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2.4 Procedimentos de pesquisa

2.4.2 As entrevistas

A entrevista como um procedimento de coleta de dados foi adotada para que as observações fossem complementadas. A intenção era que elas trouxessem alguns esclarecimentos sobre diversos aspectos do recreio, das relações estabelecidas com a música, as ações que a envolvem, os meios utilizados para tanto e as formas de ensino/aprendizagem musical no recreio. Vale destacar que as observações não foram suficientes para compreender os aspectos concernentes ao objeto de estudo.

Segundo Gil (2009, p. 63), a entrevista é uma técnica eficiente para obtenção de dados em profundidade e “quando bem conduzida, possibilita o esclarecimento até mesmo de fatores inconscientes que determinam o comportamento humano”. A estrutura da entrevista adotada foi, segundo a classificação desse autor (2009, p. 64), de “entrevistas guiadas”, sendo que nessa modalidade as informações são “especificadas previamente, mas o pesquisador define sua sequência e formulação no curso da entrevista. Têm como principal vantagem a adequação da entrevista às características do entrevistado” (GIL, 2009, p. 64). Além disso, esse tipo de entrevista é flexível e se adapta bem às pessoas e circunstâncias em que é realizada (Ibidem).

Como já dito, as primeiras entrevistas foram individuais e realizadas no segundo semestre de 2011 com as crianças do 5º ano, as quais sairiam da escola ao final daquele ano letivo. Havia três salas de aula desse nível, sendo que foram realizadas entrevistas com quatro crianças de cada uma delas, totalizando 12 entrevistas. Tais entrevistas só puderam ser feitas na última semana de aula, pois anteriormente os alunos estavam sendo avaliados. Dessa forma, por já terem realizado as provas e ser a última semana, muitos alunos não foram à escola, levando-me a escolher alunos, dentre os presentes, para serem entrevistados.

Já em 2012, as entrevistas com as crianças foram coletivas, uma para cada ano do Ensino Fundamental. Assim, houve cinco entrevistas com o número de participantes variando de dois a seis alunos. Cada entrevista teve duração de aproximadamente uma hora e dez minutos, e foram realizadas na primeira semana de aula do segundo semestre de 2012.

As primeiras entrevistas realizadas individualmente foram bastante interessantes, mas foi possível notar certa vergonha por parte de algumas crianças em expor suas ideias. Além disso, havia situações em que elas não sabiam como se expressar e não desenvolviam o pensamento. Por isso busquei fazer as entrevistas de 2012 de forma coletiva, acreditando que as crianças desenvolveriam os assuntos e se sentiriam menos envergonhadas.

No quadro a seguir é possível visualizar os entrevistados, o tipo de entrevista realizado, o dia, a duração e o ano a que pertenciam as crianças no momento da entrevista. Ele está organizado pela ordem de realização das entrevistas.

DATA PARTICIPANTES TIPO DE ENTREVISTA

DURAÇÃO ANO

ESCOLAR

12/12/2011 Pedro21 Individual 16 min 5º ano

12/12/2011 Franciele Individual 21 min 5º ano

12/12/2011 Iasmim Individual 20 min 5º ano

12/12/2011 Roberta Individual 20 min 5º ano

12/12/2011 Ana Luiza Individual 19 min 28 s 5º ano

12/12/2011 Gustavo Individual 11 min 37 s 5º ano

12/12/2011 Vitória Individual 13 min 28 s 5º ano

12/12/2011 Leo Individual 11 min 39 s 5º ano

12/12/2011 Alana Individual 21 min 32 s 5º ano

13/12/2011 Neymar Individual 20 min 39 s 5º ano

13/12/2011 Guilherme Individual 22 min 19 s 5º ano

13/12/2011 Luciana Individual 25 min 5º ano

8/5/2012 Diretora Individual 49 min 30 s ---

19/6/2012 Funcionária Individual 1h 19min ---

8/8/2012 Andressa Coletiva 50 min 1º ano

8/8/2012 Daiane Coletiva 50 min 1º ano

8/8/2012 Murilo Coletiva 50 min 1º ano

8/8/2012 Chiclete Coletiva 50 min 1º ano

8/8/2012 Helena Coletiva 36 min 5º ano

8/8/2012 Luiza Coletiva 36 min 5º ano

8/8/2012 Lili Coletiva 55 min 2º ano

8/8/2012 Isabela Coletiva 55 min 2º ano

8/8/2012 Larissa Coletiva 55 min 2º ano

8/8/2012 Igor Coletiva 55 min 2º ano

8/8/2012 Jade Coletiva 55 min 2º ano

13/8/2012 Rebeca Coletiva 1 h 09 min 3º ano

13/8/2012 Felipe Coletiva 1 h 09 min 3º ano

13/8/2012 Maria Alice Coletiva 1 h 09 min 3º ano

13/8/2012 Sofia Coletiva 48 min 4º ano

13/8/2012 Lua Coletiva 48 min 4º ano

13/8/2012 Carla Coletiva 48 min 4º ano

13/8/2012 Fernanda Coletiva 48 min 4º ano

Quadro 1 – Lista das crianças entrevistadas. Fonte: Elaboração da autora.

Os roteiros das entrevistas foram elaborados com o intuito de entender o pensamento e o relacionamento das crianças com o recreio, e a visão delas no que tange à música nesse espaço/tempo escolar, além de tentar entender como a música está presente no dia a dia das crianças, dentro e fora da escola (APÊNDICES B e C).

Em relação às entrevistas realizadas com as crianças em 2011 (APÊNDICE B), as que foram feitas em 2012 (APÊNDICE C) tiveram algumas modificações no seu roteiro. Isso se deve ao fato de terem sido observados assuntos que não foram contemplados nas primeiras entrevistas, e havia questões que não ajudavam a compreender o fenômeno estudado.

2.4.2.1 Entrevistando os participantes da pesquisa

Todas as entrevistas com as crianças foram realizadas em uma sala de aula vazia, com gravação do áudio, em horário consentido por direção e professores.

Entrevistar crianças foi um grande desafio. Era preciso entender a perspectiva delas ao olhar para a escola, as relações que estabelecem com a instituição e com o recreio, o significado desse momento escolar, a opinião desses alunos a respeito da estrutura do recreio e a relação com a música nesse espaço. Para isso, as crianças tinham que sentir que era verdadeiro o meu respeito e o meu interesse pelo que estava sendo dito por elas nas entrevistas.

Durante as entrevistas percebo que houve uma melhora na maneira como eu me portava diante dos entrevistados. No início havia mais dificuldade em formular questões imediatas, com vistas a explorar um determinado assunto, mas com tempo fui superando minhas dificuldades.

Faz-se necessário destacar duas diferenças significativas que apareceram durante as entrevistas: a primeira é a entrevista de crianças de idades diferentes; e a segunda é a realização da entrevista individual e coletivamente.

No caso dessa pesquisa, nas entrevistas realizadas com as crianças dos primeiros anos, era necessário retomar as perguntas, pois mudavam de assunto constantemente. Também era preciso refazer os questionamentos para que elas pudessem compreendê-las. Já com as maiores isso não ocorreu, uma vez que compreendiam as perguntas. No entanto, elas ficavam envergonhadas para falar e respondiam sucintamente com poucas palavras; logo, várias perguntas diferentes foram feitas para uma mesma questão, insistindo mais em alguns pontos durante as entrevistas.

Houve significativa diferença em fazer as entrevistas individualmente e coletivamente. Na primeira situação, as crianças se mostraram mais tímidas, mas puderam desenvolver os pensamentos com calma e sem interrupções. Já nas entrevistas coletivas elas se soltaram muito mais, obtendo-se um número maior de dados. Conforme se lembravam de acontecimentos variados, os colegas ajudavam a completar o pensamento e traziam novas ideias. No entanto, essa modalidade foi mais tumultuada: os estudantes não tinham paciência de esperar o colega terminar seu discurso e, muitas vezes, era necessário interferir para que não falassem ao mesmo tempo e deixassem os colegas mais tímidos participarem.

A entrevista com a funcionária foi realizada enquanto limpava algumas salas de aula num dia em que não havia crianças na escola. Isso foi feito porque ela não poderia parar suas atividades para participar da entrevista e também não seria possível realizá-la após o seu expediente. Ela não teve nenhuma pressa em responder as questões porque estava executando seu trabalho, mas houve duas interrupções na entrevista para a troca de sala.

2.4.2.2 Transcrição e textualização das entrevistas

As entrevistas foram registradas em gravação de áudio e, posteriormente, transcritas por meio da audição, em que se somaram 240 páginas de transcrição.

Nas entrevistas coletivas foi feito “mapa” da posição de cada criança ocupava no círculo no momento da entrevista, para facilitar a orientação durante as transcrições e criar uma imagem visual de modo a facilitar a identificação dos alunos.

Ao transcrever as entrevistas foi possível pensar tanto o meu papel como pesquisadora quanto como entrevistadora: atuação, postura ao ouvir a criança, a diretora e a funcionária, posicionamento, impacto das perguntas realizadas e da percepção dos entrevistados. Dessa forma, o momento foi importante para refletir e repensar alguns aspectos em relação a mim enquanto investigadora, atentando-me à importância de gestos, expressões faciais e questões colocadas ao entrevistado conforme as respostas obtidas.

Os dados transcritos foram organizados em ordem de realização das entrevistas, impressos e encadernados. Organizei um caderno contendo todos os dados, ordenados pela data das observações, e as transcrições das entrevistas. Esse caderno com os dados somou 348 páginas22.

As transcrições foram textualizadas de forma que, com o uso das pontuações corretas, o leitor pudesse compreender os diálogos com as intenções imbricadas pelos entrevistados na linguagem oral. Busquei também esclarecer pontos voltados à coerência no texto, algo importante porque, na linguagem escrita, não é possível perceber os gestos, as entoações minhas e do entrevistado, e as situações entendidas apenas dentro do contexto do diálogo que, ao ser recortado na análise, perderia o sentido.