ordenada e sob a liderança d� Vargas. Segundo ela, o partido não devia se envolver na luta municipal que seria travada em novembro de 1 947. Como escreveu a seu pai, é "tarde demais para o PTB tomar decisões municipais. Não tem organização, nem
47 A Comissão Executiva ficou assim composta: presidente, Paulo Baeta Neves; vice-presidente, Joaquim
Pedro Salgado Filho, advogado e ex-ministro da Aeronáutica; secretário-geral, José de Segadas Viana; primeiro-secretário, Landulfo Alves, engenheiro agrônomo e oligarca da Bahia; segundo-secretário, Ilacir Pereira Lima, industriário de Minas Gerais; tesoureiro-geral, Romeu José Fiori, industriário de São Paulo; primeiro-tesoureiro, Othon Silva Sobral, advogado do Ceará; segundo-tesoureiro, Maximino Za non, industrial do Paraná. Para o Conselho Fiscal foram escolhidos o sindicalista Calixto Ribeiro Duarte e José Junqueira, do Distrito Federal, e ainda Vivaldo Lima, do Amazonas. A Convenção também deliberou eleger o sindicalista Herosílio Baraúna, da Bahia, e o político e advogado Alberto Pasqualini, do Rio Grande do Sul, como vice-presidentes de honra, e manteve como presidente de honra Getúlio Vargas. TSE, Processo nº 7/47.
48 Arquivo Getúlio Vargas, GV 47.07. 1 0.
dinheiro, nem gente para colocar nos cargos".49 Dias depois, em nova carta a Var gas, Alzira seria ainda mais incisiva: "Por favor, manda dar um banho de creolina no fYfB ou então desliga-te dele [ ... ] continuar como está é i mpossível, é suicídio lento e certo [ . . . ] Não quero que penses que estou tentando dar razão a outros partidos contra o fYfB, nem ao menos dizer que nos outros só há anj inhos. Apenas os outros partidos fazem sujeira por conta própria, e o PTB o faz em teu nome".SO
Assim como os burocratas não conseguiam controlar completamente os sin dicalistas, a política interna do PTB e as contínuas disputas pelas posições de mando escapavam ao controle do próprio Getúlio. De outro lado, ficava clara a ambi valência da família Vargas entre fortalecer o PTB ou o PSD. Para alguns, como Euzébio Rocha, de São Paulo, Alzira não foi uma petebista: "Ela não foi 'babá' do fYfB, foi sempre 'babá' do PSD [ ... ] Jamais serviu ao fYfB, jamais foi membro do fYfB e jamais se identificou com o fYfB . Representou realmente a grande 'babá' do PSD dentro das estruturas do PTB para manter a hegemonia do PSD" (Rocha, E., 1 984). Já para Segadas Viana, o próprio Getúlio nunca se empenhou de fato em consolidar a máquina do partido, posto que nunca aceitou assumir na prática funções de direção, apesar dos constantes apelos para que o fizesse, temeroso de tomar posição hostil aos interesses do PSD, do qual também era presidente de honra (Viana, 1 983, 1 985 e 1 987). Um exemplo de como eram tênues os laços partidários ocorreu no Rio Grande do Sul. Patrono dos dois partidos, Getúlio acabou sendo expulso do PSD gaúcho em 5 de dezembro de 1 945, basicamente por ter se declarado favorável ao candidato petebista ao governo local, Alberto Pasqualini, contra o pessedista Walter Jobim ( Bodea, 1 979 e 1 984).
Foi em meio a essas incertezas e como partido de oposição que o PTB par ticipou das eleições municipais de novembro de 1 947, em que mais uma vez as atenções se voltaram para São Paulo. Getúlio, que representava o único fator con creto de identidade partidária, acabou se envolvendo diretamente nas eleições pau listas para a vice-governança, apoiando Cirilo Júnior contra Novelli Júnior, can didato de Dutra, do governador de São Paulo, Ademar de Barros, e de Borghi. Segundo Maciel Filho, um dos mais influentes conselheiros de Vargas, essa eleição assumiu o caráter de desforra do 29 de outubro de 1 945, com nítido sentido de afirmação getulista. "Estamos tentando um empreendimento único na história bra-
49 Carta de Alzira Vargas do Amaral Peixoto a Vargas, arquivo particular da remetente, 1 2-9-1 947.
50 Idem, 2- 1 0- 1 947.
sileira: derrotar ao mesmo tempo o governo estadual e o governo federal no estado mais forte do Brasil. E a derrota não será discutível, será apenas esmagadora.,,5 1 Vargas participou ativamente da campanha, dando-lhe caráter plebiscitário, a fim de que a eleição paulista expressasse uma avaliação da administração Dutra.52 Os resultados frustraram suas expectativas. O candidato de Vargas perdeu as elei-
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ções, e esse fato teve reflexos negativos sobre o partido. A avaliação de Vargas era desalentadora: "Minha opinião é que o pleito de São Paulo fortaleceu o governo. Deixei de ser o bicho-papão. Já não faço medo num pleito eleitoral. Isto os deixou tranqüilos e satisfeitos. É preciso agora reorganizar o PTB . Tão cedo não teremos eleições, exceto, talvez, as vagas dos comunistas. É conveniente aproveitar esse tempo para trabalhar numa obra de organização e l impeza".53
As notícias de que Vargas resolvera abandonar o PTB tornaram-se correntes no início de 1 948, quando Dutra entabulou conversações para um acordo i nter partidário tendo em mira o apoio à sua administração e as eleições presidenciais. Vargas se opôs ao i ngresso do PTB no acordo, usando para tanto sugestiva ar gumentação: "Quando o PTB estava no auge de sua força e com ela assegurava a vitória do candidato à presidência nas eleições de 2 de dezembro, foi posto à margem da coalizão e hostilizado, depois, através do próprio M i nistério do Trabalho. Hoje ele está fraco, roído pelas dissensões i nternas, sem poder dar ao governo, com o apoio que este pretende, a segurança que espera, e é procurado". Um partido fraco como o PTB seria, nos dizeres de Vargas, tirado do ostracismo para apoiar medidas "reacionárias", na medida em que Dutra estaria desejando criar para si uma "unanimidade nacional" à custa da população.54
O acordo interpartidário, de cunho conservador, foi firmado em janeiro de 1 948, reunindo o PSD, a UDN e o PRo Confirmando a disposição de Vargas, o PTB não o endossou e, pelo menos formalmente, ficou na oposição, legitimando as tendências internas que propalavam uma postura de independência e de isolacionismo. Para essa decisão contou também o cálculo político de capitalizar a falta de apelo popular de que se revestia a administração Dutra. Apesar de fraco e inconsistente, o PTB ainda
5 1 Arquivo Getúlio Vargas, GV 47. 1 0.23/1 . 52 Sobre o assunto. ver D' Araujo. 1 992.
53 Carta de Getúlio a Alzira em 29- 1 1 - 1 947, arquivo particular desta.
54 Correspondência entre Vargas e Baeta Neves, Arquivo Getúlio Vargas, GV 48.05.05 e 48.06. 10.
Sobre o acordo partidário, ver D' Araujo, 1 992.
era o principal recurso de que dispunha o trabalhismo getulista para disputar futuros pleitos. Entre eles, o alvo maior era fazer de Vargas o próximo presidente.