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As recessões de 1974-75 e 1981-1982 e seus fundamentos

Depois de um certo período de bonança da economia mundial, entre 1945 e o final dos anos de 1960, a década de 70, particularmente os anos de 1974-1975, apresentam a primeira recessão coordenada nas principais potências da economia mundial, com um alcance significativo e apresentando os sintomas da decadência do padrão de acumulação do pós-guerra.

Conforme podemos ver no gráfico extraído do site do Banco Mundial sobre o crescimento mundial, em que podemos localizar essa crise42:

Figura 8. Evolução do Produto Interno Bruto Mundial (1960-2016)

Como se pode ver, a economia mundial cresceu em 1973 a uma taxa de 6,5% ao ano. Já em 1974 seu crescimento cai para 2% e em 1975 passa para 0,7%, ou seja, uma queda abrupta do PIB internacional, com recessão nas potências. A queda da economia mundial no final dos 1970 também se expressa no gráfico, com a recessão nas potências e no crescimento mundial, que também sofre uma queda atingindo o nível mais baixo em 1982, com pequenos 0,3% de crescimento.

É interessante notar, no entanto, que a queda abrupta do crescimento se combina com eventos decisivos: o fim dos acordos de Bretton Woods em 1971, seguido da adoção do sistema de câmbio flutuante e o primeiro “choque do petróleo”. O período de boom parcial das forças produtivas com o pós-Segunda Guerra Mundial encontrou seus limites nos inícios dos anos 1970. As respostas, portanto, a esse processo estão na base da crise e vão se expressar com toda força na recessão internacional nas potências.

2.2.1 Segunda Guerra mundial como “destruição criativa”

Como já afirmamos, estamos no campo dos que advogam que, para se entender a dinâmica dos fatores de crise gestados no pré-2008, é realmente importante ter em mente a crise dos 1970 e as debilidades em dar soluções eficazes que terminam por acumular novas e mais duradouras contradições.

A obra The Failure of Capitalist prodution, Underlying Causes of the Great

Recession, de Andrew Kliman, é uma das que busca retornar aos anos de 1970 como

parte de entender as raízes da crise de 2008. Para os efeitos do que queremos apontar, podemos retomar a síntese que o autor buscou oferecer na introdução de sua obra. Para tanto compara a Segunda Guerra Mundial e as soluções da crise dos 1970 a partir da famosa lei econômica exposta em O Capital sobre a queda tendencial da taxa de lucro. Afirma Kliman:

A taxa de lucro – ou seja, o percentual de lucro da quantidade de dinheiro investido – tem uma tendência persistente em cair. No entanto, essa tendência é revertida pelo que John Fullarton, Karl Marx e outros chamaram de “destruição de capital” - perdas causadas pelo declínio dos valores de ativos de capital financeiros e materiais, ou a destruição de ativos materiais em si mesmos (KLIMAN, 2011, p. 3, tradução nossa).

Aqui se coloca um ponto importante que nos convida à análise da dinâmica do capital para fatores que podem ser externos a essa dinâmica: uma das soluções para a queda tendencial da taxa de lucro e a dinâmica autodestrutiva do capital pode ser, ironicamente, sua própria destruição, ou seja, a eliminação de seu valor ou mesmo física de seus ativos e a necessidade subsequente de reconstruir essa mesma dinâmica. A partir da visão de que a destruição do capital pode ser uma das soluções da crise, o autor completa:

Paradoxalmente, esses processos também reestabelecem a lucratividade e assim preparam o terreno para um novo boom, como o boom que seguiu a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Durante a queda da economia global de meados dos anos 70 e no início dos 80, contudo, foram destruídos muito menos capitais do que o foi durante a Depressão e a Guerra Mundial conseguinte. A diferença é consequência principalmente de política econômica. A quantidade de valores de capitais que foram destruídas durante

a Depressão foi muito maior do que os defensores das políticas de laissez- faire esperavam, e a persistência de condições depressivas severas levaram a radicalização significante da população trabalhadora. Legisladores não quiseram que isso acontecesse novamente, então agora eles interveem com políticas monetárias e fiscais para prevenir a destruição de valores de capitais em larga escala. Isso explica porque as mudanças para baixo subsequentes na economia não vem sendo semelhantemente severas como as da Depressão. Mas, como muito menos valores de capitais foram destruídos durante os anos 70 e início dos 80 do que foi destruído nos anos 30 e início dos 40, o declínio na taxa de lucro não foi revertido. E como não foi revertido, a lucratividade continuou a um nível insuficiente para sustentar um novo boom (KLIMAN, 2011, p. 3, tradução nossa).

O que Kliman quer dizer nessa passagem é que a solução dada nos anos de 1970 não pôde mais que postergar as contradições de superprodução, evidenciada pela recessão. Podemos dizer que se buscou criar um padrão de acumulação, uma longa fase da acumulação capitalista baseada em novos pressupostos, mas sem responder às contradições mais a longo prazo. Segundo ele, isso só seria possível parcialmente, com uma nova destruição massiva de capitais. Lembremos que o mundo havia acabado de sair de uma Guerra Mundial, com uma série de processos revolucionários e com a União Soviética ainda vigente, de modo que uma solução desse tipo seria catastrófica, demasiado arriscada e imponderável para o capital.

Entretanto, falar na solução de “destruição” da Segunda Guerra Mundial não é uma novidade ou um jargão; mesmo a partir do ponto de vista apologético do capital, tal tendência é analisada explicitamente. Um exemplo disso é o economista austríaco Joseph Schumpeter, por se tratar de um dos que empregaram o conceito de “destruição criativa”, usada para se referir ao que define como dinâmica “evolucionária” do capitalismo, de transformação permanente, analisa essa tendência à “destruição criativa” como uma tendência endógena. Sem asseverar que “revoluções” e “guerras” sejam a principal força motriz, fica implícito que são, no mínimo, fatores relevantes:

O capitalismo é, por natureza, uma forma ou método de transformação econômica e não só não é, como não pode ser estacionária. E o caráter evolucionário do processo capitalista não se deve meramente ao fato de a vida econômica transcorrer em um ambiente social e natural que se transforma incessantemente e cujas transformações alteram os dados da ação econômica; esse fato é importante e essas mudanças (guerras, revoluções e assim por diante) geralmente condicionam as mutações industriais, mas não são a sua principal causa motriz ([…]. A abertura de novos mercados, estrangeiros ou nacionais, e o desenvolvimento

organizacional da oficina de artesão e da manufatura para os conglomerados como a U.S. Steel ilustram o mesmo processo de mutação industrial que revoluciona incessantemente a estrutura econômica de dentro para fora, destruindo incessantemente a antiga, criando incessantemente a nova. Esse processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo (SCHUMPETER, 2017, p. 119-120).

A “destruição criativa” do austríaco Schumpeter, podemos dizer, a despeito de admitir fatores externos, coloca ênfase nas transformações “de dentro para fora”. Ao fazer isso, torna-se uma versão soft se comparada à versão keynesiana de um dos grandes nomes da escola na atualidade, Paul Krugman. Em comentário à obra Teoria

Geral de John Maynard Keynes, escreve:

Seria uma história maravilhosa se a Teoria Geral tivesse mostrado ao mundo o caminho para sair da depressão. Infelizmente, para beleza da fábula, não foi bem isso o que aconteceu. O programa de obras públicas gigantescas, que instaurou o pleno emprego, também conhecido pelo nome de Segunda Guerra Mundial, foi lançado por razões não relacionadas com a teoria macroeconômica (KRUGMAN, 2012, p. 24).

A forma crua e explícita com a que Krugman aponta o papel que a Segunda Guerra Mundial teve para o reequilíbrio capitalista e o desenvolvimento dos “anos dourados” é impressionante. Os “anos keynesianos” de pleno emprego e crescimento estiveram diretamente embasados na destruição brutal promovida na guerra e, acrescentaríamos, a superexploração do trabalho desenvolvida pelas potências em anos de guerra, sobretudo, pelas bases reacionárias que haviam sido deixadas pelo fascismo.

Tanto para autores marxistas como para não marxistas é um dado a importância da transformação incessante no capitalismo das condições de produção à “destruição criativa”, nos termos de Schumpeter. Nós acrescentaríamos, com destaque para os fatores externos, em particular à Segunda Guerra Mundial, o boom parcial surgido das forças produtivas na “era de ouro”.

2.2.2 1973: uma crise clássica de superprodução

No calor dos acontecimentos, o economista belga Ernest Mandel foi uma das principais cabeças a fazer a leitura da crise dos 1970 a partir desse marco. Em uma série de artigos sintetizados no livro A Crise do Capital, Mandel, partindo da relação entre o ciclo econômico aberto no pós-1945 com a crise que vai se estabelecer na década de 70, busca se defrontar com todas as interpretações que queriam ver nessa uma mera crise conjuntural, desencadeada pelos “xeiques” do petróleo ou mesmo advinda do aumento excessivo dos salários, como defendiam alguns dos economistas neoliberais do período abordados por Mandel, como Émilie Claassen, Pascal Salin, J. Rueff e o conhecido nome da escola de Chicago Milton Friedman.

Para o marxista belga, ao contrário, a crise que aí se instala comprovava aspectos clássicos da teoria de Marx na análise das crises na medida em que o que está em sua base eram contradições mais profundas da própria dinâmica do capital e da economia mundial no pós-guerra, e não apenas decisões conjunturais de política econômica de um ou outro governo naqueles anos. Conforme escreveu:

A inversão da “onda longa expansiva” que vai dos anos 40 ao fim dos anos 60 é igualmente clássica. A expansão acelerada de longa duração do pós- guerra resultava da superexploração da classe operária realizada pelo fascismo e pela II Guerra Mundial (nos EUA, a Guerra Fria e seus efeitos desastrosos sobre o movimento operário), que permitiu uma alta pronunciada da taxa de mais-valia e, dessa forma, da taxa de lucro. Tal fato levou a uma acumulação amplificada de capitais, utilizada para tornar possível pôr em marcha em grande escala a terceira revolução tecnológica (semiautomação, energia nuclear). Aumentando consideravelmente a produção de mais-valia relativa e os superlucros dos monopólios tecnologicamente de ponta (“rendas tecnológicas”), essa revolução permitiu o prolongamento da expansão em condições “ideais” para o capital – ao mesmo tempo, com uma taxa de lucro elevada e um nível de vida real das massas trabalhadoras em elevação, isto é, um mercado em expansão (MANDEL, 1990, p. 26-27).

Tendo isso em vista, Mandel podia argumentar de forma categórica, contra toda a análise, tornada moda, que entendeu a crise dos 1970 como uma crise do petróleo, que “a recessão generalizada de 1974-1975 [se tratava] de uma crise clássica de superprodução” (MANDEL 1900). O economista belga explica a crise de superprodução com distintos dados que poderíamos sintetizar em dois aspectos.

O primeiro consiste no enorme crescimento do que ele pontua como taxa de

utilização da capacidade produtiva da indústria manufatureira, cuja queda sistemática

a partir de 1966 atingiu pelo menos 25% nos anos de recessão (MANDEL, 1990). O enorme parque industrial norte-americano começa a reduzir sua produção em função da crise de superprodução latente na sociedade (mais já claramente visualizada nos cálculos industriais). Com a explosão do consumismo e a chamada Era de Ouro, os efeitos da passagem do boom parcial do pós-Segunda Guerra para os anos de recessão foram sendo postergados por meio da alta inflação e da redução da produção. Os impactos desse estado de coisas foram sendo sentidos paulatinamente em distintas potências no final dos anos de 1960, até que as contradições da superprodução não podiam ser mais evitadas e advém a recessão da década de 70.

O segundo aspecto que apresenta Mandel, também relacionado à análise clássica de O Capital, de Marx – patente e interligada a superprodução –, é o efeito crescente de quedas nas taxas de lucro nas principais potências. O aumento da exploração com a mais-valia relativa, conjuntamente aos “superlucros” e dada a explosão dos monopólios tecnológicos, levava necessariamente a um aumento da composição orgânica do capital, ou seja, a um aumento da produtividade e inserção de maquinaria na esfera da produção em paralelo com o aumento do desemprego e o número cada vez mais reduzido do capital variável, o número de trabalhadores nas fábricas e esferas de produção. Mandel aponta um dado de 17 milhões de desempregados nas potências, um número bem alto para o período (MANDEL, 1990, p. 15).

Daqui que as taxas de lucro necessariamente tenderiam a cair e esse fenômeno também é claramente visualizável nos finais dos anos de 1960, estando na raiz da recessão econômica das potências. Assim, o problema da queda tendencial das taxas de lucro torna-se um aspecto central para nos debruçarmos se quisermos entender a fase que se abre após a recessão e por que, mesmo muitos anos antes da crise de 2007-2008, economistas já podiam prever o estourar da bolha imobiliária.

Antes de adentrarmos ao caso concreto da crise dos 1970 e os anos neoliberais a partir da análise da queda tendencial das taxas de lucro, achamos conveniente dar uma breve explicação sobre o problema no interior da teoria de Karl Marx e, particularmente, da obra O Capital. Em A crise capitalista e suas formas (TONELO, 2016), buscamos trabalhar com quatro fundamentos gerais na teoria marxista da crise econômica: a crise de superprodução, sobreacumulação, a crise financeira e a crise social-produtiva.43 A combinação desses elementos no processo vivo, no tempo e espaço (tomadas do ponto de vista internacional) é, no entanto, altamente complexa, a saber, porque elas se combinam em diferentes momentos e em distintos lugares do globo, até se consumar em um salto de qualidade como uma recessão global ou uma depressão.

E dentro da análise dos aspectos da crise capitalista, sem dúvida um componente fundamental é o que ficou conhecida como lei da queda tendencial da

taxa de lucro.

Os traços gerais da lei se referem, como coloca Marx, ao:

O fenômeno, derivado da natureza do modo capitalista de produção, de que com uma produtividade crescente do trabalho diminui o preço da mercadoria individual ou de uma quantidade dada de mercadorias, aumenta o número das mercadorias, diminui a massa de lucro por mercadoria individual e a taxa de lucro sobre a soma das mercadorias, ao mesmo tempo que aumenta a massa de lucro sobre a soma total das mercadorias (MARX, 2017, p. 268).

Nesse sentido, ao aumentar a produtividade, os capitalistas vão diminuindo cada vez mais o valor de cada uma de suas mercadorias (e aumentando a quantidade) e, por consequência, devem vender mais mercadorias para compensar seus lucros, o que deve ser embasado num aumento do consumo; esse movimento iria até o ponto em que, dada a enxurrada de mercadorias num mercado global – atrelada ao fato de que com a produtividade aumentada, o desemprego também cresceria – chegar-se- ia a um ponto de crise de superprodução. A outra face disso, ditada pela mesma lei, estaria no fato de que, com o aumento da produtividade e não conseguindo os capitais escoarem seu montante de riqueza nova para outros nichos de produção (por distintos motivos econômicos, por exemplo, pela saturação proveniente da superprodução),

seriam obtidos dados capitais incapazes de novos investimentos produtivos que permitissem outra acumulação, rompendo-se o ciclo de reprodução ampliada e gerando a crise de sobreacumulação.

Dito isso, acrescentemos apenas que consideramos fundamental levar em conta como esse aspecto da teoria marxista é um determinante da crise capitalista dos 1970 e das reviravoltas do capital para buscar sair dessa crise. Em um texto também escrito ao calor dos acontecimentos de 2008, Lo que está en juego en la crisis (HUSSON, 2008), Michel Husson elabora um gráfico sobre o problema da queda das taxas de lucro que fica patente a partir do início dos anos 1970.

Figura 9. Taxa de lucro e taxa de acumulação. Estados Unidos + União Europeia + Japão

O gráfico é rico justamente por apresentar esse aspecto da crise dos 1970 que consiste na queda das taxas de lucro como ponto de inflexão, criando, como se pode ver, uma tesoura (uma tendência econômica em direções opostas) formada pela taxa de lucro e a taxa de acumulação. Sem que se compreenda isso, quer dizer, que se trata de uma das determinações mais estruturais do processo, torna-se difícil compreender o significado dos efeitos concretos que teve o neoliberalismo e seu padrão de acumulação (ou crise de acumulação, poderíamos dizer). Temos, assim, o significado concreto dos governos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher como

personificações do capital e sua necessidade de retomar as taxas de lucro (aprofundando as contradições da acumulação).

Robert Brenner destacou-se na análise da crise atual também por elencar o setor produtivo e a queda de suas taxas de lucros desde os anos de 1970. Todavia, sua análise comporta uma dimensão de competição no cenário internacional. Na opinião desse autor essa queda se relacionava essencialmente com blocos de capital competindo entre si e obrigando a uma taxa de lucratividade menor, tendo como consequência uma diminuição dos salários e uma incapacidade orgânica de responder à demanda. A raiz desse processo está na perspectiva marxista de crise de supercapacidade (overcapacity, nos termos de Brenner). Conforme explica detalhadamente em intercâmbio com Jeong Seong-jin:

O que aconteceu foi que, um após outro, um novo poder industrial ganhou o mercado mundial – Alemanha e Japão, nordeste asiáticos NICs (Newly Industrializing Countries), os tigres asiáticos do sudeste e, finalmente, o leviatã chinês. Essas economias de desenvolvimento tardio produziram os mesmos bens que já eram antes produzidos pelas economias avançadas, no entanto, mais baratos. O resultado foi um excesso de oferta em relação a demanda em uma indústria após a outra, e isso forçou a queda dos preços e, nesse sentido, dos lucros. As corporações que experimentaram o aperto nos seus lucros não deixaram, além disso, lentamente suas industrias. Elas tentaram segurar as plantas ao tentar um retorno a sua capacidade de inovação, acelerando investimentos em novas tecnologias. Mas, por suposto, isso apenas fez piorar a [crise de] supercapacidade (BRENNER, 2009, tradução nossa).

Por um lado, a emergência de potências como Alemanha e Japão que tardaram pelo menos duas ou três décadas para voltar à posição de potências internacionais em vias de afrontar a hegemonia norte-americana; mas uma vez que atingiram esse marco, começaram a rivalizar com a indústria dos Estados Unidos; por outro lado, a reestruturação da divisão internacional do trabalho, em que a busca desenfreada do capital por condições mais favoráveis a fim de aumentar o grau de exploração da força de trabalho em todos os cantos do mundo levou ao desenvolvimento de um parque produtivo de mercadorias cada vez mais baratas, o que não poderia deixar de afetar a indústria nas potências e, por conseguinte, as taxas de lucro.

Por fim, ainda dentro desse tema, mas para abordar uma outra interpretação, que consideramos complementar, Andrew Kliman argumenta que a revolução nas

tecnologias da informação levou a um aumento na depreciação da taxa de lucro devido à obsolescência, que nem sempre é expressa nas estatísticas, mas se tomada como fator importante de análise poderia levar ao entendimento de que a queda nas taxas de lucro é ainda maior. Segundo ele,

isso levou a uma destruição significativa do valor do capital durante as últimas décadas. Uma vez que a destruição do valor do capital é um indicador de fraqueza econômica que, apesar de tudo, aumenta a lucratividade, a fraqueza resultante do progresso técnico tem sido ainda mais significativa do que o declínio na taxa de lucro medida sugeriria. Minhas estimativas indicam que, uma vez que controlamos o aumento da lucratividade resultante da depreciação devido à obsolescência, a queda na taxa de lucro durante as últimas décadas torna-se substancialmente maior e grandes porções dos aumentos na taxa de lucro durante as bolhas dos anos dos 1990 e 2000 são eliminadas (KLIMAN, 2011, p.123, tradução nossa).

Os “anos dourados” de 1950 e 1960 trouxeram, particularmente nos Estados Unidos, uma importante revolução tecnológica e de tecnologias de informação e comunicação, o que foi pouco a pouco aumentando a composição orgânica do capital e influenciando as taxas de lucro. Como se pode ver a partir da análise dos gráficos, estas se mantiveram crescendo nas estatísticas durante os anos neoliberais, evidentemente, devido às medidas de reestruturação produtivas tomadas. Há também que se levar em conta o problema da obsolescência, que seria uma forma de observar