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4 NOVAS PERSPECTIVAS PARA OS DIREITOS AUTORAIS E PROPOSTAS DE

4.2 Novas perspectivas para os direitos autorais no século XXI

4.2.2 As licenças alternativas: Copyleft e Creative Commons

expressões desta função social, mas com ela não se confundindo63.

Em verdade, vai-se além disso, ao se defender que os direitos autorais são, como todos os direitos, uma situação de vantagem resultante de um complexo de poderes e deveres que a constituem; e os limites são constitutivos do próprio direito autoral, exatamente nos mesmos termos e com a mesma dignidade das regras atributivas de poderes (ASCENSÃO, 2010, p. 39).

Por este prisma, as atuais limitações aos direitos autorais existentes estão longe de refletir um equilíbrio às atribuições (poderes e deveres) privadas e coletivas, uma vez que ainda são restritas exceções que “só muito relutantemente abrem espaços na absolutidade tendencial do direito de autor” (ASCENSÃO, 2010, p. 40).

Assim, em nome da função social da propriedade intelectual, de um novo equilíbrio entre os interesses privado e coletivo sobre as obras culturais, as propostas de ampliação desses limites aos direitos autorais tem aumentado, mormente após a febre do compartilhamento de obras culturais pela Internet.

Por exemplo, propõe-se a permissão da cópia de todo o exemplar da obra para fins educacionais, ou para uso pessoal (incluindo aqui o download de arquivos da Rede). Também muitas são as sugestões de se incluir entre as hipóteses de limitações uma cláusula aberta, como o fair use, a fim de se conferir uma melhor adaptabilidade à lei para enquadrar casos que seriam impossíveis de listar exaustivamente.

4.2.2 As licenças alternativas: Copyleft e Creative Commons

O movimento de desconstrução do conceito de direitos autorais como propriedade não para por aí. Uma nova abordagem de proteção às obras culturais tem sido pregada como alternativa ao atual regime de direitos autorais. São propostas de uso de novas práticas contratuais baseadas nos novos modelos de negócio viáveis aos autores das obras com o advento da Internet e das novas tecnologias digitais.

63 Segundo JOSÉ AFONSO DA SILVA (2007, p. 281-282): “A função social da propriedade não se confunde

com os sistemas de limitação à propriedade. Estes dizem respeito ao exercício do direito, ao proprietário; aquela, à estrutura do direito mesmo, à propriedade”. Cumpre observar, ainda, que o mesmo autor anota que a funcionalização da propriedade é um processo longo, pelo que se diz, em conformidade com a doutrina de Karl Renner, que a propriedade sempre teve uma função social, a qual se modifica com as alterações na relação de produção.

A primeira proposta nesse sentido foi o Copyleft, conceito que surgiu nos Estados Unidos, ainda na década de 70, em contraponto ao sistema de copyright (o próprio nome revela o contraste pretendido: left quer dizer “esquerda”; enquanto right, “direita”).

Nasceu da idéia de se valer das facilidades da informática para a criação de

softwares livres (programas de computador com código-fonte aberto), a fim de que outros

programadores pudessem modificar, aperfeiçoar e compartilhar os programas.

Para que isso fosse possível desenvolveu-se um tipo de licença autoral pública que permitisse ao autor de um software manter seus direitos morais de autor (já que, se simplesmente liberasse o programa ao domínio público, qualquer pessoa ou empresa poderia apoderar-se dele, comercializando-o como um produto fechado a alterações) ao mesmo tempo em que autoriza a cópia, a modificação e a criação de extensões, desde que o trabalho permaneça livre para continuar sendo alterado e utilizado por outras pessoas (BRITO, 2008, p. 43).

A popularização das licenças Copyleft ocorreu através do desenvolvimento de programas de computador. Porém, diferentemente do que se pode intuir, a atribuição de liberdade a um programa ou a qualquer outro trabalho não afasta a possibilidade de que o mesmo seja comercializado com sucesso. O sistema operacional Linux é uma prova dessa premissa, juntamente com empresas organizadas em torno do modelo de software livre como a Red Hat, a Cygnus e a brasileira Conectiva (LEMOS, 2005, p. 76 apud BRITO, 2008, p. 44).

Com o desenvolvimento da informática, principalmente após o advento da Internet, o movimento de softwares livres por meio de licenças públicas Copyleft avançou consideravelmente sobre outros tipos de arquivos digitais, visando não apenas à comercialização, mas principalmente ao fomento da produção de conhecimento e cultura:

[...] o movimento do software livre é a maior expressão da imaginação dissidente de uma sociedade que busca mais do que a sua comercialização. Trata-se de um movimento baseado no princípio do compartilhamento do conhecimento e na solidariedade praticada pela inteligência coletiva conectada na rede mundial de computadores (SILVEIRA).

O grande mérito do Copyleft, portanto, não está no aspecto financeiro, mas na criação um modelo colaborativo e solidário de produção, que no faz perceber uma mudança no próprio conceito de autoria, agora não mais individual, mas coletiva. Citando Yochai Benkler, Bráulio Araújo (2008, p. 39) aduz que esse modelo de produção está sendo chamado de Economia Colaborativa:

[...] a economia colaborativa é a forma de produção na qual os fatores de produção são utilizados livremente pelos agentes de produção, sem as restrições do mercado e da estrutura empresarial, em especial, sem a tutela do direito de propriedade. Ela baseia-se na idéia de colaboração, de solidariedade e de criação coletiva (horizontal) em contraposição à idéia de propriedade privada e de hierarquia (vertical) na organização dos fatores de produção. Trata-se de uma forma de produção mais adequada para uma produção que envolve bens intangíveis, não exclusivos e não rivais, como a informação.

Na área da música essa nova forma de produção tem sido implementada principalmente através das licenças Creative Commons, instituídas em 2002 pela organização não-governamental norte-americana de mesmo nome, idealizada pelo professor Lawrence Lessig da Universidade de Stanford (EUA) (ALVES, 2009, p. 124).

Trata-se de uma série de licenças inspiradas no modelo do Copyleft que em oposição ao slogan do Copyright, “todos os direitos reservados”, pregam a premissa “alguns direitos reservados”, possibilitando que autores e criadores possam compartilhar suas obras dispondo de algumas prerrogativas, como o uso, distribuição, modificação, execução e cópia livre (CREATIVE COMMONS BRASIL).

As modalidades de licenciamento Creative Commons vão desde permitir apenas a cópia sem fins lucrativos até a modificação da obra original64. As diversas licenças poderão ser associadas umas as outras, e isto possibilita uma enorme gama de licenças derivadas.

Em última análise, são contratos realizados entre autor e sociedade. Instrumentos jurídicos para que o autor que queira disponibilizar sua obra para cópia, distribuição e uso livre ou mesmo para modificação, reinterpretação e recriação, possa fazê-lo sem a necessidade de intermediários industriais e de contratar um advogado para redigir uma licença particular; até mesmo porque a anuência do autor já consta expressa e anexada ao próprio trabalho (BRITO, 2008, p. 45).

Na prática, funciona da seguinte maneira: o autor interessado deve ir ao site www.creativecommons.org, registrar sua obra e estabelecer qual licença irá usar. A partir daí, o autor pode compartilhar sua obra com a utilização dos ícones criados pelo Creative

Commons para cada atribuição permitida. Assim, a pessoa que quiser usar a obra, para

qualquer fim, não precisará solicitar a permissão do criador, uma vez que fica claro para todos os limites de utilização da obra. Se houver dúvidas, todos os termos da licença estão no

64 Para mais informações sobre as atribuições de cada licença: <http://creativecommons.org/licenses/>. Acesso em 24 out. 2011.

referido site. Além disso, se alguém quiser usar a obra para algum fim que não foi permitido, será mais fácil localizar o titular originário, já que seus dados estão cadastrados no site.

Deve-se notar, entretanto, que o Creative Commons não se opõe à idéia de direito autoral como propriedade, antes fundamenta-se na titularidade do autor, o qual, de acordo com sua vontade, pode autorizar certos usos do seu trabalho publicamente.

Essa é a maior crítica dirigida ao projeto: “A preocupação primária não é, portanto, o caráter público e coletivo da criação, mas a destinação que o autor deseja dar à sua obra. Há uma adesão ao conceito do autor proprietário” (RICHARDSON; KLEINER apud ARAÚJO, 2008, p. 51)

Apesar disso, reconhece-se que as licenças Creative Commons, juntamente com os outros tipos de licenciamento alternativo (Copyleft e Anticopyright65), têm servido, antes de tudo, para melhorar o atual quadro de injustiças do mercado da música e também do mercado cultural como um todo.

As chamadas genericamente de licenças alternativas têm valorizado o papel do autor e dos consumidores na produção cultural, estabelecendo uma aproximação entre os dois agentes, independentemente dos intermediários da cadeia produtiva.

Ademais, tais licenças têm sido utilizadas como um caminho alternativo aos direitos autorais, questionando não só sua sistemática de funcionamento, mas sua estrutura normativa também, pois em muitos casos são a prova de que os autores e criadores não necessitam de todo o protecionismo do atual regime para serem reconhecidos e terem suas obras protegidas e comercializadas.

A utilização das licenças autorais alternativas vem crescendo rapidamente nos últimos anos. De acordo com Bráulio Araújo (2008, p. 53):

Já citamos aqui o exemplo de sucesso do software livre que utiliza licenças baseadas no conceito de copyleft. O Pyrate Bay, um dos trackers de BitTorrent mais utilizados pela comunidade P2P, é ligado ao blog Copyriot que fomenta o compartilhamento de obras culturais sem copyright, em uma prática que se assemelha à do anticopyright. Além disso, temos um aumento expressivo das obras licenciadas em licenças creative commons. Artistas como Gilberto Gil, Mombojó, o coletivo pernambucano Re:Combo e bandas americanas como o Beastie Boys [Radiohead também] utilizam o creative commons para licenciar suas músicas.

65 Segundo Bráulio Araújo (2008, p. 47), o Anticopyright é: “a licença de direito autoral por meio da qual o autor renuncia a todos os seus direitos. Trata-se do inverso do direito autoral, ou seja, todos os direitos reservados ao autor são liberados, conferindo ao usuário da obra intelectual o direito copiar, distribuir, exibir e executar livremente a obra e ainda de criar obras, derivadas com finalidade de lucro ou não. Por meio desta licença, nenhuma obrigação é imposta ao usuário, nem mesmo a de compartilhar a obra original ou qualquer obra derivada da mesma forma que a obra original. Essa licença é conhecida pela frase ‘todos os direitos dispersos’.”

Isso é somente uma amostra das iniciativas que utilizam licenças abertas, muitas outras surgem no Brasil e no mundo66. Ressalte-se que não só autores consagrados (Radiohead, Gilberto Gil etc.), mas também novos autores (como Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju etc.) têm aproveitado as vantagens das licenças alternativas. Isso só vem a ratificar as mudanças preconizadas no mercado da música e os efeitos da Cauda Longa.

Por certo, vários artistas já perceberam que a flexibilização dos direitos autorais pode, ao contrário do que muitos advogam, trazer muitos benefícios. Assim, a democratização dos meios de produção e de distribuição e a aproximação entre a oferta e a demanda tem sido de bom proveito tanto para novos modelos de negócio (vlogs financiados por publicidade, a comercialização de ringtones para celulares etc.) como para os tradicionais (show e venda de CDs e DVDs).

Por tudo isso, reconhece-se que as licenças autorais alternativas são também um rompimento com a noção de propriedade intelectual, pela qual a informação seria algo passível de apropriação individualmente. Assim, contribuem também para a tendência de reformulação dos direitos autorais no atual século.

Há quem preveja, em um tom um tanto profético, mesmo o fim dos direitos autorais. Não é o que prega o presente trabalho; defende-se, porém, que o direito de autor deve, gradativamente, deixar o conceito meramente individualista, ou exclusivista, para desenvolver suas atribuições públicas, ou coletivas, adequando-se com mais eficácia à natureza intangível da informação e às modernas práticas de colaboração e compartilhamento.