A seção carioca do PTB acabou submetida ao controle de Lutero Vargas. Isso foi obtido de duas maneiras. De um lado, garantindo-se maior autonomia na atuação de seus par lamentares na defesa de posições e projetos e, de outro, estabelecendo-se um criterioso controle dos cargos dentro da agremiação. Desde 1 953 várias reformulações foram em-
96 O Jornal. 1 0. 1 7 e 23-5- 1 952.
9 7 O comentário é do jornalista Abelardo Romero em O Jornal, 1 3-8- 1 952.
preendidas no Diretório Regional. O plimeiro grande atingido foi o vice-presidente do PIBfDF, senador Napoleão Alencastro Guimarães, que mais tarde, após o suicídio de Vargas, foi nomeado minisu'o do Trabalho de Café Filho. Crítico da aproximação do PIB com os comunistas, foi substituído por um general, amigo de Lutero, José Ferrugem de Mello Bastos, que se tomou no ano seguinte presidente do Diretório Regional. Nas mudanças efetuadas por Lutero, outros nomes de pouca notoriedade, mas de sua con fiança, passaram a controlar a seção, contrariando às vezes as bancadas federal e mu nicipal e levando à redução de sua representação parlamentar.98
Com as alterações de comando, cerca de L O parlamentares - vereadores e de putados federais - ameaçaram deixar o partido em 1 954. Entre eles Rui Almeida, deputado federal e amigo de Getúlio, que passou para o PSP. Ao comunicar a Vargas sua decisão, Rui Almeida apresentou ao presidente um curioso exame da situação geral do PIB. A seu ver, por motivos meramente personalistas o partido não conseguira capitalizar a votação de 1 950 e vinha "desde muito dando mostras de profunda de composição interna", especialmente no Distrito Federal e em São Paulo. No parla mento, "primou pela mais deplorável dispersão de esforços, alheio ao cumprimento de nosso programa de partido". Rui Almeida salientava "que um dos motivos mais constantes e ponderáveis de minhas fundas discrepâncias com o PIB residiu na maneira de proceder de sua seção carioca [ ... ] tomada de assalto por um grupo de audaciosos e primários mandões". Desconhecendo, segundo Rui Almeida, a dinâmica do partido, Lutero desagregou e desmoralizou o PIB, "o que o levará a uma derrota histórica apesar da 'cabala' que fez e manda fazer nos institutos, autarquias e na Prefeitura".99 No afã de criar um partido antilacerdista, getulista e nacionalista, Lutero con trolou esses diretores até 1 965 e abriu espaço para que setores nacionalistas e de esquerda vissem no PIB/DF uma legenda adequada a seus ideais. Com essas adesões, o partido ganhou nas legislaturas seguintes nova visibilidade política no parlamento.
Quando do suicídio de Vargas, Lutero já se apoderara de todos os cargos do Diretório e da Executiva Regional e se tomara, de fato e de direito, o chefe absoluto do PIB carioca. Do ponto de vista eleitoral, a seção apresentava problemas de crescimento, confirmando a opinião de Rui Almeida. Em contraposição a uma bancada de oito membros eleitos em 1 950, o PTB/DF elegeu seis deputados em
98 Além de vereadores, deputados de prestígio como Gurgel do Amaral Valente e Frota Aguiar opuseram
se às orientações de Jango e Lutero no que tocava aos métodos de comando no partido e à política trabalhista.
99 Arquivo Getúlio Vargas, GV 54.04.30/6.
1 954 e sofreu perdas ainda mais significativas na Câmara Municipal, onde a bancada foi reduzida de 1 5 para nove cadeiras. No que toca às eleições para a Câmara Federal, Lutero foi o grande eleito do PTB , obtendo o primeiro lugar no partido, com 1 20.9 1 3 votos contra 1 0.3 1 5 do segundo colocado, João Machado.
Os métodos e o estilo de Lutero, assim como os rumos que a seção tomou a partir de então, são ilustrativamente descritos por dois conhecidos petebistas ca riocas que tiveram importantes divergências no partido - José Gomes Talarico e Sérgio Magalhães. Segundo o primeiro, Lutero era um "homem introvertido" e de "difícil trato". Não se dispôs a fazer uma "política popular" ou a ter "contatos com os trabalhadores". Ainda na opinião de Talarico, por ser filho de Vargas, Lutero fixou o PTB/DF na linha "paternalista", na "base do favor", e o "PTB se movia mais pelo esforço que cada um de seus deputados e vereadores fazia na defesa dos interesses populares do que por um plano, por um esquema ou equação armada pelo partido" (Talarico, 1 982, 1 985 e 1 987).
Essa visão de como o partido foi controlado pessoalmente por Lutero é cor roborada por Sérgio Magalhães. Para este, o PTB não existia como partido. Quando entrou para o PTB, em 1 954, não havia trabalhadores em seus quadros e, "na realidade, o que me ficou na memória é que não havia vida partidária. O deputado tratava de estudar, via o que era melhor defender, saía defendendo sem vinculação com o partido". Essa clítica, Sérgio a estende à atuação de Jango na presidência nacional e à de Fer nando Ferrari na liderança do paItido na Câmara Federal (Magalhães, 1 978 e 1 985).
Os dois depoimentos coincidem num ponto impoltante. Isto é, enquanto se for mava por todo o Brasil uma poderosa rede de comando vinculada a Jango, Lutero, Brizola e Tvete, os dirigentes, por contarem com a consolidação de sua força interna, podiam na prática daI· liberdade de atuação parlamentaI· aos eleitos pelo partido. Para o PTB, o estilo de atuação parlamentar referendava a prática do mandato livre sempre e desde que os paI·lamentares se ativessem às questões nacionais. Em outros termos, enquanto não ameaçassem o comando administrativo e eleitoral do partido, tudo seria permitido. Estava vedado, portanto, imiscuú·em-se nas questões internas, assunto que dizia respeito tão-somente aos donos da agremiação e a seus pares de confiança. Esse modelo foi seguido à lisca, e selia cada vez mais fácil observar, a partir de então, a realização de acordos e alianças com setores de esquerda preocupados com as "grandes políticas" e as "grandes reformas". Ao mesmo tempo, o paItido, devidamente controlado pela cúpula, podia também ampliar suas alianças com os setores conservadores.
A estratégia que visava o controle do partido por um pequeno grupo dava força descomunal aos dirigentes. Como donos da agremiação, eles eram inter-
locutores legítimos para barganhar parcelas de recursos nas administrações federal e regional. Se isso corroborava o prestígio dos chefes, permitia ao mesmo tempo que o ?TB continuasse ampliando suas redes de c1ientelismo. Nada podia ser mais complementar a essa estratégia do que a insistência crescente na formulação de um discurso articulado, que, acompanhando as tendências ideológicas da época, dava como prioridade e como marca primeira do PTB a defesa da soberania na cional, do nacionalismo econôrruco, da estatização e das reformas.
No Distrito Federal, Lutero conservou assim a chefia absoluta da seção, mes mo no momento em que o PTB carioca fornecia os quadros parlamentares que mais se notabilizaram pela reivindicação de reformas estruturais na política e na econorrua. Convivendo com os parlamentares notáveis do partido - Sérgio Ma galhães, Eloy Dutra, Rubens Berardo -, consolidou-se na seção o monopólio de posições de mando por um grupo leal a Lutero, que nunca ou raras vezes se sub meteu ao crivo das urnas. 1 00 Este grupo controlou a seção carioca mesmo em mo mentos marcantes, como as eleições estaduais de 1 960 e de 1 962, quando o PTB local era a expressão maior da luta nacionalista e antilacerdista. Apesar de algumas perdas eleitorais significativas, como a de 1 960 para o governo da Guanabara, o PTB carioca esteve sempre no centro dos acontecimentos e, sintomaticamente, era Lutero quem ocupava a presidência nacional do partido quando da cassação de João Goulart.